Partido da Revolução Institucionalizada (PRI)

Posted in Poesia with tags , , on 12/05/2013 by caioguilherme

Meu coração parou calado
sentindo em ti a paz da morte
eu estava vivo,
mas transbordava em sorte…
por ter te encontrado
por ter te amado
Amém.

Multidão

Posted in Poesia with tags , , , , on 04/04/2013 by caioguilherme

Todas as vozes

se resumiram

num canto

 

e logo

ele morreu

nos murmúrios do metrô…

Rasgar

Posted in Poesia with tags , , on 02/04/2013 by caioguilherme

Palavras rasgadas

não têm volta

não são versos.

Elas não deixam

Sentimentos

nem momentos.

São pequenas tragédias

Do dia a dia

rua sem saída do cotidiano.

Minha vez

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , , , on 25/02/2012 by caioguilherme

Para cima e avante. Para o alto e além. Super homem e Buzz, voa, voa voadores. Ir ao topo do Mundo e ver a maravilha que é o céu acima da linha de poluição. Desmascarar a realidade usando pedaços de um parque de diversão.

Sol, muito sol. E filas, claro. Muitas filas. As muitas horas no carro e na espera viravam poucas horas de diversão. Tudo por um sonho, um simples sonho que era escalar o topo do mundo, na torre mais alta das redondezas.

O brinquedo metálico subiu e desceu, subiu e desceu. Centenas de pessoas, indo ou esperando. Uma vez, uma chance. Uma única oportunidade para tudo dar certo. Horas, horas, horas. Sol e crianças, sol e crianças na fila. Esperar é foda, já não basta o choro das crianças nos ônibus. Já não basta a espera em filas nos terminais de concreto armado?

Pagar e esperar por um prazer efêmero, eis o resumo de um parque de diversões. Quase a minha vez, mais um grupo e sou eu. Na frente um casal adolescente. Sol, álcool, algodão doce, sol, pouca água, ansiedade, amassos, mais álcool, pipoca, coca-cola, álcool, amassos, espera, mais ansiedade, sol, calor, muito, muito, muito sol. A moça virou para trás e vomitou. Camiseta, bermuda, canela, meias, tênis. Tudo vomitado e fedendo. Coisas que um pedido de desculpa não arruma.

Chance perdida, logo eu, o último. Logo a minha vez. Cheiro de vômito e cachaça, preciso ir ao banheiro dar um jeito. Me afasto, minha vez perdida. Preciso me lavar antes que fique grudento. Os adolescentes riram e a vomitadora foi no brinquedo mesmo assim. Ela na frente, eu era para ser o último.

Uma moça ganha a minha vez. A minha vez. Perdida. Graças ao vômito. Paro para ver, sentir que era eu que poderia estar lá. Brinquedo, cadeiras, travas. Todos sorriem ansiosos. A torre sobe, sobe, sobe, sobe e para.

 

Hora de descer, meu coração gela. Não consigo olhar, não consigo acreditar. Um corpo se liberta da estrutura de metal e é lançado pelo espaço, ao redor do céu. No meu lugar. Nós não fomos feitos para voar. Ela se foi, na minha vez. Congelei e fiquei ali parado, esperando.

Esperando que o pesadelo virasse sonho e que fosse tudo mentira. Mas não. Ela se foi e poderia ter sido a minha vez.

A máquina para, todos param, alguns correm. Eu só fico parado, ajoelhado e chorando.

A máquina para e tudo é triste demais. Em um ônibus qualquer na cidade de São Paulo alguém diz:

“Por culpa dela perdi o meu presente, filha da puta.”

Ajoelhado. Voando. A máquina para e esse é o valor da vida humana. Vou para a França visitar a Torre Eiffel.

Não estamos livres

Posted in Conto with tags , , , , , , on 14/02/2012 by caioguilherme

Eu caminhava com passos vacilantes por causa de uma queda. Não eram tempos fáceis, os antibióticos e os analgésicos se combinavam para me fazer esquecer onde estava e quem era. Uma confusão crônica se apossara de mim e por maior que fosse o meu esforço, eu pouco lembrava das coisas.

Uma vida sem lembranças era como uma prisão dentro da mente. Eu manquitolava pela casa e não me deixavam sair, com medo que  me perdesse para sempre. Mal sabiam eles, que eu já estava profundamente perdido. Um joelho estourado não era nem um pouco fácil. A dispensa do serviço foi fácil de obter, ninguém lá queria lidar comigo.

Ninguém em nenhum lugar queria lidar com nada, com qualquer problema que fosse. Com a Tv eu conhecia o Mundo e o que via era uma multidão exigindo respostas, panacéias mágicas por parte dos arautos do moderno e do melhor. Políticos ofereciam visões cínicas e desejam um Estado que não precisasse de todos esses escravos. Parir, educar, alimentar e direcionar estavam se tornando atividades cada vez mais indigestas e trabalhosas. “É o final dos tempos”, dizia um grandalhão de terno e bravatas em um programa qualquer.

Não reconhecia as minhas coisas como minhas. Elas estavam simplesmente lá, nas gavetas, nos armários, mas eu não as reconhecia. Às vezes procurava coisas que me explicassem onde estava, quem fui e o que fazia. Pouco ou quase nada elas podiam me dizer. Percebo, hoje, que o valor dos objetos não está nos objetos, mas no que achamos lembrar deles

Um dia achei uma máquina velha e poeirenta. Não contei nada para ninguém. Vi as fotos e elas diziam muito pouco. Forcei as barras de minha prisão e escapuli pela janela, o que valeu um inchaço bastante grande no joelho avariado. Corri pelas ruas do bairro, meu medo era ser reconhecido e preso. Levado de volta para casa. Um brinquedo de corda dos habitantes, que se frustravam com meu estado apocalíptico e caótico. Livre, chorei. Pois livre pude perceber o quão estava preso.

Largado em qualquer lugar, fui até uma praça. Olhei e comecei a fotografar tudo o que via. Meus olhos não reconheciam nada, mas talvez os da máquina pudessem me ajudar. Aprendi na Tv que o mundo é captado pela tela, assim, nada mais natural.

Fotografava loucamente em busca de mim mesmo, quando um jornal me chamou a atenção. Esparramado no chão, sem qualquer tipo de nexo e lógica ou notícia que me fosse interessante. Assim mesmo tentei captá-lo de todos os ângulos e lados. Li as manchetes com intensidade e me lembrei.

Voltei para casa para nunca mais esquecer. Não estamos livres.

Atlas

Posted in Conto with tags , , , on 05/02/2012 by caioguilherme

As gotas de suor caíram no chão, uma depois da outra, formando uma pequena poça d´água. Elas brotavam por todos os seus poros, mas só tinham dois caminhos, ambos extremamente irritantes, o primeiro era escorrer até o nariz, formando uma pequena goteira em sua ponta, o outro era escorrer até o queixo, forçando-o a sacudir a cabeça na tentativa de dar um fim no incomodo. Seria bom se ele pudesse usar as mãos, pegar um lenço e secá-las todas, mas não podia nem sonhar em se mexer, em romper com a rotina de milênios. Via-se forçado a fincar as pernas no chão, firmar os músculos doloridos e agüentar o enorme peso que carregava, sem descanso, sem redenção e sem satisfação.

Se alguém perguntasse a Atlas o que ele mais gostaria de fazer na vida, ele diria que era parar por um segundo, se sentir livre de todo aquele peso e relaxar, simplesmente relaxar, nem que fosse uma leve espreguiçada no sofá em um dia de calor, ele diria, com lágrimas nos olhos, que aquilo já era o suficiente. Estava ali há tanto tempo e as coisas se faziam cada vez piores, uns movimentos involuntários e as coisas escapariam ao controle.

Sentiu uma pontada no braço e vacilou um pouco. A Grécia sacudiu, uma grande onda nasceu e destruiu uma meia dúzia de ilhas asiáticas. Milhares de pessoas morreram. Semanas se martirizando, não pode se distrair, não pode fraquejar, tem de continuar firme e forte e segurar o Mundo, mesmo que este esmague seu espírito.

Ele não entendia muito bem o que estava acontecendo, as crianças riam enquanto os colegas ao lado iam sendo chamados pelos colegas da frente. Pouco a pouco cada “líder” ia escolhendo um amigo e pouco a pouco ele ia se sentindo pior.  Os minutos passavam e ao lado dele restaram os fracos: meninos de óculos, meninos ranhentos, meninos gordos, meninos vesgos, meninos gagos e meninos inteligentes demais. O professor não lhes deu muita atenção, mas anunciou que um último time ia ser formado. A turma riu do famoso “Time C”, os mais folgados sorriram com a oportunidade da vitória fácil. A humilhação foi realizada em pequenas doses rápidas, batalhas injustas e cruéis em que os fortes ficavam mais fortes e os fracos mais fracos, o professor lhes deu um medíocre 5 na nota final: “pelo esforço”, disse, “pela insistência ante o fracasso”.

 A hora do recreio ocorreu de forma tensa, não tomou lanche com ninguém, até tentou se enturmar, mas não era uma questão de escolha pessoal, era uma questão de ser escolhido: se ele não foi escolhido era porque tinha algo de errado, era um fracasso. A terra tremeu sob seus pés, seu espírito era esmagado um pouco mais entre lágrimas discretas, ele sofria em um canto escuro do pátio.

As páginas continuariam em branco, esbravejou ao editor enquanto jogava uma xícara de café no chão. Estava cansado de tentar achar o pensamento original. As páginas rasgadas e jogadas no chão eram as provas das lutas travadas nos últimos anos. Nenhuma história, nenhuma trama, nada, nem os personagens eram realmente verdadeiros. A técnica narrativa era um apanhado de letras e vírgulas copiadas e fundidas dos autores do passado. O editor o atormentava, falando que era só uma simples crise, que iria passar e ficaria tudo bem, mas ele sabia que não importava o que escrevesse, não importava a idéia que tivesse, alguém já teria escrito, teria pensado, teria realizado antes.

Os braços clamavam por sangue, os pulmões clamavam por ar enquanto o peso da originalidade perdida o esmagava, enquanto todas as idéias de todos os grandes artistas pesavam cada vez mais e mais e matavam qualquer chance de satisfação em sua vida.

Atlas praguejou e condenou todo o seu passado, não lembrava quais eram, mas desejou desfazer todos os passos dados em sua vida. O Mundo crescia, mais e mais pessoas surgindo, mais casas, mais fazendas, mais animais domésticos, barcos atravessando o planeta e homens ocupando lugares novos, comunidades se diluindo e inúmeros indivíduos surgindo todos os dias, livros, máquinas e idéias pululando por todos os lugares, o peso era demais, era muita coisa para ele sozinho. Indivíduos jogados em uma disputa cruel, sem ligações com as pessoas, grupos formados por lobos solitários, que escolhiam os bandos e os desfaziam quando queriam.

O olhar se confundiu, a vista tremeu um pouco e ele viu a árvore em sua frente, seus frutos dourados lhe davam água na boca, ele queria somente esticar seu braço e pegar uma frutinha só, satisfazer seu desejo e depois voltar ao dever.

Impossibilidade, a visão parou de tremer, um objetivo, morder aquela fruta dourada, sentir o estômago se acalmar e ficar livre do incrível peso do Mundo por, pelo menos, uns segundos. Trocaria a espreguiçada no dia quente, por aquilo: um pouco de satisfação. Pensou em seus irmãos de alma, naqueles que dividiam sua tensão e seu dilema, a criança era jogada na lama por mais um grupo que a rejeitou, o adulto se frustrava com o fato de ser ver obrigado a encarar a sua própria incapacidade de pensar e sentir algo não pensado e não sentido antes.

O peso do Mundo de Atlas, o peso da vida humana, o homem moderno, pós-moderno, avançado, o homem do auge da humanidade, sendo obrigado a reconhecer que não importa o que faça, o que pense, o que diga e o que queira, tudo já foi feito antes e, para ele, é extremamente impossível de se ver satisfeito, feliz e contente, cantando sua felicidade, deixando de perseguir terras santas imaginárias.

A humanidade de uns esmagando a humanidade de outros, coletivo e individual, um Mundo histórico pesando sobre todos, um Mundo Humano e Insatisfeito, Irrealizável e Cruel para que Atlas carregue sozinho.

As pernas se mexeram um pouco, ele ensaiou uns passos enquanto a grande esfera escorregava de suas mãos, os braços desabavam em um gozo de alívio, a esfera caiu lentamente enquanto Atlas caminhava, ele ia pegar a fruta dourada, ele ia ficar satisfeito, mas seu coração parou, sua mente falhou e antes que ele percebesse estava espatifado no chão, morto de cansaço, carregar o Mundo não era fácil.

E, incrivelmente, o Mundo não se destruiu no chão, não caiu a ponto de tocar o solo, recuperou a altura e continuou lá, calmo, girando sem nem perceber a dor do gigante que antes o carregava.

No meio do dia

Posted in Poesia with tags , , , , on 29/01/2012 by caioguilherme

Emerge ao meio do dia

e grita no expediente,

palavra de efeito efervesente,

clamor de uma multidão de pobres almas humanas.

Mundanas e imundas,

que se sentam a mesa

e se sentem como reis num banquete de direitos inexistentes,

no drama indecente do lugar algum.

Utopia na terra…

eis o drama do nunca mais

Jamais.