Algumas considerações sobre o fim de Lost…

 

Depois de 6 anos e não sei quantas centenas de episódios o seriado Lost encontrou o seu fim. Em geral o público e a crítica não gostou do modo como tudo foi encerrado e argumentos como “manipularam a gente para assistir, nos enganaram e desperdiçamos 6 anos de nossas vidas…” têm sido bastante recorrentes, como se o JJ Abrams, Lloyd Braun e Damon Lindelof tivessem assinado um papel dizendo que o seriado seria uma panacéia para todas as dúvidas e males da humanidade e depois tivessem criado um grande esquema de manipulação e obrigado todos a assistirem o seriado, que em seu fim não cumpriu o prometido e deixou todo Mundo na mão, esperando a cura do câncer ou algo assim.

Fico apreensivo quando a massa dos telespectadores recorre a esse tipo de argumento, pois isso demonstra como eles, em sua maioria, recusam sua autonomia no que vão assistir, tendem a imputar a terceiros a responsabilidade pelo bom ou mau uso de seu tempo e acabam esperando algo demais de uma obra que em primeiro lugar tinha como objetivo entreter, não sendo feita para educar ou oferecer soluções para os problemas da humanidade. Quanto a  crítica, esta ao embarcar no bonde geral dos telespectadores demonstra o como ela tem dificuldade de compreender as estratégicas básicas dos folhetins do século XIX, coisa que influenciou bastante o modo como o seriado era conduzido (como a solução de um conflito de um episódio só no seguinte e etc…), e também de medir quais eram os objetivos e parâmetros pelos quais os autores de algo se guiaram.

Pelos motivos acima, eu não concordo muito com a maior parte das críticas feitas e pretendo, na medida do possível, rebatê-las fazendo algumas considerações sobre o seriado Lost e as raízes, tradições e pretensões com que este dialoga.

Em primeiro lugar é importante perceber que Lost é uma peça de ficção, com forte diálogo com a tradição literária e que nunca pretendeu ater-se ao campo da razão, do crível e do possível. Além disso é um produto da Industria Cultural, que tem como objetivo principal ganhar dinheiro com entretenimento, e devido a sua grande qualidade ultrapassou as fronteiras e limites dessa sua condição inicial, tornado-se – sem exagero – uma obra de arte, uma narrativa épica como a Ilíada e a Odisséia. O que quero dizer com isso?

Simples, quero dizer que Lost é uma narrativa de algo que não aconteceu no Mundo real e histórico, que bebe em diferentes tradições ficcionais e narrativas e que não pretende ser um retrato social, político, científico ou econômico de uma época, ou seja, não é uma obra com os objetivos de um livro do Realismo, por exemplo. Durante seu desenvolvimento, o seriado dedica-se a discutir aspectos Universais da condição humana e faz isso frente a acontecimentos fora do comum, com elementos de sobrenatural e divino, sem se preocupar com a verossimilhança com a realidade e com um tempo específico, sendo, então, algo como um mito.

Essa percepção é essencial para poder embarcar na viagem que os autores propuseram, mesmo sem ter plena noção do que estavam fazendo e tendo de corresponder em alguma medida às necessidades comerciais do empreendimento, e assim poder apreciá-la, entendê-a e critica-la.

Oferecer mistérios e não solucionar conflitos em um episódio e só resolvê-los nos seguintes é uma característica muito comum aos folhetins do século XIX, onde era preciso criar algo que fizesse o leitor comprar o jornal do dia ou da semana posterior. Lost em meio a sua narrativa épica, onde fé e razão, relações humanas, livre arbítrio, noções de tempo, ciência e espiritualidade são discutidas, oferece uma porção de mistérios, que servem para atrair espectadores. Nesses 6 anos os mistérios foram surgindo por forma de camadas, onde a “resolução” de uma coisa, gerava ainda mais dúvidas e essas novas dúvidas traziam novos problemas, que possuíam novas respostas, que, por sua vez, traziam novas questões.

No século XIX, Edgar Alan Poe traçou as linhas que serviriam de guia para os Contos e Romances Policiais. Nestes, um detetive é apresentado aos vestígios (evidências) de um acontecimento e através destes o reconstituí, oferecendo respostas do tipo como, onde, quem e o porquê. Livros como os do Sherlock Holmes e seriados da franquia CSI fazem parte dessa tradição. O espectador ou leitor acompanha o detetive e observa as mesmas evidências que ele, tendo a ilusão da chance de resolver o enigma, e no final recebe uma explicação de quais e como essas evidências permitiram responder as perguntas básicas que expus acima. Geralmente um seriado como CSI irá fazer isso através de um diálogo entre o detetive e uma outra pessoa, onde um flashback irá recordar tudo o que foi visto e o detetive vai explicar como ele ligou uma coisa com outra, sem deixar espaços para dúvidas. Essa explicação tende sempre a fugir um pouco da visão do espectador, que até conseguirá descobrir quem matou e coisas desse tipo, mas nunca terá um insight como o do detetive. É só pensar em no House e no como ele sempre tem uma noção, uma intuição e um conhecimento absurdamente superior ao dos seus assistentes.

Lost não compartilha dessa mesma tradição do Conto/Romance Policial do século XIX e de Alan Poe. Os mistérios são apresentados sem vestígios ou evidências e suas soluções são apresentadas dentro da própria narrativa, dentro dos detalhes e daquelas coisas que parecem pouco importantes. No Romance Policial o jogo é fazer uma reconstituição enquanto que na tradição da qual Lost faz parte o essencial é prestar atenção e interpretar, olhar o detalhe, perceber, interpretar, discutir com amigos e entender. O Jack e o Locke, por exemplo, não estão na ilha para descobrir quem é o monstro, o que foi a Iniciativa Dharma e quem é o Jacob, estão lá vivendo conflitos de sobrevivência, de fuga ou permanência na ilha e essas são suas questões. O Jack só quer ir embora e para o personagem dane-se a Iniciativa Dharma, a dúvida e apreensão sobre ela atinge o personagem, mas não se torna seu mote, ele não está lá como um detetive, para responder essa questão, ele está lá querendo ir embora e nessa jornada acaba lidando com coisas que permitem ao leitor interpretar e entender o que esta era, sem o personagem precisar dizer: “Isso aqui era por causa de X, que se relacionava com Z e pronto, é isso e é elementar, meu caro Watson”.

Talvez a coisa mais sensacional do seriado seja exatamente isto, não oferecer respostas prontas e dá-las de bandeja ao telespectador. Seu caráter de narrativa épica torna Lost uma peça de ficção sobre o homem e suas questões Universais, fazendo encarar seus dilemas elementares ao lidar com as situações mais inusitadas, no caso viagens no tempo, uma ilha misteriosa e um conflito entre dois irmãos que a muito não são humanos. Pensando em outros épicos, a gente vê que os temas também sãos os Universais, amor, ciúme, saudades, etc, onde personagens como um Ulisses tem de lidar com um Poseidon vingativo e cruel, que não quer que ele volte para casa, ou um Heitor tem de defender seu irmão e cidade, lutando com um sujeito como o Aquiles, cujas chamas dos deuses tornaram indestrutível.  O bacana é que apesar do quão absurdo algumas coisas se tornaram em Lost, essa discussão sobre o básico do homem não se perdeu em momento algum.

É claro que essas considerações não dão conta de coisas esdrúxulas, como a criação de triângulos e quartetos amorosos, muito para satisfazer a audiência, ou alguns erros de produção e roteiro, como no caso do Walt, mas servem para perceber que as exigências feitas ao seriado de forma alguma são condizentes com as próprias pretensões deste. Críticas falando em mistérios não resolvidos e em manipulação ou desperdício da vida de quem assistiu, não cabem, pois Lost cumpriu seu objetivo primeiro, que era oferecer um passatempo/entretenimento para as pessoas que isso buscavam na frente da Tv. Sim, a emissora, atores, produtores e etc ganharam rios de dinheiro, mas os programas da Tv comercial exigem isso, atrair audiência para vender mais e mais caro suas cotas de marketing, o que, a principio, não lesa ninguém, até porque todos temos autonomia de buscar aquilo que nos diverte e como passar nosso tempo, sem que essa escolha diga respeito ou seja culpa de alguém. Talvez seja hora, do telespectador refletir sobre o que faz da sua vida e de seu tempo livre, ao invés de culpar profissionais que tentam ganhar a sua. E também buscar estímulos para a sua própria inteligência e reflexão sobre a vida sem se limitar a tudo aquilo que é óbvio ou enlatado.

Pensando o seriado pelos parâmetros pelos quais os autores tentaram levá-lo, só resta dar os parabéns e deixar para comentar o último episódio especificamente numa próxima ocasião.

 

Abraços,

 

Caio

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2 Respostas to “Algumas considerações sobre o fim de Lost…”

  1. É verdade, puta argumento mong. O cara se diverte por 6 anos, e aí não gosta do final e fica chorando, achando que perdeu tempo. O final ruim aparentemente age retroativamente e destrói os bons momentos já usufruidos! Fala sério!

  2. Patrick Says:

    Muito bom seu texto. Concordo com tudo que voce falou, especialmente com as ideias da natureza do ser humano, sua busca pela sobrevivencia, e saindo um pouco do contexto da serie, tambem dos telespectadores que reclamam de tudo, e muitos sequer entenderam o final de uma serie que desde o 1o capitulo tratou de algo que todos buscamos: redençao.

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