Considerações sobre o Final de Lost II

Depois dessas considerações sobre o seriado em si e a tradição literária de onde ele vem e dialoga resta pensar um pouco sobre essa temporada e o final de Lost, exibido dia 25 de maio no AXN. O objetivo, como ficou bem perceptível no texto anterior, não é mastigar e “dar” as respostas que dizem que Lost não deu.

Basicamente, a Ilha é um pedaço de terra relativamente pequeno e cercado pelo mar em todos os lados. Se fosse cercado só em 3 lados e fosse ligada por um faixa estreita com um pedaço de terra a ilha seria uma península, tipo Portugal e Itália…brincadeiras a parte, ao pensar na Ilha e em suas propriedades estranhas a gente tem que fazer o paralelo com o próprio planeta Terra. De onde veio o primeiro habitante? Se ele existe, alguém o criou. Se alguém o criou, quem foi? Se foi algo que chamam de Deus e ele existe, necessariamente alguém o criou. E quem foi que criou Deus? Um Deus acima de Deus? E quem criou esse Deus acima do Deus que criou o homem e o pôs na Terra? Isso é o que teólogos e físicos chamam de regressão infinita. Quando os telespectadores começam a se perguntar, quem criou e quem era a moça que cuidou do Jacob e do irmão, acabam caindo nessa mesma armadilha. Quem foi que colocou aquela mulher lá? E quem foi que permitiu/criou o sujeito que foi lá na Ilha e colocou a mulher que deu lugar ao Jacob? Como ela mesmo disse no episódio Across the Sea, uma resposta para esse tipo de pergunta, gerará mais duas.

Entre os historiadores algo que é bastante comum é evitar esse tipo de pergunta e especulação e se concentrar no que é perceptível ou dado, como, por exemplo: Os portugueses sabiam ou não da existência do Brasil antes de 1500? Se sabiam, quem foi que descobriu? Será que foi mesmo Cabral? Cabral sabia que existia algo lá? Quem contou para ele? Tais questões não podem ser respondidas pelas evidências existentes nas fontes históricas conhecidas, mas a partir da constatação de que em 1500 eles oficializam uma posição e passaram a ocupar o “Brasil” é possível questionar sobre os interesses, as ações, os desenvolvimentos e as relações deles com a terra descoberta. O importante no Mundo não é pura e simplesmente perguntar, o pulo do gato está em saber fazer a pergunta.

Feita essa pequena digressão sobre as perguntas é possível pensar melhor sobre a Ilha. O lance não é ficar pensando em criou o quê e quando, se não existem elementos que permitem refletir sobre isso. O seriado dá o seguinte: a Ilha existe, não faz parte do espaço-tempo normal e possui uma estranha energia em seu núcleo, que é defendida por uma pessoa possuidora de algo especial, contra qualquer ser que tente ameaçá-la. Logo vem a mente o Triângulo das Bermudas e suas estranhas manifestações magnéticas. Em um lado mais bizarro pode-se até dizer que foi um meteoro que caiu lá e emana uma energia especial, ou que Moisés enterrou a pedra dos 10 mandamentos lá, ou que a lança que matou Jesus está enterrada por ali, ou que Aliens pousaram sua nave lá e deixaram uma criatura feita da mistura de seu DNA com o DNA de um macaco, cuidando do lugar. O barato do seriado, como perceberam os mais espertos, é o múltiplo viés de interpretação que ele permite para várias coisas. Os acadêmicos que estudam literatura nos últimos anos perceberam que um texto rico, de qualidade, por exemplo, não possui só a leitura que seu autor imaginou, ele dá espaço para diferentes leituras de diferentes leitores, já que cada um desses possui bagagens diferentes entre si e diferentes do autor. É óbvio, que o que está escrito está escrito e traça os parâmetros básicos da interpretação, mas dentro desses limites existe uma infinidade de coisas, como existe entre o número 0 e 1.

A Ilha possuidora dessa energia estranha navega como que aleatoriamente pelo planeta Terra. Uma hora ou outra alguém desde um desavisado mercador fenício até um piloto de avião fazendo uma volta ao Mundo acaba dando de encontro com ela e caindo por lá. Eis ai a explicação de uma primeira ocupação da Ilha. Num momento pós Jacob, já foi deixado bem claro que ele usa de suas atribuições especiais para atrair pessoas até lá para tentar mostrar a possibilidade de bondade humana para o monstro de fumaça e, com alguma sorte, encontrar uma pessoa que lhe substitua. Ele não é infalível ou onisciente, mas é detentor da possibilidade de fazer as regras dentro da Ilha, já que é o dono do jogo, e possui um bom conhecimento proveniente de anos e anos de observação e de uma vida sem Tv.

Os outros e a Iniciativa Dharma lá viveram por vontade desse tal de Jacob. Uns foram trazidos por ele, outros descobriram como chegar lá, com um empurrão dele. Os outros tentam, por sua vez, levar uma vida bacana, calma e tranqüila, pautando-se pelas escolhas certas e não pelo que o monstro de fumaça diz, o seriado demonstrou várias vezes que eles na maior parte do tempo não conseguiram. Os malucos da Dharma buscavam pelo conhecimento, pela manipulação de energias de enormes potencialidades e aplicações. Sua ação termina quando, influenciados pelo monstro de fumaça, os outros resolvem exterminá-los de vez.

O irmão de Jacob vira o monstro de fumaça ao ser jogado, morto ou inconsciente, dentro da gruta onde a energia que move a Ilha se faz mais perceptível. Em Across the Sea, a mãe do Jacob explica que aquela Luz é a mesma coisa que está dentro de todas as pessoas. Filosoficamente isso se liga com a idéia de que dentro de todos os seres humanos existem em igual quantidade potencial para o bem e para o mal, bondade e maldade, que cresce ou diminui na relação com o Mundo e a partir das nossas escolhas. Quando Jacob joga o irmão dele dentro da Luz, o potencial para o mal é liberto, torna-se consciente e capaz de interagir, apesar de estar preso as regras impostas pelo guardião da Ilha. A partir desse momento, a Ilha deixa de ser só um lugar que se move aleatoriamente no planeta, para ser a prisão para a maldade que antes existia presa no centro do ser humano com a luz. O responsável por libertá-la dessa condição primeira, torna-se o responsável por impedir que essa criatura com poderes e cheia de maldade e descrença em relação ao ser humano se liberte e possa existir sem as regras que lhe são impostas na Ilha. Como ser inteligente e consciente que é, a nuvem de fumaça/irmão do Jacob traça planos para eliminá-lo e o Jacob sabe que ela é muito mais esperta do que ele, tomando como missão paralela achar seu substituto.

Os outros e a Iniciativa Dharma lutam entre si e os outros atacam aqueles que vieram no avião e etc, por influencia negativa do monstro, pela influencia e regras do Jacob e porque o conflito faz parte da natureza humana.

Toda essa “mitologia” dá série, explicada na sexta temporada dá conta das visões que alguns personagens tem, da aparição de pessoas que morreram (fumaça preta), da cura do Locke, da Rose, dos poderes especiais do Desmond e de um monte de situações estranhas, como a escotilha e os ursos polares.

Continua em um próximo texto.

Abraços

Caio

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