Na cidade fria

A chuva cinza congelava seus ossos e ele fazia um esforço enorme para não tremer em público. Seu nariz estava vermelho, mas o frio intenso impedia que ele escorresse, era como se o catarro estivesse congelado. Na verdade, fazia alguns dias que só respirava pela boca, o que era bastante desagradável. Sorte que não tinha nem oportunidade de pensar em dormir, assim não incomodava ninguém com roncos ou algo parecido.

Tentou mexer os dedos, mas estes estavam congelados dentro das luvas de material vagabundo. o mesmo e caro e superfaturado material que deu origem ao chapéu, às meias, à camisa, às calças, ao mijão, às cuecas e ao casaco grosso e inútil que usava. Todos estavam vagabundamente vestidos com o mesmo material. Alguém deveria lucrar muito com a desgraça e a miséria alheia. Todos ali, sob chuva e frio, morrendo pouco a pouco porque alguém quera ganhar uns trocados a mais, dentro dos muito trocados que já ganhava.

Ganhar, palavra que eles ouviam bastante, mas pouco conseguiam compreender. Em meio a sopa rala e ao pão mofado só conseguiam perceber, instintivamente, o signifcado do verbo perder. Ele e seus homens perdiam dias, perdiam horas e perdiam a vida, tudo em troca de nada, do ganho de um outro que já tinha tanto.

 

Um apito sombrio gritou e as portas do inferno se abriram. Ele e os seus marchavam sem realmente querer. Do frio da rua para o calor das caldeiras, das soldas e dos metais. Algo derretia internamente, cozendo-o por dentro, pouco a pouco. A roupa vagabunda esquentava como um forno lá dentro, para esfriar como uma geladeira lá fora. Sangue, suor, mas lágrimas jamais. Trabalhou e naquele dia não comeu.

Como um zumbi foi arrastado por uma horda sem vontade e entrou no ônibus. Entalados todos indo para o mesmo lugar. Do inferno para a ausência. Era como se levitasse entre os milhares de corpos que tanto se esbarravam todos os dias. Entre o frio dos dias, o calor do trabalho e a indiferença da rotina. Desceu do ônibus e engoliu um pouco de álcool.

A visão se tornou mais clara e esclarecida. José foi até sua casa e dotado de uma vontade única pegou sua velha espingarda. Limpou-a, carregou-a. Saiu nas ruas e seus vizinhos, seus colegas de trabalho e seus amigos do bar estavam lá, todos eles também com suas velhas espingardas, limpas e carregadas. No frio uma só vontade única e indivísivel. Marcharam em dezenas, em centenas e em milhares. Todos em direção ao centro, atropelando casas, fábricas, hospitais e prédios do governo.

Os dias de José nunca mais foram os mesmos.

 

13/01/2011

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4 Respostas to “Na cidade fria”

  1. Fiquei contente por você ter voltado a escrever.

    Você já leu Um conto de duas cidades, do Charles Dickens? É ótimo. Tem uns clichezões, umas partes e desfechos forçados, é romantismo, mas tem umas descrições de cenas da Revolução que, meu amigo, são de estarrecer.

    Um abraço.

    • caioguilherme Says:

      Ano novo, vontade nova. Enquanto tempo houver vou tentar escrever…

      Nunca cheguei a ler, a História não permite, mas conheço o começo “Foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos…” Melhor começo de texto que a humanidade já bolou. Do Dickens li, obviamente, o Conto de Natal e li o Grandes Esperanças. Tem uma obra completa em inglês na Fnac, mas vou esperar abaixar o preço.

      Abraços!

  2. Fala Charles!! Excelente texto! Como sempre em forma. Fico feliz que tenha voltado a postar os contos. Grande abraço, mestre!
    Perazzinha

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