Triângulo das Bermudas

A cabeça parecia descolada do corpo enquanto a mão esquerda parecia colada até demais. O braço esquerdo – e toda a sua extensão – formigava e parecia ter dormido debaixo de um navio baleeiro cheio de óleo de cachalotes.  Formigamento era a palavra de ordem no seu corpo, pois assim que juntou forças para abrir os olhos, a cabeça se rejuntou ao pescoço e passou a formigar na mesma sintonia do braço esquerdo. Logo, todo o corpo estava formigando. Possivelmente, ele pensou, fora atropelado por uma manada de elefantes que se esqueceram de avisá-lo do fato e de deixar o número de suas respectivas placas.
Até os olhos, ao se abrirem lentamente, formigaram. Podendo enxergar percebeu que o surpreendente calor e abafamento eram os rotineiros calor e abafamento de seu próprio quarto multiplicados por 100 e transformados numa grande surpresa por uma ressaca causada por algo que não conseguia se lembrar de ter tomado. Ficou preocupado com os velhos ditados sobre bebedeira, mas a ausência de um tipo muito específico e pouco desejado de dor trouxe-lhe alguma tranqüilidade. “Nem sempre a falta é inimiga da perfeição”, pensou todo orgulhoso da sua capacidade de dizer e pensar coisas bonitas. A egotrip combinada com a continuidade da virgindade anal lhe animou um pouco e quase sem esforço conseguiu se arrastar vexatoriamente para o chuveiro. Esticou uma mão trêmula e desligou a resistência, tinha certeza de que a água fria era o único remédio para os seus males.
Como óleo fervente uma água teoricamente fria começou a ser despejada em seu corpo, deveria ser tarde e o sol deveria estar caprichando na tarefa de esquentar água naturalmente. Os sentidos tinham perdido qualquer significado dentro de toda aquela fumaceira e ele logo terminou seu pseudo banho. Enxugou-se numa toalha encardida, voou para o quarto e se vestiu com roupas leves.
– Assim é bem melhor, não é mesmo?
Assustado ele se virou e percebeu que durante todo aquele tempo tinha visitas. E, o pior, além de vê-lo de ressaca, depois tomando banho e se vestindo, a visita não era um ser humano. Um enorme leão de pé em duas pastas fumava um charuto enquanto ajeitava seu paletó e sua gravata e sorria para seu anfitrião.
– A vida é assim mesmo. Enquanto uns tão de bermudão e camiseta de algodão, outros ficam presos em ternos de lã. E como agravante, ao menos no meu caso, são peludos pra cacete.
Dentro das circunstâncias não encontrou palavras para responder e coçou a cabeça, um pouco confuso. Será que os amigos haviam lhe inscrito em alguma pegadinha do Silvio Santos? Se fosse o caso, o Liminha estava muito bem fantasiado. Pensou em gritar e se fazer de assustado, nem por medo e nem por pavor, mas por respeito mesmo, que um trabalho de produção daqueles não podia ser menosprezado e tratado como algo normal do dia a dia, com indiferença e preguiça. Absorto nessa reflexão sobre respeito e amor ao próximo nem conseguiu se perceber apontando para uma placa ao lado do espelho e dizendo:
– Nessa casa não se fuma.
O leão, tão surpreso quanto ele mesmo estava com o que havia dito, apagou o charuto com a língua e com certo despeito disse:
– Se está escrito, não precisa ler. Já fui alfabetizado.
Definitivamente não era pegadinha do Silvio Santos. E nem o Tiririca em algum novo quadro do Show do Tom. Nesse momento percebeu que a vida era daquele jeito mesmo, cheia de revelações bombásticas que uma pessoa não pode ir dormir sem saber. Tinha um leão fumante, inadequadamente vestido e meio rude no seu quarto. De novo, se pegou dizendo algo sem a devida ponderação:
– Nessa casa não se usa ternos. – Disse isso com certa raiva e apontou para uma placa ao lado daquela que estava ao lado do espelho. E Depois completou – Sinceramente, eu não leria as placas se o senhor se desse ao trabalho de respeitá-las.
O leão ficou visivelmente nervoso, mas contou até dez e foi ao banheiro. Voltou vestido de maneira mais casual e guardou o terno, a gravata e o charuto numa mochila. Desta retirou um chapéu panamá, uma garrafa de uísque, um copo e alguns cubinhos de gelo. O rei das selvas preparou seu drink e bebeu bastante satisfeito.
Ele, o dono da casa, perante a incrível cena que presenciava disse- dessa vez com bastante certeza daquilo que estava dizendo:
– Nessa casa não se bebe álcool. – E apontou para outra placa do lado daquela placa do lado da placa que estava do lado do inofensivo e, sem nenhuma proibição, espelho.
O leão, decidido a não mais ouvir proibições retrucou:
– Hipócrita, na frente de todo Mundo você fuma, usa terno e bebe todas. Agora, em sua casa, quer dar de santinho para cima de mim?
Vermelho ele pegou o leão pelo braço e saiu do quarto. A dupla parou na sala e ele abriu a porta, indicando a saída. Nessa posição disse:
– Oras, são assim que as coisas são.
O leão ficou visivelmente triste e disse:
– Mas eu sou um amigo que veio te visitar. Você vai mesmo me expulsar?
Ele não se demonstrou abalado, pegou a mochila do leão e a jogou para a fora. O leão lentamente se dirigiu para a saída, parando na soleira da porta, encarando-o com uma tristeza de dar dó e pedindo, com o silêncio que só traduz mensagens pelo olhar, desculpas por ter taxado o dono da casa de hipócrita.
Seu quase ex anfitrião continuou sem se abalar e disse, enquanto fechava a porta de casa:
– Saia por ai e espalhe a notícia: há um novo xerife na cidade.

FIM.
29/01/2011

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