Archive for the Conto Category

Minha vez

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , , , on 25/02/2012 by caioguilherme

Para cima e avante. Para o alto e além. Super homem e Buzz, voa, voa voadores. Ir ao topo do Mundo e ver a maravilha que é o céu acima da linha de poluição. Desmascarar a realidade usando pedaços de um parque de diversão.

Sol, muito sol. E filas, claro. Muitas filas. As muitas horas no carro e na espera viravam poucas horas de diversão. Tudo por um sonho, um simples sonho que era escalar o topo do mundo, na torre mais alta das redondezas.

O brinquedo metálico subiu e desceu, subiu e desceu. Centenas de pessoas, indo ou esperando. Uma vez, uma chance. Uma única oportunidade para tudo dar certo. Horas, horas, horas. Sol e crianças, sol e crianças na fila. Esperar é foda, já não basta o choro das crianças nos ônibus. Já não basta a espera em filas nos terminais de concreto armado?

Pagar e esperar por um prazer efêmero, eis o resumo de um parque de diversões. Quase a minha vez, mais um grupo e sou eu. Na frente um casal adolescente. Sol, álcool, algodão doce, sol, pouca água, ansiedade, amassos, mais álcool, pipoca, coca-cola, álcool, amassos, espera, mais ansiedade, sol, calor, muito, muito, muito sol. A moça virou para trás e vomitou. Camiseta, bermuda, canela, meias, tênis. Tudo vomitado e fedendo. Coisas que um pedido de desculpa não arruma.

Chance perdida, logo eu, o último. Logo a minha vez. Cheiro de vômito e cachaça, preciso ir ao banheiro dar um jeito. Me afasto, minha vez perdida. Preciso me lavar antes que fique grudento. Os adolescentes riram e a vomitadora foi no brinquedo mesmo assim. Ela na frente, eu era para ser o último.

Uma moça ganha a minha vez. A minha vez. Perdida. Graças ao vômito. Paro para ver, sentir que era eu que poderia estar lá. Brinquedo, cadeiras, travas. Todos sorriem ansiosos. A torre sobe, sobe, sobe, sobe e para.

 

Hora de descer, meu coração gela. Não consigo olhar, não consigo acreditar. Um corpo se liberta da estrutura de metal e é lançado pelo espaço, ao redor do céu. No meu lugar. Nós não fomos feitos para voar. Ela se foi, na minha vez. Congelei e fiquei ali parado, esperando.

Esperando que o pesadelo virasse sonho e que fosse tudo mentira. Mas não. Ela se foi e poderia ter sido a minha vez.

A máquina para, todos param, alguns correm. Eu só fico parado, ajoelhado e chorando.

A máquina para e tudo é triste demais. Em um ônibus qualquer na cidade de São Paulo alguém diz:

“Por culpa dela perdi o meu presente, filha da puta.”

Ajoelhado. Voando. A máquina para e esse é o valor da vida humana. Vou para a França visitar a Torre Eiffel.

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Não estamos livres

Posted in Conto with tags , , , , , , on 14/02/2012 by caioguilherme

Eu caminhava com passos vacilantes por causa de uma queda. Não eram tempos fáceis, os antibióticos e os analgésicos se combinavam para me fazer esquecer onde estava e quem era. Uma confusão crônica se apossara de mim e por maior que fosse o meu esforço, eu pouco lembrava das coisas.

Uma vida sem lembranças era como uma prisão dentro da mente. Eu manquitolava pela casa e não me deixavam sair, com medo que  me perdesse para sempre. Mal sabiam eles, que eu já estava profundamente perdido. Um joelho estourado não era nem um pouco fácil. A dispensa do serviço foi fácil de obter, ninguém lá queria lidar comigo.

Ninguém em nenhum lugar queria lidar com nada, com qualquer problema que fosse. Com a Tv eu conhecia o Mundo e o que via era uma multidão exigindo respostas, panacéias mágicas por parte dos arautos do moderno e do melhor. Políticos ofereciam visões cínicas e desejam um Estado que não precisasse de todos esses escravos. Parir, educar, alimentar e direcionar estavam se tornando atividades cada vez mais indigestas e trabalhosas. “É o final dos tempos”, dizia um grandalhão de terno e bravatas em um programa qualquer.

Não reconhecia as minhas coisas como minhas. Elas estavam simplesmente lá, nas gavetas, nos armários, mas eu não as reconhecia. Às vezes procurava coisas que me explicassem onde estava, quem fui e o que fazia. Pouco ou quase nada elas podiam me dizer. Percebo, hoje, que o valor dos objetos não está nos objetos, mas no que achamos lembrar deles

Um dia achei uma máquina velha e poeirenta. Não contei nada para ninguém. Vi as fotos e elas diziam muito pouco. Forcei as barras de minha prisão e escapuli pela janela, o que valeu um inchaço bastante grande no joelho avariado. Corri pelas ruas do bairro, meu medo era ser reconhecido e preso. Levado de volta para casa. Um brinquedo de corda dos habitantes, que se frustravam com meu estado apocalíptico e caótico. Livre, chorei. Pois livre pude perceber o quão estava preso.

Largado em qualquer lugar, fui até uma praça. Olhei e comecei a fotografar tudo o que via. Meus olhos não reconheciam nada, mas talvez os da máquina pudessem me ajudar. Aprendi na Tv que o mundo é captado pela tela, assim, nada mais natural.

Fotografava loucamente em busca de mim mesmo, quando um jornal me chamou a atenção. Esparramado no chão, sem qualquer tipo de nexo e lógica ou notícia que me fosse interessante. Assim mesmo tentei captá-lo de todos os ângulos e lados. Li as manchetes com intensidade e me lembrei.

Voltei para casa para nunca mais esquecer. Não estamos livres.

Atlas

Posted in Conto with tags , , , on 05/02/2012 by caioguilherme

As gotas de suor caíram no chão, uma depois da outra, formando uma pequena poça d´água. Elas brotavam por todos os seus poros, mas só tinham dois caminhos, ambos extremamente irritantes, o primeiro era escorrer até o nariz, formando uma pequena goteira em sua ponta, o outro era escorrer até o queixo, forçando-o a sacudir a cabeça na tentativa de dar um fim no incomodo. Seria bom se ele pudesse usar as mãos, pegar um lenço e secá-las todas, mas não podia nem sonhar em se mexer, em romper com a rotina de milênios. Via-se forçado a fincar as pernas no chão, firmar os músculos doloridos e agüentar o enorme peso que carregava, sem descanso, sem redenção e sem satisfação.

Se alguém perguntasse a Atlas o que ele mais gostaria de fazer na vida, ele diria que era parar por um segundo, se sentir livre de todo aquele peso e relaxar, simplesmente relaxar, nem que fosse uma leve espreguiçada no sofá em um dia de calor, ele diria, com lágrimas nos olhos, que aquilo já era o suficiente. Estava ali há tanto tempo e as coisas se faziam cada vez piores, uns movimentos involuntários e as coisas escapariam ao controle.

Sentiu uma pontada no braço e vacilou um pouco. A Grécia sacudiu, uma grande onda nasceu e destruiu uma meia dúzia de ilhas asiáticas. Milhares de pessoas morreram. Semanas se martirizando, não pode se distrair, não pode fraquejar, tem de continuar firme e forte e segurar o Mundo, mesmo que este esmague seu espírito.

Ele não entendia muito bem o que estava acontecendo, as crianças riam enquanto os colegas ao lado iam sendo chamados pelos colegas da frente. Pouco a pouco cada “líder” ia escolhendo um amigo e pouco a pouco ele ia se sentindo pior.  Os minutos passavam e ao lado dele restaram os fracos: meninos de óculos, meninos ranhentos, meninos gordos, meninos vesgos, meninos gagos e meninos inteligentes demais. O professor não lhes deu muita atenção, mas anunciou que um último time ia ser formado. A turma riu do famoso “Time C”, os mais folgados sorriram com a oportunidade da vitória fácil. A humilhação foi realizada em pequenas doses rápidas, batalhas injustas e cruéis em que os fortes ficavam mais fortes e os fracos mais fracos, o professor lhes deu um medíocre 5 na nota final: “pelo esforço”, disse, “pela insistência ante o fracasso”.

 A hora do recreio ocorreu de forma tensa, não tomou lanche com ninguém, até tentou se enturmar, mas não era uma questão de escolha pessoal, era uma questão de ser escolhido: se ele não foi escolhido era porque tinha algo de errado, era um fracasso. A terra tremeu sob seus pés, seu espírito era esmagado um pouco mais entre lágrimas discretas, ele sofria em um canto escuro do pátio.

As páginas continuariam em branco, esbravejou ao editor enquanto jogava uma xícara de café no chão. Estava cansado de tentar achar o pensamento original. As páginas rasgadas e jogadas no chão eram as provas das lutas travadas nos últimos anos. Nenhuma história, nenhuma trama, nada, nem os personagens eram realmente verdadeiros. A técnica narrativa era um apanhado de letras e vírgulas copiadas e fundidas dos autores do passado. O editor o atormentava, falando que era só uma simples crise, que iria passar e ficaria tudo bem, mas ele sabia que não importava o que escrevesse, não importava a idéia que tivesse, alguém já teria escrito, teria pensado, teria realizado antes.

Os braços clamavam por sangue, os pulmões clamavam por ar enquanto o peso da originalidade perdida o esmagava, enquanto todas as idéias de todos os grandes artistas pesavam cada vez mais e mais e matavam qualquer chance de satisfação em sua vida.

Atlas praguejou e condenou todo o seu passado, não lembrava quais eram, mas desejou desfazer todos os passos dados em sua vida. O Mundo crescia, mais e mais pessoas surgindo, mais casas, mais fazendas, mais animais domésticos, barcos atravessando o planeta e homens ocupando lugares novos, comunidades se diluindo e inúmeros indivíduos surgindo todos os dias, livros, máquinas e idéias pululando por todos os lugares, o peso era demais, era muita coisa para ele sozinho. Indivíduos jogados em uma disputa cruel, sem ligações com as pessoas, grupos formados por lobos solitários, que escolhiam os bandos e os desfaziam quando queriam.

O olhar se confundiu, a vista tremeu um pouco e ele viu a árvore em sua frente, seus frutos dourados lhe davam água na boca, ele queria somente esticar seu braço e pegar uma frutinha só, satisfazer seu desejo e depois voltar ao dever.

Impossibilidade, a visão parou de tremer, um objetivo, morder aquela fruta dourada, sentir o estômago se acalmar e ficar livre do incrível peso do Mundo por, pelo menos, uns segundos. Trocaria a espreguiçada no dia quente, por aquilo: um pouco de satisfação. Pensou em seus irmãos de alma, naqueles que dividiam sua tensão e seu dilema, a criança era jogada na lama por mais um grupo que a rejeitou, o adulto se frustrava com o fato de ser ver obrigado a encarar a sua própria incapacidade de pensar e sentir algo não pensado e não sentido antes.

O peso do Mundo de Atlas, o peso da vida humana, o homem moderno, pós-moderno, avançado, o homem do auge da humanidade, sendo obrigado a reconhecer que não importa o que faça, o que pense, o que diga e o que queira, tudo já foi feito antes e, para ele, é extremamente impossível de se ver satisfeito, feliz e contente, cantando sua felicidade, deixando de perseguir terras santas imaginárias.

A humanidade de uns esmagando a humanidade de outros, coletivo e individual, um Mundo histórico pesando sobre todos, um Mundo Humano e Insatisfeito, Irrealizável e Cruel para que Atlas carregue sozinho.

As pernas se mexeram um pouco, ele ensaiou uns passos enquanto a grande esfera escorregava de suas mãos, os braços desabavam em um gozo de alívio, a esfera caiu lentamente enquanto Atlas caminhava, ele ia pegar a fruta dourada, ele ia ficar satisfeito, mas seu coração parou, sua mente falhou e antes que ele percebesse estava espatifado no chão, morto de cansaço, carregar o Mundo não era fácil.

E, incrivelmente, o Mundo não se destruiu no chão, não caiu a ponto de tocar o solo, recuperou a altura e continuou lá, calmo, girando sem nem perceber a dor do gigante que antes o carregava.

Cenas do intervalo

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , on 25/01/2012 by caioguilherme

 

P. tomou o leite achocolatado e devorou o pão com geléia. No entanto, ainda estava com fome. Uma garota comia com tranqüilidade um pacote de bolachas e, antes que ela pudesse perceber, P. o arrancou de suas mãos.

Os dois saíram correndo pelo pátio, disputando o que parecia ser o último pacote de bolachas da face da terra. A garota, da mesma idade de P., conseguiu alcançá-lo e se atirou sobre ele. Os dois rolaram pelo pátio e o pacote de bolachas estourou, esparramando todo o conteúdo pelo chão.

Pombos velhos e nojentos se lançaram sob as bolachas esfareladas, dando cabo rapidamente delas. Tanto P. e a garotoa, que tanto queriam comer as bolachas, ficaram sem nada. Revoltado, P. acertou duas botinadas na garota, que se pôs a chorar.

O resto do intervalo transcorreu em paz.

O motorista de trólebus

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , on 17/01/2012 by caioguilherme

Quem comandava o único ônibus da linha era o Seu Gaspar, um sujeito magro, cabelos compridos, mas ralos e pintados de preto. Ninguém sabia sua idade direito, todos o achavam boa gente – ele não negava caronas – e sabiam que ele era extremamente míope, de confundir a mulher com a amante.

O cobrador variava conforme a história, às vezes era o Pascoal Alecrim, noutras o Amador e, um outro tanto, algum desconhecido mesmo. Nunca conheci uma pessoa que gostasse de cobrador, fosse do ônibus, fosse do governo ou da quitanda da vila.  Volta e meia algum cobrador desconhecido era escorraçado ao negar carona a quem de direito e logo a empresa botava um dos que duravam, mesmo sabendo que eles pegavam umas moedas para si no trajeto.

O Seu Gaspar, ele sim era um herói. Chuva ou sol, estava lá ele arrumando aquelas correias que o trólebus precisa para andar. Engraçado como faziam os troços de energia tão fácil de soltar e difícil de colocar de volta. Ele tinha todo esse trabalho, além de guiar o ônibus quase sem enxergar, e nem pegava dinheiro. No máximo, tomava umas cachaças no almoço, nas custas do cobrador que, por sua vez, fazia o gasto nas contas da empresa mesmo. Dá o dinheiro, mas desce pela frente. Quem iria desconfiar?

Um dia o Seu Gaspar dirigia distraído, cantando a música da pamonha, quando um grito alto, mais alto que o Jaraguá, tomou o trólebus todo e assustou os 6 passageiros, coisa de horrores mesmo. A brecada foi tão forte, que a dona Juriminha, uma anã gigante, quase que pulou para o banco da frente. Pudera, naquele tamanho todo, sentada no banco alto, não tinha como.

A verdade do que aconteceu, era que uma moça grávida ou tava tendo o bebê lá dentro, ou tava sofrendo de uma terrível dor de barriga. Como eu não estava lá, não se te dizer. Só sei que foi um desespero, com umas melecas esparramando por todo o chão.

O Alecrim ou o Amador, no nervoso ninguém lembrou quem, nem hesitou, abriu a porta e fugiu correndo. Restou para o seu Gaspar fazer o parto. Ele, claro, não fez. Acelerou o trólebus o mais rápido que pôde e bateu num poste, sorte que em frente ao hospital. Dizem até que ele nem sabia o que fazia, só viu uma cruz vermelha e mirou nela. Deu o tiro certo, com os olhos fechados. Ainda bem.

Seja como for, não demitiram ele não, nem o cobrador. Os dois ganharam belas medalhas. E aí, o problema começou. Dotados de consideração e respeito da prefeitura – e não de dinheiro – os dois viraram umas pragas. Do nada, exigiam todo mundo quieto, rádio desligado e sem caronas. O trólebus que era um céu, um inferno virou, diriam os poetas.

Meu primo Pedro, um sujeito bom mesmo, tentou pegar  carona um dia. O seu Gaspar, nem teve medo, lhe acertou uma botinada que arrancou ele do ônibus. O cobrador safado, acho que o Amador, desatou a rir.

O Pedro ficou lá, xingando e correndo atrás da condução. E os dois donos do trólebus, sócios da prefeitura, só tirando sarro. Até que o meu primo xingou a amante do seu Gaspar. Aí, a coisa virou tempestade. O motorista pulou do ônibus que nem gato e o Amador também.

A confusão foi se armando, se armando, até que o Pedro, vendo que 2 são mais que 1, mesmo que velhos, resolveu fugir. Seu Gaspar, o motorista, e o Pascoal, é…talvez fosse ele, riram bastante até se engasgar. Tranqüilos, resolveram voltar para o trólebus. Imagina a surpresa?

Enquanto os dois trouxas riam, um passageiro mais esperto levou o trólebus fora. Quem tava dentro, desceu uns dois pontos depois, mas jura que não sabe quem tava pilotando. Seu Gaspar e o cobrador, fosse lá quem fosse, foram demitidos e ninguém nunca mais viu nem os dois, nem o ônibus.

Até hoje me pergunto, onde foi parar o trólebus? Como levaram ele, se ele não anda fora daqueles trilhos pendurados?

Mistérios da meia noite…

Um encontro entre luz e movimento

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 08/01/2012 by caioguilherme

Naquela época eu acordava junto do sol. A transição da escuridão para a luz servia como um despertador cósmico e eu nunca me sentia com sono ou com vontade de ficar mais tempo na cama. Simplesmente acordava, me arrumava e partia. O café preto era uma água benta e eu o tomava apreciando o céu laranja – fruto da santa poluição de cada dia.

O silêncio do despertar só era abalado ao sair de casa. Carros, maritacas, pessoas, pombas e meus pensamentos adquiriam vida e ecoavam por toda a extensão do meu ser. O caminho de casa para o trabalho era percorrido a pé todos os dias. Sempre o mesmo trajeto percorrido do mesmo jeito e no mesmo tempo. Fosse inverno ou primavera, outono ou verão, o caminho era sempre aquele e não havia do que reclamar. Nada mudava, tudo mudava.

Nunca me esqueci de um inverno em que sai de casa e o céu não estava laranja. Uma névoa branca e espessa dominava a existência de forma impiedosa e cobria todo o caminho. Durante semanas meus pulmões não funcionaram direito, tentando superar e expelir aquela névoa matinal. O frio naquele dia me derrubou até os ossos e, apesar de ter acordado bem disposto, senti dores terríveis pelo dia todo. Meu ouvido esquerdo parecia tomado por um estranho vácuo e o ar frio penetrava por ele, me deixando confuso e tonto. A voz embargou e meus pensamentos cessaram apesar de todos os esforços por acelerá-los. Só com muita dificuldade cheguei em casa naquele dia. Comi um lanche de carne com bacon e uma coca-cola quente e passei todo o fim de semana acamado e febril. Não consigo precisar qualquer dado sensorial daqueles dias. Mas fico feliz ao perceber que nunca mais fiquei doente depois daquela ocasião. Era como se toda a fraqueza purgasse ao mesmo tempo e sumisse ao fracassar na sua tentativa de guerra total.

Meus melhores momentos foram na primavera. Ao sair de casa encontrei um grande número de cães passeando com seus donos, aproveitando os poucos minutos antes do trabalho e da corrida contra a vida. Pássaros verdes, bravos e raros dominavam todos os postes do bairro e espantavam as principais pragas urbanas. As maritacas eclodiam de seus ovos, espantando as pombas em seu espetáculo de cor e berros nervosos.

Nestes dias eu não precisava vestir cachecóis e meus ossos não doíam. Às vezes a luz se tornava tão intensa que eu não conseguia pensar e minha cabeça começava a doer. Minhas mãos inchadas confundiam as texturas e eu simplesmente deixava de existir, perdido em sensações. A realidade não reconhecia ordens, sentidos e informações, nada era processado naqueles momentos. Sem ar eu sentava nas guias e todos os passantes me ignoravam com seus olhos vazios, tortos e incomodados. Só cães e suas pulgas se preocupavam com minha existência em meio a enxaqueca.

Apesar dos pesares, a primavera era a minha melhor época e suas belezas eram muito mais constantes do que o excesso dos sentidos. A beleza se espalhava por todos os lugares e não se resumia aos pássaros ou às flores. Em uma tarde qualquer, cruzei com uma grande árvore com seu tronco aberto, parecendo um ventre. Em seu canteiro milhares de cupins voadores amontoavam-se, uns em cima dos outros. Do interior do tronco uma dezena de insetos voadores e devoradores alçavam vôo, gerando um brilho magnífico quando o sol do entardecer refletia em suas asas.

Era uma verdadeira sinfonia, um encontro entre luz e movimento.

Até hoje eu me lembro de que enquanto eu observava aquele velho tronco todo o resto da realidade se apagava, tornava-se preto e branco. Pela primeira e última vez eu consegui escutar o silêncio fora de casa, na rua.

Por: Caio Fernandes

Armação Ilimitada

Posted in Conto with tags , , , , , on 15/02/2011 by caioguilherme

A mosca varejeira completou umas duas voltas no ar espalhando seu ruído irritante como o do pulmão de alguém com bronquite. Pensou em asma, bombinhas, biribinhas, explosivos, bombas e, mais poderosamente ainda, em bombas atômicas e no efeito que poderiam ter nas irritantes moscas varejeiras. Talvez elas fossem única e exclusivamente exterminadas, talvez fossem multiplicadas e ampliadas tornando-se a pior praga atômica mundial desde o Godzilla e outros programas japoneses. Tanto fazia, o fato era que aquela mosca varejeira tinha concluído um PHD de irritar.

Pensou nos mil e um problemas que a nova mascote iria causar. Barulho, sujeira e, pior ainda, pequenos vermes comedores de carne. Coisa para filme de ficção de tipo B, moscas varejeiras atômicas e criadoras de vermes mutantes e comedores de homens. Frente a frente com essas terríveis conseqüências optou por não produzir nenhum tipo de holocausto nuclear em seu quarto, garantindo a não multiplicação e ampliação das moscas varejeiras e seus respectivos vermes. Mas, muito esperto, correu para o armarinho da cozinha, pegou um inseticida e gastou uns 15 minutos correndo atrás da mosca enchendo o universo de veneno. “Guerra química:  a mais sábia alternativa aos embates nucleares”, disse para si e, com tossidas sofridas, abandonou o quarto, indo se refugiar na sala, enquanto os gases venenosos e libertadores não salvavam o dia.

Lia o jornal, esperando a paz mundial se expandisse até o seu quarto, quando alguém abriu a porta da sala e entrou dizendo – como se esperasse aplausos:

– Querida, cheguei! – como não haveria de deixar de ser, era o Leão, com seu inconfundível terno.

– Às vezes me arrependo de ter te dado a chave daqui, sabia? – respondeu ele, amarrotando o jornal de forma leve.

– Ora, chefe, ó Xerife! Eu salvei a sua vida, não foi? E depois de você ter me deixado desabrigado… – respondeu o Leão pulando alegremente no sofá e se ajeitando preguiçosamente.

– Verdade e por isso te agradeço. Mas não se esqueça de que você salvou a minha vida, enquanto eu estava ocupado… SALVANDO A SUA! – ele respondeu, pensando no quão destruído estava ficando o sofá.

– Ora e por isso ficamos amigos eternos! E eternos companheiros de apartamento! No mais, não vamos nos preocupar em quem salvou quem, não é? Estamos os dois salvos, isso é o importante – disse o Leão sorridente enquanto pensava se acenderia um charuto ou não. Por fins de moradia, achou melhor não.

– Verdade, claro, com certeza. Agora, me diz uma coisa… Se você lutasse contra uma varejeira mutante e atômica, você conseguiria vencê-la? – ele perguntou ao Leão enquanto calculava o preço de uma pequena bombinha atômica qualquer.

– Com certeza, com certeza. Mas varejeiras atômicas são impossibilidades econômicas, sabia? As bombas andam caras demais, nem vale a pena tentar produzi-las. – respondeu o Leão, bastante precavido.

– Uma pena… – Ele murmurou voltando para o jornal.

O Leão fechou os olhos e pensou em dormir um pouco, mas um telefone tocou desesperado e ele foi obrigado a atender. Era parte do acordo de salvamentos de vidas e compartilhamento de apartamento.

– Aham, claro, sim, sim, sem dúvida. Aham, aham, sei, sei, sim, como não? Claro, claro, sem brincadeiras, ué. Por um acaso o senhor ouviu alguém aqui rindo? Certo, certo, eu compreendo. O senhor conta com a nossa total compaixão. Como não? Claro que compaixão ajuda… até esses dias eu estava desa… Certo, certo, você não quer ouvir sobre minha vida? Então, me diz o motivo de ligar… Ora, seu… Não, não, claro que não quero destratá-lo senhor. Iremos assim que possível. Ah, não posso negar que o pagamento soou muito agradável, mas já lhe considerava um amigo de infância, um irmão até e bem antes disso. Iremos fazer o nosso máximo e o senhor não irá se arrepender, garantia da Oscar Leon e Rodrigo Antílope, investigação, aventuras, produção, editoração e emoção ltda. Ora, como assim? Eu acho um belo nome… Veja bem, em tempos de globalização, crise, expansão e transformação econômica os profissionais tem de se dedicar a múltiplas áreas, pautando o trabalho pela flexibilidade, pela felicidade e pela eficiência, claro, claro, achamos a eficiência algo muito bacana e iremos eficientizar tudo o que o senhor precisar, pois estamos aqui para isso. Sinto até que nasci para nesse dia poder falar com o senhor… Não, não,  tudo isso sem ficar puxando o saco, aqui pautamos tudo pela dignidade. Um táxi? Ora o senhor é muito gentil, obrigado, obrigado e claro, estaremos prontos nesse horário, como vossa senhoria achar mais adequado!

Enquanto desligava o telefone o Leão soltou um estrondoso bocejo e respirou fundo quase como conseqüência. Ele, o Leão, andava bastante cansado. Dormir na sala estava lhe fazendo mal. Ia deitar cedo, se acomodava no sofá e fechava os olhos, mas os instintos eram muito fortes e ele terminava suas noites deitado no chão, em cima de um tapete que, coincidentemente, era feito de pele de uma tigresa falecida. Chegou a procurar ajuda médica, mas não encontrou psiquiatras e psicólogos dispostos a lidar com um Leão tarado e com tendências necrófilas. A solução estudada, e baseada na sua honesta autocrítica, era dar um fim no brega e lascivo tapete e voltar a ser um Leão sadio. O problema era convencer o problemático dono da tapeçaria de que ela era uma ameaça para a moral e os bons costumes do antigo Rei das florestas e savanas e atual inquilino do modesto apartamento.

Dentro de seus loucos devaneios sobre seu sono e sua própria devassidão o Leão foi interrompido pelo seu companheiro de moradia:

– E então, quem era?

– Ah, claro, claro. Temos um caso.

– Ora, vejam só! Que bom.

– Sim, sim, também acho. Poderíamos comprar um tapete novo, né?

– E?

– O quê?

– Você não se esqueceu de nada?

– Ah, claro, claro. O tapete atual…bem, poderíamos doá-lo…

– Boa idéia, boa idéia! Pena que não é dele que estou falando. Será que você poderia me informar que caso é esse? Quanto iremos receber? Quando iremos falar com ele?

– Ah, claro, claro. Que cabeça a minha, não? Bem, deixe-me ver: não se te dizer quanto iremos ganhar, não sei o que iremos fazer e, por fim, nossa carona chegará exatamente… daqui uns…ah, agora!

Mal o Leão terminou de falar e a portaria do prédio ligou para avisar do táxi que os aguardava. O Leão apanhou seu companheiro de apartamento pelo braço e nem lhe deu tempo de protestar, tinham um trabalho a fazer!