Archive for the Crônica Category

Minha vez

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , , , on 25/02/2012 by caioguilherme

Para cima e avante. Para o alto e além. Super homem e Buzz, voa, voa voadores. Ir ao topo do Mundo e ver a maravilha que é o céu acima da linha de poluição. Desmascarar a realidade usando pedaços de um parque de diversão.

Sol, muito sol. E filas, claro. Muitas filas. As muitas horas no carro e na espera viravam poucas horas de diversão. Tudo por um sonho, um simples sonho que era escalar o topo do mundo, na torre mais alta das redondezas.

O brinquedo metálico subiu e desceu, subiu e desceu. Centenas de pessoas, indo ou esperando. Uma vez, uma chance. Uma única oportunidade para tudo dar certo. Horas, horas, horas. Sol e crianças, sol e crianças na fila. Esperar é foda, já não basta o choro das crianças nos ônibus. Já não basta a espera em filas nos terminais de concreto armado?

Pagar e esperar por um prazer efêmero, eis o resumo de um parque de diversões. Quase a minha vez, mais um grupo e sou eu. Na frente um casal adolescente. Sol, álcool, algodão doce, sol, pouca água, ansiedade, amassos, mais álcool, pipoca, coca-cola, álcool, amassos, espera, mais ansiedade, sol, calor, muito, muito, muito sol. A moça virou para trás e vomitou. Camiseta, bermuda, canela, meias, tênis. Tudo vomitado e fedendo. Coisas que um pedido de desculpa não arruma.

Chance perdida, logo eu, o último. Logo a minha vez. Cheiro de vômito e cachaça, preciso ir ao banheiro dar um jeito. Me afasto, minha vez perdida. Preciso me lavar antes que fique grudento. Os adolescentes riram e a vomitadora foi no brinquedo mesmo assim. Ela na frente, eu era para ser o último.

Uma moça ganha a minha vez. A minha vez. Perdida. Graças ao vômito. Paro para ver, sentir que era eu que poderia estar lá. Brinquedo, cadeiras, travas. Todos sorriem ansiosos. A torre sobe, sobe, sobe, sobe e para.

 

Hora de descer, meu coração gela. Não consigo olhar, não consigo acreditar. Um corpo se liberta da estrutura de metal e é lançado pelo espaço, ao redor do céu. No meu lugar. Nós não fomos feitos para voar. Ela se foi, na minha vez. Congelei e fiquei ali parado, esperando.

Esperando que o pesadelo virasse sonho e que fosse tudo mentira. Mas não. Ela se foi e poderia ter sido a minha vez.

A máquina para, todos param, alguns correm. Eu só fico parado, ajoelhado e chorando.

A máquina para e tudo é triste demais. Em um ônibus qualquer na cidade de São Paulo alguém diz:

“Por culpa dela perdi o meu presente, filha da puta.”

Ajoelhado. Voando. A máquina para e esse é o valor da vida humana. Vou para a França visitar a Torre Eiffel.

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Cenas do intervalo

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , on 25/01/2012 by caioguilherme

 

P. tomou o leite achocolatado e devorou o pão com geléia. No entanto, ainda estava com fome. Uma garota comia com tranqüilidade um pacote de bolachas e, antes que ela pudesse perceber, P. o arrancou de suas mãos.

Os dois saíram correndo pelo pátio, disputando o que parecia ser o último pacote de bolachas da face da terra. A garota, da mesma idade de P., conseguiu alcançá-lo e se atirou sobre ele. Os dois rolaram pelo pátio e o pacote de bolachas estourou, esparramando todo o conteúdo pelo chão.

Pombos velhos e nojentos se lançaram sob as bolachas esfareladas, dando cabo rapidamente delas. Tanto P. e a garotoa, que tanto queriam comer as bolachas, ficaram sem nada. Revoltado, P. acertou duas botinadas na garota, que se pôs a chorar.

O resto do intervalo transcorreu em paz.

O motorista de trólebus

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , on 17/01/2012 by caioguilherme

Quem comandava o único ônibus da linha era o Seu Gaspar, um sujeito magro, cabelos compridos, mas ralos e pintados de preto. Ninguém sabia sua idade direito, todos o achavam boa gente – ele não negava caronas – e sabiam que ele era extremamente míope, de confundir a mulher com a amante.

O cobrador variava conforme a história, às vezes era o Pascoal Alecrim, noutras o Amador e, um outro tanto, algum desconhecido mesmo. Nunca conheci uma pessoa que gostasse de cobrador, fosse do ônibus, fosse do governo ou da quitanda da vila.  Volta e meia algum cobrador desconhecido era escorraçado ao negar carona a quem de direito e logo a empresa botava um dos que duravam, mesmo sabendo que eles pegavam umas moedas para si no trajeto.

O Seu Gaspar, ele sim era um herói. Chuva ou sol, estava lá ele arrumando aquelas correias que o trólebus precisa para andar. Engraçado como faziam os troços de energia tão fácil de soltar e difícil de colocar de volta. Ele tinha todo esse trabalho, além de guiar o ônibus quase sem enxergar, e nem pegava dinheiro. No máximo, tomava umas cachaças no almoço, nas custas do cobrador que, por sua vez, fazia o gasto nas contas da empresa mesmo. Dá o dinheiro, mas desce pela frente. Quem iria desconfiar?

Um dia o Seu Gaspar dirigia distraído, cantando a música da pamonha, quando um grito alto, mais alto que o Jaraguá, tomou o trólebus todo e assustou os 6 passageiros, coisa de horrores mesmo. A brecada foi tão forte, que a dona Juriminha, uma anã gigante, quase que pulou para o banco da frente. Pudera, naquele tamanho todo, sentada no banco alto, não tinha como.

A verdade do que aconteceu, era que uma moça grávida ou tava tendo o bebê lá dentro, ou tava sofrendo de uma terrível dor de barriga. Como eu não estava lá, não se te dizer. Só sei que foi um desespero, com umas melecas esparramando por todo o chão.

O Alecrim ou o Amador, no nervoso ninguém lembrou quem, nem hesitou, abriu a porta e fugiu correndo. Restou para o seu Gaspar fazer o parto. Ele, claro, não fez. Acelerou o trólebus o mais rápido que pôde e bateu num poste, sorte que em frente ao hospital. Dizem até que ele nem sabia o que fazia, só viu uma cruz vermelha e mirou nela. Deu o tiro certo, com os olhos fechados. Ainda bem.

Seja como for, não demitiram ele não, nem o cobrador. Os dois ganharam belas medalhas. E aí, o problema começou. Dotados de consideração e respeito da prefeitura – e não de dinheiro – os dois viraram umas pragas. Do nada, exigiam todo mundo quieto, rádio desligado e sem caronas. O trólebus que era um céu, um inferno virou, diriam os poetas.

Meu primo Pedro, um sujeito bom mesmo, tentou pegar  carona um dia. O seu Gaspar, nem teve medo, lhe acertou uma botinada que arrancou ele do ônibus. O cobrador safado, acho que o Amador, desatou a rir.

O Pedro ficou lá, xingando e correndo atrás da condução. E os dois donos do trólebus, sócios da prefeitura, só tirando sarro. Até que o meu primo xingou a amante do seu Gaspar. Aí, a coisa virou tempestade. O motorista pulou do ônibus que nem gato e o Amador também.

A confusão foi se armando, se armando, até que o Pedro, vendo que 2 são mais que 1, mesmo que velhos, resolveu fugir. Seu Gaspar, o motorista, e o Pascoal, é…talvez fosse ele, riram bastante até se engasgar. Tranqüilos, resolveram voltar para o trólebus. Imagina a surpresa?

Enquanto os dois trouxas riam, um passageiro mais esperto levou o trólebus fora. Quem tava dentro, desceu uns dois pontos depois, mas jura que não sabe quem tava pilotando. Seu Gaspar e o cobrador, fosse lá quem fosse, foram demitidos e ninguém nunca mais viu nem os dois, nem o ônibus.

Até hoje me pergunto, onde foi parar o trólebus? Como levaram ele, se ele não anda fora daqueles trilhos pendurados?

Mistérios da meia noite…

Num grito de ódio

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , on 26/01/2011 by caioguilherme

As coisas aconteceram depois dos turcos e antes dos ingleses, na época dos russos. Não se podia ir ou vir, era cada um em seu lugar, fazendo aquilo que Deus mandou. O castelo do antigo Rei fora posto em pedras e reuínas de sal. Os turcos eram terríveis e rudes, mas nunca tocaram em nada que era do reino, tal ousadia só coube aos temíveis russos. Os turcos só queriam trigo e ouro, os russos queriam tudo e mais um pouco, estavam atrás de sangue e de almas. Quem viveu a saída de um e  a chegada de outro, vivia lamentando a partida dos antigos senhores.

Era sobre os russos que a vingança viria, foi isso que o vento frio contou para todos os loucos da região. Trancados em suas cabanas de madeira mofada os velhos ouviram um chamado e sairam repetindo uma profecia de vingança. A palavra de loucos, velhos e bêbados se propagou por todos os campos e cantos e o povo passou a esperar o retorno do Pai, aquele mesmo que tinha sido expulso e exílado.

Quieto o povo apanhava e era humilhado. Ouvia os sussuros azedos da vingança e viviam na espera da libertação. O Rei, o Pai viria e libertaria a todos para sempre.

Um dia veio uma tempestade. Chuvas e raios varreram os campos. A colheita perdida ardia em chibatadas dadas pelos russos. Ratos e gatos mirrados viravam o pão dos pobres. Cebolas murhcas e secas viravam sonhos dos mais loucos e ousados. A úncia luz era a dos raios. Escuridão, fome e russos pareciam conspirar pelo fim de todos.

Para o futuro os russos planejavam matar a todos e substituir pelos seus próprios camponeses. O trigo daria lugar para as batatas e o vinho do povo daria lugar para a vodka dos ricos. No fim da tempestade todos iriam morrer.

Durante a pior das noites e quando as profundezas pareciam tomar todo o povo apareceu um velho cinza, suado, enfurecido, rasgado e marcado , caminhando entre um bastão e um conjunto de trapos. De natureza raivosa ele tinha vindo para se vingar de todos, de destruidores e colaboradores, de vitimas, de vencedores e de vencidos.

Carregando seu pesado bastão ele parou numa pequena praça e o povo o seguiu em procissão. O povo atravessou a fome, a morte e a chuva pra vê-lo, sentí-lo, mas nunca tocá-lo. Adoraram-no como um rei, em meio de raios estava o pai expulso e ofendido, retornado de sua longa viagem. Um santo resgatando o seu povo.

Os russos mandaram soldados para lá. Todos os destacamentos possíveis e imagináveis enviados para conter a aglomeração absurda. Montados em cavalos oficiais e autoridades sanguinárias se deliciavam com as atrocidades que soldados tolos, amedrontados e sem vontade iriam cometer. Os raios e a chuva assustavam os cavalos.

O velho da tempestade, o rei, o Pai ergueu as mãos e num grito de ódio os trovões aumentaram terrivelmente, assustando os cavalos dos russos. Todos os soldados caíram no chão e se viram cercados pelo povo, que logo matou a todos. O velho virou suas costas para a ação e partiu. Ele foi seguido por quase todo o povo, os que mais mataram eram os primeiros da fila. O grupo de assassinos esfarrapados se perdeu com seu mentor em meio ao frio noturno e a tempestade.

As chuvas e as trevas duraram mais três dias e acabaram com o trabalho de um ano inteiro. Quem viu e ficou, sofreu. Quem foi nunca mais voltou e foi assim que nosso reino voltou a ser livre.

Ubiratam

Posted in Conto, Crônica, Uncategorized with tags , , , , , on 03/05/2010 by caioguilherme

Hoje eu acordei cedo. Um pouco antes do telefone tocar. Não, não é meu telefone que toca. O telefone é de Ubiratam e está tocando às 08h20min. Eu acordei um pouco antes disso, mas devo concordar com Ubiratam, é cedo demais. A pessoa do outro lado da linha, consultora de Rh, não se importa se Ubiratam está ou não dormindo, se ele quiser um emprego terá de acordar e atender sem nenhum embargo na garganta. E é isso que ele faz.

Submisso ele escuta dizeres em tom imperativo. Esteja lá às 10 horas para o cliente te entrevistar. Tome um banho, imprima um currículo e use roupas sociais, vá bem vestido. Nosso herói não possui roupas em sua melhor forma. As velhas camisas, herdadas do pai e do irmão mais velho, estão encardidas, amassadas e puídas, mas Ubiratam toma uma para si e a veste. A calça mal cabe e possui vincos que dariam inveja a Cordilheira dos Andes. Não há tempo de tomar café da manhã ou qualquer outra coisa, ele está redondamente atrasado e terá de torcer para que o ônibus e o trânsito de sua cidade colabore.

Despreocupado vejo Ubiratam correr atrás do ônibus. Não sou eu e nem a mocinha do Rh, que esqueceu de ligar para ele no dia anterior, quem necessita desse emprego. Quem precisa vender 8 horas do seu dia por R$ 400 é ele. Ao subir no ônibus sua camisa manifesta grandiosas e oceânicas manchas de suor. Este secará no contato abusivo e forçado com os outros corpos na lata de sardinha. O resultado, uma camisa mal seca e amarrotada.

10 horas e 15 minutos, Ubiratam chega no escritório do cliente. Um lugar limpo, higiênico e esterilizado. Um bom lugar para trabalhar, uma firma de advogados. Atrasado ele recebe uma bronca da recepcionista. 5 minutos antes a própria mocinha do Rh ligara para reclamar do atraso dele e o ameaçara dizendo que isso não se fazia, que aquilo poderia prejudicar a empresa e ela mesma. Que, ao contrário do tempo dele, o tempo do cliente valia ouro e brilhava com oportunidades. Caso houvesse outra chance, e ela deixou bem claro seu pessimismo quanto a possibilidade do mundo de trabalho se interessar por Ubiratam, ele não deveria mais se atrasar tanto. Entrou pelo corredor que a recepcionista lhe indicou, de forma indiferente, depois da bronca. Nele um punhado de sujeitos, irmãos de Ubiratam, feitos  na mesma forma de Ubiratam, vários Ubiratans em versões não tão variadas, esperavam desde às 9 horas e 30 minutos. O atraso, pelo qual fora tão censurado, de nada valia e em nada atrapalhava a rotina importante do cliente, da famosa e grandiosa firma de advocacia, estéril e cujos segundos valem ouro.

Uma porta é aberta. Todos são chamados para entrar. Dinâmica de grupo. Um adesivo é colocado nas costas de Ubiratam e ele tem de fazer perguntas, cujas respostas podem ser somente sim ou não, para tentar descobrir quem ele é. Quando o adesivo em suas costas, colocado por uma senhora do Rh, lhe disser quem ele é, ele devera sê-lo em frente a todos os outros. Devera imitar a “si mesmo” para, dessa forma, ser avaliado. Um não pode sabotar o outro, são todos concorrentes, mas todos devem trabalhar em equipe para que somente um, o tão sortudo um, consiga a vaga. Desse monte de Ubiratans em competição e colaboração pela vaga, só o mais perfeito deles conseguirá ganhar os R$ 400 mensais e, com sorte, substituir parte de suas camisas amassadas, encardidas e puídas.

Nosso Ubiratam questiona para um dos seus irmãos:

“Eu sou um homem?”

“Não, não é.”

“Uma mulher?”

“Não.”

“Eu não sou gente, então?”

“Não.”

“Como? Não, eu não sou gente ou sim, você não é gente? ”

“Não.”

“Explica melhor. Eu sou ou não sou?”

“Você não é.”

“Sou um objeto?”

“Não, não é.”

“Um animal?”

“Sim, você é um animal.”

“E o que eu como?”

“Não.”

“Como eu não como?”

A senhora do Rh intervém no brilhante interrogatório de Ubiratam:

“Não se esqueça que as resposta só podem ser sim e não. Ao invés de perguntar o que você come, chute o que você come, entendeu?”

Ubiratam demorou alguns segundos para responder que sim. Esse monte de afirmações, negações, sugestões, Ubiratans e ordens, estavam lhe enlouquecendo.

“Eu como batata?”

“Não sei.”

“Eu como carne?”

“Não, acho que não.”

“Frutas?”

“Sim.”

“Qual?”

“Ele não pode te responder isso. Esqueceu?” – Interveio novamente a senhora do Rh. Ubiratam balançou afirmativamente a cabeça e pediu desculpas encabuladas. O oceano de suor, extinto no ônibus, voltava a brotar de seus poros e já causava algumas desagradáveis manchas debaixo dos braços.

Cansado daquela brincadeira estúpida, Ubiratam chutou:

“Eu como bananas?”

“Sim, você come bananas.”

“Eu sou um macaco?”

“Sim, você acertou.”

A senhora do Rh entusiasmadamente aplaudiu nosso Ubiratam. Entre todos os outros, ele foi o primeiro a se descobrir. Ela chamou a atenção de todos e ordenou que Ubiratam desse seqüência no teste.

Envergonhado, o primeiro dentre todos eles, imitou a si mesmo, imitou aquilo que a senhora do RH disse que ele era: um macaco.

Pulos e gritos, coçadas de cabeça. Empenhado, ele se lembrou de todos os desenhos com macacos e os imitou muito bem. Todos, inclusive a senhora do Rh, riram. Ele não gostou daquilo. Passado este teste, foi encaminhado para uma outra sala. Nela perguntas sobre seu mal feito ensino fundamental, suas árduas tarefas anteriores e irrealizáveis sonhos foram feitas. Nessa última pergunta, Ubiratam não conseguiu apresentar respostas claras. Objetivos de vida. Seqüência estranha de palavras. Não sabia que precisava ter sonhos e esperanças para digitar documentos na firma de advogados. Devem ser documentos realmente fantásticos para poderem ser só respondidos por alguém com objetivos e possibilidades. Ubiratam ganhou um sonho nesse dia: ser alguém com sonhos e grandes esperanças. O dia mais feliz de sua vida seria aquele em que poderia sonhar.

A entrevista terminou e Ubiratam foi para casa. Pensou em comprar uma coxinha num bar perto do escritório, mas não tinha dinheiro. A comida naquele bairro era muito cara. Foi para casa e atendeu eu telefone logo que chegou. A mocinha do Rh, aquela da primeira ligação, lhe disse que, como ela previra, Ubiratam não passou. Não soube bem imitar um macaco, um simples macaco. Ubiratam se envergonhou e chorou ao desligar o telefone. Era humilhação demais para viver. Ligou a Tv e passou as próximas horas vendo desenhos e filmes com macacos, iria aprender. Nem jantou naquele dia.

Nunca mais segui um dia de Ubiratam em minha vida. Nem sei qual dos vários e não tão variáveis e anônimos Ubiratans conseguiu a vaga. Só sei, caro Ubiratam, – e esse finzinho digo para você e só para você –  que imitar macacos é realmente muito difícil, não se sinta mal. Aposto que, assim como você, muitos daqueles seus concorrentes não conseguiram imitar aquilo que a Senhora do Rh disse que eram. A vida é assim mesmo, cheia de confusão e perguntas estranhas. Os ônibus lotados vão e voltam cheios de trabalhadores, alguns trabalhando e outros lutando por seu lugar ao sol, gritando como macacos em mil e uma entrevistas de empregos, inventando sonhos e esperanças para passar nas entrevistas. Não tenhas dúvidas, meu amigo Ubiratam, uma hora ou outra, sua vez nesses lotados ônibus irá chegar e você terá seu lugar sob o ardente sol do meio dia.

Uma crônica sobre talento.

Posted in Crônica with tags , , , , , , , , on 15/04/2010 by caioguilherme

No Campeonato Paulista de 2009 o volante Hernanes, do São Paulo, fez um belo gol de sem pulo. Mesmo superado alguns meses depois pelo gol incrível de Diego Souza, do Palmeiras, o sem pulo de Hernanes não foi esquecido por mim. E foi por um motivo que talvez vá um pouco além dele: os comentários que gerou.

Praticamente abandonada na parte cultural dos jornais a Crônica ainda ganha alguma relevância na seção esportiva. Alguns autores resumem-se aos comentários rotineiros e essencialmente jornalísticos, isso um pouco pelo mau exemplo dos escritores do caderno cultural, como o Ferreira Gullar e o Veríssimo, que têm se limitado ao caráter colunístico, não atingindo o fazer literário, pelo qual se consagraram. Tostão não. O velho jogador de futebol escreve, algumas vezes, textos tão memoráveis em sua coluna/crônica quanto são belos alguns lances e gols, como o sem pulo de Hernanes é um exemplo. É como que se impedido pelo tempo de jogar bola magistralmente, Tostão extravasasse o algo mais que possui para o papel, na escrita e na poesia do futebol.

Sem saber ao certo como estava fazendo aquilo, o velho jogador de futebol escrever com suas enrugadas mãos uma belíssima crônica sobre o gol do jovem Hernanes. Tão bela quanto o gol e uma tarde ensolarada de outono, a crônica comentou o lance fazendo com que o leitor notasse o quão mágico era o talento do jogador e o quão interessante era o fato de que ele realizava o lance sem nem entender ou conseguir construir racionalizações sobre os místicos e técnicos recursos físicos e espirituais que lhe permitiam fazer aquele gol.

Achei engraçado quando percebi algo sobre o Tostão. Ele, muito possivelmente, não sabe ao certo o como e o porquê de aquele seu texto ter tanta qualidade e vencer a barreira do jornal e do efêmero que os outros colunistas têm se mantido tão fiéis e tão felizes por tanto tempo.

O Talento é algo assim mesmo, de mágico e irracional, de momento e de inspiração. A Técnica está no oposto, ligada com o racional, com o previsível e com a transpiração,  tão alardeada pelos escritores atuais, numa tentativa de valorizar sua profissão perante a sociedade – necessidade que talvez não exista, talvez exista.

Entre Técnica e Talento, entra a transpiração e a inspiração eu me coloco a favor do Talento, pois este gera aquilo que é belo e imprevisível, algo de único, como sem pulo de Hernanes e Diego Souza, a crônica de Tostão e uma tarde ensolarada num outono qualquer.

Uma visita do passado.

Posted in Crônica with tags , , on 15/01/2010 by caioguilherme

 

Por: Caio Guilherme

A formação acadêmica me foi útil em uma ou outra coisa. Um delas foi aprender e passar a perceber que o tempo é fluído de muitas e variadas formas. Existe a relatividade de Einstein, onde o tempo varia de acordo com a velocidade. Existe, também, um tal de tempo psicológico, aquele que passa rápido na diversão e tão devagar  nas horas de tédio. Além disso, há o tempo dos acontecimentos cotidianos, o tempo das tendências, o tempo das estruturas e suas longas durações. Todas essas formas de tempo possuem em comum o fato de serem absurdamente fluídas. O passado, o presente e o futuro acabam por se confundir de uma forma sempre inédita e especial. Conseguir percebê-las é algo interessante, só possível de acontecer quando o sujeito se desliga dos excessos da rotina.

Ontem, testemunhei mais um tipo de tempo: o do passado que persegue a gente. Não um passado realmente importante, mas um somente resvalado, ocupante de uns segundos dentro de uma infinidade de horas. Um tiro de raspão que sem mais nem menos sangra depois de séculos cicatrizados. Estranho e interessante, no nível dum lição cósmica e ligada ao karma, este passado vem para relembrá-lo, através do pouco significante, o quanto podemos nos equivocar e o quanto esses pequenos equívocos podem ter alguma grande responsabilidade no estado atual das coisas.

Depois de jogar bola ontem, eu andava de ônibus e, claro, adormeci durante a parte que passava na Paulista. Na altura do metrô Ana Rosa, um primeiro vislumbre do passado chegou a mim. Isabel, era seu nome. Moreninha, rosto grande demais, cabelo excessivamente armado, boa bunda, belos peitos, barriga normal, pernas que deveriam ser bacanas e uns lábios doces, rosados e bonitos. Nunca havia escutado a voz dela e ontem pude perceber que era uma bela voz. Não conversamos, mas, ao meu lado, ela conversava com uma amiga e acabei pescando um pouco da conversa. Algo chato sobre escola e as aulas que elas ministravam. Ela não se lembrou de mim e senti um certo peso em não ter feito um esforço por conhecê-la. Coisas da internet com seus msn´s e orkut´s, um papo morno, água com açúcar e fotos pouco animadoras. Hoje, eu diria que era melhor com ela do que sem ela. O passado fez uma primeira visita para me lembrar o peso da das relações insignificantes e o quanto de oportunidades perdermos ao ignorá-las e desprezá-las.

O segundo ataque do passado foi hoje. Estranho e bombástico. Um dia cinza em que as forças da natureza mostraram-se surpreendentemente pouco resolvidas e medrosas. Mau humor, sai para FNAC, levei minha irmã menor comigo. Enquanto a adolescente circulava pelas prateleiras da loja, tive uma visão dum passado fantasmagórico e que jogou, ainda mais, arrependimento em meus olhos. Gabriela B. estava lá. Sim, sim, quase uma barreira de 6 anos entre nós. Cursinho Etapa, 2004: uma moça cheiinha, gente boa, com muitas espinhas e um decote interessante, me entregou um cartão de aniversário. Um dos poucos que já ganhei. Um cartão de aniversário. Ela gostava de mim. Hoje, estava mais magra, mais bonita e a vontade com a vida. Estranho, muito estranho. Me esgueirei pelos corredores num misto de esperanças concorrentes: não ser reconhecido e ser reconhecido. Infelizmente, ela estava acompanhada e pareceu nem se dar conta da minha existência. Meu orgulho se feriu bastante. O passado veio e me lembrou: “Ela te deu um cartão, gostava de você e teve coragem de dizer.” Eu não fiz nada, não fiquei com ela, mas ainda lembro de seu nome e sobrenome. Ela? Talvez tenha me reconhecido, talvez não. Não fazia a menor diferença.

Esses dois acontecimentos deixam uma lição bastante importante. Não menosprezar. O passado veio perseguir e mostrar algumas coisas que poderiam ou não ser minhas. Ele veio mostrar alternativas aos caminhos que segui, já que parte das nossas vidas é delimitada pelo tipo de pessoas com quem nos relacionamos. Uma eu nem conhecia, deveria ter dado a possibilidade para o conhecimento. A outra, eu conheci e menosprezei, deveria ter dado possibilidade para os beijos. A lição que fica: mais vale uma menina na mão, do que um milhão de oportunidades no campo das ilusões.

Eis que o passado se mostrou fluído, trouxe dramas do presente para o futuro, do futuro para o passado e do passado para o presente, confundindo tempos, idéias e sentimentos. A conclusão que chego? Não teria pensando em nada disso se não tivesse escolhido esses caminhos que escolhi a vida não dá lições nas vitórias, mas estas são necessárias também.