Cenas do intervalo

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , on 25/01/2012 by caioguilherme

 

P. tomou o leite achocolatado e devorou o pão com geléia. No entanto, ainda estava com fome. Uma garota comia com tranqüilidade um pacote de bolachas e, antes que ela pudesse perceber, P. o arrancou de suas mãos.

Os dois saíram correndo pelo pátio, disputando o que parecia ser o último pacote de bolachas da face da terra. A garota, da mesma idade de P., conseguiu alcançá-lo e se atirou sobre ele. Os dois rolaram pelo pátio e o pacote de bolachas estourou, esparramando todo o conteúdo pelo chão.

Pombos velhos e nojentos se lançaram sob as bolachas esfareladas, dando cabo rapidamente delas. Tanto P. e a garotoa, que tanto queriam comer as bolachas, ficaram sem nada. Revoltado, P. acertou duas botinadas na garota, que se pôs a chorar.

O resto do intervalo transcorreu em paz.

O motorista de trólebus

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , on 17/01/2012 by caioguilherme

Quem comandava o único ônibus da linha era o Seu Gaspar, um sujeito magro, cabelos compridos, mas ralos e pintados de preto. Ninguém sabia sua idade direito, todos o achavam boa gente – ele não negava caronas – e sabiam que ele era extremamente míope, de confundir a mulher com a amante.

O cobrador variava conforme a história, às vezes era o Pascoal Alecrim, noutras o Amador e, um outro tanto, algum desconhecido mesmo. Nunca conheci uma pessoa que gostasse de cobrador, fosse do ônibus, fosse do governo ou da quitanda da vila.  Volta e meia algum cobrador desconhecido era escorraçado ao negar carona a quem de direito e logo a empresa botava um dos que duravam, mesmo sabendo que eles pegavam umas moedas para si no trajeto.

O Seu Gaspar, ele sim era um herói. Chuva ou sol, estava lá ele arrumando aquelas correias que o trólebus precisa para andar. Engraçado como faziam os troços de energia tão fácil de soltar e difícil de colocar de volta. Ele tinha todo esse trabalho, além de guiar o ônibus quase sem enxergar, e nem pegava dinheiro. No máximo, tomava umas cachaças no almoço, nas custas do cobrador que, por sua vez, fazia o gasto nas contas da empresa mesmo. Dá o dinheiro, mas desce pela frente. Quem iria desconfiar?

Um dia o Seu Gaspar dirigia distraído, cantando a música da pamonha, quando um grito alto, mais alto que o Jaraguá, tomou o trólebus todo e assustou os 6 passageiros, coisa de horrores mesmo. A brecada foi tão forte, que a dona Juriminha, uma anã gigante, quase que pulou para o banco da frente. Pudera, naquele tamanho todo, sentada no banco alto, não tinha como.

A verdade do que aconteceu, era que uma moça grávida ou tava tendo o bebê lá dentro, ou tava sofrendo de uma terrível dor de barriga. Como eu não estava lá, não se te dizer. Só sei que foi um desespero, com umas melecas esparramando por todo o chão.

O Alecrim ou o Amador, no nervoso ninguém lembrou quem, nem hesitou, abriu a porta e fugiu correndo. Restou para o seu Gaspar fazer o parto. Ele, claro, não fez. Acelerou o trólebus o mais rápido que pôde e bateu num poste, sorte que em frente ao hospital. Dizem até que ele nem sabia o que fazia, só viu uma cruz vermelha e mirou nela. Deu o tiro certo, com os olhos fechados. Ainda bem.

Seja como for, não demitiram ele não, nem o cobrador. Os dois ganharam belas medalhas. E aí, o problema começou. Dotados de consideração e respeito da prefeitura – e não de dinheiro – os dois viraram umas pragas. Do nada, exigiam todo mundo quieto, rádio desligado e sem caronas. O trólebus que era um céu, um inferno virou, diriam os poetas.

Meu primo Pedro, um sujeito bom mesmo, tentou pegar  carona um dia. O seu Gaspar, nem teve medo, lhe acertou uma botinada que arrancou ele do ônibus. O cobrador safado, acho que o Amador, desatou a rir.

O Pedro ficou lá, xingando e correndo atrás da condução. E os dois donos do trólebus, sócios da prefeitura, só tirando sarro. Até que o meu primo xingou a amante do seu Gaspar. Aí, a coisa virou tempestade. O motorista pulou do ônibus que nem gato e o Amador também.

A confusão foi se armando, se armando, até que o Pedro, vendo que 2 são mais que 1, mesmo que velhos, resolveu fugir. Seu Gaspar, o motorista, e o Pascoal, é…talvez fosse ele, riram bastante até se engasgar. Tranqüilos, resolveram voltar para o trólebus. Imagina a surpresa?

Enquanto os dois trouxas riam, um passageiro mais esperto levou o trólebus fora. Quem tava dentro, desceu uns dois pontos depois, mas jura que não sabe quem tava pilotando. Seu Gaspar e o cobrador, fosse lá quem fosse, foram demitidos e ninguém nunca mais viu nem os dois, nem o ônibus.

Até hoje me pergunto, onde foi parar o trólebus? Como levaram ele, se ele não anda fora daqueles trilhos pendurados?

Mistérios da meia noite…

Literatura e memória: W.G Sebald

Posted in Comentários, Resenha, W.G Sebald with tags , , , , , , , , , on 13/01/2012 by caioguilherme

Apresentação do escritor W.G Sebald nascido em 1944 em uma pequena vila alemã e falecido no ano de 2001 por causa de um triste acidente de carro. A resenha traz uma breve síntese dos elementos mais importantes para refletir sobre a proposta narrativa de Sebald.

Escritores de romance policial da primeira metade do século XX, como Dashiell Hammett, propunham uma literatura baseada em experiências de vida. Um sujeito escreve a partir daquilo que ele próprio viveu. Suas aventuras e seus sentimentos são o ponto de origem das aventuras e dos sentimentos de seus personagens. A vida do escritor é o ponto de partida direto da narrativa.

Tal perspectiva literária, em um primeiro momento, parece ter bastante sentido. Mas e quando a humanidade se depara com acontecimentos trágicos, testemunhados, mas não vivenciados por todos? E quando esses acontecimentos deixam de ser discutidos e começam a se apagar? Como a Literatura se comporta? Como um escritor faz para escrever sobre algo que não viveu?

É bastante claro que tais desafios exigem outra perspectiva literária. A narrativa de ação precisa dar lugar à descrição, à reflexão, à digressão e, também, à própria memória. Um dos mais valorosos exemplos dessa guinada no século XX foi W. G Sebald, autor que apresenta a apropriação e a rememoração como formas de narrar experiências e dar conta de uma realidade que ele não viveu diretamente.

Nascido em 1944, na Bavária, W.G Sebald não viveu o auge do nazismo e de sua ação, mas pôde sentir desde muito jovem ecos abafados desta experiência histórica e, com o tempo, se deu conta de seus significados.

Na Alemanha do pós guerra foi vivenciada uma espécie de “conspiração do silêncio”, em que as atrocidades coletivas do período nazista não eram nem comentadas, nem sugeridas, o que deixou imensas lacunas na memória das gerações seguintes e na de W.G Sebald também.

 Uma das sombras que ele encontrou foi George, seu próprio pai, membro da Wermatch e prisioneiro de Guerra até 1947. Este homem nunca foi capaz de se materializar como figura paterna ou de narrar suas experiências de guerra, configurando-se, então, como um sujeito sem identidade e sem passado, um verdadeiro mistério. Já aos 17 anos, W.G, começa a compreender que existia toda uma realidade obscura a ser descoberta. Ele teve de assistir um documentário sobre o campo de concentração de Belsen, mas depois da exibição não haveria um debate sobre as imagens que acabara ver, um jogo de futebol estava marcado para o período da tarde. A distração trazia mais lacunas.

A não sugestão das sombras se transformou na compreensão de imagens somente nos anos 60, quando W. G Sebald saiu da Alemanha e foi estudar em Manchester, na Inglaterra. Lá o silêncio dá lugar para percepção de eventos históricos trágicos, massivos e bastante próximos no tempo. O jovem alemão tomou conhecimento do Holocausto.

É como tentativa de dar conta dessa memória histórica lentamente revelada que W. G Sebald começa a escrever narrativas como “Vertigem”, “Os Emigrantes”, “Os Anéis de Saturno” e “Austerlitz”. Em todas essas manifestações o tema da memória e a da experiência se apresentam como aspectos da realidade.

Nos livros, narradores anônimos, que talvez sejam W.G Sebald e que talvez não, conversam e contam ao leitor suas viagens por vários lugares da Inglaterra e da Europa, onde travam conhecimento com pessoas, donas de nomes, lares, profissões e vidas, deslocadas e diferenciadas, cujas narrativas servem como ponto de partida para a reflexão.

Descrições, digressões próximas das acadêmicas e narrativas servem para apresentar o ser humano ante a grandeza dos acontecimentos. Os personagens de Sebald, um pouco fictícios e muito reais, são pessoas e lugares desalojados pelos grandes eventos históricos, suas trajetórias e aspectos de presente são definidos por um passado de fuga, abandono e ausência de pertencimento.

Ao reconstruir essas vidas e esses lugares, W. G Sebald busca levar o seu leitor ao contato, quase que indireto, com os efeitos da Segunda Guerra Mundial na vida de vários indivíduos. O drama coletivo é apresentado através de pequenas tragédias pessoais. O leitor se vê afogado pela riqueza de imagens e sentidos. É com grande dificuldade que irá conseguir equacionar tudo isso, mas, quando o consegue, percebe mudanças na sua forma de pensar o Mundo.

O uso das famosas fotografias em preto e branco serve para reforçar ainda mais essa enxurrada de significado e nas palavras do próprio autor, em entrevista para Maya Jaggi do The Guardian, “podem dizer muito mais do que uma monografia o faria”.

Ler W. G Sebald é se dar conta de que a realidade acontece mesmo quando não a vivenciamos, que a história humana marcha, às vezes silenciosamente, e modifica vidas, talvez as nossas próprias. Entregar mais do que isso, estragaria a experiência da leitura deste importante escritor.

Obras de fôlego longo, os textos de W. G Sebald, escritos em alemão e traduzidos para o inglês sob sua batuta, possuem versões brasileiras de grande qualidade, publicadas pela Companhia das Letras. O trabalho bem feito da editora brasileira evidencia o respeito que o falecido autor possuía no meio cultural.

Ao leitor desta resenha, cabe assim que possível, conseguir um dos títulos citados, desligar a TV e começar a ler e pensar e refletir, para se dar conta do quão importante o passado pode ser.

Um encontro entre luz e movimento

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 08/01/2012 by caioguilherme

Naquela época eu acordava junto do sol. A transição da escuridão para a luz servia como um despertador cósmico e eu nunca me sentia com sono ou com vontade de ficar mais tempo na cama. Simplesmente acordava, me arrumava e partia. O café preto era uma água benta e eu o tomava apreciando o céu laranja – fruto da santa poluição de cada dia.

O silêncio do despertar só era abalado ao sair de casa. Carros, maritacas, pessoas, pombas e meus pensamentos adquiriam vida e ecoavam por toda a extensão do meu ser. O caminho de casa para o trabalho era percorrido a pé todos os dias. Sempre o mesmo trajeto percorrido do mesmo jeito e no mesmo tempo. Fosse inverno ou primavera, outono ou verão, o caminho era sempre aquele e não havia do que reclamar. Nada mudava, tudo mudava.

Nunca me esqueci de um inverno em que sai de casa e o céu não estava laranja. Uma névoa branca e espessa dominava a existência de forma impiedosa e cobria todo o caminho. Durante semanas meus pulmões não funcionaram direito, tentando superar e expelir aquela névoa matinal. O frio naquele dia me derrubou até os ossos e, apesar de ter acordado bem disposto, senti dores terríveis pelo dia todo. Meu ouvido esquerdo parecia tomado por um estranho vácuo e o ar frio penetrava por ele, me deixando confuso e tonto. A voz embargou e meus pensamentos cessaram apesar de todos os esforços por acelerá-los. Só com muita dificuldade cheguei em casa naquele dia. Comi um lanche de carne com bacon e uma coca-cola quente e passei todo o fim de semana acamado e febril. Não consigo precisar qualquer dado sensorial daqueles dias. Mas fico feliz ao perceber que nunca mais fiquei doente depois daquela ocasião. Era como se toda a fraqueza purgasse ao mesmo tempo e sumisse ao fracassar na sua tentativa de guerra total.

Meus melhores momentos foram na primavera. Ao sair de casa encontrei um grande número de cães passeando com seus donos, aproveitando os poucos minutos antes do trabalho e da corrida contra a vida. Pássaros verdes, bravos e raros dominavam todos os postes do bairro e espantavam as principais pragas urbanas. As maritacas eclodiam de seus ovos, espantando as pombas em seu espetáculo de cor e berros nervosos.

Nestes dias eu não precisava vestir cachecóis e meus ossos não doíam. Às vezes a luz se tornava tão intensa que eu não conseguia pensar e minha cabeça começava a doer. Minhas mãos inchadas confundiam as texturas e eu simplesmente deixava de existir, perdido em sensações. A realidade não reconhecia ordens, sentidos e informações, nada era processado naqueles momentos. Sem ar eu sentava nas guias e todos os passantes me ignoravam com seus olhos vazios, tortos e incomodados. Só cães e suas pulgas se preocupavam com minha existência em meio a enxaqueca.

Apesar dos pesares, a primavera era a minha melhor época e suas belezas eram muito mais constantes do que o excesso dos sentidos. A beleza se espalhava por todos os lugares e não se resumia aos pássaros ou às flores. Em uma tarde qualquer, cruzei com uma grande árvore com seu tronco aberto, parecendo um ventre. Em seu canteiro milhares de cupins voadores amontoavam-se, uns em cima dos outros. Do interior do tronco uma dezena de insetos voadores e devoradores alçavam vôo, gerando um brilho magnífico quando o sol do entardecer refletia em suas asas.

Era uma verdadeira sinfonia, um encontro entre luz e movimento.

Até hoje eu me lembro de que enquanto eu observava aquele velho tronco todo o resto da realidade se apagava, tornava-se preto e branco. Pela primeira e última vez eu consegui escutar o silêncio fora de casa, na rua.

Por: Caio Fernandes

Armação Ilimitada

Posted in Conto with tags , , , , , on 15/02/2011 by caioguilherme

A mosca varejeira completou umas duas voltas no ar espalhando seu ruído irritante como o do pulmão de alguém com bronquite. Pensou em asma, bombinhas, biribinhas, explosivos, bombas e, mais poderosamente ainda, em bombas atômicas e no efeito que poderiam ter nas irritantes moscas varejeiras. Talvez elas fossem única e exclusivamente exterminadas, talvez fossem multiplicadas e ampliadas tornando-se a pior praga atômica mundial desde o Godzilla e outros programas japoneses. Tanto fazia, o fato era que aquela mosca varejeira tinha concluído um PHD de irritar.

Pensou nos mil e um problemas que a nova mascote iria causar. Barulho, sujeira e, pior ainda, pequenos vermes comedores de carne. Coisa para filme de ficção de tipo B, moscas varejeiras atômicas e criadoras de vermes mutantes e comedores de homens. Frente a frente com essas terríveis conseqüências optou por não produzir nenhum tipo de holocausto nuclear em seu quarto, garantindo a não multiplicação e ampliação das moscas varejeiras e seus respectivos vermes. Mas, muito esperto, correu para o armarinho da cozinha, pegou um inseticida e gastou uns 15 minutos correndo atrás da mosca enchendo o universo de veneno. “Guerra química:  a mais sábia alternativa aos embates nucleares”, disse para si e, com tossidas sofridas, abandonou o quarto, indo se refugiar na sala, enquanto os gases venenosos e libertadores não salvavam o dia.

Lia o jornal, esperando a paz mundial se expandisse até o seu quarto, quando alguém abriu a porta da sala e entrou dizendo – como se esperasse aplausos:

– Querida, cheguei! – como não haveria de deixar de ser, era o Leão, com seu inconfundível terno.

– Às vezes me arrependo de ter te dado a chave daqui, sabia? – respondeu ele, amarrotando o jornal de forma leve.

– Ora, chefe, ó Xerife! Eu salvei a sua vida, não foi? E depois de você ter me deixado desabrigado… – respondeu o Leão pulando alegremente no sofá e se ajeitando preguiçosamente.

– Verdade e por isso te agradeço. Mas não se esqueça de que você salvou a minha vida, enquanto eu estava ocupado… SALVANDO A SUA! – ele respondeu, pensando no quão destruído estava ficando o sofá.

– Ora e por isso ficamos amigos eternos! E eternos companheiros de apartamento! No mais, não vamos nos preocupar em quem salvou quem, não é? Estamos os dois salvos, isso é o importante – disse o Leão sorridente enquanto pensava se acenderia um charuto ou não. Por fins de moradia, achou melhor não.

– Verdade, claro, com certeza. Agora, me diz uma coisa… Se você lutasse contra uma varejeira mutante e atômica, você conseguiria vencê-la? – ele perguntou ao Leão enquanto calculava o preço de uma pequena bombinha atômica qualquer.

– Com certeza, com certeza. Mas varejeiras atômicas são impossibilidades econômicas, sabia? As bombas andam caras demais, nem vale a pena tentar produzi-las. – respondeu o Leão, bastante precavido.

– Uma pena… – Ele murmurou voltando para o jornal.

O Leão fechou os olhos e pensou em dormir um pouco, mas um telefone tocou desesperado e ele foi obrigado a atender. Era parte do acordo de salvamentos de vidas e compartilhamento de apartamento.

– Aham, claro, sim, sim, sem dúvida. Aham, aham, sei, sei, sim, como não? Claro, claro, sem brincadeiras, ué. Por um acaso o senhor ouviu alguém aqui rindo? Certo, certo, eu compreendo. O senhor conta com a nossa total compaixão. Como não? Claro que compaixão ajuda… até esses dias eu estava desa… Certo, certo, você não quer ouvir sobre minha vida? Então, me diz o motivo de ligar… Ora, seu… Não, não, claro que não quero destratá-lo senhor. Iremos assim que possível. Ah, não posso negar que o pagamento soou muito agradável, mas já lhe considerava um amigo de infância, um irmão até e bem antes disso. Iremos fazer o nosso máximo e o senhor não irá se arrepender, garantia da Oscar Leon e Rodrigo Antílope, investigação, aventuras, produção, editoração e emoção ltda. Ora, como assim? Eu acho um belo nome… Veja bem, em tempos de globalização, crise, expansão e transformação econômica os profissionais tem de se dedicar a múltiplas áreas, pautando o trabalho pela flexibilidade, pela felicidade e pela eficiência, claro, claro, achamos a eficiência algo muito bacana e iremos eficientizar tudo o que o senhor precisar, pois estamos aqui para isso. Sinto até que nasci para nesse dia poder falar com o senhor… Não, não,  tudo isso sem ficar puxando o saco, aqui pautamos tudo pela dignidade. Um táxi? Ora o senhor é muito gentil, obrigado, obrigado e claro, estaremos prontos nesse horário, como vossa senhoria achar mais adequado!

Enquanto desligava o telefone o Leão soltou um estrondoso bocejo e respirou fundo quase como conseqüência. Ele, o Leão, andava bastante cansado. Dormir na sala estava lhe fazendo mal. Ia deitar cedo, se acomodava no sofá e fechava os olhos, mas os instintos eram muito fortes e ele terminava suas noites deitado no chão, em cima de um tapete que, coincidentemente, era feito de pele de uma tigresa falecida. Chegou a procurar ajuda médica, mas não encontrou psiquiatras e psicólogos dispostos a lidar com um Leão tarado e com tendências necrófilas. A solução estudada, e baseada na sua honesta autocrítica, era dar um fim no brega e lascivo tapete e voltar a ser um Leão sadio. O problema era convencer o problemático dono da tapeçaria de que ela era uma ameaça para a moral e os bons costumes do antigo Rei das florestas e savanas e atual inquilino do modesto apartamento.

Dentro de seus loucos devaneios sobre seu sono e sua própria devassidão o Leão foi interrompido pelo seu companheiro de moradia:

– E então, quem era?

– Ah, claro, claro. Temos um caso.

– Ora, vejam só! Que bom.

– Sim, sim, também acho. Poderíamos comprar um tapete novo, né?

– E?

– O quê?

– Você não se esqueceu de nada?

– Ah, claro, claro. O tapete atual…bem, poderíamos doá-lo…

– Boa idéia, boa idéia! Pena que não é dele que estou falando. Será que você poderia me informar que caso é esse? Quanto iremos receber? Quando iremos falar com ele?

– Ah, claro, claro. Que cabeça a minha, não? Bem, deixe-me ver: não se te dizer quanto iremos ganhar, não sei o que iremos fazer e, por fim, nossa carona chegará exatamente… daqui uns…ah, agora!

Mal o Leão terminou de falar e a portaria do prédio ligou para avisar do táxi que os aguardava. O Leão apanhou seu companheiro de apartamento pelo braço e nem lhe deu tempo de protestar, tinham um trabalho a fazer!

 

 

 

 

Triângulo das Bermudas

Posted in Conto with tags , , , , , on 29/01/2011 by caioguilherme

A cabeça parecia descolada do corpo enquanto a mão esquerda parecia colada até demais. O braço esquerdo – e toda a sua extensão – formigava e parecia ter dormido debaixo de um navio baleeiro cheio de óleo de cachalotes.  Formigamento era a palavra de ordem no seu corpo, pois assim que juntou forças para abrir os olhos, a cabeça se rejuntou ao pescoço e passou a formigar na mesma sintonia do braço esquerdo. Logo, todo o corpo estava formigando. Possivelmente, ele pensou, fora atropelado por uma manada de elefantes que se esqueceram de avisá-lo do fato e de deixar o número de suas respectivas placas.
Até os olhos, ao se abrirem lentamente, formigaram. Podendo enxergar percebeu que o surpreendente calor e abafamento eram os rotineiros calor e abafamento de seu próprio quarto multiplicados por 100 e transformados numa grande surpresa por uma ressaca causada por algo que não conseguia se lembrar de ter tomado. Ficou preocupado com os velhos ditados sobre bebedeira, mas a ausência de um tipo muito específico e pouco desejado de dor trouxe-lhe alguma tranqüilidade. “Nem sempre a falta é inimiga da perfeição”, pensou todo orgulhoso da sua capacidade de dizer e pensar coisas bonitas. A egotrip combinada com a continuidade da virgindade anal lhe animou um pouco e quase sem esforço conseguiu se arrastar vexatoriamente para o chuveiro. Esticou uma mão trêmula e desligou a resistência, tinha certeza de que a água fria era o único remédio para os seus males.
Como óleo fervente uma água teoricamente fria começou a ser despejada em seu corpo, deveria ser tarde e o sol deveria estar caprichando na tarefa de esquentar água naturalmente. Os sentidos tinham perdido qualquer significado dentro de toda aquela fumaceira e ele logo terminou seu pseudo banho. Enxugou-se numa toalha encardida, voou para o quarto e se vestiu com roupas leves.
– Assim é bem melhor, não é mesmo?
Assustado ele se virou e percebeu que durante todo aquele tempo tinha visitas. E, o pior, além de vê-lo de ressaca, depois tomando banho e se vestindo, a visita não era um ser humano. Um enorme leão de pé em duas pastas fumava um charuto enquanto ajeitava seu paletó e sua gravata e sorria para seu anfitrião.
– A vida é assim mesmo. Enquanto uns tão de bermudão e camiseta de algodão, outros ficam presos em ternos de lã. E como agravante, ao menos no meu caso, são peludos pra cacete.
Dentro das circunstâncias não encontrou palavras para responder e coçou a cabeça, um pouco confuso. Será que os amigos haviam lhe inscrito em alguma pegadinha do Silvio Santos? Se fosse o caso, o Liminha estava muito bem fantasiado. Pensou em gritar e se fazer de assustado, nem por medo e nem por pavor, mas por respeito mesmo, que um trabalho de produção daqueles não podia ser menosprezado e tratado como algo normal do dia a dia, com indiferença e preguiça. Absorto nessa reflexão sobre respeito e amor ao próximo nem conseguiu se perceber apontando para uma placa ao lado do espelho e dizendo:
– Nessa casa não se fuma.
O leão, tão surpreso quanto ele mesmo estava com o que havia dito, apagou o charuto com a língua e com certo despeito disse:
– Se está escrito, não precisa ler. Já fui alfabetizado.
Definitivamente não era pegadinha do Silvio Santos. E nem o Tiririca em algum novo quadro do Show do Tom. Nesse momento percebeu que a vida era daquele jeito mesmo, cheia de revelações bombásticas que uma pessoa não pode ir dormir sem saber. Tinha um leão fumante, inadequadamente vestido e meio rude no seu quarto. De novo, se pegou dizendo algo sem a devida ponderação:
– Nessa casa não se usa ternos. – Disse isso com certa raiva e apontou para uma placa ao lado daquela que estava ao lado do espelho. E Depois completou – Sinceramente, eu não leria as placas se o senhor se desse ao trabalho de respeitá-las.
O leão ficou visivelmente nervoso, mas contou até dez e foi ao banheiro. Voltou vestido de maneira mais casual e guardou o terno, a gravata e o charuto numa mochila. Desta retirou um chapéu panamá, uma garrafa de uísque, um copo e alguns cubinhos de gelo. O rei das selvas preparou seu drink e bebeu bastante satisfeito.
Ele, o dono da casa, perante a incrível cena que presenciava disse- dessa vez com bastante certeza daquilo que estava dizendo:
– Nessa casa não se bebe álcool. – E apontou para outra placa do lado daquela placa do lado da placa que estava do lado do inofensivo e, sem nenhuma proibição, espelho.
O leão, decidido a não mais ouvir proibições retrucou:
– Hipócrita, na frente de todo Mundo você fuma, usa terno e bebe todas. Agora, em sua casa, quer dar de santinho para cima de mim?
Vermelho ele pegou o leão pelo braço e saiu do quarto. A dupla parou na sala e ele abriu a porta, indicando a saída. Nessa posição disse:
– Oras, são assim que as coisas são.
O leão ficou visivelmente triste e disse:
– Mas eu sou um amigo que veio te visitar. Você vai mesmo me expulsar?
Ele não se demonstrou abalado, pegou a mochila do leão e a jogou para a fora. O leão lentamente se dirigiu para a saída, parando na soleira da porta, encarando-o com uma tristeza de dar dó e pedindo, com o silêncio que só traduz mensagens pelo olhar, desculpas por ter taxado o dono da casa de hipócrita.
Seu quase ex anfitrião continuou sem se abalar e disse, enquanto fechava a porta de casa:
– Saia por ai e espalhe a notícia: há um novo xerife na cidade.

FIM.
29/01/2011

Num grito de ódio

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , on 26/01/2011 by caioguilherme

As coisas aconteceram depois dos turcos e antes dos ingleses, na época dos russos. Não se podia ir ou vir, era cada um em seu lugar, fazendo aquilo que Deus mandou. O castelo do antigo Rei fora posto em pedras e reuínas de sal. Os turcos eram terríveis e rudes, mas nunca tocaram em nada que era do reino, tal ousadia só coube aos temíveis russos. Os turcos só queriam trigo e ouro, os russos queriam tudo e mais um pouco, estavam atrás de sangue e de almas. Quem viveu a saída de um e  a chegada de outro, vivia lamentando a partida dos antigos senhores.

Era sobre os russos que a vingança viria, foi isso que o vento frio contou para todos os loucos da região. Trancados em suas cabanas de madeira mofada os velhos ouviram um chamado e sairam repetindo uma profecia de vingança. A palavra de loucos, velhos e bêbados se propagou por todos os campos e cantos e o povo passou a esperar o retorno do Pai, aquele mesmo que tinha sido expulso e exílado.

Quieto o povo apanhava e era humilhado. Ouvia os sussuros azedos da vingança e viviam na espera da libertação. O Rei, o Pai viria e libertaria a todos para sempre.

Um dia veio uma tempestade. Chuvas e raios varreram os campos. A colheita perdida ardia em chibatadas dadas pelos russos. Ratos e gatos mirrados viravam o pão dos pobres. Cebolas murhcas e secas viravam sonhos dos mais loucos e ousados. A úncia luz era a dos raios. Escuridão, fome e russos pareciam conspirar pelo fim de todos.

Para o futuro os russos planejavam matar a todos e substituir pelos seus próprios camponeses. O trigo daria lugar para as batatas e o vinho do povo daria lugar para a vodka dos ricos. No fim da tempestade todos iriam morrer.

Durante a pior das noites e quando as profundezas pareciam tomar todo o povo apareceu um velho cinza, suado, enfurecido, rasgado e marcado , caminhando entre um bastão e um conjunto de trapos. De natureza raivosa ele tinha vindo para se vingar de todos, de destruidores e colaboradores, de vitimas, de vencedores e de vencidos.

Carregando seu pesado bastão ele parou numa pequena praça e o povo o seguiu em procissão. O povo atravessou a fome, a morte e a chuva pra vê-lo, sentí-lo, mas nunca tocá-lo. Adoraram-no como um rei, em meio de raios estava o pai expulso e ofendido, retornado de sua longa viagem. Um santo resgatando o seu povo.

Os russos mandaram soldados para lá. Todos os destacamentos possíveis e imagináveis enviados para conter a aglomeração absurda. Montados em cavalos oficiais e autoridades sanguinárias se deliciavam com as atrocidades que soldados tolos, amedrontados e sem vontade iriam cometer. Os raios e a chuva assustavam os cavalos.

O velho da tempestade, o rei, o Pai ergueu as mãos e num grito de ódio os trovões aumentaram terrivelmente, assustando os cavalos dos russos. Todos os soldados caíram no chão e se viram cercados pelo povo, que logo matou a todos. O velho virou suas costas para a ação e partiu. Ele foi seguido por quase todo o povo, os que mais mataram eram os primeiros da fila. O grupo de assassinos esfarrapados se perdeu com seu mentor em meio ao frio noturno e a tempestade.

As chuvas e as trevas duraram mais três dias e acabaram com o trabalho de um ano inteiro. Quem viu e ficou, sofreu. Quem foi nunca mais voltou e foi assim que nosso reino voltou a ser livre.