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Não estamos livres

Posted in Conto with tags , , , , , , on 14/02/2012 by caioguilherme

Eu caminhava com passos vacilantes por causa de uma queda. Não eram tempos fáceis, os antibióticos e os analgésicos se combinavam para me fazer esquecer onde estava e quem era. Uma confusão crônica se apossara de mim e por maior que fosse o meu esforço, eu pouco lembrava das coisas.

Uma vida sem lembranças era como uma prisão dentro da mente. Eu manquitolava pela casa e não me deixavam sair, com medo que  me perdesse para sempre. Mal sabiam eles, que eu já estava profundamente perdido. Um joelho estourado não era nem um pouco fácil. A dispensa do serviço foi fácil de obter, ninguém lá queria lidar comigo.

Ninguém em nenhum lugar queria lidar com nada, com qualquer problema que fosse. Com a Tv eu conhecia o Mundo e o que via era uma multidão exigindo respostas, panacéias mágicas por parte dos arautos do moderno e do melhor. Políticos ofereciam visões cínicas e desejam um Estado que não precisasse de todos esses escravos. Parir, educar, alimentar e direcionar estavam se tornando atividades cada vez mais indigestas e trabalhosas. “É o final dos tempos”, dizia um grandalhão de terno e bravatas em um programa qualquer.

Não reconhecia as minhas coisas como minhas. Elas estavam simplesmente lá, nas gavetas, nos armários, mas eu não as reconhecia. Às vezes procurava coisas que me explicassem onde estava, quem fui e o que fazia. Pouco ou quase nada elas podiam me dizer. Percebo, hoje, que o valor dos objetos não está nos objetos, mas no que achamos lembrar deles

Um dia achei uma máquina velha e poeirenta. Não contei nada para ninguém. Vi as fotos e elas diziam muito pouco. Forcei as barras de minha prisão e escapuli pela janela, o que valeu um inchaço bastante grande no joelho avariado. Corri pelas ruas do bairro, meu medo era ser reconhecido e preso. Levado de volta para casa. Um brinquedo de corda dos habitantes, que se frustravam com meu estado apocalíptico e caótico. Livre, chorei. Pois livre pude perceber o quão estava preso.

Largado em qualquer lugar, fui até uma praça. Olhei e comecei a fotografar tudo o que via. Meus olhos não reconheciam nada, mas talvez os da máquina pudessem me ajudar. Aprendi na Tv que o mundo é captado pela tela, assim, nada mais natural.

Fotografava loucamente em busca de mim mesmo, quando um jornal me chamou a atenção. Esparramado no chão, sem qualquer tipo de nexo e lógica ou notícia que me fosse interessante. Assim mesmo tentei captá-lo de todos os ângulos e lados. Li as manchetes com intensidade e me lembrei.

Voltei para casa para nunca mais esquecer. Não estamos livres.

Um encontro entre luz e movimento

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 08/01/2012 by caioguilherme

Naquela época eu acordava junto do sol. A transição da escuridão para a luz servia como um despertador cósmico e eu nunca me sentia com sono ou com vontade de ficar mais tempo na cama. Simplesmente acordava, me arrumava e partia. O café preto era uma água benta e eu o tomava apreciando o céu laranja – fruto da santa poluição de cada dia.

O silêncio do despertar só era abalado ao sair de casa. Carros, maritacas, pessoas, pombas e meus pensamentos adquiriam vida e ecoavam por toda a extensão do meu ser. O caminho de casa para o trabalho era percorrido a pé todos os dias. Sempre o mesmo trajeto percorrido do mesmo jeito e no mesmo tempo. Fosse inverno ou primavera, outono ou verão, o caminho era sempre aquele e não havia do que reclamar. Nada mudava, tudo mudava.

Nunca me esqueci de um inverno em que sai de casa e o céu não estava laranja. Uma névoa branca e espessa dominava a existência de forma impiedosa e cobria todo o caminho. Durante semanas meus pulmões não funcionaram direito, tentando superar e expelir aquela névoa matinal. O frio naquele dia me derrubou até os ossos e, apesar de ter acordado bem disposto, senti dores terríveis pelo dia todo. Meu ouvido esquerdo parecia tomado por um estranho vácuo e o ar frio penetrava por ele, me deixando confuso e tonto. A voz embargou e meus pensamentos cessaram apesar de todos os esforços por acelerá-los. Só com muita dificuldade cheguei em casa naquele dia. Comi um lanche de carne com bacon e uma coca-cola quente e passei todo o fim de semana acamado e febril. Não consigo precisar qualquer dado sensorial daqueles dias. Mas fico feliz ao perceber que nunca mais fiquei doente depois daquela ocasião. Era como se toda a fraqueza purgasse ao mesmo tempo e sumisse ao fracassar na sua tentativa de guerra total.

Meus melhores momentos foram na primavera. Ao sair de casa encontrei um grande número de cães passeando com seus donos, aproveitando os poucos minutos antes do trabalho e da corrida contra a vida. Pássaros verdes, bravos e raros dominavam todos os postes do bairro e espantavam as principais pragas urbanas. As maritacas eclodiam de seus ovos, espantando as pombas em seu espetáculo de cor e berros nervosos.

Nestes dias eu não precisava vestir cachecóis e meus ossos não doíam. Às vezes a luz se tornava tão intensa que eu não conseguia pensar e minha cabeça começava a doer. Minhas mãos inchadas confundiam as texturas e eu simplesmente deixava de existir, perdido em sensações. A realidade não reconhecia ordens, sentidos e informações, nada era processado naqueles momentos. Sem ar eu sentava nas guias e todos os passantes me ignoravam com seus olhos vazios, tortos e incomodados. Só cães e suas pulgas se preocupavam com minha existência em meio a enxaqueca.

Apesar dos pesares, a primavera era a minha melhor época e suas belezas eram muito mais constantes do que o excesso dos sentidos. A beleza se espalhava por todos os lugares e não se resumia aos pássaros ou às flores. Em uma tarde qualquer, cruzei com uma grande árvore com seu tronco aberto, parecendo um ventre. Em seu canteiro milhares de cupins voadores amontoavam-se, uns em cima dos outros. Do interior do tronco uma dezena de insetos voadores e devoradores alçavam vôo, gerando um brilho magnífico quando o sol do entardecer refletia em suas asas.

Era uma verdadeira sinfonia, um encontro entre luz e movimento.

Até hoje eu me lembro de que enquanto eu observava aquele velho tronco todo o resto da realidade se apagava, tornava-se preto e branco. Pela primeira e última vez eu consegui escutar o silêncio fora de casa, na rua.

Por: Caio Fernandes

Considerações sobre o Final de Lost II

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

Depois dessas considerações sobre o seriado em si e a tradição literária de onde ele vem e dialoga resta pensar um pouco sobre essa temporada e o final de Lost, exibido dia 25 de maio no AXN. O objetivo, como ficou bem perceptível no texto anterior, não é mastigar e “dar” as respostas que dizem que Lost não deu.

Basicamente, a Ilha é um pedaço de terra relativamente pequeno e cercado pelo mar em todos os lados. Se fosse cercado só em 3 lados e fosse ligada por um faixa estreita com um pedaço de terra a ilha seria uma península, tipo Portugal e Itália…brincadeiras a parte, ao pensar na Ilha e em suas propriedades estranhas a gente tem que fazer o paralelo com o próprio planeta Terra. De onde veio o primeiro habitante? Se ele existe, alguém o criou. Se alguém o criou, quem foi? Se foi algo que chamam de Deus e ele existe, necessariamente alguém o criou. E quem foi que criou Deus? Um Deus acima de Deus? E quem criou esse Deus acima do Deus que criou o homem e o pôs na Terra? Isso é o que teólogos e físicos chamam de regressão infinita. Quando os telespectadores começam a se perguntar, quem criou e quem era a moça que cuidou do Jacob e do irmão, acabam caindo nessa mesma armadilha. Quem foi que colocou aquela mulher lá? E quem foi que permitiu/criou o sujeito que foi lá na Ilha e colocou a mulher que deu lugar ao Jacob? Como ela mesmo disse no episódio Across the Sea, uma resposta para esse tipo de pergunta, gerará mais duas.

Entre os historiadores algo que é bastante comum é evitar esse tipo de pergunta e especulação e se concentrar no que é perceptível ou dado, como, por exemplo: Os portugueses sabiam ou não da existência do Brasil antes de 1500? Se sabiam, quem foi que descobriu? Será que foi mesmo Cabral? Cabral sabia que existia algo lá? Quem contou para ele? Tais questões não podem ser respondidas pelas evidências existentes nas fontes históricas conhecidas, mas a partir da constatação de que em 1500 eles oficializam uma posição e passaram a ocupar o “Brasil” é possível questionar sobre os interesses, as ações, os desenvolvimentos e as relações deles com a terra descoberta. O importante no Mundo não é pura e simplesmente perguntar, o pulo do gato está em saber fazer a pergunta.

Feita essa pequena digressão sobre as perguntas é possível pensar melhor sobre a Ilha. O lance não é ficar pensando em criou o quê e quando, se não existem elementos que permitem refletir sobre isso. O seriado dá o seguinte: a Ilha existe, não faz parte do espaço-tempo normal e possui uma estranha energia em seu núcleo, que é defendida por uma pessoa possuidora de algo especial, contra qualquer ser que tente ameaçá-la. Logo vem a mente o Triângulo das Bermudas e suas estranhas manifestações magnéticas. Em um lado mais bizarro pode-se até dizer que foi um meteoro que caiu lá e emana uma energia especial, ou que Moisés enterrou a pedra dos 10 mandamentos lá, ou que a lança que matou Jesus está enterrada por ali, ou que Aliens pousaram sua nave lá e deixaram uma criatura feita da mistura de seu DNA com o DNA de um macaco, cuidando do lugar. O barato do seriado, como perceberam os mais espertos, é o múltiplo viés de interpretação que ele permite para várias coisas. Os acadêmicos que estudam literatura nos últimos anos perceberam que um texto rico, de qualidade, por exemplo, não possui só a leitura que seu autor imaginou, ele dá espaço para diferentes leituras de diferentes leitores, já que cada um desses possui bagagens diferentes entre si e diferentes do autor. É óbvio, que o que está escrito está escrito e traça os parâmetros básicos da interpretação, mas dentro desses limites existe uma infinidade de coisas, como existe entre o número 0 e 1.

A Ilha possuidora dessa energia estranha navega como que aleatoriamente pelo planeta Terra. Uma hora ou outra alguém desde um desavisado mercador fenício até um piloto de avião fazendo uma volta ao Mundo acaba dando de encontro com ela e caindo por lá. Eis ai a explicação de uma primeira ocupação da Ilha. Num momento pós Jacob, já foi deixado bem claro que ele usa de suas atribuições especiais para atrair pessoas até lá para tentar mostrar a possibilidade de bondade humana para o monstro de fumaça e, com alguma sorte, encontrar uma pessoa que lhe substitua. Ele não é infalível ou onisciente, mas é detentor da possibilidade de fazer as regras dentro da Ilha, já que é o dono do jogo, e possui um bom conhecimento proveniente de anos e anos de observação e de uma vida sem Tv.

Os outros e a Iniciativa Dharma lá viveram por vontade desse tal de Jacob. Uns foram trazidos por ele, outros descobriram como chegar lá, com um empurrão dele. Os outros tentam, por sua vez, levar uma vida bacana, calma e tranqüila, pautando-se pelas escolhas certas e não pelo que o monstro de fumaça diz, o seriado demonstrou várias vezes que eles na maior parte do tempo não conseguiram. Os malucos da Dharma buscavam pelo conhecimento, pela manipulação de energias de enormes potencialidades e aplicações. Sua ação termina quando, influenciados pelo monstro de fumaça, os outros resolvem exterminá-los de vez.

O irmão de Jacob vira o monstro de fumaça ao ser jogado, morto ou inconsciente, dentro da gruta onde a energia que move a Ilha se faz mais perceptível. Em Across the Sea, a mãe do Jacob explica que aquela Luz é a mesma coisa que está dentro de todas as pessoas. Filosoficamente isso se liga com a idéia de que dentro de todos os seres humanos existem em igual quantidade potencial para o bem e para o mal, bondade e maldade, que cresce ou diminui na relação com o Mundo e a partir das nossas escolhas. Quando Jacob joga o irmão dele dentro da Luz, o potencial para o mal é liberto, torna-se consciente e capaz de interagir, apesar de estar preso as regras impostas pelo guardião da Ilha. A partir desse momento, a Ilha deixa de ser só um lugar que se move aleatoriamente no planeta, para ser a prisão para a maldade que antes existia presa no centro do ser humano com a luz. O responsável por libertá-la dessa condição primeira, torna-se o responsável por impedir que essa criatura com poderes e cheia de maldade e descrença em relação ao ser humano se liberte e possa existir sem as regras que lhe são impostas na Ilha. Como ser inteligente e consciente que é, a nuvem de fumaça/irmão do Jacob traça planos para eliminá-lo e o Jacob sabe que ela é muito mais esperta do que ele, tomando como missão paralela achar seu substituto.

Os outros e a Iniciativa Dharma lutam entre si e os outros atacam aqueles que vieram no avião e etc, por influencia negativa do monstro, pela influencia e regras do Jacob e porque o conflito faz parte da natureza humana.

Toda essa “mitologia” dá série, explicada na sexta temporada dá conta das visões que alguns personagens tem, da aparição de pessoas que morreram (fumaça preta), da cura do Locke, da Rose, dos poderes especiais do Desmond e de um monte de situações estranhas, como a escotilha e os ursos polares.

Continua em um próximo texto.

Abraços

Caio

Algumas considerações sobre o fim de Lost…

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

 

Depois de 6 anos e não sei quantas centenas de episódios o seriado Lost encontrou o seu fim. Em geral o público e a crítica não gostou do modo como tudo foi encerrado e argumentos como “manipularam a gente para assistir, nos enganaram e desperdiçamos 6 anos de nossas vidas…” têm sido bastante recorrentes, como se o JJ Abrams, Lloyd Braun e Damon Lindelof tivessem assinado um papel dizendo que o seriado seria uma panacéia para todas as dúvidas e males da humanidade e depois tivessem criado um grande esquema de manipulação e obrigado todos a assistirem o seriado, que em seu fim não cumpriu o prometido e deixou todo Mundo na mão, esperando a cura do câncer ou algo assim.

Fico apreensivo quando a massa dos telespectadores recorre a esse tipo de argumento, pois isso demonstra como eles, em sua maioria, recusam sua autonomia no que vão assistir, tendem a imputar a terceiros a responsabilidade pelo bom ou mau uso de seu tempo e acabam esperando algo demais de uma obra que em primeiro lugar tinha como objetivo entreter, não sendo feita para educar ou oferecer soluções para os problemas da humanidade. Quanto a  crítica, esta ao embarcar no bonde geral dos telespectadores demonstra o como ela tem dificuldade de compreender as estratégicas básicas dos folhetins do século XIX, coisa que influenciou bastante o modo como o seriado era conduzido (como a solução de um conflito de um episódio só no seguinte e etc…), e também de medir quais eram os objetivos e parâmetros pelos quais os autores de algo se guiaram.

Pelos motivos acima, eu não concordo muito com a maior parte das críticas feitas e pretendo, na medida do possível, rebatê-las fazendo algumas considerações sobre o seriado Lost e as raízes, tradições e pretensões com que este dialoga.

Em primeiro lugar é importante perceber que Lost é uma peça de ficção, com forte diálogo com a tradição literária e que nunca pretendeu ater-se ao campo da razão, do crível e do possível. Além disso é um produto da Industria Cultural, que tem como objetivo principal ganhar dinheiro com entretenimento, e devido a sua grande qualidade ultrapassou as fronteiras e limites dessa sua condição inicial, tornado-se – sem exagero – uma obra de arte, uma narrativa épica como a Ilíada e a Odisséia. O que quero dizer com isso?

Simples, quero dizer que Lost é uma narrativa de algo que não aconteceu no Mundo real e histórico, que bebe em diferentes tradições ficcionais e narrativas e que não pretende ser um retrato social, político, científico ou econômico de uma época, ou seja, não é uma obra com os objetivos de um livro do Realismo, por exemplo. Durante seu desenvolvimento, o seriado dedica-se a discutir aspectos Universais da condição humana e faz isso frente a acontecimentos fora do comum, com elementos de sobrenatural e divino, sem se preocupar com a verossimilhança com a realidade e com um tempo específico, sendo, então, algo como um mito.

Essa percepção é essencial para poder embarcar na viagem que os autores propuseram, mesmo sem ter plena noção do que estavam fazendo e tendo de corresponder em alguma medida às necessidades comerciais do empreendimento, e assim poder apreciá-la, entendê-a e critica-la.

Oferecer mistérios e não solucionar conflitos em um episódio e só resolvê-los nos seguintes é uma característica muito comum aos folhetins do século XIX, onde era preciso criar algo que fizesse o leitor comprar o jornal do dia ou da semana posterior. Lost em meio a sua narrativa épica, onde fé e razão, relações humanas, livre arbítrio, noções de tempo, ciência e espiritualidade são discutidas, oferece uma porção de mistérios, que servem para atrair espectadores. Nesses 6 anos os mistérios foram surgindo por forma de camadas, onde a “resolução” de uma coisa, gerava ainda mais dúvidas e essas novas dúvidas traziam novos problemas, que possuíam novas respostas, que, por sua vez, traziam novas questões.

No século XIX, Edgar Alan Poe traçou as linhas que serviriam de guia para os Contos e Romances Policiais. Nestes, um detetive é apresentado aos vestígios (evidências) de um acontecimento e através destes o reconstituí, oferecendo respostas do tipo como, onde, quem e o porquê. Livros como os do Sherlock Holmes e seriados da franquia CSI fazem parte dessa tradição. O espectador ou leitor acompanha o detetive e observa as mesmas evidências que ele, tendo a ilusão da chance de resolver o enigma, e no final recebe uma explicação de quais e como essas evidências permitiram responder as perguntas básicas que expus acima. Geralmente um seriado como CSI irá fazer isso através de um diálogo entre o detetive e uma outra pessoa, onde um flashback irá recordar tudo o que foi visto e o detetive vai explicar como ele ligou uma coisa com outra, sem deixar espaços para dúvidas. Essa explicação tende sempre a fugir um pouco da visão do espectador, que até conseguirá descobrir quem matou e coisas desse tipo, mas nunca terá um insight como o do detetive. É só pensar em no House e no como ele sempre tem uma noção, uma intuição e um conhecimento absurdamente superior ao dos seus assistentes.

Lost não compartilha dessa mesma tradição do Conto/Romance Policial do século XIX e de Alan Poe. Os mistérios são apresentados sem vestígios ou evidências e suas soluções são apresentadas dentro da própria narrativa, dentro dos detalhes e daquelas coisas que parecem pouco importantes. No Romance Policial o jogo é fazer uma reconstituição enquanto que na tradição da qual Lost faz parte o essencial é prestar atenção e interpretar, olhar o detalhe, perceber, interpretar, discutir com amigos e entender. O Jack e o Locke, por exemplo, não estão na ilha para descobrir quem é o monstro, o que foi a Iniciativa Dharma e quem é o Jacob, estão lá vivendo conflitos de sobrevivência, de fuga ou permanência na ilha e essas são suas questões. O Jack só quer ir embora e para o personagem dane-se a Iniciativa Dharma, a dúvida e apreensão sobre ela atinge o personagem, mas não se torna seu mote, ele não está lá como um detetive, para responder essa questão, ele está lá querendo ir embora e nessa jornada acaba lidando com coisas que permitem ao leitor interpretar e entender o que esta era, sem o personagem precisar dizer: “Isso aqui era por causa de X, que se relacionava com Z e pronto, é isso e é elementar, meu caro Watson”.

Talvez a coisa mais sensacional do seriado seja exatamente isto, não oferecer respostas prontas e dá-las de bandeja ao telespectador. Seu caráter de narrativa épica torna Lost uma peça de ficção sobre o homem e suas questões Universais, fazendo encarar seus dilemas elementares ao lidar com as situações mais inusitadas, no caso viagens no tempo, uma ilha misteriosa e um conflito entre dois irmãos que a muito não são humanos. Pensando em outros épicos, a gente vê que os temas também sãos os Universais, amor, ciúme, saudades, etc, onde personagens como um Ulisses tem de lidar com um Poseidon vingativo e cruel, que não quer que ele volte para casa, ou um Heitor tem de defender seu irmão e cidade, lutando com um sujeito como o Aquiles, cujas chamas dos deuses tornaram indestrutível.  O bacana é que apesar do quão absurdo algumas coisas se tornaram em Lost, essa discussão sobre o básico do homem não se perdeu em momento algum.

É claro que essas considerações não dão conta de coisas esdrúxulas, como a criação de triângulos e quartetos amorosos, muito para satisfazer a audiência, ou alguns erros de produção e roteiro, como no caso do Walt, mas servem para perceber que as exigências feitas ao seriado de forma alguma são condizentes com as próprias pretensões deste. Críticas falando em mistérios não resolvidos e em manipulação ou desperdício da vida de quem assistiu, não cabem, pois Lost cumpriu seu objetivo primeiro, que era oferecer um passatempo/entretenimento para as pessoas que isso buscavam na frente da Tv. Sim, a emissora, atores, produtores e etc ganharam rios de dinheiro, mas os programas da Tv comercial exigem isso, atrair audiência para vender mais e mais caro suas cotas de marketing, o que, a principio, não lesa ninguém, até porque todos temos autonomia de buscar aquilo que nos diverte e como passar nosso tempo, sem que essa escolha diga respeito ou seja culpa de alguém. Talvez seja hora, do telespectador refletir sobre o que faz da sua vida e de seu tempo livre, ao invés de culpar profissionais que tentam ganhar a sua. E também buscar estímulos para a sua própria inteligência e reflexão sobre a vida sem se limitar a tudo aquilo que é óbvio ou enlatado.

Pensando o seriado pelos parâmetros pelos quais os autores tentaram levá-lo, só resta dar os parabéns e deixar para comentar o último episódio especificamente numa próxima ocasião.

 

Abraços,

 

Caio

Uma crônica sobre talento.

Posted in Crônica with tags , , , , , , , , on 15/04/2010 by caioguilherme

No Campeonato Paulista de 2009 o volante Hernanes, do São Paulo, fez um belo gol de sem pulo. Mesmo superado alguns meses depois pelo gol incrível de Diego Souza, do Palmeiras, o sem pulo de Hernanes não foi esquecido por mim. E foi por um motivo que talvez vá um pouco além dele: os comentários que gerou.

Praticamente abandonada na parte cultural dos jornais a Crônica ainda ganha alguma relevância na seção esportiva. Alguns autores resumem-se aos comentários rotineiros e essencialmente jornalísticos, isso um pouco pelo mau exemplo dos escritores do caderno cultural, como o Ferreira Gullar e o Veríssimo, que têm se limitado ao caráter colunístico, não atingindo o fazer literário, pelo qual se consagraram. Tostão não. O velho jogador de futebol escreve, algumas vezes, textos tão memoráveis em sua coluna/crônica quanto são belos alguns lances e gols, como o sem pulo de Hernanes é um exemplo. É como que se impedido pelo tempo de jogar bola magistralmente, Tostão extravasasse o algo mais que possui para o papel, na escrita e na poesia do futebol.

Sem saber ao certo como estava fazendo aquilo, o velho jogador de futebol escrever com suas enrugadas mãos uma belíssima crônica sobre o gol do jovem Hernanes. Tão bela quanto o gol e uma tarde ensolarada de outono, a crônica comentou o lance fazendo com que o leitor notasse o quão mágico era o talento do jogador e o quão interessante era o fato de que ele realizava o lance sem nem entender ou conseguir construir racionalizações sobre os místicos e técnicos recursos físicos e espirituais que lhe permitiam fazer aquele gol.

Achei engraçado quando percebi algo sobre o Tostão. Ele, muito possivelmente, não sabe ao certo o como e o porquê de aquele seu texto ter tanta qualidade e vencer a barreira do jornal e do efêmero que os outros colunistas têm se mantido tão fiéis e tão felizes por tanto tempo.

O Talento é algo assim mesmo, de mágico e irracional, de momento e de inspiração. A Técnica está no oposto, ligada com o racional, com o previsível e com a transpiração,  tão alardeada pelos escritores atuais, numa tentativa de valorizar sua profissão perante a sociedade – necessidade que talvez não exista, talvez exista.

Entre Técnica e Talento, entra a transpiração e a inspiração eu me coloco a favor do Talento, pois este gera aquilo que é belo e imprevisível, algo de único, como sem pulo de Hernanes e Diego Souza, a crônica de Tostão e uma tarde ensolarada num outono qualquer.

O que poderíamos estar fazendo.

Posted in Poesia with tags , , , on 20/01/2010 by caioguilherme

Estar sentados

beijando em frente ao lago

caminhando, lado a lado,

dedos todos entrelaçados

Poderíamos estar beijando

num escuro de cinema

em uma esquina qualquer

proque o que importaria

era estar onde você estiver

Num parque ao meio dia,

juntos fazendo rimas

passando umas horas divertidas

curtindo, noite e dia

como há muito não acontecia

Agora, onde estamos?

Longe é um estranho lugar,

mas, no fim das contas, onde poderíamos estar?

Juntos?

Talvez…

Poeira nos olhos.

Posted in Poema em Prosa with tags , , , , , , , on 04/01/2010 by caioguilherme

 

 Por: Caio Guilherme

Escrito em: 04/01/2010.

A poeira espalha-se por todos os cantos na espera de um sinal. Não, não um sinal. Uma resposta. Isso, uma resposta. Seria excelente. Coce os olhos. A resposta não virá nunca. Nunca, nunca diga nunca e escute o que eu digo, nunca escute ninguém. A poeira só se faz acumular caso a força da inércia não seja vencida. Força para vencer a falta de movimento. Inércia 1. Força para vencer o excesso de movimento, é a inércia 2. Caramba, nesse Mundo só tem coisa bastante errada, nisso 2010 vai ser igualizinho a 2009. Começou igual. Chuva, chuva, chuva. Não em Sta Catarina, dessa vez no Rio. Ainda bem, as loiras estarão a salvo. Que a usina seja tomada pelo barro e os prótons, nêutrons e que toda a radiação do Mundo varra todos daqui, rápida e eficazmente. Ou não. Há beleza. Sim, sim, há beleza no Mundo apesar da poeira. É só vencer a inércia e procurar. Talvez. Não se sabe. O que acho é que tem gente feia demais em todos os cantos e beijamos bocas que só a falta pode explicar. Quem se arranja, se arranja porque baixa o nível. Bastante. Tanto recusamos o mediano que a solidão nos faz abraçar o medíocre e isso no pior sentido da palavra, bem longe da significação tocquevilliana.

Eu falo por mim e por você porque no fundo no fundo, você sabe que estou certo. Não precisa fazer sentido, é só soar e parecer bom. Pomposamente, superficialmente. Vencer a inércia, tanto a 1 como a 2. Os músculos doem e ninguém quer trabalhar. Eu sei que eu não. Não dá para sentir vergonha duma coisa dessas, é que nem a poeira que acumula-se pelos cantos. Tão quieta e bela, bem melhor que a ausência de resposta ou significado.

Vai saber o que vem depois da barreira da inércia. O caminho é uma fronteira e a inércia é tentação. A poeira nos olhos, queima.