Arquivo para Alucinação

Não estamos livres

Posted in Conto with tags , , , , , , on 14/02/2012 by caioguilherme

Eu caminhava com passos vacilantes por causa de uma queda. Não eram tempos fáceis, os antibióticos e os analgésicos se combinavam para me fazer esquecer onde estava e quem era. Uma confusão crônica se apossara de mim e por maior que fosse o meu esforço, eu pouco lembrava das coisas.

Uma vida sem lembranças era como uma prisão dentro da mente. Eu manquitolava pela casa e não me deixavam sair, com medo que  me perdesse para sempre. Mal sabiam eles, que eu já estava profundamente perdido. Um joelho estourado não era nem um pouco fácil. A dispensa do serviço foi fácil de obter, ninguém lá queria lidar comigo.

Ninguém em nenhum lugar queria lidar com nada, com qualquer problema que fosse. Com a Tv eu conhecia o Mundo e o que via era uma multidão exigindo respostas, panacéias mágicas por parte dos arautos do moderno e do melhor. Políticos ofereciam visões cínicas e desejam um Estado que não precisasse de todos esses escravos. Parir, educar, alimentar e direcionar estavam se tornando atividades cada vez mais indigestas e trabalhosas. “É o final dos tempos”, dizia um grandalhão de terno e bravatas em um programa qualquer.

Não reconhecia as minhas coisas como minhas. Elas estavam simplesmente lá, nas gavetas, nos armários, mas eu não as reconhecia. Às vezes procurava coisas que me explicassem onde estava, quem fui e o que fazia. Pouco ou quase nada elas podiam me dizer. Percebo, hoje, que o valor dos objetos não está nos objetos, mas no que achamos lembrar deles

Um dia achei uma máquina velha e poeirenta. Não contei nada para ninguém. Vi as fotos e elas diziam muito pouco. Forcei as barras de minha prisão e escapuli pela janela, o que valeu um inchaço bastante grande no joelho avariado. Corri pelas ruas do bairro, meu medo era ser reconhecido e preso. Levado de volta para casa. Um brinquedo de corda dos habitantes, que se frustravam com meu estado apocalíptico e caótico. Livre, chorei. Pois livre pude perceber o quão estava preso.

Largado em qualquer lugar, fui até uma praça. Olhei e comecei a fotografar tudo o que via. Meus olhos não reconheciam nada, mas talvez os da máquina pudessem me ajudar. Aprendi na Tv que o mundo é captado pela tela, assim, nada mais natural.

Fotografava loucamente em busca de mim mesmo, quando um jornal me chamou a atenção. Esparramado no chão, sem qualquer tipo de nexo e lógica ou notícia que me fosse interessante. Assim mesmo tentei captá-lo de todos os ângulos e lados. Li as manchetes com intensidade e me lembrei.

Voltei para casa para nunca mais esquecer. Não estamos livres.

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Atlas

Posted in Conto with tags , , , on 05/02/2012 by caioguilherme

As gotas de suor caíram no chão, uma depois da outra, formando uma pequena poça d´água. Elas brotavam por todos os seus poros, mas só tinham dois caminhos, ambos extremamente irritantes, o primeiro era escorrer até o nariz, formando uma pequena goteira em sua ponta, o outro era escorrer até o queixo, forçando-o a sacudir a cabeça na tentativa de dar um fim no incomodo. Seria bom se ele pudesse usar as mãos, pegar um lenço e secá-las todas, mas não podia nem sonhar em se mexer, em romper com a rotina de milênios. Via-se forçado a fincar as pernas no chão, firmar os músculos doloridos e agüentar o enorme peso que carregava, sem descanso, sem redenção e sem satisfação.

Se alguém perguntasse a Atlas o que ele mais gostaria de fazer na vida, ele diria que era parar por um segundo, se sentir livre de todo aquele peso e relaxar, simplesmente relaxar, nem que fosse uma leve espreguiçada no sofá em um dia de calor, ele diria, com lágrimas nos olhos, que aquilo já era o suficiente. Estava ali há tanto tempo e as coisas se faziam cada vez piores, uns movimentos involuntários e as coisas escapariam ao controle.

Sentiu uma pontada no braço e vacilou um pouco. A Grécia sacudiu, uma grande onda nasceu e destruiu uma meia dúzia de ilhas asiáticas. Milhares de pessoas morreram. Semanas se martirizando, não pode se distrair, não pode fraquejar, tem de continuar firme e forte e segurar o Mundo, mesmo que este esmague seu espírito.

Ele não entendia muito bem o que estava acontecendo, as crianças riam enquanto os colegas ao lado iam sendo chamados pelos colegas da frente. Pouco a pouco cada “líder” ia escolhendo um amigo e pouco a pouco ele ia se sentindo pior.  Os minutos passavam e ao lado dele restaram os fracos: meninos de óculos, meninos ranhentos, meninos gordos, meninos vesgos, meninos gagos e meninos inteligentes demais. O professor não lhes deu muita atenção, mas anunciou que um último time ia ser formado. A turma riu do famoso “Time C”, os mais folgados sorriram com a oportunidade da vitória fácil. A humilhação foi realizada em pequenas doses rápidas, batalhas injustas e cruéis em que os fortes ficavam mais fortes e os fracos mais fracos, o professor lhes deu um medíocre 5 na nota final: “pelo esforço”, disse, “pela insistência ante o fracasso”.

 A hora do recreio ocorreu de forma tensa, não tomou lanche com ninguém, até tentou se enturmar, mas não era uma questão de escolha pessoal, era uma questão de ser escolhido: se ele não foi escolhido era porque tinha algo de errado, era um fracasso. A terra tremeu sob seus pés, seu espírito era esmagado um pouco mais entre lágrimas discretas, ele sofria em um canto escuro do pátio.

As páginas continuariam em branco, esbravejou ao editor enquanto jogava uma xícara de café no chão. Estava cansado de tentar achar o pensamento original. As páginas rasgadas e jogadas no chão eram as provas das lutas travadas nos últimos anos. Nenhuma história, nenhuma trama, nada, nem os personagens eram realmente verdadeiros. A técnica narrativa era um apanhado de letras e vírgulas copiadas e fundidas dos autores do passado. O editor o atormentava, falando que era só uma simples crise, que iria passar e ficaria tudo bem, mas ele sabia que não importava o que escrevesse, não importava a idéia que tivesse, alguém já teria escrito, teria pensado, teria realizado antes.

Os braços clamavam por sangue, os pulmões clamavam por ar enquanto o peso da originalidade perdida o esmagava, enquanto todas as idéias de todos os grandes artistas pesavam cada vez mais e mais e matavam qualquer chance de satisfação em sua vida.

Atlas praguejou e condenou todo o seu passado, não lembrava quais eram, mas desejou desfazer todos os passos dados em sua vida. O Mundo crescia, mais e mais pessoas surgindo, mais casas, mais fazendas, mais animais domésticos, barcos atravessando o planeta e homens ocupando lugares novos, comunidades se diluindo e inúmeros indivíduos surgindo todos os dias, livros, máquinas e idéias pululando por todos os lugares, o peso era demais, era muita coisa para ele sozinho. Indivíduos jogados em uma disputa cruel, sem ligações com as pessoas, grupos formados por lobos solitários, que escolhiam os bandos e os desfaziam quando queriam.

O olhar se confundiu, a vista tremeu um pouco e ele viu a árvore em sua frente, seus frutos dourados lhe davam água na boca, ele queria somente esticar seu braço e pegar uma frutinha só, satisfazer seu desejo e depois voltar ao dever.

Impossibilidade, a visão parou de tremer, um objetivo, morder aquela fruta dourada, sentir o estômago se acalmar e ficar livre do incrível peso do Mundo por, pelo menos, uns segundos. Trocaria a espreguiçada no dia quente, por aquilo: um pouco de satisfação. Pensou em seus irmãos de alma, naqueles que dividiam sua tensão e seu dilema, a criança era jogada na lama por mais um grupo que a rejeitou, o adulto se frustrava com o fato de ser ver obrigado a encarar a sua própria incapacidade de pensar e sentir algo não pensado e não sentido antes.

O peso do Mundo de Atlas, o peso da vida humana, o homem moderno, pós-moderno, avançado, o homem do auge da humanidade, sendo obrigado a reconhecer que não importa o que faça, o que pense, o que diga e o que queira, tudo já foi feito antes e, para ele, é extremamente impossível de se ver satisfeito, feliz e contente, cantando sua felicidade, deixando de perseguir terras santas imaginárias.

A humanidade de uns esmagando a humanidade de outros, coletivo e individual, um Mundo histórico pesando sobre todos, um Mundo Humano e Insatisfeito, Irrealizável e Cruel para que Atlas carregue sozinho.

As pernas se mexeram um pouco, ele ensaiou uns passos enquanto a grande esfera escorregava de suas mãos, os braços desabavam em um gozo de alívio, a esfera caiu lentamente enquanto Atlas caminhava, ele ia pegar a fruta dourada, ele ia ficar satisfeito, mas seu coração parou, sua mente falhou e antes que ele percebesse estava espatifado no chão, morto de cansaço, carregar o Mundo não era fácil.

E, incrivelmente, o Mundo não se destruiu no chão, não caiu a ponto de tocar o solo, recuperou a altura e continuou lá, calmo, girando sem nem perceber a dor do gigante que antes o carregava.

Um encontro entre luz e movimento

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 08/01/2012 by caioguilherme

Naquela época eu acordava junto do sol. A transição da escuridão para a luz servia como um despertador cósmico e eu nunca me sentia com sono ou com vontade de ficar mais tempo na cama. Simplesmente acordava, me arrumava e partia. O café preto era uma água benta e eu o tomava apreciando o céu laranja – fruto da santa poluição de cada dia.

O silêncio do despertar só era abalado ao sair de casa. Carros, maritacas, pessoas, pombas e meus pensamentos adquiriam vida e ecoavam por toda a extensão do meu ser. O caminho de casa para o trabalho era percorrido a pé todos os dias. Sempre o mesmo trajeto percorrido do mesmo jeito e no mesmo tempo. Fosse inverno ou primavera, outono ou verão, o caminho era sempre aquele e não havia do que reclamar. Nada mudava, tudo mudava.

Nunca me esqueci de um inverno em que sai de casa e o céu não estava laranja. Uma névoa branca e espessa dominava a existência de forma impiedosa e cobria todo o caminho. Durante semanas meus pulmões não funcionaram direito, tentando superar e expelir aquela névoa matinal. O frio naquele dia me derrubou até os ossos e, apesar de ter acordado bem disposto, senti dores terríveis pelo dia todo. Meu ouvido esquerdo parecia tomado por um estranho vácuo e o ar frio penetrava por ele, me deixando confuso e tonto. A voz embargou e meus pensamentos cessaram apesar de todos os esforços por acelerá-los. Só com muita dificuldade cheguei em casa naquele dia. Comi um lanche de carne com bacon e uma coca-cola quente e passei todo o fim de semana acamado e febril. Não consigo precisar qualquer dado sensorial daqueles dias. Mas fico feliz ao perceber que nunca mais fiquei doente depois daquela ocasião. Era como se toda a fraqueza purgasse ao mesmo tempo e sumisse ao fracassar na sua tentativa de guerra total.

Meus melhores momentos foram na primavera. Ao sair de casa encontrei um grande número de cães passeando com seus donos, aproveitando os poucos minutos antes do trabalho e da corrida contra a vida. Pássaros verdes, bravos e raros dominavam todos os postes do bairro e espantavam as principais pragas urbanas. As maritacas eclodiam de seus ovos, espantando as pombas em seu espetáculo de cor e berros nervosos.

Nestes dias eu não precisava vestir cachecóis e meus ossos não doíam. Às vezes a luz se tornava tão intensa que eu não conseguia pensar e minha cabeça começava a doer. Minhas mãos inchadas confundiam as texturas e eu simplesmente deixava de existir, perdido em sensações. A realidade não reconhecia ordens, sentidos e informações, nada era processado naqueles momentos. Sem ar eu sentava nas guias e todos os passantes me ignoravam com seus olhos vazios, tortos e incomodados. Só cães e suas pulgas se preocupavam com minha existência em meio a enxaqueca.

Apesar dos pesares, a primavera era a minha melhor época e suas belezas eram muito mais constantes do que o excesso dos sentidos. A beleza se espalhava por todos os lugares e não se resumia aos pássaros ou às flores. Em uma tarde qualquer, cruzei com uma grande árvore com seu tronco aberto, parecendo um ventre. Em seu canteiro milhares de cupins voadores amontoavam-se, uns em cima dos outros. Do interior do tronco uma dezena de insetos voadores e devoradores alçavam vôo, gerando um brilho magnífico quando o sol do entardecer refletia em suas asas.

Era uma verdadeira sinfonia, um encontro entre luz e movimento.

Até hoje eu me lembro de que enquanto eu observava aquele velho tronco todo o resto da realidade se apagava, tornava-se preto e branco. Pela primeira e última vez eu consegui escutar o silêncio fora de casa, na rua.

Por: Caio Fernandes

Num grito de ódio

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , on 26/01/2011 by caioguilherme

As coisas aconteceram depois dos turcos e antes dos ingleses, na época dos russos. Não se podia ir ou vir, era cada um em seu lugar, fazendo aquilo que Deus mandou. O castelo do antigo Rei fora posto em pedras e reuínas de sal. Os turcos eram terríveis e rudes, mas nunca tocaram em nada que era do reino, tal ousadia só coube aos temíveis russos. Os turcos só queriam trigo e ouro, os russos queriam tudo e mais um pouco, estavam atrás de sangue e de almas. Quem viveu a saída de um e  a chegada de outro, vivia lamentando a partida dos antigos senhores.

Era sobre os russos que a vingança viria, foi isso que o vento frio contou para todos os loucos da região. Trancados em suas cabanas de madeira mofada os velhos ouviram um chamado e sairam repetindo uma profecia de vingança. A palavra de loucos, velhos e bêbados se propagou por todos os campos e cantos e o povo passou a esperar o retorno do Pai, aquele mesmo que tinha sido expulso e exílado.

Quieto o povo apanhava e era humilhado. Ouvia os sussuros azedos da vingança e viviam na espera da libertação. O Rei, o Pai viria e libertaria a todos para sempre.

Um dia veio uma tempestade. Chuvas e raios varreram os campos. A colheita perdida ardia em chibatadas dadas pelos russos. Ratos e gatos mirrados viravam o pão dos pobres. Cebolas murhcas e secas viravam sonhos dos mais loucos e ousados. A úncia luz era a dos raios. Escuridão, fome e russos pareciam conspirar pelo fim de todos.

Para o futuro os russos planejavam matar a todos e substituir pelos seus próprios camponeses. O trigo daria lugar para as batatas e o vinho do povo daria lugar para a vodka dos ricos. No fim da tempestade todos iriam morrer.

Durante a pior das noites e quando as profundezas pareciam tomar todo o povo apareceu um velho cinza, suado, enfurecido, rasgado e marcado , caminhando entre um bastão e um conjunto de trapos. De natureza raivosa ele tinha vindo para se vingar de todos, de destruidores e colaboradores, de vitimas, de vencedores e de vencidos.

Carregando seu pesado bastão ele parou numa pequena praça e o povo o seguiu em procissão. O povo atravessou a fome, a morte e a chuva pra vê-lo, sentí-lo, mas nunca tocá-lo. Adoraram-no como um rei, em meio de raios estava o pai expulso e ofendido, retornado de sua longa viagem. Um santo resgatando o seu povo.

Os russos mandaram soldados para lá. Todos os destacamentos possíveis e imagináveis enviados para conter a aglomeração absurda. Montados em cavalos oficiais e autoridades sanguinárias se deliciavam com as atrocidades que soldados tolos, amedrontados e sem vontade iriam cometer. Os raios e a chuva assustavam os cavalos.

O velho da tempestade, o rei, o Pai ergueu as mãos e num grito de ódio os trovões aumentaram terrivelmente, assustando os cavalos dos russos. Todos os soldados caíram no chão e se viram cercados pelo povo, que logo matou a todos. O velho virou suas costas para a ação e partiu. Ele foi seguido por quase todo o povo, os que mais mataram eram os primeiros da fila. O grupo de assassinos esfarrapados se perdeu com seu mentor em meio ao frio noturno e a tempestade.

As chuvas e as trevas duraram mais três dias e acabaram com o trabalho de um ano inteiro. Quem viu e ficou, sofreu. Quem foi nunca mais voltou e foi assim que nosso reino voltou a ser livre.

Considerações sobre o Final de Lost II

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

Depois dessas considerações sobre o seriado em si e a tradição literária de onde ele vem e dialoga resta pensar um pouco sobre essa temporada e o final de Lost, exibido dia 25 de maio no AXN. O objetivo, como ficou bem perceptível no texto anterior, não é mastigar e “dar” as respostas que dizem que Lost não deu.

Basicamente, a Ilha é um pedaço de terra relativamente pequeno e cercado pelo mar em todos os lados. Se fosse cercado só em 3 lados e fosse ligada por um faixa estreita com um pedaço de terra a ilha seria uma península, tipo Portugal e Itália…brincadeiras a parte, ao pensar na Ilha e em suas propriedades estranhas a gente tem que fazer o paralelo com o próprio planeta Terra. De onde veio o primeiro habitante? Se ele existe, alguém o criou. Se alguém o criou, quem foi? Se foi algo que chamam de Deus e ele existe, necessariamente alguém o criou. E quem foi que criou Deus? Um Deus acima de Deus? E quem criou esse Deus acima do Deus que criou o homem e o pôs na Terra? Isso é o que teólogos e físicos chamam de regressão infinita. Quando os telespectadores começam a se perguntar, quem criou e quem era a moça que cuidou do Jacob e do irmão, acabam caindo nessa mesma armadilha. Quem foi que colocou aquela mulher lá? E quem foi que permitiu/criou o sujeito que foi lá na Ilha e colocou a mulher que deu lugar ao Jacob? Como ela mesmo disse no episódio Across the Sea, uma resposta para esse tipo de pergunta, gerará mais duas.

Entre os historiadores algo que é bastante comum é evitar esse tipo de pergunta e especulação e se concentrar no que é perceptível ou dado, como, por exemplo: Os portugueses sabiam ou não da existência do Brasil antes de 1500? Se sabiam, quem foi que descobriu? Será que foi mesmo Cabral? Cabral sabia que existia algo lá? Quem contou para ele? Tais questões não podem ser respondidas pelas evidências existentes nas fontes históricas conhecidas, mas a partir da constatação de que em 1500 eles oficializam uma posição e passaram a ocupar o “Brasil” é possível questionar sobre os interesses, as ações, os desenvolvimentos e as relações deles com a terra descoberta. O importante no Mundo não é pura e simplesmente perguntar, o pulo do gato está em saber fazer a pergunta.

Feita essa pequena digressão sobre as perguntas é possível pensar melhor sobre a Ilha. O lance não é ficar pensando em criou o quê e quando, se não existem elementos que permitem refletir sobre isso. O seriado dá o seguinte: a Ilha existe, não faz parte do espaço-tempo normal e possui uma estranha energia em seu núcleo, que é defendida por uma pessoa possuidora de algo especial, contra qualquer ser que tente ameaçá-la. Logo vem a mente o Triângulo das Bermudas e suas estranhas manifestações magnéticas. Em um lado mais bizarro pode-se até dizer que foi um meteoro que caiu lá e emana uma energia especial, ou que Moisés enterrou a pedra dos 10 mandamentos lá, ou que a lança que matou Jesus está enterrada por ali, ou que Aliens pousaram sua nave lá e deixaram uma criatura feita da mistura de seu DNA com o DNA de um macaco, cuidando do lugar. O barato do seriado, como perceberam os mais espertos, é o múltiplo viés de interpretação que ele permite para várias coisas. Os acadêmicos que estudam literatura nos últimos anos perceberam que um texto rico, de qualidade, por exemplo, não possui só a leitura que seu autor imaginou, ele dá espaço para diferentes leituras de diferentes leitores, já que cada um desses possui bagagens diferentes entre si e diferentes do autor. É óbvio, que o que está escrito está escrito e traça os parâmetros básicos da interpretação, mas dentro desses limites existe uma infinidade de coisas, como existe entre o número 0 e 1.

A Ilha possuidora dessa energia estranha navega como que aleatoriamente pelo planeta Terra. Uma hora ou outra alguém desde um desavisado mercador fenício até um piloto de avião fazendo uma volta ao Mundo acaba dando de encontro com ela e caindo por lá. Eis ai a explicação de uma primeira ocupação da Ilha. Num momento pós Jacob, já foi deixado bem claro que ele usa de suas atribuições especiais para atrair pessoas até lá para tentar mostrar a possibilidade de bondade humana para o monstro de fumaça e, com alguma sorte, encontrar uma pessoa que lhe substitua. Ele não é infalível ou onisciente, mas é detentor da possibilidade de fazer as regras dentro da Ilha, já que é o dono do jogo, e possui um bom conhecimento proveniente de anos e anos de observação e de uma vida sem Tv.

Os outros e a Iniciativa Dharma lá viveram por vontade desse tal de Jacob. Uns foram trazidos por ele, outros descobriram como chegar lá, com um empurrão dele. Os outros tentam, por sua vez, levar uma vida bacana, calma e tranqüila, pautando-se pelas escolhas certas e não pelo que o monstro de fumaça diz, o seriado demonstrou várias vezes que eles na maior parte do tempo não conseguiram. Os malucos da Dharma buscavam pelo conhecimento, pela manipulação de energias de enormes potencialidades e aplicações. Sua ação termina quando, influenciados pelo monstro de fumaça, os outros resolvem exterminá-los de vez.

O irmão de Jacob vira o monstro de fumaça ao ser jogado, morto ou inconsciente, dentro da gruta onde a energia que move a Ilha se faz mais perceptível. Em Across the Sea, a mãe do Jacob explica que aquela Luz é a mesma coisa que está dentro de todas as pessoas. Filosoficamente isso se liga com a idéia de que dentro de todos os seres humanos existem em igual quantidade potencial para o bem e para o mal, bondade e maldade, que cresce ou diminui na relação com o Mundo e a partir das nossas escolhas. Quando Jacob joga o irmão dele dentro da Luz, o potencial para o mal é liberto, torna-se consciente e capaz de interagir, apesar de estar preso as regras impostas pelo guardião da Ilha. A partir desse momento, a Ilha deixa de ser só um lugar que se move aleatoriamente no planeta, para ser a prisão para a maldade que antes existia presa no centro do ser humano com a luz. O responsável por libertá-la dessa condição primeira, torna-se o responsável por impedir que essa criatura com poderes e cheia de maldade e descrença em relação ao ser humano se liberte e possa existir sem as regras que lhe são impostas na Ilha. Como ser inteligente e consciente que é, a nuvem de fumaça/irmão do Jacob traça planos para eliminá-lo e o Jacob sabe que ela é muito mais esperta do que ele, tomando como missão paralela achar seu substituto.

Os outros e a Iniciativa Dharma lutam entre si e os outros atacam aqueles que vieram no avião e etc, por influencia negativa do monstro, pela influencia e regras do Jacob e porque o conflito faz parte da natureza humana.

Toda essa “mitologia” dá série, explicada na sexta temporada dá conta das visões que alguns personagens tem, da aparição de pessoas que morreram (fumaça preta), da cura do Locke, da Rose, dos poderes especiais do Desmond e de um monte de situações estranhas, como a escotilha e os ursos polares.

Continua em um próximo texto.

Abraços

Caio

A excepcional história de Alberto F.

Posted in Conto with tags , , , , , on 30/03/2010 by caioguilherme

 Alberto F. bateu no despertador quando este tocou lhe avisando que era hora de acordar e cair na vida rotineira. Nesse caso o primeiro a cair foi o próprio despertador, que ficou bastante despedaçado. Alberto, vendo o estrago, praguejou pensando nos 10 reais que teria de pagar por um novo. Ele coçou os olhos, estralou o pescoço e se levantou de mau humor, o dia de Alberto começou.

Alberto F. tomou uma ducha fria e rápida, mais para acordar o corpo do que para ficar limpo. Não gostava, mas fez a barba e banhou seu rosto com álcool. Com a face vermelha e queimando, verdadeiramente ardida, Alberto vestiu sua roupa de trabalho, só deixou o paletó e a gravata para depois do café.

Alberto F. não teve tempo de esperar a água ferver totalmente. Teve que tomar um café meio morno e mal diluído. Um pedaço de pão com manteiga fria tinha a missão de acompanhar o café e manter Alberto livre da fome até a hora do almoço. Coisa que, por sinal, a dupla nunca conseguiu fazer em toda a existência medíocre dele.

Alberto F. escovou os dentes sem paciência e com muita pressa e, obviamente, foi punido por isso. A pasta caiu em sua única camisa limpa e passada. Jogou água e tentou dar um fim na pasta, o que resultou numa perceptível mancha. Escondê-la com o paletó foi a única solução que ele conseguiu encontrar, o que lhe dava uma péssima perspectiva de como seria o dia. A eminência de usar o paletó o dia inteiro já estava matando Alberto com um calor antecipado, coisa que o deixou ainda mais nervoso.

Alberto F. sem controle ficou. A percepção de que havia algo errado abalou por demais a suas noções sobre a normalidade da vida. Uma mancha de pasta de dentes foi o estopim que início a Terceira Guerra Mundial na cabeça dele. O resultado foi um grito dolorido e raivoso e Alberto correndo nu pelas ruas da cidade.

Alberto F. foi recolhido pelo Pinel cerca de 10 dias depois. Nesse meio tempo o Santos foi campeão do Paulista 2010, o Ronaldo foi flagrado numa orgia com 10 travestis e a Fernanda capslock ganhou o BBB10 com uma vantagem de 10 milhões de votos. Ninguém nem teve idéia do que Alberto pode ter feito, os seus 10 dias de loucura não ganharam os jornais.

Alberto F. tem passado muito bem nos últimos tempos. Remédios têm garantido que ele seja um dos mais felizes residentes do Pinel. Alberto sonha com leões todas as noites e não existe despertador ou gravatas que possam interrompê-lo.

Na casa dos demônios (parte II)

Posted in Conto with tags , , , , , on 06/03/2010 by caioguilherme

A sombra dançou um bom par de minutos e eu não consegui esboçar nenhuma reação muito convincente, já que estava boquiaberto e congelado. No final da dança a sombra virou um velho de aparência simpática e familiar.

“Olha, veja bem. Bom dia.”

Não consegui lhe responder nada, de certa forma ele era muito mais estranho que a mãe e o filho de belzebu, que eu havia enchido de balas e esmagado até virar purê.

“Não precisa falar nada. Você consegue esmagar uma criança e uma mulher, mas não consegue falar consigo mesmo. Você, só para sua informação, vai sentir bastante a falta dos dois.”

Continuei quieto, mais concentrado em tentar fazer meus braços e pernas funcionarem.

“Eu sou você e você não vai se mexer até eu deixar que o faça. Desculpe se sou ríspido, mas vou colocar tudo em termos simples: a casa te dá uma escolha, ou você se rende e se transforme em mim, vivendo preso aqui até o fim dessa bela rocha chamada terra ou você mete um buraco de bala na testa e morre condenado e sujo para sempre. Qual vai ser?”

“Nenhum dos dois?” – fiquei surpreso ao conseguir responder.

“Eu tinha esquecido do quão imbecil eu era quando era você, sabe? Essa arrogância para disfarçar o medo, achando-se um leão da savana, detonando tudo e todos, ao invés de reconhecer a verdade de que só é um carneirinho boboca. Você vai aprender…”

Assim que ele disse isso, acabou se desmaterializando em minha frente. Num canto da sala havia um corpo novo, o meu próprio com um bala na testa, acenando alegremente para mim. De arma em punho me aproximei e, quando cheguei bastante perto, o corpo sorriu e piscou, desaparecendo.

Não tive tempo de ficar me questionando que diabos era aquele corpo e o velho que dizia ser uma opção de mim mesmo. Do nada uma porção de larvas, muito brancas, com bocas e dentes, caíram do teto e saíram de buracos, até então inexistentes, da parede e do chão. Elas pareciam só querer uma única e exclusiva coisa, Eu.

Tentei sair daquele cômodo, mas as larvas do teto começaram a morder meu corpo e me couro cabeludo, assim como as que saíram do chão começaram a morder meus pés. Corri, mesmo desajeitado, até que uma, na minha mão, mordeu e arrancou meu dedão. A dor e aflição foram excessivas e desmaiei. Era o fim.

Aparentemente não foi. Acordei, ainda na casa, deitado num sofá. Minha mão estava embrulhada num pano todo ensangüentado. Minha cabeça doía muito e ao colocar a mão nela senti inúmeras feridas, as malditas larvas, haviam inclusive, arrancado muito do meu cabelo. Careca, sem dedos e todo ferido. A arma também tinha sumido. A minha única dúvida era saber quem havia me “ajudado” e embrulhado meu dedo no pano.

“Claro que foi você mesmo. Na verdade fui eu, que sou você.”

Não respondi, dessa vez não por não conseguir, mas por não ter mais vontade.

“É estranho ser mal educado consigo mesmo. A auto-flagelação é um contra-senso. Antes eu estava preso aqui por todo a eternidade, mas tinha dedos e cabelos. O lance das larvas foi inédito até para mim.”

Aquilo devia ser algum tipo de teste e eu não estava passando. O próprio demônio devia estar encarnado dizendo que era eu. O que fazer? Não sabia mais de arma e nem tinha forças para matá-lo a pauladas, como tentei fazer com a mulher e a criança.

“Sempre batendo nessa tecla da mulher e da criança, não? Só para sua informação, quando eu entrei aqui, só havia a mulher. Passaram-se 9 meses e a criança surgiu. Faça as contas.”

Olhei com nojo para o sujeito que se dizia eu.

“Eu sou você, não tenha dúvidas. Um você de um outro lugar, mas em essência você. E você matou o nosso filho e mulher. Ruim, não?”

Imaginei o quão nojento seria ter aquelas três tetas na boca ou o quão terrível seria ninar aquele pequeno capeta.

“A casa ajuda nessas horas. Aqui é uma prisão, mas uma prisão de sua própria vontade. Não é?”

A pergunta não foi para mim. O sujeito, igual a mim, com uma bala na testa se aproximou e disse:

“É sim. Por sinal, eu também sou você. E dar um tiro na cabeça, não adianta de nada.”

“Se eu ainda tivesse minha arma. Já teria dado um fim nos três.” – respondi.

“Impossível, eu a peguei e dei um jeito. Não reparou que você e o velho também tem buracos de bala? As coisas são assim mesmo, estamos presos.” – ele respondeu apontando para meu peito, estourado e com um grande buraco de bala, que, por sinal, não doía nada. O velho fez sua cabeça girar – algo bem de filme trash – e me mostrou um buraco em sua nunca, olhando para o cara do buraco na testa com um enorme desprezo.

“ E ai qual vai ser agora?” – os dois me perguntaram ao mesmo tempo.

Não tive tempo de responder, a campainha da casa foi tocada, eles me mandaram abrir a porta ao mesmo tempo em que fazia a minha escolha.

Me senti compelido a obedecer. Na caminhada até a porta nenhum bebê mutante e nem um tipo de larva tentou me matar. Achei um sinal bacana. Quando cheguei na porta, fechei os olhos, toquei a maçaneta, desejei a atendi. Era você.

“E o que você escolheu?”

“Isso não importa. Você e eu estamos aqui. E eu sou você e você sou eu, se você ainda não reparou”.

“Eu quero sair daqui.”

“Desencana, o velho e o cara do buraco na cabeça estão arrumando o jogo na próxima sala. Para o truco, precisamos de quatro. Bem vindo…”