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Atlas

Posted in Conto with tags , , , on 05/02/2012 by caioguilherme

As gotas de suor caíram no chão, uma depois da outra, formando uma pequena poça d´água. Elas brotavam por todos os seus poros, mas só tinham dois caminhos, ambos extremamente irritantes, o primeiro era escorrer até o nariz, formando uma pequena goteira em sua ponta, o outro era escorrer até o queixo, forçando-o a sacudir a cabeça na tentativa de dar um fim no incomodo. Seria bom se ele pudesse usar as mãos, pegar um lenço e secá-las todas, mas não podia nem sonhar em se mexer, em romper com a rotina de milênios. Via-se forçado a fincar as pernas no chão, firmar os músculos doloridos e agüentar o enorme peso que carregava, sem descanso, sem redenção e sem satisfação.

Se alguém perguntasse a Atlas o que ele mais gostaria de fazer na vida, ele diria que era parar por um segundo, se sentir livre de todo aquele peso e relaxar, simplesmente relaxar, nem que fosse uma leve espreguiçada no sofá em um dia de calor, ele diria, com lágrimas nos olhos, que aquilo já era o suficiente. Estava ali há tanto tempo e as coisas se faziam cada vez piores, uns movimentos involuntários e as coisas escapariam ao controle.

Sentiu uma pontada no braço e vacilou um pouco. A Grécia sacudiu, uma grande onda nasceu e destruiu uma meia dúzia de ilhas asiáticas. Milhares de pessoas morreram. Semanas se martirizando, não pode se distrair, não pode fraquejar, tem de continuar firme e forte e segurar o Mundo, mesmo que este esmague seu espírito.

Ele não entendia muito bem o que estava acontecendo, as crianças riam enquanto os colegas ao lado iam sendo chamados pelos colegas da frente. Pouco a pouco cada “líder” ia escolhendo um amigo e pouco a pouco ele ia se sentindo pior.  Os minutos passavam e ao lado dele restaram os fracos: meninos de óculos, meninos ranhentos, meninos gordos, meninos vesgos, meninos gagos e meninos inteligentes demais. O professor não lhes deu muita atenção, mas anunciou que um último time ia ser formado. A turma riu do famoso “Time C”, os mais folgados sorriram com a oportunidade da vitória fácil. A humilhação foi realizada em pequenas doses rápidas, batalhas injustas e cruéis em que os fortes ficavam mais fortes e os fracos mais fracos, o professor lhes deu um medíocre 5 na nota final: “pelo esforço”, disse, “pela insistência ante o fracasso”.

 A hora do recreio ocorreu de forma tensa, não tomou lanche com ninguém, até tentou se enturmar, mas não era uma questão de escolha pessoal, era uma questão de ser escolhido: se ele não foi escolhido era porque tinha algo de errado, era um fracasso. A terra tremeu sob seus pés, seu espírito era esmagado um pouco mais entre lágrimas discretas, ele sofria em um canto escuro do pátio.

As páginas continuariam em branco, esbravejou ao editor enquanto jogava uma xícara de café no chão. Estava cansado de tentar achar o pensamento original. As páginas rasgadas e jogadas no chão eram as provas das lutas travadas nos últimos anos. Nenhuma história, nenhuma trama, nada, nem os personagens eram realmente verdadeiros. A técnica narrativa era um apanhado de letras e vírgulas copiadas e fundidas dos autores do passado. O editor o atormentava, falando que era só uma simples crise, que iria passar e ficaria tudo bem, mas ele sabia que não importava o que escrevesse, não importava a idéia que tivesse, alguém já teria escrito, teria pensado, teria realizado antes.

Os braços clamavam por sangue, os pulmões clamavam por ar enquanto o peso da originalidade perdida o esmagava, enquanto todas as idéias de todos os grandes artistas pesavam cada vez mais e mais e matavam qualquer chance de satisfação em sua vida.

Atlas praguejou e condenou todo o seu passado, não lembrava quais eram, mas desejou desfazer todos os passos dados em sua vida. O Mundo crescia, mais e mais pessoas surgindo, mais casas, mais fazendas, mais animais domésticos, barcos atravessando o planeta e homens ocupando lugares novos, comunidades se diluindo e inúmeros indivíduos surgindo todos os dias, livros, máquinas e idéias pululando por todos os lugares, o peso era demais, era muita coisa para ele sozinho. Indivíduos jogados em uma disputa cruel, sem ligações com as pessoas, grupos formados por lobos solitários, que escolhiam os bandos e os desfaziam quando queriam.

O olhar se confundiu, a vista tremeu um pouco e ele viu a árvore em sua frente, seus frutos dourados lhe davam água na boca, ele queria somente esticar seu braço e pegar uma frutinha só, satisfazer seu desejo e depois voltar ao dever.

Impossibilidade, a visão parou de tremer, um objetivo, morder aquela fruta dourada, sentir o estômago se acalmar e ficar livre do incrível peso do Mundo por, pelo menos, uns segundos. Trocaria a espreguiçada no dia quente, por aquilo: um pouco de satisfação. Pensou em seus irmãos de alma, naqueles que dividiam sua tensão e seu dilema, a criança era jogada na lama por mais um grupo que a rejeitou, o adulto se frustrava com o fato de ser ver obrigado a encarar a sua própria incapacidade de pensar e sentir algo não pensado e não sentido antes.

O peso do Mundo de Atlas, o peso da vida humana, o homem moderno, pós-moderno, avançado, o homem do auge da humanidade, sendo obrigado a reconhecer que não importa o que faça, o que pense, o que diga e o que queira, tudo já foi feito antes e, para ele, é extremamente impossível de se ver satisfeito, feliz e contente, cantando sua felicidade, deixando de perseguir terras santas imaginárias.

A humanidade de uns esmagando a humanidade de outros, coletivo e individual, um Mundo histórico pesando sobre todos, um Mundo Humano e Insatisfeito, Irrealizável e Cruel para que Atlas carregue sozinho.

As pernas se mexeram um pouco, ele ensaiou uns passos enquanto a grande esfera escorregava de suas mãos, os braços desabavam em um gozo de alívio, a esfera caiu lentamente enquanto Atlas caminhava, ele ia pegar a fruta dourada, ele ia ficar satisfeito, mas seu coração parou, sua mente falhou e antes que ele percebesse estava espatifado no chão, morto de cansaço, carregar o Mundo não era fácil.

E, incrivelmente, o Mundo não se destruiu no chão, não caiu a ponto de tocar o solo, recuperou a altura e continuou lá, calmo, girando sem nem perceber a dor do gigante que antes o carregava.