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Entre Bancos e Carros

Posted in Crônica with tags , , , , on 03/09/2009 by caioguilherme

Ontem tive um dia do cão. Um daqueles dias duros, de rasgar cheques e coisas assim, dias tensos que nos tiram do sério e nos fazem cometer atos insanos, como gritar com motoristas nas ruas e rasgar dinheiro. Bato tanto nessa tecla da grana, pois eu, um pé rapado conhecido e admirado, rasguei um cheque da soberba quantia de muitas pilas. Tudo por causa de dois novos elementos bastante tradicionais da nossa velha vida moderna: os Bancos e os Carros.

Essas pragas ai estão desde que a humanidade decidiu que o bonito era ser feia. Nosso martírio humano começa com os Bancos, que são responsáveis pela invenção do crédito e, conseqüentemente, da dívida e dos juros, terríveis algozes meus. Os Carros são culpados na medida em que tornam a ida a pé ao motel algo extremamente constrangedor; já que quase ninguém importante o faz, os motéis pouco investiram na discrição de sua entrada de pedestres enquanto embelezaram, excessivamente, a de carros, o que embaça a vida de qualquer baixa renda por ai. Mas como um qualquer não sou, ambas desgraças humanas se juntaram para tornar única e exclusivamente a minha vida um inferno.

Primeiro os Carros e a cultural obrigação de possuí-los para poder fazer qualquer coisa, como trabalhar, ter amigos e ser amado. Essa obrigação fez com que achassem uma boa idéia me dar dinheiro (na verdade cheques) para comprar um carro e depois me acabar para sustentá-lo. A devolução de um desses cheques, pois esqueci de colocar nominal, me colocou em choque direto com a burocracia bancária e, obviamente, eu perdi. Perdi porque os belos Bancos abrem somente por poucas horas, no meio do dia, ou seja, no momento em que estamos mais ocupados.

“Pode-se sempre usar a hora do almoço para resolver essas coisas” – qualquer pessoa poderia dizer. Balela, eu diria. Quem quer ficar sem comer para ir num pico que muito provavelmente vai sugar seu dinheiro? Eu não queria, mas fui. Passei fome o dia todo e não consegui resolver o que precisava, fato que me distanciou do sonho (dos meus pais, irmãos, namoradas, amigos e familiares) de possuir um carro.

Indignado, rasguei um cheque dado para substituir o devolvido e só não o devorei pela ausência de um saleiro e de sal. Nunca meu estômago roncou como naquele dia, o qual tive de fazer hora extra e, conseqüentemente, me deu mais evidências para odiar os bancos (a fome) e os carros, o trânsito.

Faminto, andando a pé, depois de uma longa viagem ônibus e sem conseguir compreender o motivo do Mundo ser tão injusto, notei que enfrentamos um excesso de carros. As pessoas têm carros de mais. Muitos, muitos carros. Tantos carros, que eu, andando, consigo ser mais rápido do que essas potentes máquinas de quatro rodas. Qual a utilidade afinal? Qual a sorte daquele cara que demora 30 minutos para fazer 1 quilômetro, dentro de um carro, segurando a embreagem com o pé e torrando no sol?

Acho que nenhuma. Talvez, somente, a garantia de mil e um motivos de ir ao Banco na hora do almoço e, assim, passar seus dias com fome.

Vai saber…

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