Arquivo para Catarse

Um encontro entre luz e movimento

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 08/01/2012 by caioguilherme

Naquela época eu acordava junto do sol. A transição da escuridão para a luz servia como um despertador cósmico e eu nunca me sentia com sono ou com vontade de ficar mais tempo na cama. Simplesmente acordava, me arrumava e partia. O café preto era uma água benta e eu o tomava apreciando o céu laranja – fruto da santa poluição de cada dia.

O silêncio do despertar só era abalado ao sair de casa. Carros, maritacas, pessoas, pombas e meus pensamentos adquiriam vida e ecoavam por toda a extensão do meu ser. O caminho de casa para o trabalho era percorrido a pé todos os dias. Sempre o mesmo trajeto percorrido do mesmo jeito e no mesmo tempo. Fosse inverno ou primavera, outono ou verão, o caminho era sempre aquele e não havia do que reclamar. Nada mudava, tudo mudava.

Nunca me esqueci de um inverno em que sai de casa e o céu não estava laranja. Uma névoa branca e espessa dominava a existência de forma impiedosa e cobria todo o caminho. Durante semanas meus pulmões não funcionaram direito, tentando superar e expelir aquela névoa matinal. O frio naquele dia me derrubou até os ossos e, apesar de ter acordado bem disposto, senti dores terríveis pelo dia todo. Meu ouvido esquerdo parecia tomado por um estranho vácuo e o ar frio penetrava por ele, me deixando confuso e tonto. A voz embargou e meus pensamentos cessaram apesar de todos os esforços por acelerá-los. Só com muita dificuldade cheguei em casa naquele dia. Comi um lanche de carne com bacon e uma coca-cola quente e passei todo o fim de semana acamado e febril. Não consigo precisar qualquer dado sensorial daqueles dias. Mas fico feliz ao perceber que nunca mais fiquei doente depois daquela ocasião. Era como se toda a fraqueza purgasse ao mesmo tempo e sumisse ao fracassar na sua tentativa de guerra total.

Meus melhores momentos foram na primavera. Ao sair de casa encontrei um grande número de cães passeando com seus donos, aproveitando os poucos minutos antes do trabalho e da corrida contra a vida. Pássaros verdes, bravos e raros dominavam todos os postes do bairro e espantavam as principais pragas urbanas. As maritacas eclodiam de seus ovos, espantando as pombas em seu espetáculo de cor e berros nervosos.

Nestes dias eu não precisava vestir cachecóis e meus ossos não doíam. Às vezes a luz se tornava tão intensa que eu não conseguia pensar e minha cabeça começava a doer. Minhas mãos inchadas confundiam as texturas e eu simplesmente deixava de existir, perdido em sensações. A realidade não reconhecia ordens, sentidos e informações, nada era processado naqueles momentos. Sem ar eu sentava nas guias e todos os passantes me ignoravam com seus olhos vazios, tortos e incomodados. Só cães e suas pulgas se preocupavam com minha existência em meio a enxaqueca.

Apesar dos pesares, a primavera era a minha melhor época e suas belezas eram muito mais constantes do que o excesso dos sentidos. A beleza se espalhava por todos os lugares e não se resumia aos pássaros ou às flores. Em uma tarde qualquer, cruzei com uma grande árvore com seu tronco aberto, parecendo um ventre. Em seu canteiro milhares de cupins voadores amontoavam-se, uns em cima dos outros. Do interior do tronco uma dezena de insetos voadores e devoradores alçavam vôo, gerando um brilho magnífico quando o sol do entardecer refletia em suas asas.

Era uma verdadeira sinfonia, um encontro entre luz e movimento.

Até hoje eu me lembro de que enquanto eu observava aquele velho tronco todo o resto da realidade se apagava, tornava-se preto e branco. Pela primeira e última vez eu consegui escutar o silêncio fora de casa, na rua.

Por: Caio Fernandes

Num grito de ódio

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , on 26/01/2011 by caioguilherme

As coisas aconteceram depois dos turcos e antes dos ingleses, na época dos russos. Não se podia ir ou vir, era cada um em seu lugar, fazendo aquilo que Deus mandou. O castelo do antigo Rei fora posto em pedras e reuínas de sal. Os turcos eram terríveis e rudes, mas nunca tocaram em nada que era do reino, tal ousadia só coube aos temíveis russos. Os turcos só queriam trigo e ouro, os russos queriam tudo e mais um pouco, estavam atrás de sangue e de almas. Quem viveu a saída de um e  a chegada de outro, vivia lamentando a partida dos antigos senhores.

Era sobre os russos que a vingança viria, foi isso que o vento frio contou para todos os loucos da região. Trancados em suas cabanas de madeira mofada os velhos ouviram um chamado e sairam repetindo uma profecia de vingança. A palavra de loucos, velhos e bêbados se propagou por todos os campos e cantos e o povo passou a esperar o retorno do Pai, aquele mesmo que tinha sido expulso e exílado.

Quieto o povo apanhava e era humilhado. Ouvia os sussuros azedos da vingança e viviam na espera da libertação. O Rei, o Pai viria e libertaria a todos para sempre.

Um dia veio uma tempestade. Chuvas e raios varreram os campos. A colheita perdida ardia em chibatadas dadas pelos russos. Ratos e gatos mirrados viravam o pão dos pobres. Cebolas murhcas e secas viravam sonhos dos mais loucos e ousados. A úncia luz era a dos raios. Escuridão, fome e russos pareciam conspirar pelo fim de todos.

Para o futuro os russos planejavam matar a todos e substituir pelos seus próprios camponeses. O trigo daria lugar para as batatas e o vinho do povo daria lugar para a vodka dos ricos. No fim da tempestade todos iriam morrer.

Durante a pior das noites e quando as profundezas pareciam tomar todo o povo apareceu um velho cinza, suado, enfurecido, rasgado e marcado , caminhando entre um bastão e um conjunto de trapos. De natureza raivosa ele tinha vindo para se vingar de todos, de destruidores e colaboradores, de vitimas, de vencedores e de vencidos.

Carregando seu pesado bastão ele parou numa pequena praça e o povo o seguiu em procissão. O povo atravessou a fome, a morte e a chuva pra vê-lo, sentí-lo, mas nunca tocá-lo. Adoraram-no como um rei, em meio de raios estava o pai expulso e ofendido, retornado de sua longa viagem. Um santo resgatando o seu povo.

Os russos mandaram soldados para lá. Todos os destacamentos possíveis e imagináveis enviados para conter a aglomeração absurda. Montados em cavalos oficiais e autoridades sanguinárias se deliciavam com as atrocidades que soldados tolos, amedrontados e sem vontade iriam cometer. Os raios e a chuva assustavam os cavalos.

O velho da tempestade, o rei, o Pai ergueu as mãos e num grito de ódio os trovões aumentaram terrivelmente, assustando os cavalos dos russos. Todos os soldados caíram no chão e se viram cercados pelo povo, que logo matou a todos. O velho virou suas costas para a ação e partiu. Ele foi seguido por quase todo o povo, os que mais mataram eram os primeiros da fila. O grupo de assassinos esfarrapados se perdeu com seu mentor em meio ao frio noturno e a tempestade.

As chuvas e as trevas duraram mais três dias e acabaram com o trabalho de um ano inteiro. Quem viu e ficou, sofreu. Quem foi nunca mais voltou e foi assim que nosso reino voltou a ser livre.

Na cidade fria

Posted in Conto with tags , , , , , , , , , on 14/01/2011 by caioguilherme

A chuva cinza congelava seus ossos e ele fazia um esforço enorme para não tremer em público. Seu nariz estava vermelho, mas o frio intenso impedia que ele escorresse, era como se o catarro estivesse congelado. Na verdade, fazia alguns dias que só respirava pela boca, o que era bastante desagradável. Sorte que não tinha nem oportunidade de pensar em dormir, assim não incomodava ninguém com roncos ou algo parecido.

Tentou mexer os dedos, mas estes estavam congelados dentro das luvas de material vagabundo. o mesmo e caro e superfaturado material que deu origem ao chapéu, às meias, à camisa, às calças, ao mijão, às cuecas e ao casaco grosso e inútil que usava. Todos estavam vagabundamente vestidos com o mesmo material. Alguém deveria lucrar muito com a desgraça e a miséria alheia. Todos ali, sob chuva e frio, morrendo pouco a pouco porque alguém quera ganhar uns trocados a mais, dentro dos muito trocados que já ganhava.

Ganhar, palavra que eles ouviam bastante, mas pouco conseguiam compreender. Em meio a sopa rala e ao pão mofado só conseguiam perceber, instintivamente, o signifcado do verbo perder. Ele e seus homens perdiam dias, perdiam horas e perdiam a vida, tudo em troca de nada, do ganho de um outro que já tinha tanto.

 

Um apito sombrio gritou e as portas do inferno se abriram. Ele e os seus marchavam sem realmente querer. Do frio da rua para o calor das caldeiras, das soldas e dos metais. Algo derretia internamente, cozendo-o por dentro, pouco a pouco. A roupa vagabunda esquentava como um forno lá dentro, para esfriar como uma geladeira lá fora. Sangue, suor, mas lágrimas jamais. Trabalhou e naquele dia não comeu.

Como um zumbi foi arrastado por uma horda sem vontade e entrou no ônibus. Entalados todos indo para o mesmo lugar. Do inferno para a ausência. Era como se levitasse entre os milhares de corpos que tanto se esbarravam todos os dias. Entre o frio dos dias, o calor do trabalho e a indiferença da rotina. Desceu do ônibus e engoliu um pouco de álcool.

A visão se tornou mais clara e esclarecida. José foi até sua casa e dotado de uma vontade única pegou sua velha espingarda. Limpou-a, carregou-a. Saiu nas ruas e seus vizinhos, seus colegas de trabalho e seus amigos do bar estavam lá, todos eles também com suas velhas espingardas, limpas e carregadas. No frio uma só vontade única e indivísivel. Marcharam em dezenas, em centenas e em milhares. Todos em direção ao centro, atropelando casas, fábricas, hospitais e prédios do governo.

Os dias de José nunca mais foram os mesmos.

 

13/01/2011

10 Poemas em Prosa (ou para ninguém reclamar que aqui não tem inovação.)

Posted in Poema em Prosa with tags , , , , , , , , , , , on 10/12/2009 by caioguilherme

10 Poemas em Prosa (ou para ninguém reclamar que aqui não tem inovação.)

Por: Caio Guilherme

I

Ontem um abraço suado. O ônibus nunca passa vazio. O celular castigando orelhas e ovinhos de codorna suando num boteco qualquer. Se eu fosse amigo do rei, compraria-me uma Pasárgada e não venderia bolovo.

II

Daria uma rosa para aquele dia. Do lado da minha casa queima uma fonte de luz colorida. Deixo essa cidade dizendo um nome, maldizendo um beijo e clamando por seu seio. Você me fecha a porta e me agarro num abraço perdido. Tudo cai de lado e digo “até amanhã”.

III

Agora cala e some. Ratinhos no escuro, tão bonitinhos, procurando um queijo. Num buraco da vida encontram um beijo. Lucilda gosta de goiabada e todos gostam de mim. Do que adianta as luzes apagadas se nada acende o meu bem querer. Fecha-se a porta e gatos emergem, mastigam e somem com os ratinhos lá do começo.

IV

 Tem-se uma nota esbranquiçada. Palavras de amor abandonadas na face da terra. Pela cusparada tomada dá-se a outra face do mundo. Perdão não se dá, pois é duro ter que pensar.

O duro, é trabalhar em silêncio. A face dessa Terra toda e tosca fede a ranho. o choro está ardendo.

V

Agora tem sabor de menta. Uns lábios de cigarro emprestado. As bitucas queimam a pele. Não mais beijar barangas. Orgulho ferido dói menos que pisão no pé. Sonho em desejo insatisfeito.

VI

Seu olhos brilham em fogos de artifício. Minha cidade era o caos. Sem você ela virou loucura. Saudades do chocolate que você mordeu. Saudades da sua mordida. Um cheiro e beijos nus na chuva. Te reencontrarei.

VII

Um cotovelo nunca é bonito. Ninguém se apaixona só pelos cotovelos. Quando se encontra um para beijar, belo, lindo e cheiroso, é puro milagre. Eis que você achou o amor verdadeiro.

VIII

Sua pança se encaixava na minha. Seu bumbum liso encaixava na minha mão, combinação perfeita. Bom de apertar. Alegria de tentação. Um bom dia era te encoxar enquanto nos beijávamos.

IX

Não existe verdade. Nem verdadeira paixão. Um gole de tequila, é um gole de tequila. E um beijo apaixonado é o melhor beijo do Mundo até o próximo beijo apaixonado. É que nem quando bebê anda, sorri e o cachorro trás uma bolinha atirada na boca. Tudo tem seu fim. Só resta a bituca. A bituca e fumaça.

O vento, no final das contas, leva tudo. Eu, você, a verdade e a ilusão.

X

Um girassol, o sol e nós dois a noite no terminal. Duro é embarcar para descer tão logo, já que sua mão é quente e o seu ombro gostoso. Melhor que isso, só se meus lábios tocassem os seus e você dissesse meu nome, sussurrasse em meus ouvidos. Ai, meu Deus, que me perco nesses olhos e não acho mais o caminho de casa.

Quando fizer um gol no futebol, vou correr em direção as câmeras e gritar seu nome. Se desse jeito não te ganhar, vai me restar virar um músico famoso e cantar uma música feita inspirada em você. Poesia é movimento, pena que eu canto tão mal…

Por toda a noite e a noite toda. (ou Bem lá no topo)

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 15/11/2009 by caioguilherme

Por toda a noite e a noite toda.

(ou Bem lá no topo)

Por: Caio Guilherme

 

I

 

Era noite e os prédios bem altos, tocavam as estrelas e os aviões que passavam pelos céus. Jaime, no topo de um deles, tentava tomar fôlego e recobrar um pouco da consciência, depois de ter subido as escadas até lá em cima. Estava sem ar, mas não se sentia cansado, sua situação era exatamente oposta, estava sem ar por não conseguir se cansar. O corpo explodia em energia, transbordava em sangue vermelho e quente. Tudo parecia denso, a atmosfera era tensa e intensa, com a lua lhe convidando para um passeio amoroso.

Jaime não era sensível, muito menos poeta. Advogado promissor e simpático, vivia a vida como a tradição mandava, entre ternos e gravatas, leis e artigos e incisos, tribunais, escritórios e clientes escroques. Ganhava um bom dinheiro, namorava uma boa moça e, num milagre de autoconsciência hegeliana, estava no Mundo fazendo o que fora feito para fazer, viver sem dialética. Até aquela noite sua vida era bem assim, normal.

Saiu de casa com seu cachorro, olhou para a Lua, ela olhou para ele e pronto, chegou onde o encontramos agora: entre dois altíssimos prédios, sem ar, cheio de energia e com uma louca vontade de namorar os céus.

Olhou para cima, foi até a beirada do prédio, olhou para baixo. O chão se aproximava e se afastava a cada lufada de ar. o chão vinha e voltava feio, salpicado de concreto e sangue. 25 andares era o tamanho do prédio em que estava. 25 andares era também o tamanho do prédio vizinho. Vizinho não, gêmeo. Prédios gêmeos de 25 andares de altura, com Jaime no topo de um deles, sendo, desse jeito, a única diferença entre os dois,  tal qual uma cicatriz que separa dois irmãos totalmente iguais.

 Tomou alguma distância da beirada do prédio. Se não se cansava correndo por escadas, ia se cansar pulando, simples assim. Tomou distância, olhou a lua, correu e pulou.

 

II

 

Chegou ao outro lado. Chegou ao outro prédio. Sorriu e olhou a Lua. Tomou distância e pulou de novo, por que não o faria? Sentia-se bem, o chão de concreto e sangue continuou bem longe dos céus, das estrelas e da Lua, a nova namorada de Jaime. Cheio de energia e sangue fervente, Jaime pulou de novo e de novo, cortando o ar denso como uma faca quente cortaria manteiga. Pular era bom, algo bem bacana. Poderia ficar assim a vida toda, pulando e pulando e pulando e namorando a Lua.

Pulou de novo, chegou lá no primeiro prédio de novo, só para pular de novo. E assim foi por toda a noite e a noite toda. Namorava a Lua entre pulos e tomadas de fôlego. Ter energia era bastante legal.

O sol chegou, a Lua se foi. A escuridão deu lugar a luz e Jaime voltou para casa, estava cansado e precisava dormir.

Duas Luas

Posted in Conto with tags , , , , , on 24/10/2009 by caioguilherme

Duas Luas

 

Ele poderia ter se inclinado, tentado beijá-la. Poderia ligar agora – agorinha mesmo – e balbuciar qualquer coisa que achasse que pudesse fazê-la começar a gostar dele, do jeito que ele gostaria. Sabia que de nada ia adiantar. E sentia frio. A certeza de não ter o corpo dela esquentando o seu fazia com que sentisse vontade de rasgar o próprio peito e chorar como uma criancinha perdida. Do quê adiantaria? Iria tomar mais uma xícara de café na esperança de a aceleração em seu cérebro e a dor alucinante em seu estômago afastassem qualquer reminiscência de desejo e de vontade dela. Não poderia estar preso, totalmente preso, na vontade de tocá-la e sentir seu cheiro. Era um homem livre, não podia se vender e se tornar um escravo, mesmo que fosse dela. Todos os beijos, todo o carinho – ou a ilusão deles –  não valeria o sacrifício de sua própria alma.

Conforme a noite foi surgindo, primeiro lá no distante Oriente, as nações da Terra foram parando em meio a reportagens na Tv, pronunciamentos políticos e tentativas de explicações de autoridades astronômicas e astrológicas. O caos estava lançado e muitas pessoas nem entendiam o porquê. A gravidade não havia sido alterada, não foi comprovada a aproximação de algum cometa ou a queda dum satélite artificial gigante. Pura e simplesmente, uma segunda lua tinha surgido de um dia para o outro. Fora isso, nada demais.

Os mais arrependidos rasparam as cabeças e começaram a entoar mantras, rezas e lamentos nas ruas das principais cidades do Mundo. Boa parte das populações se entregou a uma loucura coletiva e passou a destruir tudo o que encontrava na frente. Outra, ficou em casa vendo Tv, esperando a posição das autoridades ante tal terrível cataclisma. Os chefes de Estado reuniram-se desesperados em um grande salão na sede das Nações Unidas para tirar conclusões e fazer planos que todos desrespeitariam. A NASA e as demais agências espaciais se recusaram a confirmar o número de naves, satélites e sondas que tinham sido destruídos e perdidos em tentativas apressadas e equivocadas de investigar o novo fenômeno. Não era nada demais, mas fosse o que fosse, nada seria como era antes.

As duas luas dançavam alheias as rezas dos mais religiosos, as reuniões dos líderes da Terra e aos confrontos entre turbas, polícia e exércitos. As duas luas dançavam alheias ao que fosse que eu estivesse sentido naquele momento, o amor perdido, o amor tão querido, o amor tão fracassado. Elas, simplesmente, estavam dançando nos céus, como nossos lábios uma vez juntos dançaram, lindas e estonteantes, alheias a tudo, como deveria tudo ser.

Continuava se sentindo o escravo de uma ilusão, mas a ilusão daquelas duas luas, tornava tudo muito mais real.

Vida em background

Posted in Crônica with tags , , , on 13/09/2009 by caioguilherme

Por: Caio Guilherme

Existem dois tipos de vida. A vida rotineira e a vida em background. Uma é formada por todas aquelas grandes coisas que temos a percepção de são importantes para a construção do futuro, como o trabalho, os estudos e os amigos. A outra é formada por todas aquelas pequenas coisas que ante o grande quadro da vida pensamos que diferença nenhuma faz. Mas a verdade, é que numa perspectiva temporal mais ampla é justamente a vida em background que traça o futuro.

Por isso mesmo que aquelas pessoas que fazem o raro exercício de olhar para trás não fazem idéia alguma de como foram parar onde estão. Pois não são as ações planejadas, raciocinadas e finamente executadas com objetivos bem delimitados que vão gerar o estado de coisas do amanhã. Elas, quando muito, vão construir tudo aquilo que é acessório, o não essencial, o trabalho, as posses e os títulos. Mas os bons amigos, os péssimos inimigos, as amantes, os corações remendados e partidos, tudo isso, é construído nessa vida silenciosa das pequenas coisas sem importância.

No espaço-tempo de um ano a vida pode parecer exatamente a mesma. Mas não é. Um simples exercício de olhar para o celular e para sua lista de chamadas feitas e recebidas e, também, de mensagens recebidas e enviadas indica quem ficou e quem se foi. Coisas delimitadas pelas baladas idas e pelas miadas, pelas brigas etílicas e os amores perdidos, todos aqueles pontos silenciosos e sem importância, esmagados nos grandes quadros da rotina e das coisas mais importantes a serem feitas.

Talvez, no final das contas, esse tipo de olhar para trás não seja assim tão necessário. Talvez só leve para um pensar demais, daqueles que travam todas as novas pequenas ações, fazendo a vida ser construída mais pelas omissões do quê pelas decisões. Ou (quem sabe?) é exatamente esse não pensar, não parar e respirar um pouco, rever os passos construídos até o momento que impede o aprender com os erros?

A única lição possível de ser tirada nessas poucas linhas é essa: a da existência de duas vidas, dois ritmos quase incompatíveis, perceptíveis somente quando colocados em relação a grandes períodos de tempo, onde nota-se o quanto a vida se tornou diferente. Lição essencial?  Não sei ao certo. Cada um acredita no que quer e faz o que achar melhor em frente a tais reflexões. Meu conselho?

Mais atenção aos detalhes…