Arquivo para David Goodis

Lá e cá e de volta outra vez…

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 21/08/2009 by caioguilherme

Lá e cá e de volta outra vez…

 

Ele coçou a barba mal feita e rala enquanto observava as duas rampas se cruzarem por entre as colunas daquele prédio grande e encardido, parecido com uma rodoviária qualquer. Era noite, fazia tempo que ele não aparecia ali. Ainda mais de noite. Muito tempo, muito tempo mesmo, que não fazia aquilo. Olhou para as pessoas que passavam, não reconheceu ninguém, apesar de algumas lhe serem familiares.

Lembrou dos últimos tempos, do último ano e meio, dos amigos que fez, das coisas que construiu, ganhou, perdeu, dos olhos onde mergulhou e das bocas que beijou, da boca dela.

Tudo aquilo pareceu só um sonho, um sonho sem significado e valor, só uma ilusão e um intervalo entre a vida que talvez não devesse ter abandonado. Agora,  estava lá, coçando sua barba pensando no que fazer. Entendeu as histórias de David Goodis, quando o protagonista acabava voltando para a vida que tentou deixar para trás, após perceber que aquilo que parecia melhor não era tão melhor assim, só mais mentiroso.

Piscou tentando enxergar mais além, mas não conseguia ver nada, simplesmente pulou e entrou naquilo que parecia ser os remendos de sua velha vida, um grande vazio…

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Chuva no deserto

Posted in Comentário do Autor, Conto with tags , , , , , , , , , , , , , on 01/08/2009 by caioguilherme

Comentários desligados do texto.

Nomes importantes para serem guardados e trabalhos para sem lidos: Stendhal e o Vermelho e o Negro, Graham Greene e O Poder e a Glória , Ferreira Gullar e o poema Cantada, Raymond Chandler e o Longo Adeus, Júlio Verne e o Viagem ao Centro da Terra, F. Scott Fitzgerald e O Grande Gatsby, Kafka e A Metamorfose,  Tchekhov e A Dama do Cachorrinho, David Goodis e o Atire no Pianista, Dashiell Hammett e o conto O homem que matou Dan Odams e Dostoievski e Noites Brancas.

Todos esses textos são essenciais para entender o que eu procuro quando escrevo…

 

Chuva no deserto.

Caio Guilherme

28/07/2009.

 

Chove. Ou ameaça chover. Não sei mais ao certo, pois meus sentidos estão confusos, difusos e apagados. Em meio a névoa dos meus olhos sinto um horizonte quase que completamente cinza, só com uma fina linha alaranjada contrastando com a semi-escuridão. Com certeza são as nuvens prontas para castigar qualquer um ou qualquer coisa que já tenha feito algo na vida. Um paredão de água para lavar todos os nossos pecados. Não escuto muito bem. Ao longe parecem pegadas. De perto, parece um banjo. Parando para ouvir a música eu acabo não percebendo som algum. Parando para sentir a música eu acabo com os olhos marejados. A névoa se torna mais espessa.

Uma corda se aperta em meu pescoço, me vejo arrastado em meio ao deserto, nada nem ninguém me puxa, só a corda. Chove. Ou ameaça chover. São coisas raras, tempo seco, garganta fechada e chuva no deserto. Alucino. A música acaba, até parece que posso respirar. Puxo o ar, ele é feito de areia. Cacos. Meu coração dói tanto hoje. Queria um abraço. Me dão cobranças e eu vomito tudo. Coisa rara, uma chuva dessa no deserto e eu aqui, passando mal. Perder o espetáculo, que droga. A chuva me refresca, lava meus cabelos e dá um fim em tanta poeira. Desmaio. Perco a chuva no deserto.

Acordo suado. Pelado. Aposto que se eu não estivesse morrendo ela não iria tirar minhas roupas. Mulheres, sempre assim. Abro os olhos e torço para que não seja minha mãe ou avó do meu lado. Não é nenhum das duas, ainda bem. Não a conheço, não é parente. Se eu tivesse um carro talvez ela me deixasse tirar as roupas dela. Tusso. Que dor. Ela coloca a mão na minha cabeça, diz que estou com febre… a Jesus, ela nem faz idéia. Meu bem, meu bem, eu tô fervendo. Ela se afasta e busca água. Eu olho, dessa vez não desmaio, não perco o espetáculo. Belo bumbum, empinadinho. Ela percebe, eu desmaio.

Chove no deserto, mas eu não trocaria essa visão por nada. Ela continua do meu lado, dia após dias, limpando meu suor o dia todo e me fazendo suar a noite toda. Esses tempos bons são aqueles que nos forçam a reconhecer que tempos piores virão. É impossível que, depois disso tudo, eles não venham.

Meus sentidos não estão mais tão confusos, melhor aproveitar. Chove. Ou ameaça chover no deserto, eu já não sei dizer a diferença…