Arquivo para Despedida

Num grito de ódio

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , on 26/01/2011 by caioguilherme

As coisas aconteceram depois dos turcos e antes dos ingleses, na época dos russos. Não se podia ir ou vir, era cada um em seu lugar, fazendo aquilo que Deus mandou. O castelo do antigo Rei fora posto em pedras e reuínas de sal. Os turcos eram terríveis e rudes, mas nunca tocaram em nada que era do reino, tal ousadia só coube aos temíveis russos. Os turcos só queriam trigo e ouro, os russos queriam tudo e mais um pouco, estavam atrás de sangue e de almas. Quem viveu a saída de um e  a chegada de outro, vivia lamentando a partida dos antigos senhores.

Era sobre os russos que a vingança viria, foi isso que o vento frio contou para todos os loucos da região. Trancados em suas cabanas de madeira mofada os velhos ouviram um chamado e sairam repetindo uma profecia de vingança. A palavra de loucos, velhos e bêbados se propagou por todos os campos e cantos e o povo passou a esperar o retorno do Pai, aquele mesmo que tinha sido expulso e exílado.

Quieto o povo apanhava e era humilhado. Ouvia os sussuros azedos da vingança e viviam na espera da libertação. O Rei, o Pai viria e libertaria a todos para sempre.

Um dia veio uma tempestade. Chuvas e raios varreram os campos. A colheita perdida ardia em chibatadas dadas pelos russos. Ratos e gatos mirrados viravam o pão dos pobres. Cebolas murhcas e secas viravam sonhos dos mais loucos e ousados. A úncia luz era a dos raios. Escuridão, fome e russos pareciam conspirar pelo fim de todos.

Para o futuro os russos planejavam matar a todos e substituir pelos seus próprios camponeses. O trigo daria lugar para as batatas e o vinho do povo daria lugar para a vodka dos ricos. No fim da tempestade todos iriam morrer.

Durante a pior das noites e quando as profundezas pareciam tomar todo o povo apareceu um velho cinza, suado, enfurecido, rasgado e marcado , caminhando entre um bastão e um conjunto de trapos. De natureza raivosa ele tinha vindo para se vingar de todos, de destruidores e colaboradores, de vitimas, de vencedores e de vencidos.

Carregando seu pesado bastão ele parou numa pequena praça e o povo o seguiu em procissão. O povo atravessou a fome, a morte e a chuva pra vê-lo, sentí-lo, mas nunca tocá-lo. Adoraram-no como um rei, em meio de raios estava o pai expulso e ofendido, retornado de sua longa viagem. Um santo resgatando o seu povo.

Os russos mandaram soldados para lá. Todos os destacamentos possíveis e imagináveis enviados para conter a aglomeração absurda. Montados em cavalos oficiais e autoridades sanguinárias se deliciavam com as atrocidades que soldados tolos, amedrontados e sem vontade iriam cometer. Os raios e a chuva assustavam os cavalos.

O velho da tempestade, o rei, o Pai ergueu as mãos e num grito de ódio os trovões aumentaram terrivelmente, assustando os cavalos dos russos. Todos os soldados caíram no chão e se viram cercados pelo povo, que logo matou a todos. O velho virou suas costas para a ação e partiu. Ele foi seguido por quase todo o povo, os que mais mataram eram os primeiros da fila. O grupo de assassinos esfarrapados se perdeu com seu mentor em meio ao frio noturno e a tempestade.

As chuvas e as trevas duraram mais três dias e acabaram com o trabalho de um ano inteiro. Quem viu e ficou, sofreu. Quem foi nunca mais voltou e foi assim que nosso reino voltou a ser livre.

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Na cidade fria

Posted in Conto with tags , , , , , , , , , on 14/01/2011 by caioguilherme

A chuva cinza congelava seus ossos e ele fazia um esforço enorme para não tremer em público. Seu nariz estava vermelho, mas o frio intenso impedia que ele escorresse, era como se o catarro estivesse congelado. Na verdade, fazia alguns dias que só respirava pela boca, o que era bastante desagradável. Sorte que não tinha nem oportunidade de pensar em dormir, assim não incomodava ninguém com roncos ou algo parecido.

Tentou mexer os dedos, mas estes estavam congelados dentro das luvas de material vagabundo. o mesmo e caro e superfaturado material que deu origem ao chapéu, às meias, à camisa, às calças, ao mijão, às cuecas e ao casaco grosso e inútil que usava. Todos estavam vagabundamente vestidos com o mesmo material. Alguém deveria lucrar muito com a desgraça e a miséria alheia. Todos ali, sob chuva e frio, morrendo pouco a pouco porque alguém quera ganhar uns trocados a mais, dentro dos muito trocados que já ganhava.

Ganhar, palavra que eles ouviam bastante, mas pouco conseguiam compreender. Em meio a sopa rala e ao pão mofado só conseguiam perceber, instintivamente, o signifcado do verbo perder. Ele e seus homens perdiam dias, perdiam horas e perdiam a vida, tudo em troca de nada, do ganho de um outro que já tinha tanto.

 

Um apito sombrio gritou e as portas do inferno se abriram. Ele e os seus marchavam sem realmente querer. Do frio da rua para o calor das caldeiras, das soldas e dos metais. Algo derretia internamente, cozendo-o por dentro, pouco a pouco. A roupa vagabunda esquentava como um forno lá dentro, para esfriar como uma geladeira lá fora. Sangue, suor, mas lágrimas jamais. Trabalhou e naquele dia não comeu.

Como um zumbi foi arrastado por uma horda sem vontade e entrou no ônibus. Entalados todos indo para o mesmo lugar. Do inferno para a ausência. Era como se levitasse entre os milhares de corpos que tanto se esbarravam todos os dias. Entre o frio dos dias, o calor do trabalho e a indiferença da rotina. Desceu do ônibus e engoliu um pouco de álcool.

A visão se tornou mais clara e esclarecida. José foi até sua casa e dotado de uma vontade única pegou sua velha espingarda. Limpou-a, carregou-a. Saiu nas ruas e seus vizinhos, seus colegas de trabalho e seus amigos do bar estavam lá, todos eles também com suas velhas espingardas, limpas e carregadas. No frio uma só vontade única e indivísivel. Marcharam em dezenas, em centenas e em milhares. Todos em direção ao centro, atropelando casas, fábricas, hospitais e prédios do governo.

Os dias de José nunca mais foram os mesmos.

 

13/01/2011

Get miles away

Posted in Conto with tags , , , , , , on 15/06/2010 by caioguilherme

Escrevi este texto no começo de 2008, gosto muito dele, mas a releitura que eu fiz hoje até me deixa um pouco envergonhado, pois é um texto meio imaturo… Mesmo assim,  tenho carinho e, apesar dos pesares, admito que o acho bastante bacana.

Get miles away.

Por: Caio Guilherme

Nossos carros estavam parados frente a frente naquele campo isolado. Demoramos algumas horas, dirigindo lado a lado, buscando um canto tranqüilo no qual pudéssemos nos encontrar e fazer o que devíamos fazer. Não queríamos que adolescentes, e seus hormônios a flor da pele, nos incomodassem com seus carros balançantes. O lugar era perfeito, tranqüilo, silencioso e, ainda por cima, nos apresentava um céu estrelado como raramente vemos nas cidades. Logo, algum casal excitado o descobriria e aquele refúgio ficaria perdido para sempre. Aquela noite, ao menos aquela noite, era nossa. As poucas árvores, a grama alta e cheirosa, as esparsas flores amarelas e as estrelas brilhantes, aquele cenário cinematográfico, era de nossa propriedade. Desliguei o meu farol, sendo imitado por ela. Sai do carro e caminhei em sua direção, com o chapéu surrado na mão e um sorriso meio bobo, correspondido por um olhar sedutor, molhado e feliz.
Toquei levemente suas mãos, como sempre fazia ao dar oi. Naquele dia em especial, ela correspondeu o toque, entrelaçando os dedos com os meus. Estranhei, era bom demais. Essas coisas geralmente não são assim, boas e fáceis. Na hora resolvi ignorar a voz em meu subconsciente e curtir o momento, pensar demais confunde e dá medo, com medo nada dá certo ou parece bom o bastante. Fiquei calado olhando-a até que ela apertou seu corpo contra o meu. A encostei na lataria do carro e começamos a nos beijar loucamente. Éramos como dois adolescentes de que tanto pensava mal, de hormônio a flor da pele, desejando, mais do que tudo, balançar o carro durante a noite toda. Éramos o casalzinho atrás de um canto escuro e discreto para economizar motel e eu pretendia aproveitar todas as vantagens daquilo.
Sua mão percorria meu corpo, procurando por algo. Eu cheguei a achar que ela estava em busca de meu coração. Tateando os músculos cansados e a pele cheia de gordura em busca do que fazia com que a amasse e a apartasse de maneira quase selvagem. Eu fazia o mesmo. O problema é que ela não procurava o mesmo que eu.
Em um último espasmo, ouvi o clique de minha arma. Ela deu alguns passos para trás, com a pistola apontada para mim. A olhei sem entender e tentei avançar. Um disparo passou renteao meu rosto , avisando que era melhor ficar parado.
“Vire-se”. – disse ela.
Eu não respondi e olhei de forma seca e apagada em busca de uma explicação.
Ela repetiu:
“Vire-se”.
“Se vai me matar. Faça frente a frente.” – falei cansado.
Ela baixou o rosto, mas não descansou a arma. Começava a chorar. Eu tentei avançar mais um pouco, mas ela recuou em resposta, levantando os olhos vermelhos para mim. Não consegui encará-los, baixei minha cabeça e me virei. Não encontrava forças para reagir.
Esperei ela pensar no que ia fazer. Mas não percebi a resposta. Quando ia me virar uma porrada acertou-me no cocuruto. Ela me acertara com a coronha da arma e eu apaguei instantaneamente.
Abri os olhos, não sei quanto tempo, depois. A boca estava seca e amarga. A nuca doía e parecia estar esmigalhada. Minha visão estava turva, ela acertara em cheio. Ainda de bruços arrastei um dos braços para o local do ferimento, havia sangrado bastante e de certo teria de tomar uns pontos. Nada com que não estivesse acostumado. O sangue já se coagulara, enroscando os fios do meu cabelo. Tudo indicava que dormi um pouquinho demais.
O meu carro estava lá, ainda. O dela desfez-se em marcas de pneu. Fiquei de joelhos e olhei os céus, que ódio estava sentindo. Levantei e cambaleei até meu carro, estava todo trancando. Procurei minhas chaves e não as achei. Senti que ia vomitar, mas prendi o ácido estomacal. Tirei uma garrafinha com uísque e tomei um gole. No pára-brisa do carro havia um pedaço de papel preso em uma pedra, grande o bastante para resistir a ação do vento. A bebida já estava tornando minha visão um pouco mais clara, mais objetiva. Li o papel e o abandonei no ar.
Ela havia levado as jóias embora e jogara minha chave pelo campo, “não muito longe do carro, para você não ter problemas…” dizia o bilhete. Não haveria problemas, era só quebrar a janela e fazer uma ligação direta, ela sabia. Bebi mais um gole e olhei o relógio. Ela deveria estar bem longe e eu gostava do meu chaveiro. Decidi esperar para procurar as tais chaves.
Me sentei apoiado numa das rodas do carro. Detetives não deveriam dormir com clientes, essa deveria ser a regra número um do manual da academia. E era. Pena que eu nunca obedecia às regras. Ela levara as jóias, me batera e sumira com minhas chaves. Que dia. Abri a carteira, havia dinheiro a mais. Ela pagou meus honorários. Não me senti realmente melhor. Minha boca só ficou mais amarga, minha cabeça só doeu mais.
Tomei outro gole do uísque, mas o cuspi, estava cansado daquilo. Sentei e olhei o céu.
Só me restava apreciar as estrelas, esperar o sol surgir e me lembrar daquele beijo, pensando em como seria bom ser um adolescente num carro balançante, num campo deserto e triste, aproveitando o calor de um outro corpo, perdido na escuridão da madrugada.
Tem coisas que são só para os jovens. Lembrei que tinha fósforo e cigarros, ascendi um, traguei e soltei a fumaça, esta parecia uma mulher dançando sob a luz das estrelas, parecia com ela.

FIM.

Posted in Poesia with tags , , , , , on 04/02/2010 by caioguilherme

 

 

Em meio ao caos

toco seus seios

querendo a certeza

da continuidade.

 

Seu gosto e seu cheiro

dissipam o pensar,

dando espaço ao ser e fazer

infinitos.

 

Chamas vivas e eternas

enquanto duram,

diria Camões.

 

Ao contrário,

você etérea

dissolveu-se em meus dedos,

deixou a saudade

de seus seios.

 

Em meio ao caos,

grito o seu nome,

choro um universo,

mal feito e mal acabado

infinito e órfão

de toda, e qualquer, continuidade

de ti.

 

10 Poemas em Prosa (ou para ninguém reclamar que aqui não tem inovação.)

Posted in Poema em Prosa with tags , , , , , , , , , , , on 10/12/2009 by caioguilherme

10 Poemas em Prosa (ou para ninguém reclamar que aqui não tem inovação.)

Por: Caio Guilherme

I

Ontem um abraço suado. O ônibus nunca passa vazio. O celular castigando orelhas e ovinhos de codorna suando num boteco qualquer. Se eu fosse amigo do rei, compraria-me uma Pasárgada e não venderia bolovo.

II

Daria uma rosa para aquele dia. Do lado da minha casa queima uma fonte de luz colorida. Deixo essa cidade dizendo um nome, maldizendo um beijo e clamando por seu seio. Você me fecha a porta e me agarro num abraço perdido. Tudo cai de lado e digo “até amanhã”.

III

Agora cala e some. Ratinhos no escuro, tão bonitinhos, procurando um queijo. Num buraco da vida encontram um beijo. Lucilda gosta de goiabada e todos gostam de mim. Do que adianta as luzes apagadas se nada acende o meu bem querer. Fecha-se a porta e gatos emergem, mastigam e somem com os ratinhos lá do começo.

IV

 Tem-se uma nota esbranquiçada. Palavras de amor abandonadas na face da terra. Pela cusparada tomada dá-se a outra face do mundo. Perdão não se dá, pois é duro ter que pensar.

O duro, é trabalhar em silêncio. A face dessa Terra toda e tosca fede a ranho. o choro está ardendo.

V

Agora tem sabor de menta. Uns lábios de cigarro emprestado. As bitucas queimam a pele. Não mais beijar barangas. Orgulho ferido dói menos que pisão no pé. Sonho em desejo insatisfeito.

VI

Seu olhos brilham em fogos de artifício. Minha cidade era o caos. Sem você ela virou loucura. Saudades do chocolate que você mordeu. Saudades da sua mordida. Um cheiro e beijos nus na chuva. Te reencontrarei.

VII

Um cotovelo nunca é bonito. Ninguém se apaixona só pelos cotovelos. Quando se encontra um para beijar, belo, lindo e cheiroso, é puro milagre. Eis que você achou o amor verdadeiro.

VIII

Sua pança se encaixava na minha. Seu bumbum liso encaixava na minha mão, combinação perfeita. Bom de apertar. Alegria de tentação. Um bom dia era te encoxar enquanto nos beijávamos.

IX

Não existe verdade. Nem verdadeira paixão. Um gole de tequila, é um gole de tequila. E um beijo apaixonado é o melhor beijo do Mundo até o próximo beijo apaixonado. É que nem quando bebê anda, sorri e o cachorro trás uma bolinha atirada na boca. Tudo tem seu fim. Só resta a bituca. A bituca e fumaça.

O vento, no final das contas, leva tudo. Eu, você, a verdade e a ilusão.

X

Um girassol, o sol e nós dois a noite no terminal. Duro é embarcar para descer tão logo, já que sua mão é quente e o seu ombro gostoso. Melhor que isso, só se meus lábios tocassem os seus e você dissesse meu nome, sussurrasse em meus ouvidos. Ai, meu Deus, que me perco nesses olhos e não acho mais o caminho de casa.

Quando fizer um gol no futebol, vou correr em direção as câmeras e gritar seu nome. Se desse jeito não te ganhar, vai me restar virar um músico famoso e cantar uma música feita inspirada em você. Poesia é movimento, pena que eu canto tão mal…

Meu Bem

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on 21/11/2009 by caioguilherme

Meu Bem

por Caio guilherme

 

As coisas bonitas vem e vão. Algumas das coisas feias parecem que ficam para sempre. Duro bater em algumas portas e encontrá-las todas fechadas. Duro dar murros em ponta de facas, tentando sair de situações limites em que não há mais soluções.

Queria te dar uma rosa, um beijo, uma latinha de doce de leite. Te dizer “bom dia”, te ver sorrir e essas coisas todas. Queria que não fôssemos erros e desconhecidos, eternos desconhecidos, destinados ao perdido da memória. As coisas boas esvaziaram-se em desencontros e parece que só encontramos aquilo que tinha de ruim.

Portas fechadas. Janelas emperradas. Fantasmas. Não gosto nenhum pouco de fantasmas. Queria que fosse importante e tivesse significado, queria que fosse bom e houvesse espaço para algo melhor. Portas perdidas, memórias fechadas, casos encerrados.

Queria ter um final mais feliz. Uma nova chance, novos momentos. Um olhar. Verde, mel, caudaloso, bonito. Seu olhar. Meu sorriso. Luz. Ah, como era show de bola!

Perfume. Seu nariz no meu pescoço. Palavras feias, as duas, nariz e pescoço. Mas como era bom sentir você sentindo meu perfume. Tem lugares e lugares, coisas feitas para determinados lugares. Nos dias bons, meu pescoço era o melhor lugar para o seu nariz. Meus lábios nos seus, mordendo, chupando, beijando. A poesia nasce daquilo que choca e tão pouco parece poético. Nasce também da sua risada. Nascia, quer dizer. O bonde passou. O trem partiu. A fila andou. Mas algo ficou. Saudosa e salgada, sua pele me faz uma tremenda falta.

Outra coisa que sinto saudades, era quando eu falava bonito e você se apaixonava. Agora, falo feio e você me tira de idiota. As coisas mudaram para bem pior. Meus braços e olhos doem, sinto saudades de te abraçar e falar contigo. Não pelo que já passou, mas pelo que você era, ou sei lá o quê…

Cada coisa doida que acontece na noite, cada onda de prazer que invade o corpo, sorvendo tudo como nunca antes sorvi. Pena que nada me preenche tanto quanto me preenchia o seu olhar.

 

Ao menos, ainda tenho jeito com as palavras. Que venha a fama, então, pois você me parece bem longe e bastante resolvida.

 

Que pena, meu bem, que pena…para mim.

Lá e cá e de volta outra vez…

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 21/08/2009 by caioguilherme

Lá e cá e de volta outra vez…

 

Ele coçou a barba mal feita e rala enquanto observava as duas rampas se cruzarem por entre as colunas daquele prédio grande e encardido, parecido com uma rodoviária qualquer. Era noite, fazia tempo que ele não aparecia ali. Ainda mais de noite. Muito tempo, muito tempo mesmo, que não fazia aquilo. Olhou para as pessoas que passavam, não reconheceu ninguém, apesar de algumas lhe serem familiares.

Lembrou dos últimos tempos, do último ano e meio, dos amigos que fez, das coisas que construiu, ganhou, perdeu, dos olhos onde mergulhou e das bocas que beijou, da boca dela.

Tudo aquilo pareceu só um sonho, um sonho sem significado e valor, só uma ilusão e um intervalo entre a vida que talvez não devesse ter abandonado. Agora,  estava lá, coçando sua barba pensando no que fazer. Entendeu as histórias de David Goodis, quando o protagonista acabava voltando para a vida que tentou deixar para trás, após perceber que aquilo que parecia melhor não era tão melhor assim, só mais mentiroso.

Piscou tentando enxergar mais além, mas não conseguia ver nada, simplesmente pulou e entrou naquilo que parecia ser os remendos de sua velha vida, um grande vazio…