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Fim de Ano

Posted in Comentário do Autor with tags , , , on 20/12/2009 by caioguilherme

O ano de 2009 está se despedindo bem rapidamente. Não gostei muito dele. Conheci pessoas, fiz amizades novas, descobertas e conquistas, mas, no fundo, no fundo, nada disso valeu o processo de piora pessoal que eu sofri. Estranho como não há um fim do ano que eu passe com a sensação de missão cumprida. Bem, resta continuar na boa luta e tentar dar certo, quem sabe um dia de tanto se tentar e errar, não acaba se conseguindo aquilo que há de bom?

Leiam Hemingway, trabalhem menos, leiam Rubem Braga, escutem Cake, bebam cerveja num fim de tarde qualquer, comam camarões, não abusem do chocolate, misturem o café no leite e chuchem um pãozinho nele. Na verdade, chuchem o pão no leite, raspem o molho da comida com pão. No café da manhã misturem doce de leite, geléia e manteiga no nosso bom amigo francês, que fica bom demais. Beijem sem se preocupar com o horário de ir para casa, sejam homens e mulheres felizes, sem joguetes nos relacionamentos, sem se preocupar demais com as obrigações financeiras ou com o longo e doloroso processo de formação universitária, essas coisas são importantes, mas não podem nunca esterilizar os relacionamentos.

Por fim, cabe um recado de Rubem Braga, dado pelo Corvo da crônica História de São Silvestre. Façam tudo o que eu disse lá em cima, mas, antes, reflitam.

Quando as taças tiniram, lábios amantes se beijaram e sirenes e sinos saudaram a Meia-Noite, o passarinho do relógio começou a cantar. Foi então que aconteceu a Coisa Impressionante. Um grande Corvo de Madeira preta surgiu das trevas, matou o gracioso cuco com uma bicada e muitas luzes se apagaram, e nós todos, trêmulos, não víamos mais do que o Corvo e a Sombra do Corvo. Houve um silêncio tremendo e depois ouvimos a sua voz roufenha:

“Eu sou o Corvo saído das catacumbas do Ano Morto. Eu venho do ventre escuro do tempo, eu sou o Corvo do Ano Morto. Rindo, bebendo, bailando, beijando-se e dizendo tolices e fazendo votos levianos de felicidades vós tripudiais sobre o cadáver do Ano morto. Vós tripudiais sobre vossos próprios cadáveres. Quanta coisa dentro de vós morreu este ano.”

“Quantas flores pisastes no jardim de vossa alma, e a ternura que secou, e as nuvens de fumo acumuladas entre vossos olhos e as estrelas, fumos de vossa maldade. Olhai para trás, senti dentro de vós mesmos o peso morto de vossa Desídia e aí tereis a imagem do Ano novo. Assim será. Estareis caminhando para Doença e o Remorso; continuareis a negociar com a moeda de vossa covardia. Sabeis disso. Por que não chorais agora, por que não encheis vossas taças com fel e vossos pratos com cinza?[1]


[1] BRAGA, Rubem  História de São Silvestre, in: BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Rio de Janeiro e São Paulo, Editora Record, 2008. p. 128.