Arquivo para Graham Greene

Resenha: Nosso Homem em Havana

Posted in Resenha with tags , , , , , , on 01/08/2010 by caioguilherme

Graham Greene é um dos nomes favoritos na minha humilde biblioteca e eu o “descobri” graças a revolução feita por editoras como a L&pm e seu esforço por viabilizar e popularizar os livros de bolso.

Ponto que eu mais gosto da sua obra, ao menos o bom punhado de livros dele que li, é o fato de ser extremamente variada, apresentando enredos e personagens que ao mesmo tempo em que são distintos guardam alguma familiaridade entre si. O Poder e a Glória é muito diferente de o Terceiro Homem, que é bastante diferente – apesar do título –  de o Décimo Homem, que por sua vez o é de Nosso homem em Havana. O ponto em comum, além da escrita própria de Graham Greene, é a relação do homem, a culpa e o catolicismo. Que em outras palavras, podemos resumir como o  choque do homem frente a culpa católica.

Este dilema permeia todos os seus livros, mas sob formas e tons de humor extremamente diferentes. Na obra é possível encontrar romances de traição, dramas e humor de espionagem internacional, dramas de burocratas e muito mais, todos refletindo de maneira rica este choque fundador do Ocidente. A questão que sobressai desses livros é: Como sobreviver, e ser feliz, em frente aos desígnios do Deus cristão? Não sou religioso- nem acredito em Deus – mas essa pergunta deve interessar muitos outros além dos que crêem.

O livro que serviu de entrada para esse universo, se não estou enganado, foi o Nosso Homem em Havana, um livro pequeno e permeado por um humor irônico, onde acompanhamos a vida do quase patético Mr. Wormold e suas dificuldades em administrar os exóticos desejos de sua filha, ultra-religiosa, Milly com sua pouco animadora vida financeira como vendedor de aspiradores de pó. A providência, quase como resultado das orações de sua filha, bate a porta de Mr. Wormold sob a forma de um agente do serviço secreto britânico que dará a chance de Wormold ganhar muito mais do que vendendo produtos de nomes duvidosos, numa Havana indiferente e pouco acostumada com sua presença de décadas.

Através de sua nova atividade, ele descobrirá por quais meios o amor e a amizade são feitos e desfeitos, o quão curtas são as pernas da mentira e o quanto é amarga a culpa em frente a um Deus no qual ele não acredita, mas ao qual tem de se sacrificar por amor a filha.

Nosso Homem em Havana é um livro cheio de intenções, que se apresenta como um simples e despretensioso trilher de espionagem, que vale uma leitura atenta, tanto pela infinidade de temas subentendidos e claramente discutidos, quanto pelo capricho na tensão e na ação, ingredientes básicos para esse tipo de livro.

Chuva no deserto

Posted in Comentário do Autor, Conto with tags , , , , , , , , , , , , , on 01/08/2009 by caioguilherme

Comentários desligados do texto.

Nomes importantes para serem guardados e trabalhos para sem lidos: Stendhal e o Vermelho e o Negro, Graham Greene e O Poder e a Glória , Ferreira Gullar e o poema Cantada, Raymond Chandler e o Longo Adeus, Júlio Verne e o Viagem ao Centro da Terra, F. Scott Fitzgerald e O Grande Gatsby, Kafka e A Metamorfose,  Tchekhov e A Dama do Cachorrinho, David Goodis e o Atire no Pianista, Dashiell Hammett e o conto O homem que matou Dan Odams e Dostoievski e Noites Brancas.

Todos esses textos são essenciais para entender o que eu procuro quando escrevo…

 

Chuva no deserto.

Caio Guilherme

28/07/2009.

 

Chove. Ou ameaça chover. Não sei mais ao certo, pois meus sentidos estão confusos, difusos e apagados. Em meio a névoa dos meus olhos sinto um horizonte quase que completamente cinza, só com uma fina linha alaranjada contrastando com a semi-escuridão. Com certeza são as nuvens prontas para castigar qualquer um ou qualquer coisa que já tenha feito algo na vida. Um paredão de água para lavar todos os nossos pecados. Não escuto muito bem. Ao longe parecem pegadas. De perto, parece um banjo. Parando para ouvir a música eu acabo não percebendo som algum. Parando para sentir a música eu acabo com os olhos marejados. A névoa se torna mais espessa.

Uma corda se aperta em meu pescoço, me vejo arrastado em meio ao deserto, nada nem ninguém me puxa, só a corda. Chove. Ou ameaça chover. São coisas raras, tempo seco, garganta fechada e chuva no deserto. Alucino. A música acaba, até parece que posso respirar. Puxo o ar, ele é feito de areia. Cacos. Meu coração dói tanto hoje. Queria um abraço. Me dão cobranças e eu vomito tudo. Coisa rara, uma chuva dessa no deserto e eu aqui, passando mal. Perder o espetáculo, que droga. A chuva me refresca, lava meus cabelos e dá um fim em tanta poeira. Desmaio. Perco a chuva no deserto.

Acordo suado. Pelado. Aposto que se eu não estivesse morrendo ela não iria tirar minhas roupas. Mulheres, sempre assim. Abro os olhos e torço para que não seja minha mãe ou avó do meu lado. Não é nenhum das duas, ainda bem. Não a conheço, não é parente. Se eu tivesse um carro talvez ela me deixasse tirar as roupas dela. Tusso. Que dor. Ela coloca a mão na minha cabeça, diz que estou com febre… a Jesus, ela nem faz idéia. Meu bem, meu bem, eu tô fervendo. Ela se afasta e busca água. Eu olho, dessa vez não desmaio, não perco o espetáculo. Belo bumbum, empinadinho. Ela percebe, eu desmaio.

Chove no deserto, mas eu não trocaria essa visão por nada. Ela continua do meu lado, dia após dias, limpando meu suor o dia todo e me fazendo suar a noite toda. Esses tempos bons são aqueles que nos forçam a reconhecer que tempos piores virão. É impossível que, depois disso tudo, eles não venham.

Meus sentidos não estão mais tão confusos, melhor aproveitar. Chove. Ou ameaça chover no deserto, eu já não sei dizer a diferença…