Arquivo para Histórias Fantásticas

O motorista de trólebus

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , on 17/01/2012 by caioguilherme

Quem comandava o único ônibus da linha era o Seu Gaspar, um sujeito magro, cabelos compridos, mas ralos e pintados de preto. Ninguém sabia sua idade direito, todos o achavam boa gente – ele não negava caronas – e sabiam que ele era extremamente míope, de confundir a mulher com a amante.

O cobrador variava conforme a história, às vezes era o Pascoal Alecrim, noutras o Amador e, um outro tanto, algum desconhecido mesmo. Nunca conheci uma pessoa que gostasse de cobrador, fosse do ônibus, fosse do governo ou da quitanda da vila.  Volta e meia algum cobrador desconhecido era escorraçado ao negar carona a quem de direito e logo a empresa botava um dos que duravam, mesmo sabendo que eles pegavam umas moedas para si no trajeto.

O Seu Gaspar, ele sim era um herói. Chuva ou sol, estava lá ele arrumando aquelas correias que o trólebus precisa para andar. Engraçado como faziam os troços de energia tão fácil de soltar e difícil de colocar de volta. Ele tinha todo esse trabalho, além de guiar o ônibus quase sem enxergar, e nem pegava dinheiro. No máximo, tomava umas cachaças no almoço, nas custas do cobrador que, por sua vez, fazia o gasto nas contas da empresa mesmo. Dá o dinheiro, mas desce pela frente. Quem iria desconfiar?

Um dia o Seu Gaspar dirigia distraído, cantando a música da pamonha, quando um grito alto, mais alto que o Jaraguá, tomou o trólebus todo e assustou os 6 passageiros, coisa de horrores mesmo. A brecada foi tão forte, que a dona Juriminha, uma anã gigante, quase que pulou para o banco da frente. Pudera, naquele tamanho todo, sentada no banco alto, não tinha como.

A verdade do que aconteceu, era que uma moça grávida ou tava tendo o bebê lá dentro, ou tava sofrendo de uma terrível dor de barriga. Como eu não estava lá, não se te dizer. Só sei que foi um desespero, com umas melecas esparramando por todo o chão.

O Alecrim ou o Amador, no nervoso ninguém lembrou quem, nem hesitou, abriu a porta e fugiu correndo. Restou para o seu Gaspar fazer o parto. Ele, claro, não fez. Acelerou o trólebus o mais rápido que pôde e bateu num poste, sorte que em frente ao hospital. Dizem até que ele nem sabia o que fazia, só viu uma cruz vermelha e mirou nela. Deu o tiro certo, com os olhos fechados. Ainda bem.

Seja como for, não demitiram ele não, nem o cobrador. Os dois ganharam belas medalhas. E aí, o problema começou. Dotados de consideração e respeito da prefeitura – e não de dinheiro – os dois viraram umas pragas. Do nada, exigiam todo mundo quieto, rádio desligado e sem caronas. O trólebus que era um céu, um inferno virou, diriam os poetas.

Meu primo Pedro, um sujeito bom mesmo, tentou pegar  carona um dia. O seu Gaspar, nem teve medo, lhe acertou uma botinada que arrancou ele do ônibus. O cobrador safado, acho que o Amador, desatou a rir.

O Pedro ficou lá, xingando e correndo atrás da condução. E os dois donos do trólebus, sócios da prefeitura, só tirando sarro. Até que o meu primo xingou a amante do seu Gaspar. Aí, a coisa virou tempestade. O motorista pulou do ônibus que nem gato e o Amador também.

A confusão foi se armando, se armando, até que o Pedro, vendo que 2 são mais que 1, mesmo que velhos, resolveu fugir. Seu Gaspar, o motorista, e o Pascoal, é…talvez fosse ele, riram bastante até se engasgar. Tranqüilos, resolveram voltar para o trólebus. Imagina a surpresa?

Enquanto os dois trouxas riam, um passageiro mais esperto levou o trólebus fora. Quem tava dentro, desceu uns dois pontos depois, mas jura que não sabe quem tava pilotando. Seu Gaspar e o cobrador, fosse lá quem fosse, foram demitidos e ninguém nunca mais viu nem os dois, nem o ônibus.

Até hoje me pergunto, onde foi parar o trólebus? Como levaram ele, se ele não anda fora daqueles trilhos pendurados?

Mistérios da meia noite…

Armação Ilimitada

Posted in Conto with tags , , , , , on 15/02/2011 by caioguilherme

A mosca varejeira completou umas duas voltas no ar espalhando seu ruído irritante como o do pulmão de alguém com bronquite. Pensou em asma, bombinhas, biribinhas, explosivos, bombas e, mais poderosamente ainda, em bombas atômicas e no efeito que poderiam ter nas irritantes moscas varejeiras. Talvez elas fossem única e exclusivamente exterminadas, talvez fossem multiplicadas e ampliadas tornando-se a pior praga atômica mundial desde o Godzilla e outros programas japoneses. Tanto fazia, o fato era que aquela mosca varejeira tinha concluído um PHD de irritar.

Pensou nos mil e um problemas que a nova mascote iria causar. Barulho, sujeira e, pior ainda, pequenos vermes comedores de carne. Coisa para filme de ficção de tipo B, moscas varejeiras atômicas e criadoras de vermes mutantes e comedores de homens. Frente a frente com essas terríveis conseqüências optou por não produzir nenhum tipo de holocausto nuclear em seu quarto, garantindo a não multiplicação e ampliação das moscas varejeiras e seus respectivos vermes. Mas, muito esperto, correu para o armarinho da cozinha, pegou um inseticida e gastou uns 15 minutos correndo atrás da mosca enchendo o universo de veneno. “Guerra química:  a mais sábia alternativa aos embates nucleares”, disse para si e, com tossidas sofridas, abandonou o quarto, indo se refugiar na sala, enquanto os gases venenosos e libertadores não salvavam o dia.

Lia o jornal, esperando a paz mundial se expandisse até o seu quarto, quando alguém abriu a porta da sala e entrou dizendo – como se esperasse aplausos:

– Querida, cheguei! – como não haveria de deixar de ser, era o Leão, com seu inconfundível terno.

– Às vezes me arrependo de ter te dado a chave daqui, sabia? – respondeu ele, amarrotando o jornal de forma leve.

– Ora, chefe, ó Xerife! Eu salvei a sua vida, não foi? E depois de você ter me deixado desabrigado… – respondeu o Leão pulando alegremente no sofá e se ajeitando preguiçosamente.

– Verdade e por isso te agradeço. Mas não se esqueça de que você salvou a minha vida, enquanto eu estava ocupado… SALVANDO A SUA! – ele respondeu, pensando no quão destruído estava ficando o sofá.

– Ora e por isso ficamos amigos eternos! E eternos companheiros de apartamento! No mais, não vamos nos preocupar em quem salvou quem, não é? Estamos os dois salvos, isso é o importante – disse o Leão sorridente enquanto pensava se acenderia um charuto ou não. Por fins de moradia, achou melhor não.

– Verdade, claro, com certeza. Agora, me diz uma coisa… Se você lutasse contra uma varejeira mutante e atômica, você conseguiria vencê-la? – ele perguntou ao Leão enquanto calculava o preço de uma pequena bombinha atômica qualquer.

– Com certeza, com certeza. Mas varejeiras atômicas são impossibilidades econômicas, sabia? As bombas andam caras demais, nem vale a pena tentar produzi-las. – respondeu o Leão, bastante precavido.

– Uma pena… – Ele murmurou voltando para o jornal.

O Leão fechou os olhos e pensou em dormir um pouco, mas um telefone tocou desesperado e ele foi obrigado a atender. Era parte do acordo de salvamentos de vidas e compartilhamento de apartamento.

– Aham, claro, sim, sim, sem dúvida. Aham, aham, sei, sei, sim, como não? Claro, claro, sem brincadeiras, ué. Por um acaso o senhor ouviu alguém aqui rindo? Certo, certo, eu compreendo. O senhor conta com a nossa total compaixão. Como não? Claro que compaixão ajuda… até esses dias eu estava desa… Certo, certo, você não quer ouvir sobre minha vida? Então, me diz o motivo de ligar… Ora, seu… Não, não, claro que não quero destratá-lo senhor. Iremos assim que possível. Ah, não posso negar que o pagamento soou muito agradável, mas já lhe considerava um amigo de infância, um irmão até e bem antes disso. Iremos fazer o nosso máximo e o senhor não irá se arrepender, garantia da Oscar Leon e Rodrigo Antílope, investigação, aventuras, produção, editoração e emoção ltda. Ora, como assim? Eu acho um belo nome… Veja bem, em tempos de globalização, crise, expansão e transformação econômica os profissionais tem de se dedicar a múltiplas áreas, pautando o trabalho pela flexibilidade, pela felicidade e pela eficiência, claro, claro, achamos a eficiência algo muito bacana e iremos eficientizar tudo o que o senhor precisar, pois estamos aqui para isso. Sinto até que nasci para nesse dia poder falar com o senhor… Não, não,  tudo isso sem ficar puxando o saco, aqui pautamos tudo pela dignidade. Um táxi? Ora o senhor é muito gentil, obrigado, obrigado e claro, estaremos prontos nesse horário, como vossa senhoria achar mais adequado!

Enquanto desligava o telefone o Leão soltou um estrondoso bocejo e respirou fundo quase como conseqüência. Ele, o Leão, andava bastante cansado. Dormir na sala estava lhe fazendo mal. Ia deitar cedo, se acomodava no sofá e fechava os olhos, mas os instintos eram muito fortes e ele terminava suas noites deitado no chão, em cima de um tapete que, coincidentemente, era feito de pele de uma tigresa falecida. Chegou a procurar ajuda médica, mas não encontrou psiquiatras e psicólogos dispostos a lidar com um Leão tarado e com tendências necrófilas. A solução estudada, e baseada na sua honesta autocrítica, era dar um fim no brega e lascivo tapete e voltar a ser um Leão sadio. O problema era convencer o problemático dono da tapeçaria de que ela era uma ameaça para a moral e os bons costumes do antigo Rei das florestas e savanas e atual inquilino do modesto apartamento.

Dentro de seus loucos devaneios sobre seu sono e sua própria devassidão o Leão foi interrompido pelo seu companheiro de moradia:

– E então, quem era?

– Ah, claro, claro. Temos um caso.

– Ora, vejam só! Que bom.

– Sim, sim, também acho. Poderíamos comprar um tapete novo, né?

– E?

– O quê?

– Você não se esqueceu de nada?

– Ah, claro, claro. O tapete atual…bem, poderíamos doá-lo…

– Boa idéia, boa idéia! Pena que não é dele que estou falando. Será que você poderia me informar que caso é esse? Quanto iremos receber? Quando iremos falar com ele?

– Ah, claro, claro. Que cabeça a minha, não? Bem, deixe-me ver: não se te dizer quanto iremos ganhar, não sei o que iremos fazer e, por fim, nossa carona chegará exatamente… daqui uns…ah, agora!

Mal o Leão terminou de falar e a portaria do prédio ligou para avisar do táxi que os aguardava. O Leão apanhou seu companheiro de apartamento pelo braço e nem lhe deu tempo de protestar, tinham um trabalho a fazer!

 

 

 

 

Triângulo das Bermudas

Posted in Conto with tags , , , , , on 29/01/2011 by caioguilherme

A cabeça parecia descolada do corpo enquanto a mão esquerda parecia colada até demais. O braço esquerdo – e toda a sua extensão – formigava e parecia ter dormido debaixo de um navio baleeiro cheio de óleo de cachalotes.  Formigamento era a palavra de ordem no seu corpo, pois assim que juntou forças para abrir os olhos, a cabeça se rejuntou ao pescoço e passou a formigar na mesma sintonia do braço esquerdo. Logo, todo o corpo estava formigando. Possivelmente, ele pensou, fora atropelado por uma manada de elefantes que se esqueceram de avisá-lo do fato e de deixar o número de suas respectivas placas.
Até os olhos, ao se abrirem lentamente, formigaram. Podendo enxergar percebeu que o surpreendente calor e abafamento eram os rotineiros calor e abafamento de seu próprio quarto multiplicados por 100 e transformados numa grande surpresa por uma ressaca causada por algo que não conseguia se lembrar de ter tomado. Ficou preocupado com os velhos ditados sobre bebedeira, mas a ausência de um tipo muito específico e pouco desejado de dor trouxe-lhe alguma tranqüilidade. “Nem sempre a falta é inimiga da perfeição”, pensou todo orgulhoso da sua capacidade de dizer e pensar coisas bonitas. A egotrip combinada com a continuidade da virgindade anal lhe animou um pouco e quase sem esforço conseguiu se arrastar vexatoriamente para o chuveiro. Esticou uma mão trêmula e desligou a resistência, tinha certeza de que a água fria era o único remédio para os seus males.
Como óleo fervente uma água teoricamente fria começou a ser despejada em seu corpo, deveria ser tarde e o sol deveria estar caprichando na tarefa de esquentar água naturalmente. Os sentidos tinham perdido qualquer significado dentro de toda aquela fumaceira e ele logo terminou seu pseudo banho. Enxugou-se numa toalha encardida, voou para o quarto e se vestiu com roupas leves.
– Assim é bem melhor, não é mesmo?
Assustado ele se virou e percebeu que durante todo aquele tempo tinha visitas. E, o pior, além de vê-lo de ressaca, depois tomando banho e se vestindo, a visita não era um ser humano. Um enorme leão de pé em duas pastas fumava um charuto enquanto ajeitava seu paletó e sua gravata e sorria para seu anfitrião.
– A vida é assim mesmo. Enquanto uns tão de bermudão e camiseta de algodão, outros ficam presos em ternos de lã. E como agravante, ao menos no meu caso, são peludos pra cacete.
Dentro das circunstâncias não encontrou palavras para responder e coçou a cabeça, um pouco confuso. Será que os amigos haviam lhe inscrito em alguma pegadinha do Silvio Santos? Se fosse o caso, o Liminha estava muito bem fantasiado. Pensou em gritar e se fazer de assustado, nem por medo e nem por pavor, mas por respeito mesmo, que um trabalho de produção daqueles não podia ser menosprezado e tratado como algo normal do dia a dia, com indiferença e preguiça. Absorto nessa reflexão sobre respeito e amor ao próximo nem conseguiu se perceber apontando para uma placa ao lado do espelho e dizendo:
– Nessa casa não se fuma.
O leão, tão surpreso quanto ele mesmo estava com o que havia dito, apagou o charuto com a língua e com certo despeito disse:
– Se está escrito, não precisa ler. Já fui alfabetizado.
Definitivamente não era pegadinha do Silvio Santos. E nem o Tiririca em algum novo quadro do Show do Tom. Nesse momento percebeu que a vida era daquele jeito mesmo, cheia de revelações bombásticas que uma pessoa não pode ir dormir sem saber. Tinha um leão fumante, inadequadamente vestido e meio rude no seu quarto. De novo, se pegou dizendo algo sem a devida ponderação:
– Nessa casa não se usa ternos. – Disse isso com certa raiva e apontou para uma placa ao lado daquela que estava ao lado do espelho. E Depois completou – Sinceramente, eu não leria as placas se o senhor se desse ao trabalho de respeitá-las.
O leão ficou visivelmente nervoso, mas contou até dez e foi ao banheiro. Voltou vestido de maneira mais casual e guardou o terno, a gravata e o charuto numa mochila. Desta retirou um chapéu panamá, uma garrafa de uísque, um copo e alguns cubinhos de gelo. O rei das selvas preparou seu drink e bebeu bastante satisfeito.
Ele, o dono da casa, perante a incrível cena que presenciava disse- dessa vez com bastante certeza daquilo que estava dizendo:
– Nessa casa não se bebe álcool. – E apontou para outra placa do lado daquela placa do lado da placa que estava do lado do inofensivo e, sem nenhuma proibição, espelho.
O leão, decidido a não mais ouvir proibições retrucou:
– Hipócrita, na frente de todo Mundo você fuma, usa terno e bebe todas. Agora, em sua casa, quer dar de santinho para cima de mim?
Vermelho ele pegou o leão pelo braço e saiu do quarto. A dupla parou na sala e ele abriu a porta, indicando a saída. Nessa posição disse:
– Oras, são assim que as coisas são.
O leão ficou visivelmente triste e disse:
– Mas eu sou um amigo que veio te visitar. Você vai mesmo me expulsar?
Ele não se demonstrou abalado, pegou a mochila do leão e a jogou para a fora. O leão lentamente se dirigiu para a saída, parando na soleira da porta, encarando-o com uma tristeza de dar dó e pedindo, com o silêncio que só traduz mensagens pelo olhar, desculpas por ter taxado o dono da casa de hipócrita.
Seu quase ex anfitrião continuou sem se abalar e disse, enquanto fechava a porta de casa:
– Saia por ai e espalhe a notícia: há um novo xerife na cidade.

FIM.
29/01/2011

Considerações sobre o Final de Lost II

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

Depois dessas considerações sobre o seriado em si e a tradição literária de onde ele vem e dialoga resta pensar um pouco sobre essa temporada e o final de Lost, exibido dia 25 de maio no AXN. O objetivo, como ficou bem perceptível no texto anterior, não é mastigar e “dar” as respostas que dizem que Lost não deu.

Basicamente, a Ilha é um pedaço de terra relativamente pequeno e cercado pelo mar em todos os lados. Se fosse cercado só em 3 lados e fosse ligada por um faixa estreita com um pedaço de terra a ilha seria uma península, tipo Portugal e Itália…brincadeiras a parte, ao pensar na Ilha e em suas propriedades estranhas a gente tem que fazer o paralelo com o próprio planeta Terra. De onde veio o primeiro habitante? Se ele existe, alguém o criou. Se alguém o criou, quem foi? Se foi algo que chamam de Deus e ele existe, necessariamente alguém o criou. E quem foi que criou Deus? Um Deus acima de Deus? E quem criou esse Deus acima do Deus que criou o homem e o pôs na Terra? Isso é o que teólogos e físicos chamam de regressão infinita. Quando os telespectadores começam a se perguntar, quem criou e quem era a moça que cuidou do Jacob e do irmão, acabam caindo nessa mesma armadilha. Quem foi que colocou aquela mulher lá? E quem foi que permitiu/criou o sujeito que foi lá na Ilha e colocou a mulher que deu lugar ao Jacob? Como ela mesmo disse no episódio Across the Sea, uma resposta para esse tipo de pergunta, gerará mais duas.

Entre os historiadores algo que é bastante comum é evitar esse tipo de pergunta e especulação e se concentrar no que é perceptível ou dado, como, por exemplo: Os portugueses sabiam ou não da existência do Brasil antes de 1500? Se sabiam, quem foi que descobriu? Será que foi mesmo Cabral? Cabral sabia que existia algo lá? Quem contou para ele? Tais questões não podem ser respondidas pelas evidências existentes nas fontes históricas conhecidas, mas a partir da constatação de que em 1500 eles oficializam uma posição e passaram a ocupar o “Brasil” é possível questionar sobre os interesses, as ações, os desenvolvimentos e as relações deles com a terra descoberta. O importante no Mundo não é pura e simplesmente perguntar, o pulo do gato está em saber fazer a pergunta.

Feita essa pequena digressão sobre as perguntas é possível pensar melhor sobre a Ilha. O lance não é ficar pensando em criou o quê e quando, se não existem elementos que permitem refletir sobre isso. O seriado dá o seguinte: a Ilha existe, não faz parte do espaço-tempo normal e possui uma estranha energia em seu núcleo, que é defendida por uma pessoa possuidora de algo especial, contra qualquer ser que tente ameaçá-la. Logo vem a mente o Triângulo das Bermudas e suas estranhas manifestações magnéticas. Em um lado mais bizarro pode-se até dizer que foi um meteoro que caiu lá e emana uma energia especial, ou que Moisés enterrou a pedra dos 10 mandamentos lá, ou que a lança que matou Jesus está enterrada por ali, ou que Aliens pousaram sua nave lá e deixaram uma criatura feita da mistura de seu DNA com o DNA de um macaco, cuidando do lugar. O barato do seriado, como perceberam os mais espertos, é o múltiplo viés de interpretação que ele permite para várias coisas. Os acadêmicos que estudam literatura nos últimos anos perceberam que um texto rico, de qualidade, por exemplo, não possui só a leitura que seu autor imaginou, ele dá espaço para diferentes leituras de diferentes leitores, já que cada um desses possui bagagens diferentes entre si e diferentes do autor. É óbvio, que o que está escrito está escrito e traça os parâmetros básicos da interpretação, mas dentro desses limites existe uma infinidade de coisas, como existe entre o número 0 e 1.

A Ilha possuidora dessa energia estranha navega como que aleatoriamente pelo planeta Terra. Uma hora ou outra alguém desde um desavisado mercador fenício até um piloto de avião fazendo uma volta ao Mundo acaba dando de encontro com ela e caindo por lá. Eis ai a explicação de uma primeira ocupação da Ilha. Num momento pós Jacob, já foi deixado bem claro que ele usa de suas atribuições especiais para atrair pessoas até lá para tentar mostrar a possibilidade de bondade humana para o monstro de fumaça e, com alguma sorte, encontrar uma pessoa que lhe substitua. Ele não é infalível ou onisciente, mas é detentor da possibilidade de fazer as regras dentro da Ilha, já que é o dono do jogo, e possui um bom conhecimento proveniente de anos e anos de observação e de uma vida sem Tv.

Os outros e a Iniciativa Dharma lá viveram por vontade desse tal de Jacob. Uns foram trazidos por ele, outros descobriram como chegar lá, com um empurrão dele. Os outros tentam, por sua vez, levar uma vida bacana, calma e tranqüila, pautando-se pelas escolhas certas e não pelo que o monstro de fumaça diz, o seriado demonstrou várias vezes que eles na maior parte do tempo não conseguiram. Os malucos da Dharma buscavam pelo conhecimento, pela manipulação de energias de enormes potencialidades e aplicações. Sua ação termina quando, influenciados pelo monstro de fumaça, os outros resolvem exterminá-los de vez.

O irmão de Jacob vira o monstro de fumaça ao ser jogado, morto ou inconsciente, dentro da gruta onde a energia que move a Ilha se faz mais perceptível. Em Across the Sea, a mãe do Jacob explica que aquela Luz é a mesma coisa que está dentro de todas as pessoas. Filosoficamente isso se liga com a idéia de que dentro de todos os seres humanos existem em igual quantidade potencial para o bem e para o mal, bondade e maldade, que cresce ou diminui na relação com o Mundo e a partir das nossas escolhas. Quando Jacob joga o irmão dele dentro da Luz, o potencial para o mal é liberto, torna-se consciente e capaz de interagir, apesar de estar preso as regras impostas pelo guardião da Ilha. A partir desse momento, a Ilha deixa de ser só um lugar que se move aleatoriamente no planeta, para ser a prisão para a maldade que antes existia presa no centro do ser humano com a luz. O responsável por libertá-la dessa condição primeira, torna-se o responsável por impedir que essa criatura com poderes e cheia de maldade e descrença em relação ao ser humano se liberte e possa existir sem as regras que lhe são impostas na Ilha. Como ser inteligente e consciente que é, a nuvem de fumaça/irmão do Jacob traça planos para eliminá-lo e o Jacob sabe que ela é muito mais esperta do que ele, tomando como missão paralela achar seu substituto.

Os outros e a Iniciativa Dharma lutam entre si e os outros atacam aqueles que vieram no avião e etc, por influencia negativa do monstro, pela influencia e regras do Jacob e porque o conflito faz parte da natureza humana.

Toda essa “mitologia” dá série, explicada na sexta temporada dá conta das visões que alguns personagens tem, da aparição de pessoas que morreram (fumaça preta), da cura do Locke, da Rose, dos poderes especiais do Desmond e de um monte de situações estranhas, como a escotilha e os ursos polares.

Continua em um próximo texto.

Abraços

Caio

Algumas considerações sobre o fim de Lost…

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

 

Depois de 6 anos e não sei quantas centenas de episódios o seriado Lost encontrou o seu fim. Em geral o público e a crítica não gostou do modo como tudo foi encerrado e argumentos como “manipularam a gente para assistir, nos enganaram e desperdiçamos 6 anos de nossas vidas…” têm sido bastante recorrentes, como se o JJ Abrams, Lloyd Braun e Damon Lindelof tivessem assinado um papel dizendo que o seriado seria uma panacéia para todas as dúvidas e males da humanidade e depois tivessem criado um grande esquema de manipulação e obrigado todos a assistirem o seriado, que em seu fim não cumpriu o prometido e deixou todo Mundo na mão, esperando a cura do câncer ou algo assim.

Fico apreensivo quando a massa dos telespectadores recorre a esse tipo de argumento, pois isso demonstra como eles, em sua maioria, recusam sua autonomia no que vão assistir, tendem a imputar a terceiros a responsabilidade pelo bom ou mau uso de seu tempo e acabam esperando algo demais de uma obra que em primeiro lugar tinha como objetivo entreter, não sendo feita para educar ou oferecer soluções para os problemas da humanidade. Quanto a  crítica, esta ao embarcar no bonde geral dos telespectadores demonstra o como ela tem dificuldade de compreender as estratégicas básicas dos folhetins do século XIX, coisa que influenciou bastante o modo como o seriado era conduzido (como a solução de um conflito de um episódio só no seguinte e etc…), e também de medir quais eram os objetivos e parâmetros pelos quais os autores de algo se guiaram.

Pelos motivos acima, eu não concordo muito com a maior parte das críticas feitas e pretendo, na medida do possível, rebatê-las fazendo algumas considerações sobre o seriado Lost e as raízes, tradições e pretensões com que este dialoga.

Em primeiro lugar é importante perceber que Lost é uma peça de ficção, com forte diálogo com a tradição literária e que nunca pretendeu ater-se ao campo da razão, do crível e do possível. Além disso é um produto da Industria Cultural, que tem como objetivo principal ganhar dinheiro com entretenimento, e devido a sua grande qualidade ultrapassou as fronteiras e limites dessa sua condição inicial, tornado-se – sem exagero – uma obra de arte, uma narrativa épica como a Ilíada e a Odisséia. O que quero dizer com isso?

Simples, quero dizer que Lost é uma narrativa de algo que não aconteceu no Mundo real e histórico, que bebe em diferentes tradições ficcionais e narrativas e que não pretende ser um retrato social, político, científico ou econômico de uma época, ou seja, não é uma obra com os objetivos de um livro do Realismo, por exemplo. Durante seu desenvolvimento, o seriado dedica-se a discutir aspectos Universais da condição humana e faz isso frente a acontecimentos fora do comum, com elementos de sobrenatural e divino, sem se preocupar com a verossimilhança com a realidade e com um tempo específico, sendo, então, algo como um mito.

Essa percepção é essencial para poder embarcar na viagem que os autores propuseram, mesmo sem ter plena noção do que estavam fazendo e tendo de corresponder em alguma medida às necessidades comerciais do empreendimento, e assim poder apreciá-la, entendê-a e critica-la.

Oferecer mistérios e não solucionar conflitos em um episódio e só resolvê-los nos seguintes é uma característica muito comum aos folhetins do século XIX, onde era preciso criar algo que fizesse o leitor comprar o jornal do dia ou da semana posterior. Lost em meio a sua narrativa épica, onde fé e razão, relações humanas, livre arbítrio, noções de tempo, ciência e espiritualidade são discutidas, oferece uma porção de mistérios, que servem para atrair espectadores. Nesses 6 anos os mistérios foram surgindo por forma de camadas, onde a “resolução” de uma coisa, gerava ainda mais dúvidas e essas novas dúvidas traziam novos problemas, que possuíam novas respostas, que, por sua vez, traziam novas questões.

No século XIX, Edgar Alan Poe traçou as linhas que serviriam de guia para os Contos e Romances Policiais. Nestes, um detetive é apresentado aos vestígios (evidências) de um acontecimento e através destes o reconstituí, oferecendo respostas do tipo como, onde, quem e o porquê. Livros como os do Sherlock Holmes e seriados da franquia CSI fazem parte dessa tradição. O espectador ou leitor acompanha o detetive e observa as mesmas evidências que ele, tendo a ilusão da chance de resolver o enigma, e no final recebe uma explicação de quais e como essas evidências permitiram responder as perguntas básicas que expus acima. Geralmente um seriado como CSI irá fazer isso através de um diálogo entre o detetive e uma outra pessoa, onde um flashback irá recordar tudo o que foi visto e o detetive vai explicar como ele ligou uma coisa com outra, sem deixar espaços para dúvidas. Essa explicação tende sempre a fugir um pouco da visão do espectador, que até conseguirá descobrir quem matou e coisas desse tipo, mas nunca terá um insight como o do detetive. É só pensar em no House e no como ele sempre tem uma noção, uma intuição e um conhecimento absurdamente superior ao dos seus assistentes.

Lost não compartilha dessa mesma tradição do Conto/Romance Policial do século XIX e de Alan Poe. Os mistérios são apresentados sem vestígios ou evidências e suas soluções são apresentadas dentro da própria narrativa, dentro dos detalhes e daquelas coisas que parecem pouco importantes. No Romance Policial o jogo é fazer uma reconstituição enquanto que na tradição da qual Lost faz parte o essencial é prestar atenção e interpretar, olhar o detalhe, perceber, interpretar, discutir com amigos e entender. O Jack e o Locke, por exemplo, não estão na ilha para descobrir quem é o monstro, o que foi a Iniciativa Dharma e quem é o Jacob, estão lá vivendo conflitos de sobrevivência, de fuga ou permanência na ilha e essas são suas questões. O Jack só quer ir embora e para o personagem dane-se a Iniciativa Dharma, a dúvida e apreensão sobre ela atinge o personagem, mas não se torna seu mote, ele não está lá como um detetive, para responder essa questão, ele está lá querendo ir embora e nessa jornada acaba lidando com coisas que permitem ao leitor interpretar e entender o que esta era, sem o personagem precisar dizer: “Isso aqui era por causa de X, que se relacionava com Z e pronto, é isso e é elementar, meu caro Watson”.

Talvez a coisa mais sensacional do seriado seja exatamente isto, não oferecer respostas prontas e dá-las de bandeja ao telespectador. Seu caráter de narrativa épica torna Lost uma peça de ficção sobre o homem e suas questões Universais, fazendo encarar seus dilemas elementares ao lidar com as situações mais inusitadas, no caso viagens no tempo, uma ilha misteriosa e um conflito entre dois irmãos que a muito não são humanos. Pensando em outros épicos, a gente vê que os temas também sãos os Universais, amor, ciúme, saudades, etc, onde personagens como um Ulisses tem de lidar com um Poseidon vingativo e cruel, que não quer que ele volte para casa, ou um Heitor tem de defender seu irmão e cidade, lutando com um sujeito como o Aquiles, cujas chamas dos deuses tornaram indestrutível.  O bacana é que apesar do quão absurdo algumas coisas se tornaram em Lost, essa discussão sobre o básico do homem não se perdeu em momento algum.

É claro que essas considerações não dão conta de coisas esdrúxulas, como a criação de triângulos e quartetos amorosos, muito para satisfazer a audiência, ou alguns erros de produção e roteiro, como no caso do Walt, mas servem para perceber que as exigências feitas ao seriado de forma alguma são condizentes com as próprias pretensões deste. Críticas falando em mistérios não resolvidos e em manipulação ou desperdício da vida de quem assistiu, não cabem, pois Lost cumpriu seu objetivo primeiro, que era oferecer um passatempo/entretenimento para as pessoas que isso buscavam na frente da Tv. Sim, a emissora, atores, produtores e etc ganharam rios de dinheiro, mas os programas da Tv comercial exigem isso, atrair audiência para vender mais e mais caro suas cotas de marketing, o que, a principio, não lesa ninguém, até porque todos temos autonomia de buscar aquilo que nos diverte e como passar nosso tempo, sem que essa escolha diga respeito ou seja culpa de alguém. Talvez seja hora, do telespectador refletir sobre o que faz da sua vida e de seu tempo livre, ao invés de culpar profissionais que tentam ganhar a sua. E também buscar estímulos para a sua própria inteligência e reflexão sobre a vida sem se limitar a tudo aquilo que é óbvio ou enlatado.

Pensando o seriado pelos parâmetros pelos quais os autores tentaram levá-lo, só resta dar os parabéns e deixar para comentar o último episódio especificamente numa próxima ocasião.

 

Abraços,

 

Caio

A excepcional história de Alberto F.

Posted in Conto with tags , , , , , on 30/03/2010 by caioguilherme

 Alberto F. bateu no despertador quando este tocou lhe avisando que era hora de acordar e cair na vida rotineira. Nesse caso o primeiro a cair foi o próprio despertador, que ficou bastante despedaçado. Alberto, vendo o estrago, praguejou pensando nos 10 reais que teria de pagar por um novo. Ele coçou os olhos, estralou o pescoço e se levantou de mau humor, o dia de Alberto começou.

Alberto F. tomou uma ducha fria e rápida, mais para acordar o corpo do que para ficar limpo. Não gostava, mas fez a barba e banhou seu rosto com álcool. Com a face vermelha e queimando, verdadeiramente ardida, Alberto vestiu sua roupa de trabalho, só deixou o paletó e a gravata para depois do café.

Alberto F. não teve tempo de esperar a água ferver totalmente. Teve que tomar um café meio morno e mal diluído. Um pedaço de pão com manteiga fria tinha a missão de acompanhar o café e manter Alberto livre da fome até a hora do almoço. Coisa que, por sinal, a dupla nunca conseguiu fazer em toda a existência medíocre dele.

Alberto F. escovou os dentes sem paciência e com muita pressa e, obviamente, foi punido por isso. A pasta caiu em sua única camisa limpa e passada. Jogou água e tentou dar um fim na pasta, o que resultou numa perceptível mancha. Escondê-la com o paletó foi a única solução que ele conseguiu encontrar, o que lhe dava uma péssima perspectiva de como seria o dia. A eminência de usar o paletó o dia inteiro já estava matando Alberto com um calor antecipado, coisa que o deixou ainda mais nervoso.

Alberto F. sem controle ficou. A percepção de que havia algo errado abalou por demais a suas noções sobre a normalidade da vida. Uma mancha de pasta de dentes foi o estopim que início a Terceira Guerra Mundial na cabeça dele. O resultado foi um grito dolorido e raivoso e Alberto correndo nu pelas ruas da cidade.

Alberto F. foi recolhido pelo Pinel cerca de 10 dias depois. Nesse meio tempo o Santos foi campeão do Paulista 2010, o Ronaldo foi flagrado numa orgia com 10 travestis e a Fernanda capslock ganhou o BBB10 com uma vantagem de 10 milhões de votos. Ninguém nem teve idéia do que Alberto pode ter feito, os seus 10 dias de loucura não ganharam os jornais.

Alberto F. tem passado muito bem nos últimos tempos. Remédios têm garantido que ele seja um dos mais felizes residentes do Pinel. Alberto sonha com leões todas as noites e não existe despertador ou gravatas que possam interrompê-lo.