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Não estamos livres

Posted in Conto with tags , , , , , , on 14/02/2012 by caioguilherme

Eu caminhava com passos vacilantes por causa de uma queda. Não eram tempos fáceis, os antibióticos e os analgésicos se combinavam para me fazer esquecer onde estava e quem era. Uma confusão crônica se apossara de mim e por maior que fosse o meu esforço, eu pouco lembrava das coisas.

Uma vida sem lembranças era como uma prisão dentro da mente. Eu manquitolava pela casa e não me deixavam sair, com medo que  me perdesse para sempre. Mal sabiam eles, que eu já estava profundamente perdido. Um joelho estourado não era nem um pouco fácil. A dispensa do serviço foi fácil de obter, ninguém lá queria lidar comigo.

Ninguém em nenhum lugar queria lidar com nada, com qualquer problema que fosse. Com a Tv eu conhecia o Mundo e o que via era uma multidão exigindo respostas, panacéias mágicas por parte dos arautos do moderno e do melhor. Políticos ofereciam visões cínicas e desejam um Estado que não precisasse de todos esses escravos. Parir, educar, alimentar e direcionar estavam se tornando atividades cada vez mais indigestas e trabalhosas. “É o final dos tempos”, dizia um grandalhão de terno e bravatas em um programa qualquer.

Não reconhecia as minhas coisas como minhas. Elas estavam simplesmente lá, nas gavetas, nos armários, mas eu não as reconhecia. Às vezes procurava coisas que me explicassem onde estava, quem fui e o que fazia. Pouco ou quase nada elas podiam me dizer. Percebo, hoje, que o valor dos objetos não está nos objetos, mas no que achamos lembrar deles

Um dia achei uma máquina velha e poeirenta. Não contei nada para ninguém. Vi as fotos e elas diziam muito pouco. Forcei as barras de minha prisão e escapuli pela janela, o que valeu um inchaço bastante grande no joelho avariado. Corri pelas ruas do bairro, meu medo era ser reconhecido e preso. Levado de volta para casa. Um brinquedo de corda dos habitantes, que se frustravam com meu estado apocalíptico e caótico. Livre, chorei. Pois livre pude perceber o quão estava preso.

Largado em qualquer lugar, fui até uma praça. Olhei e comecei a fotografar tudo o que via. Meus olhos não reconheciam nada, mas talvez os da máquina pudessem me ajudar. Aprendi na Tv que o mundo é captado pela tela, assim, nada mais natural.

Fotografava loucamente em busca de mim mesmo, quando um jornal me chamou a atenção. Esparramado no chão, sem qualquer tipo de nexo e lógica ou notícia que me fosse interessante. Assim mesmo tentei captá-lo de todos os ângulos e lados. Li as manchetes com intensidade e me lembrei.

Voltei para casa para nunca mais esquecer. Não estamos livres.

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