Arquivo para Lembranças

Não estamos livres

Posted in Conto with tags , , , , , , on 14/02/2012 by caioguilherme

Eu caminhava com passos vacilantes por causa de uma queda. Não eram tempos fáceis, os antibióticos e os analgésicos se combinavam para me fazer esquecer onde estava e quem era. Uma confusão crônica se apossara de mim e por maior que fosse o meu esforço, eu pouco lembrava das coisas.

Uma vida sem lembranças era como uma prisão dentro da mente. Eu manquitolava pela casa e não me deixavam sair, com medo que  me perdesse para sempre. Mal sabiam eles, que eu já estava profundamente perdido. Um joelho estourado não era nem um pouco fácil. A dispensa do serviço foi fácil de obter, ninguém lá queria lidar comigo.

Ninguém em nenhum lugar queria lidar com nada, com qualquer problema que fosse. Com a Tv eu conhecia o Mundo e o que via era uma multidão exigindo respostas, panacéias mágicas por parte dos arautos do moderno e do melhor. Políticos ofereciam visões cínicas e desejam um Estado que não precisasse de todos esses escravos. Parir, educar, alimentar e direcionar estavam se tornando atividades cada vez mais indigestas e trabalhosas. “É o final dos tempos”, dizia um grandalhão de terno e bravatas em um programa qualquer.

Não reconhecia as minhas coisas como minhas. Elas estavam simplesmente lá, nas gavetas, nos armários, mas eu não as reconhecia. Às vezes procurava coisas que me explicassem onde estava, quem fui e o que fazia. Pouco ou quase nada elas podiam me dizer. Percebo, hoje, que o valor dos objetos não está nos objetos, mas no que achamos lembrar deles

Um dia achei uma máquina velha e poeirenta. Não contei nada para ninguém. Vi as fotos e elas diziam muito pouco. Forcei as barras de minha prisão e escapuli pela janela, o que valeu um inchaço bastante grande no joelho avariado. Corri pelas ruas do bairro, meu medo era ser reconhecido e preso. Levado de volta para casa. Um brinquedo de corda dos habitantes, que se frustravam com meu estado apocalíptico e caótico. Livre, chorei. Pois livre pude perceber o quão estava preso.

Largado em qualquer lugar, fui até uma praça. Olhei e comecei a fotografar tudo o que via. Meus olhos não reconheciam nada, mas talvez os da máquina pudessem me ajudar. Aprendi na Tv que o mundo é captado pela tela, assim, nada mais natural.

Fotografava loucamente em busca de mim mesmo, quando um jornal me chamou a atenção. Esparramado no chão, sem qualquer tipo de nexo e lógica ou notícia que me fosse interessante. Assim mesmo tentei captá-lo de todos os ângulos e lados. Li as manchetes com intensidade e me lembrei.

Voltei para casa para nunca mais esquecer. Não estamos livres.

O motorista de trólebus

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , on 17/01/2012 by caioguilherme

Quem comandava o único ônibus da linha era o Seu Gaspar, um sujeito magro, cabelos compridos, mas ralos e pintados de preto. Ninguém sabia sua idade direito, todos o achavam boa gente – ele não negava caronas – e sabiam que ele era extremamente míope, de confundir a mulher com a amante.

O cobrador variava conforme a história, às vezes era o Pascoal Alecrim, noutras o Amador e, um outro tanto, algum desconhecido mesmo. Nunca conheci uma pessoa que gostasse de cobrador, fosse do ônibus, fosse do governo ou da quitanda da vila.  Volta e meia algum cobrador desconhecido era escorraçado ao negar carona a quem de direito e logo a empresa botava um dos que duravam, mesmo sabendo que eles pegavam umas moedas para si no trajeto.

O Seu Gaspar, ele sim era um herói. Chuva ou sol, estava lá ele arrumando aquelas correias que o trólebus precisa para andar. Engraçado como faziam os troços de energia tão fácil de soltar e difícil de colocar de volta. Ele tinha todo esse trabalho, além de guiar o ônibus quase sem enxergar, e nem pegava dinheiro. No máximo, tomava umas cachaças no almoço, nas custas do cobrador que, por sua vez, fazia o gasto nas contas da empresa mesmo. Dá o dinheiro, mas desce pela frente. Quem iria desconfiar?

Um dia o Seu Gaspar dirigia distraído, cantando a música da pamonha, quando um grito alto, mais alto que o Jaraguá, tomou o trólebus todo e assustou os 6 passageiros, coisa de horrores mesmo. A brecada foi tão forte, que a dona Juriminha, uma anã gigante, quase que pulou para o banco da frente. Pudera, naquele tamanho todo, sentada no banco alto, não tinha como.

A verdade do que aconteceu, era que uma moça grávida ou tava tendo o bebê lá dentro, ou tava sofrendo de uma terrível dor de barriga. Como eu não estava lá, não se te dizer. Só sei que foi um desespero, com umas melecas esparramando por todo o chão.

O Alecrim ou o Amador, no nervoso ninguém lembrou quem, nem hesitou, abriu a porta e fugiu correndo. Restou para o seu Gaspar fazer o parto. Ele, claro, não fez. Acelerou o trólebus o mais rápido que pôde e bateu num poste, sorte que em frente ao hospital. Dizem até que ele nem sabia o que fazia, só viu uma cruz vermelha e mirou nela. Deu o tiro certo, com os olhos fechados. Ainda bem.

Seja como for, não demitiram ele não, nem o cobrador. Os dois ganharam belas medalhas. E aí, o problema começou. Dotados de consideração e respeito da prefeitura – e não de dinheiro – os dois viraram umas pragas. Do nada, exigiam todo mundo quieto, rádio desligado e sem caronas. O trólebus que era um céu, um inferno virou, diriam os poetas.

Meu primo Pedro, um sujeito bom mesmo, tentou pegar  carona um dia. O seu Gaspar, nem teve medo, lhe acertou uma botinada que arrancou ele do ônibus. O cobrador safado, acho que o Amador, desatou a rir.

O Pedro ficou lá, xingando e correndo atrás da condução. E os dois donos do trólebus, sócios da prefeitura, só tirando sarro. Até que o meu primo xingou a amante do seu Gaspar. Aí, a coisa virou tempestade. O motorista pulou do ônibus que nem gato e o Amador também.

A confusão foi se armando, se armando, até que o Pedro, vendo que 2 são mais que 1, mesmo que velhos, resolveu fugir. Seu Gaspar, o motorista, e o Pascoal, é…talvez fosse ele, riram bastante até se engasgar. Tranqüilos, resolveram voltar para o trólebus. Imagina a surpresa?

Enquanto os dois trouxas riam, um passageiro mais esperto levou o trólebus fora. Quem tava dentro, desceu uns dois pontos depois, mas jura que não sabe quem tava pilotando. Seu Gaspar e o cobrador, fosse lá quem fosse, foram demitidos e ninguém nunca mais viu nem os dois, nem o ônibus.

Até hoje me pergunto, onde foi parar o trólebus? Como levaram ele, se ele não anda fora daqueles trilhos pendurados?

Mistérios da meia noite…

Um encontro entre luz e movimento

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 08/01/2012 by caioguilherme

Naquela época eu acordava junto do sol. A transição da escuridão para a luz servia como um despertador cósmico e eu nunca me sentia com sono ou com vontade de ficar mais tempo na cama. Simplesmente acordava, me arrumava e partia. O café preto era uma água benta e eu o tomava apreciando o céu laranja – fruto da santa poluição de cada dia.

O silêncio do despertar só era abalado ao sair de casa. Carros, maritacas, pessoas, pombas e meus pensamentos adquiriam vida e ecoavam por toda a extensão do meu ser. O caminho de casa para o trabalho era percorrido a pé todos os dias. Sempre o mesmo trajeto percorrido do mesmo jeito e no mesmo tempo. Fosse inverno ou primavera, outono ou verão, o caminho era sempre aquele e não havia do que reclamar. Nada mudava, tudo mudava.

Nunca me esqueci de um inverno em que sai de casa e o céu não estava laranja. Uma névoa branca e espessa dominava a existência de forma impiedosa e cobria todo o caminho. Durante semanas meus pulmões não funcionaram direito, tentando superar e expelir aquela névoa matinal. O frio naquele dia me derrubou até os ossos e, apesar de ter acordado bem disposto, senti dores terríveis pelo dia todo. Meu ouvido esquerdo parecia tomado por um estranho vácuo e o ar frio penetrava por ele, me deixando confuso e tonto. A voz embargou e meus pensamentos cessaram apesar de todos os esforços por acelerá-los. Só com muita dificuldade cheguei em casa naquele dia. Comi um lanche de carne com bacon e uma coca-cola quente e passei todo o fim de semana acamado e febril. Não consigo precisar qualquer dado sensorial daqueles dias. Mas fico feliz ao perceber que nunca mais fiquei doente depois daquela ocasião. Era como se toda a fraqueza purgasse ao mesmo tempo e sumisse ao fracassar na sua tentativa de guerra total.

Meus melhores momentos foram na primavera. Ao sair de casa encontrei um grande número de cães passeando com seus donos, aproveitando os poucos minutos antes do trabalho e da corrida contra a vida. Pássaros verdes, bravos e raros dominavam todos os postes do bairro e espantavam as principais pragas urbanas. As maritacas eclodiam de seus ovos, espantando as pombas em seu espetáculo de cor e berros nervosos.

Nestes dias eu não precisava vestir cachecóis e meus ossos não doíam. Às vezes a luz se tornava tão intensa que eu não conseguia pensar e minha cabeça começava a doer. Minhas mãos inchadas confundiam as texturas e eu simplesmente deixava de existir, perdido em sensações. A realidade não reconhecia ordens, sentidos e informações, nada era processado naqueles momentos. Sem ar eu sentava nas guias e todos os passantes me ignoravam com seus olhos vazios, tortos e incomodados. Só cães e suas pulgas se preocupavam com minha existência em meio a enxaqueca.

Apesar dos pesares, a primavera era a minha melhor época e suas belezas eram muito mais constantes do que o excesso dos sentidos. A beleza se espalhava por todos os lugares e não se resumia aos pássaros ou às flores. Em uma tarde qualquer, cruzei com uma grande árvore com seu tronco aberto, parecendo um ventre. Em seu canteiro milhares de cupins voadores amontoavam-se, uns em cima dos outros. Do interior do tronco uma dezena de insetos voadores e devoradores alçavam vôo, gerando um brilho magnífico quando o sol do entardecer refletia em suas asas.

Era uma verdadeira sinfonia, um encontro entre luz e movimento.

Até hoje eu me lembro de que enquanto eu observava aquele velho tronco todo o resto da realidade se apagava, tornava-se preto e branco. Pela primeira e última vez eu consegui escutar o silêncio fora de casa, na rua.

Por: Caio Fernandes

Get miles away

Posted in Conto with tags , , , , , , on 15/06/2010 by caioguilherme

Escrevi este texto no começo de 2008, gosto muito dele, mas a releitura que eu fiz hoje até me deixa um pouco envergonhado, pois é um texto meio imaturo… Mesmo assim,  tenho carinho e, apesar dos pesares, admito que o acho bastante bacana.

Get miles away.

Por: Caio Guilherme

Nossos carros estavam parados frente a frente naquele campo isolado. Demoramos algumas horas, dirigindo lado a lado, buscando um canto tranqüilo no qual pudéssemos nos encontrar e fazer o que devíamos fazer. Não queríamos que adolescentes, e seus hormônios a flor da pele, nos incomodassem com seus carros balançantes. O lugar era perfeito, tranqüilo, silencioso e, ainda por cima, nos apresentava um céu estrelado como raramente vemos nas cidades. Logo, algum casal excitado o descobriria e aquele refúgio ficaria perdido para sempre. Aquela noite, ao menos aquela noite, era nossa. As poucas árvores, a grama alta e cheirosa, as esparsas flores amarelas e as estrelas brilhantes, aquele cenário cinematográfico, era de nossa propriedade. Desliguei o meu farol, sendo imitado por ela. Sai do carro e caminhei em sua direção, com o chapéu surrado na mão e um sorriso meio bobo, correspondido por um olhar sedutor, molhado e feliz.
Toquei levemente suas mãos, como sempre fazia ao dar oi. Naquele dia em especial, ela correspondeu o toque, entrelaçando os dedos com os meus. Estranhei, era bom demais. Essas coisas geralmente não são assim, boas e fáceis. Na hora resolvi ignorar a voz em meu subconsciente e curtir o momento, pensar demais confunde e dá medo, com medo nada dá certo ou parece bom o bastante. Fiquei calado olhando-a até que ela apertou seu corpo contra o meu. A encostei na lataria do carro e começamos a nos beijar loucamente. Éramos como dois adolescentes de que tanto pensava mal, de hormônio a flor da pele, desejando, mais do que tudo, balançar o carro durante a noite toda. Éramos o casalzinho atrás de um canto escuro e discreto para economizar motel e eu pretendia aproveitar todas as vantagens daquilo.
Sua mão percorria meu corpo, procurando por algo. Eu cheguei a achar que ela estava em busca de meu coração. Tateando os músculos cansados e a pele cheia de gordura em busca do que fazia com que a amasse e a apartasse de maneira quase selvagem. Eu fazia o mesmo. O problema é que ela não procurava o mesmo que eu.
Em um último espasmo, ouvi o clique de minha arma. Ela deu alguns passos para trás, com a pistola apontada para mim. A olhei sem entender e tentei avançar. Um disparo passou renteao meu rosto , avisando que era melhor ficar parado.
“Vire-se”. – disse ela.
Eu não respondi e olhei de forma seca e apagada em busca de uma explicação.
Ela repetiu:
“Vire-se”.
“Se vai me matar. Faça frente a frente.” – falei cansado.
Ela baixou o rosto, mas não descansou a arma. Começava a chorar. Eu tentei avançar mais um pouco, mas ela recuou em resposta, levantando os olhos vermelhos para mim. Não consegui encará-los, baixei minha cabeça e me virei. Não encontrava forças para reagir.
Esperei ela pensar no que ia fazer. Mas não percebi a resposta. Quando ia me virar uma porrada acertou-me no cocuruto. Ela me acertara com a coronha da arma e eu apaguei instantaneamente.
Abri os olhos, não sei quanto tempo, depois. A boca estava seca e amarga. A nuca doía e parecia estar esmigalhada. Minha visão estava turva, ela acertara em cheio. Ainda de bruços arrastei um dos braços para o local do ferimento, havia sangrado bastante e de certo teria de tomar uns pontos. Nada com que não estivesse acostumado. O sangue já se coagulara, enroscando os fios do meu cabelo. Tudo indicava que dormi um pouquinho demais.
O meu carro estava lá, ainda. O dela desfez-se em marcas de pneu. Fiquei de joelhos e olhei os céus, que ódio estava sentindo. Levantei e cambaleei até meu carro, estava todo trancando. Procurei minhas chaves e não as achei. Senti que ia vomitar, mas prendi o ácido estomacal. Tirei uma garrafinha com uísque e tomei um gole. No pára-brisa do carro havia um pedaço de papel preso em uma pedra, grande o bastante para resistir a ação do vento. A bebida já estava tornando minha visão um pouco mais clara, mais objetiva. Li o papel e o abandonei no ar.
Ela havia levado as jóias embora e jogara minha chave pelo campo, “não muito longe do carro, para você não ter problemas…” dizia o bilhete. Não haveria problemas, era só quebrar a janela e fazer uma ligação direta, ela sabia. Bebi mais um gole e olhei o relógio. Ela deveria estar bem longe e eu gostava do meu chaveiro. Decidi esperar para procurar as tais chaves.
Me sentei apoiado numa das rodas do carro. Detetives não deveriam dormir com clientes, essa deveria ser a regra número um do manual da academia. E era. Pena que eu nunca obedecia às regras. Ela levara as jóias, me batera e sumira com minhas chaves. Que dia. Abri a carteira, havia dinheiro a mais. Ela pagou meus honorários. Não me senti realmente melhor. Minha boca só ficou mais amarga, minha cabeça só doeu mais.
Tomei outro gole do uísque, mas o cuspi, estava cansado daquilo. Sentei e olhei o céu.
Só me restava apreciar as estrelas, esperar o sol surgir e me lembrar daquele beijo, pensando em como seria bom ser um adolescente num carro balançante, num campo deserto e triste, aproveitando o calor de um outro corpo, perdido na escuridão da madrugada.
Tem coisas que são só para os jovens. Lembrei que tinha fósforo e cigarros, ascendi um, traguei e soltei a fumaça, esta parecia uma mulher dançando sob a luz das estrelas, parecia com ela.

FIM.

Uma crônica sobre talento.

Posted in Crônica with tags , , , , , , , , on 15/04/2010 by caioguilherme

No Campeonato Paulista de 2009 o volante Hernanes, do São Paulo, fez um belo gol de sem pulo. Mesmo superado alguns meses depois pelo gol incrível de Diego Souza, do Palmeiras, o sem pulo de Hernanes não foi esquecido por mim. E foi por um motivo que talvez vá um pouco além dele: os comentários que gerou.

Praticamente abandonada na parte cultural dos jornais a Crônica ainda ganha alguma relevância na seção esportiva. Alguns autores resumem-se aos comentários rotineiros e essencialmente jornalísticos, isso um pouco pelo mau exemplo dos escritores do caderno cultural, como o Ferreira Gullar e o Veríssimo, que têm se limitado ao caráter colunístico, não atingindo o fazer literário, pelo qual se consagraram. Tostão não. O velho jogador de futebol escreve, algumas vezes, textos tão memoráveis em sua coluna/crônica quanto são belos alguns lances e gols, como o sem pulo de Hernanes é um exemplo. É como que se impedido pelo tempo de jogar bola magistralmente, Tostão extravasasse o algo mais que possui para o papel, na escrita e na poesia do futebol.

Sem saber ao certo como estava fazendo aquilo, o velho jogador de futebol escrever com suas enrugadas mãos uma belíssima crônica sobre o gol do jovem Hernanes. Tão bela quanto o gol e uma tarde ensolarada de outono, a crônica comentou o lance fazendo com que o leitor notasse o quão mágico era o talento do jogador e o quão interessante era o fato de que ele realizava o lance sem nem entender ou conseguir construir racionalizações sobre os místicos e técnicos recursos físicos e espirituais que lhe permitiam fazer aquele gol.

Achei engraçado quando percebi algo sobre o Tostão. Ele, muito possivelmente, não sabe ao certo o como e o porquê de aquele seu texto ter tanta qualidade e vencer a barreira do jornal e do efêmero que os outros colunistas têm se mantido tão fiéis e tão felizes por tanto tempo.

O Talento é algo assim mesmo, de mágico e irracional, de momento e de inspiração. A Técnica está no oposto, ligada com o racional, com o previsível e com a transpiração,  tão alardeada pelos escritores atuais, numa tentativa de valorizar sua profissão perante a sociedade – necessidade que talvez não exista, talvez exista.

Entre Técnica e Talento, entra a transpiração e a inspiração eu me coloco a favor do Talento, pois este gera aquilo que é belo e imprevisível, algo de único, como sem pulo de Hernanes e Diego Souza, a crônica de Tostão e uma tarde ensolarada num outono qualquer.

Pedrinho

Posted in Conto with tags , , , , on 04/04/2010 by caioguilherme

Meu nome é Pedro. Quando eu era criança todos na vila, obviamente, me chamavam de Pedrinho. Um apelido clichê, mas especial. Era bom estar com o pessoal na vila, correndo e jogando bola sem ter de lidar com a vida dentro de casa.

Morava com uma tia, que me adotara quando meus pais morreram. O nome dela não importa muito. Enquanto todos me chamavam de Pedrinho, ele me dava apelidos especiais, como estrupício, tratante, capeta e vagabundo. De filho da puta só chamou uma vez e sem querer, ela se sentiu mal depois disso, xingar os mortos era pecado. Nesse dia ela me sentou a mão e me arremessou contra a parede, me culpando por tê-la feito me xingar. Julgando pelo quanto apanhei dessa caridosa tia posso afirmar que eu devo ter sido uma criança com extrema dificuldade de dar ponto com nó, pois toda minha ação levava para uma reação bastante corretiva por parte dela.

 Mas não posso reclamar muito dessa minha tia, sabe? Cuidou apropriadamente de mim e me foi responsável pela minha primeira lembrança nesse Mundo. Eu, com uns quatro anos de idade, deitado no tapete da sala e ela com um garfo daqueles de espetar a carne assada encostado na minha barriga. Não lembro o que fiz pra ela me ameaçar, só sei que nunca mais fiz! Lição aprendida!

Pobre tia, hoje está tão velha e doente. Mandou até me dizer que gastou a vida dela cuidando de mim e por isso que tava toda acabada. Fiquei chateado, mas decidi subir no ônibus e levar um pouco de alegria pra ela.

Domingo frio e nublado, o ônibus demorou muito mais do que o normal para passar. Cheguei molhado e fedorento na casa da velha. As flores que comprei já chegaram todas murchas. O pão também. Ela abriu a porta reclamando, bufou quando viu que era eu e não aparentou ter gostado muito das coisas que eu lhe trouxera:

“Dei minha vida por você e para te educar. E você me aparece com esse lixo?”

Depois do simpático resmungo, virou-me as costas, caminhou para o quarto e deitou na cama. Eu a segui e a sufoquei com o travesseiro, curando-a de sua gripe e libertando da vida de sacrifícios que impus a ela. No final das contas, fui tão bom sobrinho quanto ela foi tia.

Na casa dos demônios (parte II)

Posted in Conto with tags , , , , , on 06/03/2010 by caioguilherme

A sombra dançou um bom par de minutos e eu não consegui esboçar nenhuma reação muito convincente, já que estava boquiaberto e congelado. No final da dança a sombra virou um velho de aparência simpática e familiar.

“Olha, veja bem. Bom dia.”

Não consegui lhe responder nada, de certa forma ele era muito mais estranho que a mãe e o filho de belzebu, que eu havia enchido de balas e esmagado até virar purê.

“Não precisa falar nada. Você consegue esmagar uma criança e uma mulher, mas não consegue falar consigo mesmo. Você, só para sua informação, vai sentir bastante a falta dos dois.”

Continuei quieto, mais concentrado em tentar fazer meus braços e pernas funcionarem.

“Eu sou você e você não vai se mexer até eu deixar que o faça. Desculpe se sou ríspido, mas vou colocar tudo em termos simples: a casa te dá uma escolha, ou você se rende e se transforme em mim, vivendo preso aqui até o fim dessa bela rocha chamada terra ou você mete um buraco de bala na testa e morre condenado e sujo para sempre. Qual vai ser?”

“Nenhum dos dois?” – fiquei surpreso ao conseguir responder.

“Eu tinha esquecido do quão imbecil eu era quando era você, sabe? Essa arrogância para disfarçar o medo, achando-se um leão da savana, detonando tudo e todos, ao invés de reconhecer a verdade de que só é um carneirinho boboca. Você vai aprender…”

Assim que ele disse isso, acabou se desmaterializando em minha frente. Num canto da sala havia um corpo novo, o meu próprio com um bala na testa, acenando alegremente para mim. De arma em punho me aproximei e, quando cheguei bastante perto, o corpo sorriu e piscou, desaparecendo.

Não tive tempo de ficar me questionando que diabos era aquele corpo e o velho que dizia ser uma opção de mim mesmo. Do nada uma porção de larvas, muito brancas, com bocas e dentes, caíram do teto e saíram de buracos, até então inexistentes, da parede e do chão. Elas pareciam só querer uma única e exclusiva coisa, Eu.

Tentei sair daquele cômodo, mas as larvas do teto começaram a morder meu corpo e me couro cabeludo, assim como as que saíram do chão começaram a morder meus pés. Corri, mesmo desajeitado, até que uma, na minha mão, mordeu e arrancou meu dedão. A dor e aflição foram excessivas e desmaiei. Era o fim.

Aparentemente não foi. Acordei, ainda na casa, deitado num sofá. Minha mão estava embrulhada num pano todo ensangüentado. Minha cabeça doía muito e ao colocar a mão nela senti inúmeras feridas, as malditas larvas, haviam inclusive, arrancado muito do meu cabelo. Careca, sem dedos e todo ferido. A arma também tinha sumido. A minha única dúvida era saber quem havia me “ajudado” e embrulhado meu dedo no pano.

“Claro que foi você mesmo. Na verdade fui eu, que sou você.”

Não respondi, dessa vez não por não conseguir, mas por não ter mais vontade.

“É estranho ser mal educado consigo mesmo. A auto-flagelação é um contra-senso. Antes eu estava preso aqui por todo a eternidade, mas tinha dedos e cabelos. O lance das larvas foi inédito até para mim.”

Aquilo devia ser algum tipo de teste e eu não estava passando. O próprio demônio devia estar encarnado dizendo que era eu. O que fazer? Não sabia mais de arma e nem tinha forças para matá-lo a pauladas, como tentei fazer com a mulher e a criança.

“Sempre batendo nessa tecla da mulher e da criança, não? Só para sua informação, quando eu entrei aqui, só havia a mulher. Passaram-se 9 meses e a criança surgiu. Faça as contas.”

Olhei com nojo para o sujeito que se dizia eu.

“Eu sou você, não tenha dúvidas. Um você de um outro lugar, mas em essência você. E você matou o nosso filho e mulher. Ruim, não?”

Imaginei o quão nojento seria ter aquelas três tetas na boca ou o quão terrível seria ninar aquele pequeno capeta.

“A casa ajuda nessas horas. Aqui é uma prisão, mas uma prisão de sua própria vontade. Não é?”

A pergunta não foi para mim. O sujeito, igual a mim, com uma bala na testa se aproximou e disse:

“É sim. Por sinal, eu também sou você. E dar um tiro na cabeça, não adianta de nada.”

“Se eu ainda tivesse minha arma. Já teria dado um fim nos três.” – respondi.

“Impossível, eu a peguei e dei um jeito. Não reparou que você e o velho também tem buracos de bala? As coisas são assim mesmo, estamos presos.” – ele respondeu apontando para meu peito, estourado e com um grande buraco de bala, que, por sinal, não doía nada. O velho fez sua cabeça girar – algo bem de filme trash – e me mostrou um buraco em sua nunca, olhando para o cara do buraco na testa com um enorme desprezo.

“ E ai qual vai ser agora?” – os dois me perguntaram ao mesmo tempo.

Não tive tempo de responder, a campainha da casa foi tocada, eles me mandaram abrir a porta ao mesmo tempo em que fazia a minha escolha.

Me senti compelido a obedecer. Na caminhada até a porta nenhum bebê mutante e nem um tipo de larva tentou me matar. Achei um sinal bacana. Quando cheguei na porta, fechei os olhos, toquei a maçaneta, desejei a atendi. Era você.

“E o que você escolheu?”

“Isso não importa. Você e eu estamos aqui. E eu sou você e você sou eu, se você ainda não reparou”.

“Eu quero sair daqui.”

“Desencana, o velho e o cara do buraco na cabeça estão arrumando o jogo na próxima sala. Para o truco, precisamos de quatro. Bem vindo…”