Arquivo para Loucura

Não estamos livres

Posted in Conto with tags , , , , , , on 14/02/2012 by caioguilherme

Eu caminhava com passos vacilantes por causa de uma queda. Não eram tempos fáceis, os antibióticos e os analgésicos se combinavam para me fazer esquecer onde estava e quem era. Uma confusão crônica se apossara de mim e por maior que fosse o meu esforço, eu pouco lembrava das coisas.

Uma vida sem lembranças era como uma prisão dentro da mente. Eu manquitolava pela casa e não me deixavam sair, com medo que  me perdesse para sempre. Mal sabiam eles, que eu já estava profundamente perdido. Um joelho estourado não era nem um pouco fácil. A dispensa do serviço foi fácil de obter, ninguém lá queria lidar comigo.

Ninguém em nenhum lugar queria lidar com nada, com qualquer problema que fosse. Com a Tv eu conhecia o Mundo e o que via era uma multidão exigindo respostas, panacéias mágicas por parte dos arautos do moderno e do melhor. Políticos ofereciam visões cínicas e desejam um Estado que não precisasse de todos esses escravos. Parir, educar, alimentar e direcionar estavam se tornando atividades cada vez mais indigestas e trabalhosas. “É o final dos tempos”, dizia um grandalhão de terno e bravatas em um programa qualquer.

Não reconhecia as minhas coisas como minhas. Elas estavam simplesmente lá, nas gavetas, nos armários, mas eu não as reconhecia. Às vezes procurava coisas que me explicassem onde estava, quem fui e o que fazia. Pouco ou quase nada elas podiam me dizer. Percebo, hoje, que o valor dos objetos não está nos objetos, mas no que achamos lembrar deles

Um dia achei uma máquina velha e poeirenta. Não contei nada para ninguém. Vi as fotos e elas diziam muito pouco. Forcei as barras de minha prisão e escapuli pela janela, o que valeu um inchaço bastante grande no joelho avariado. Corri pelas ruas do bairro, meu medo era ser reconhecido e preso. Levado de volta para casa. Um brinquedo de corda dos habitantes, que se frustravam com meu estado apocalíptico e caótico. Livre, chorei. Pois livre pude perceber o quão estava preso.

Largado em qualquer lugar, fui até uma praça. Olhei e comecei a fotografar tudo o que via. Meus olhos não reconheciam nada, mas talvez os da máquina pudessem me ajudar. Aprendi na Tv que o mundo é captado pela tela, assim, nada mais natural.

Fotografava loucamente em busca de mim mesmo, quando um jornal me chamou a atenção. Esparramado no chão, sem qualquer tipo de nexo e lógica ou notícia que me fosse interessante. Assim mesmo tentei captá-lo de todos os ângulos e lados. Li as manchetes com intensidade e me lembrei.

Voltei para casa para nunca mais esquecer. Não estamos livres.

Num grito de ódio

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , on 26/01/2011 by caioguilherme

As coisas aconteceram depois dos turcos e antes dos ingleses, na época dos russos. Não se podia ir ou vir, era cada um em seu lugar, fazendo aquilo que Deus mandou. O castelo do antigo Rei fora posto em pedras e reuínas de sal. Os turcos eram terríveis e rudes, mas nunca tocaram em nada que era do reino, tal ousadia só coube aos temíveis russos. Os turcos só queriam trigo e ouro, os russos queriam tudo e mais um pouco, estavam atrás de sangue e de almas. Quem viveu a saída de um e  a chegada de outro, vivia lamentando a partida dos antigos senhores.

Era sobre os russos que a vingança viria, foi isso que o vento frio contou para todos os loucos da região. Trancados em suas cabanas de madeira mofada os velhos ouviram um chamado e sairam repetindo uma profecia de vingança. A palavra de loucos, velhos e bêbados se propagou por todos os campos e cantos e o povo passou a esperar o retorno do Pai, aquele mesmo que tinha sido expulso e exílado.

Quieto o povo apanhava e era humilhado. Ouvia os sussuros azedos da vingança e viviam na espera da libertação. O Rei, o Pai viria e libertaria a todos para sempre.

Um dia veio uma tempestade. Chuvas e raios varreram os campos. A colheita perdida ardia em chibatadas dadas pelos russos. Ratos e gatos mirrados viravam o pão dos pobres. Cebolas murhcas e secas viravam sonhos dos mais loucos e ousados. A úncia luz era a dos raios. Escuridão, fome e russos pareciam conspirar pelo fim de todos.

Para o futuro os russos planejavam matar a todos e substituir pelos seus próprios camponeses. O trigo daria lugar para as batatas e o vinho do povo daria lugar para a vodka dos ricos. No fim da tempestade todos iriam morrer.

Durante a pior das noites e quando as profundezas pareciam tomar todo o povo apareceu um velho cinza, suado, enfurecido, rasgado e marcado , caminhando entre um bastão e um conjunto de trapos. De natureza raivosa ele tinha vindo para se vingar de todos, de destruidores e colaboradores, de vitimas, de vencedores e de vencidos.

Carregando seu pesado bastão ele parou numa pequena praça e o povo o seguiu em procissão. O povo atravessou a fome, a morte e a chuva pra vê-lo, sentí-lo, mas nunca tocá-lo. Adoraram-no como um rei, em meio de raios estava o pai expulso e ofendido, retornado de sua longa viagem. Um santo resgatando o seu povo.

Os russos mandaram soldados para lá. Todos os destacamentos possíveis e imagináveis enviados para conter a aglomeração absurda. Montados em cavalos oficiais e autoridades sanguinárias se deliciavam com as atrocidades que soldados tolos, amedrontados e sem vontade iriam cometer. Os raios e a chuva assustavam os cavalos.

O velho da tempestade, o rei, o Pai ergueu as mãos e num grito de ódio os trovões aumentaram terrivelmente, assustando os cavalos dos russos. Todos os soldados caíram no chão e se viram cercados pelo povo, que logo matou a todos. O velho virou suas costas para a ação e partiu. Ele foi seguido por quase todo o povo, os que mais mataram eram os primeiros da fila. O grupo de assassinos esfarrapados se perdeu com seu mentor em meio ao frio noturno e a tempestade.

As chuvas e as trevas duraram mais três dias e acabaram com o trabalho de um ano inteiro. Quem viu e ficou, sofreu. Quem foi nunca mais voltou e foi assim que nosso reino voltou a ser livre.

Na cidade fria

Posted in Conto with tags , , , , , , , , , on 14/01/2011 by caioguilherme

A chuva cinza congelava seus ossos e ele fazia um esforço enorme para não tremer em público. Seu nariz estava vermelho, mas o frio intenso impedia que ele escorresse, era como se o catarro estivesse congelado. Na verdade, fazia alguns dias que só respirava pela boca, o que era bastante desagradável. Sorte que não tinha nem oportunidade de pensar em dormir, assim não incomodava ninguém com roncos ou algo parecido.

Tentou mexer os dedos, mas estes estavam congelados dentro das luvas de material vagabundo. o mesmo e caro e superfaturado material que deu origem ao chapéu, às meias, à camisa, às calças, ao mijão, às cuecas e ao casaco grosso e inútil que usava. Todos estavam vagabundamente vestidos com o mesmo material. Alguém deveria lucrar muito com a desgraça e a miséria alheia. Todos ali, sob chuva e frio, morrendo pouco a pouco porque alguém quera ganhar uns trocados a mais, dentro dos muito trocados que já ganhava.

Ganhar, palavra que eles ouviam bastante, mas pouco conseguiam compreender. Em meio a sopa rala e ao pão mofado só conseguiam perceber, instintivamente, o signifcado do verbo perder. Ele e seus homens perdiam dias, perdiam horas e perdiam a vida, tudo em troca de nada, do ganho de um outro que já tinha tanto.

 

Um apito sombrio gritou e as portas do inferno se abriram. Ele e os seus marchavam sem realmente querer. Do frio da rua para o calor das caldeiras, das soldas e dos metais. Algo derretia internamente, cozendo-o por dentro, pouco a pouco. A roupa vagabunda esquentava como um forno lá dentro, para esfriar como uma geladeira lá fora. Sangue, suor, mas lágrimas jamais. Trabalhou e naquele dia não comeu.

Como um zumbi foi arrastado por uma horda sem vontade e entrou no ônibus. Entalados todos indo para o mesmo lugar. Do inferno para a ausência. Era como se levitasse entre os milhares de corpos que tanto se esbarravam todos os dias. Entre o frio dos dias, o calor do trabalho e a indiferença da rotina. Desceu do ônibus e engoliu um pouco de álcool.

A visão se tornou mais clara e esclarecida. José foi até sua casa e dotado de uma vontade única pegou sua velha espingarda. Limpou-a, carregou-a. Saiu nas ruas e seus vizinhos, seus colegas de trabalho e seus amigos do bar estavam lá, todos eles também com suas velhas espingardas, limpas e carregadas. No frio uma só vontade única e indivísivel. Marcharam em dezenas, em centenas e em milhares. Todos em direção ao centro, atropelando casas, fábricas, hospitais e prédios do governo.

Os dias de José nunca mais foram os mesmos.

 

13/01/2011

Considerações sobre o Final de Lost II

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

Depois dessas considerações sobre o seriado em si e a tradição literária de onde ele vem e dialoga resta pensar um pouco sobre essa temporada e o final de Lost, exibido dia 25 de maio no AXN. O objetivo, como ficou bem perceptível no texto anterior, não é mastigar e “dar” as respostas que dizem que Lost não deu.

Basicamente, a Ilha é um pedaço de terra relativamente pequeno e cercado pelo mar em todos os lados. Se fosse cercado só em 3 lados e fosse ligada por um faixa estreita com um pedaço de terra a ilha seria uma península, tipo Portugal e Itália…brincadeiras a parte, ao pensar na Ilha e em suas propriedades estranhas a gente tem que fazer o paralelo com o próprio planeta Terra. De onde veio o primeiro habitante? Se ele existe, alguém o criou. Se alguém o criou, quem foi? Se foi algo que chamam de Deus e ele existe, necessariamente alguém o criou. E quem foi que criou Deus? Um Deus acima de Deus? E quem criou esse Deus acima do Deus que criou o homem e o pôs na Terra? Isso é o que teólogos e físicos chamam de regressão infinita. Quando os telespectadores começam a se perguntar, quem criou e quem era a moça que cuidou do Jacob e do irmão, acabam caindo nessa mesma armadilha. Quem foi que colocou aquela mulher lá? E quem foi que permitiu/criou o sujeito que foi lá na Ilha e colocou a mulher que deu lugar ao Jacob? Como ela mesmo disse no episódio Across the Sea, uma resposta para esse tipo de pergunta, gerará mais duas.

Entre os historiadores algo que é bastante comum é evitar esse tipo de pergunta e especulação e se concentrar no que é perceptível ou dado, como, por exemplo: Os portugueses sabiam ou não da existência do Brasil antes de 1500? Se sabiam, quem foi que descobriu? Será que foi mesmo Cabral? Cabral sabia que existia algo lá? Quem contou para ele? Tais questões não podem ser respondidas pelas evidências existentes nas fontes históricas conhecidas, mas a partir da constatação de que em 1500 eles oficializam uma posição e passaram a ocupar o “Brasil” é possível questionar sobre os interesses, as ações, os desenvolvimentos e as relações deles com a terra descoberta. O importante no Mundo não é pura e simplesmente perguntar, o pulo do gato está em saber fazer a pergunta.

Feita essa pequena digressão sobre as perguntas é possível pensar melhor sobre a Ilha. O lance não é ficar pensando em criou o quê e quando, se não existem elementos que permitem refletir sobre isso. O seriado dá o seguinte: a Ilha existe, não faz parte do espaço-tempo normal e possui uma estranha energia em seu núcleo, que é defendida por uma pessoa possuidora de algo especial, contra qualquer ser que tente ameaçá-la. Logo vem a mente o Triângulo das Bermudas e suas estranhas manifestações magnéticas. Em um lado mais bizarro pode-se até dizer que foi um meteoro que caiu lá e emana uma energia especial, ou que Moisés enterrou a pedra dos 10 mandamentos lá, ou que a lança que matou Jesus está enterrada por ali, ou que Aliens pousaram sua nave lá e deixaram uma criatura feita da mistura de seu DNA com o DNA de um macaco, cuidando do lugar. O barato do seriado, como perceberam os mais espertos, é o múltiplo viés de interpretação que ele permite para várias coisas. Os acadêmicos que estudam literatura nos últimos anos perceberam que um texto rico, de qualidade, por exemplo, não possui só a leitura que seu autor imaginou, ele dá espaço para diferentes leituras de diferentes leitores, já que cada um desses possui bagagens diferentes entre si e diferentes do autor. É óbvio, que o que está escrito está escrito e traça os parâmetros básicos da interpretação, mas dentro desses limites existe uma infinidade de coisas, como existe entre o número 0 e 1.

A Ilha possuidora dessa energia estranha navega como que aleatoriamente pelo planeta Terra. Uma hora ou outra alguém desde um desavisado mercador fenício até um piloto de avião fazendo uma volta ao Mundo acaba dando de encontro com ela e caindo por lá. Eis ai a explicação de uma primeira ocupação da Ilha. Num momento pós Jacob, já foi deixado bem claro que ele usa de suas atribuições especiais para atrair pessoas até lá para tentar mostrar a possibilidade de bondade humana para o monstro de fumaça e, com alguma sorte, encontrar uma pessoa que lhe substitua. Ele não é infalível ou onisciente, mas é detentor da possibilidade de fazer as regras dentro da Ilha, já que é o dono do jogo, e possui um bom conhecimento proveniente de anos e anos de observação e de uma vida sem Tv.

Os outros e a Iniciativa Dharma lá viveram por vontade desse tal de Jacob. Uns foram trazidos por ele, outros descobriram como chegar lá, com um empurrão dele. Os outros tentam, por sua vez, levar uma vida bacana, calma e tranqüila, pautando-se pelas escolhas certas e não pelo que o monstro de fumaça diz, o seriado demonstrou várias vezes que eles na maior parte do tempo não conseguiram. Os malucos da Dharma buscavam pelo conhecimento, pela manipulação de energias de enormes potencialidades e aplicações. Sua ação termina quando, influenciados pelo monstro de fumaça, os outros resolvem exterminá-los de vez.

O irmão de Jacob vira o monstro de fumaça ao ser jogado, morto ou inconsciente, dentro da gruta onde a energia que move a Ilha se faz mais perceptível. Em Across the Sea, a mãe do Jacob explica que aquela Luz é a mesma coisa que está dentro de todas as pessoas. Filosoficamente isso se liga com a idéia de que dentro de todos os seres humanos existem em igual quantidade potencial para o bem e para o mal, bondade e maldade, que cresce ou diminui na relação com o Mundo e a partir das nossas escolhas. Quando Jacob joga o irmão dele dentro da Luz, o potencial para o mal é liberto, torna-se consciente e capaz de interagir, apesar de estar preso as regras impostas pelo guardião da Ilha. A partir desse momento, a Ilha deixa de ser só um lugar que se move aleatoriamente no planeta, para ser a prisão para a maldade que antes existia presa no centro do ser humano com a luz. O responsável por libertá-la dessa condição primeira, torna-se o responsável por impedir que essa criatura com poderes e cheia de maldade e descrença em relação ao ser humano se liberte e possa existir sem as regras que lhe são impostas na Ilha. Como ser inteligente e consciente que é, a nuvem de fumaça/irmão do Jacob traça planos para eliminá-lo e o Jacob sabe que ela é muito mais esperta do que ele, tomando como missão paralela achar seu substituto.

Os outros e a Iniciativa Dharma lutam entre si e os outros atacam aqueles que vieram no avião e etc, por influencia negativa do monstro, pela influencia e regras do Jacob e porque o conflito faz parte da natureza humana.

Toda essa “mitologia” dá série, explicada na sexta temporada dá conta das visões que alguns personagens tem, da aparição de pessoas que morreram (fumaça preta), da cura do Locke, da Rose, dos poderes especiais do Desmond e de um monte de situações estranhas, como a escotilha e os ursos polares.

Continua em um próximo texto.

Abraços

Caio

Uma questão de prioridades…

Posted in Comentário do Autor, Uncategorized with tags , , , , on 13/05/2010 by caioguilherme

Estava lendo por ai que o presidente Lula assinou um projeto de lei que premia os campeões mundiais com R$ 100 mil e garante a eles uma pensão de R$ 3000 pilas, sendo ambos os beneficíos garantidos aos familiares daqueles jogadores que já morreram. Claro, que um dos autores da Lei é um deputado aparentado de um goleiro campeão do Mundo.  Do outro lado da história, professores do principal estado do Brasil ganham 1500 reais por uma jornada semanal de 40 horas, sem que o tempo de trabalho extra sala de aula seja realmente pensado ou remunerado. Não consigo pensar em ninguém da classe trabalhadora que se aposente ganhando 3 mil barões do Brasil e olha que tudo isso é gente que se sacrificou bastante no dia dia, talvez mais do que muitos desses jogadores. Até gosto desse patriotismo de seleções nacionais, menos xenófabo e afeito a conflitos militares que o patriotismo real, mas a fantasia tem limite. Brincadeira com o dinheiro público também deveria ter.

Não me parece que o Romário ou o Rai ou o Marcos e o Rogério Ceni tenham uma absurda necessidade desse dinheiro quanto alguns idolos esquecidos talvez tenham. Mas e ai? Quantos outros esquecidos que só trabalharam e nunca jogaram nada profissionalmente existem por nossas bandas brasílicas? O presidente vai liberar 100 mil para dar um auxílo para eles?

Isso me lembra um pouco a farra de fuscas do Maluf e dos empresários dos grandes americanos recebendo mais e mais bônus trilhardários e jogando o sistema nessa crise que não tem feito muito bem aos gregos… As proporções podem ser menores, mas a coisa toda no fundo é igual…

Pedrinho

Posted in Conto with tags , , , , on 04/04/2010 by caioguilherme

Meu nome é Pedro. Quando eu era criança todos na vila, obviamente, me chamavam de Pedrinho. Um apelido clichê, mas especial. Era bom estar com o pessoal na vila, correndo e jogando bola sem ter de lidar com a vida dentro de casa.

Morava com uma tia, que me adotara quando meus pais morreram. O nome dela não importa muito. Enquanto todos me chamavam de Pedrinho, ele me dava apelidos especiais, como estrupício, tratante, capeta e vagabundo. De filho da puta só chamou uma vez e sem querer, ela se sentiu mal depois disso, xingar os mortos era pecado. Nesse dia ela me sentou a mão e me arremessou contra a parede, me culpando por tê-la feito me xingar. Julgando pelo quanto apanhei dessa caridosa tia posso afirmar que eu devo ter sido uma criança com extrema dificuldade de dar ponto com nó, pois toda minha ação levava para uma reação bastante corretiva por parte dela.

 Mas não posso reclamar muito dessa minha tia, sabe? Cuidou apropriadamente de mim e me foi responsável pela minha primeira lembrança nesse Mundo. Eu, com uns quatro anos de idade, deitado no tapete da sala e ela com um garfo daqueles de espetar a carne assada encostado na minha barriga. Não lembro o que fiz pra ela me ameaçar, só sei que nunca mais fiz! Lição aprendida!

Pobre tia, hoje está tão velha e doente. Mandou até me dizer que gastou a vida dela cuidando de mim e por isso que tava toda acabada. Fiquei chateado, mas decidi subir no ônibus e levar um pouco de alegria pra ela.

Domingo frio e nublado, o ônibus demorou muito mais do que o normal para passar. Cheguei molhado e fedorento na casa da velha. As flores que comprei já chegaram todas murchas. O pão também. Ela abriu a porta reclamando, bufou quando viu que era eu e não aparentou ter gostado muito das coisas que eu lhe trouxera:

“Dei minha vida por você e para te educar. E você me aparece com esse lixo?”

Depois do simpático resmungo, virou-me as costas, caminhou para o quarto e deitou na cama. Eu a segui e a sufoquei com o travesseiro, curando-a de sua gripe e libertando da vida de sacrifícios que impus a ela. No final das contas, fui tão bom sobrinho quanto ela foi tia.

A excepcional história de Alberto F.

Posted in Conto with tags , , , , , on 30/03/2010 by caioguilherme

 Alberto F. bateu no despertador quando este tocou lhe avisando que era hora de acordar e cair na vida rotineira. Nesse caso o primeiro a cair foi o próprio despertador, que ficou bastante despedaçado. Alberto, vendo o estrago, praguejou pensando nos 10 reais que teria de pagar por um novo. Ele coçou os olhos, estralou o pescoço e se levantou de mau humor, o dia de Alberto começou.

Alberto F. tomou uma ducha fria e rápida, mais para acordar o corpo do que para ficar limpo. Não gostava, mas fez a barba e banhou seu rosto com álcool. Com a face vermelha e queimando, verdadeiramente ardida, Alberto vestiu sua roupa de trabalho, só deixou o paletó e a gravata para depois do café.

Alberto F. não teve tempo de esperar a água ferver totalmente. Teve que tomar um café meio morno e mal diluído. Um pedaço de pão com manteiga fria tinha a missão de acompanhar o café e manter Alberto livre da fome até a hora do almoço. Coisa que, por sinal, a dupla nunca conseguiu fazer em toda a existência medíocre dele.

Alberto F. escovou os dentes sem paciência e com muita pressa e, obviamente, foi punido por isso. A pasta caiu em sua única camisa limpa e passada. Jogou água e tentou dar um fim na pasta, o que resultou numa perceptível mancha. Escondê-la com o paletó foi a única solução que ele conseguiu encontrar, o que lhe dava uma péssima perspectiva de como seria o dia. A eminência de usar o paletó o dia inteiro já estava matando Alberto com um calor antecipado, coisa que o deixou ainda mais nervoso.

Alberto F. sem controle ficou. A percepção de que havia algo errado abalou por demais a suas noções sobre a normalidade da vida. Uma mancha de pasta de dentes foi o estopim que início a Terceira Guerra Mundial na cabeça dele. O resultado foi um grito dolorido e raivoso e Alberto correndo nu pelas ruas da cidade.

Alberto F. foi recolhido pelo Pinel cerca de 10 dias depois. Nesse meio tempo o Santos foi campeão do Paulista 2010, o Ronaldo foi flagrado numa orgia com 10 travestis e a Fernanda capslock ganhou o BBB10 com uma vantagem de 10 milhões de votos. Ninguém nem teve idéia do que Alberto pode ter feito, os seus 10 dias de loucura não ganharam os jornais.

Alberto F. tem passado muito bem nos últimos tempos. Remédios têm garantido que ele seja um dos mais felizes residentes do Pinel. Alberto sonha com leões todas as noites e não existe despertador ou gravatas que possam interrompê-lo.

Na casa dos demônios (parte II)

Posted in Conto with tags , , , , , on 06/03/2010 by caioguilherme

A sombra dançou um bom par de minutos e eu não consegui esboçar nenhuma reação muito convincente, já que estava boquiaberto e congelado. No final da dança a sombra virou um velho de aparência simpática e familiar.

“Olha, veja bem. Bom dia.”

Não consegui lhe responder nada, de certa forma ele era muito mais estranho que a mãe e o filho de belzebu, que eu havia enchido de balas e esmagado até virar purê.

“Não precisa falar nada. Você consegue esmagar uma criança e uma mulher, mas não consegue falar consigo mesmo. Você, só para sua informação, vai sentir bastante a falta dos dois.”

Continuei quieto, mais concentrado em tentar fazer meus braços e pernas funcionarem.

“Eu sou você e você não vai se mexer até eu deixar que o faça. Desculpe se sou ríspido, mas vou colocar tudo em termos simples: a casa te dá uma escolha, ou você se rende e se transforme em mim, vivendo preso aqui até o fim dessa bela rocha chamada terra ou você mete um buraco de bala na testa e morre condenado e sujo para sempre. Qual vai ser?”

“Nenhum dos dois?” – fiquei surpreso ao conseguir responder.

“Eu tinha esquecido do quão imbecil eu era quando era você, sabe? Essa arrogância para disfarçar o medo, achando-se um leão da savana, detonando tudo e todos, ao invés de reconhecer a verdade de que só é um carneirinho boboca. Você vai aprender…”

Assim que ele disse isso, acabou se desmaterializando em minha frente. Num canto da sala havia um corpo novo, o meu próprio com um bala na testa, acenando alegremente para mim. De arma em punho me aproximei e, quando cheguei bastante perto, o corpo sorriu e piscou, desaparecendo.

Não tive tempo de ficar me questionando que diabos era aquele corpo e o velho que dizia ser uma opção de mim mesmo. Do nada uma porção de larvas, muito brancas, com bocas e dentes, caíram do teto e saíram de buracos, até então inexistentes, da parede e do chão. Elas pareciam só querer uma única e exclusiva coisa, Eu.

Tentei sair daquele cômodo, mas as larvas do teto começaram a morder meu corpo e me couro cabeludo, assim como as que saíram do chão começaram a morder meus pés. Corri, mesmo desajeitado, até que uma, na minha mão, mordeu e arrancou meu dedão. A dor e aflição foram excessivas e desmaiei. Era o fim.

Aparentemente não foi. Acordei, ainda na casa, deitado num sofá. Minha mão estava embrulhada num pano todo ensangüentado. Minha cabeça doía muito e ao colocar a mão nela senti inúmeras feridas, as malditas larvas, haviam inclusive, arrancado muito do meu cabelo. Careca, sem dedos e todo ferido. A arma também tinha sumido. A minha única dúvida era saber quem havia me “ajudado” e embrulhado meu dedo no pano.

“Claro que foi você mesmo. Na verdade fui eu, que sou você.”

Não respondi, dessa vez não por não conseguir, mas por não ter mais vontade.

“É estranho ser mal educado consigo mesmo. A auto-flagelação é um contra-senso. Antes eu estava preso aqui por todo a eternidade, mas tinha dedos e cabelos. O lance das larvas foi inédito até para mim.”

Aquilo devia ser algum tipo de teste e eu não estava passando. O próprio demônio devia estar encarnado dizendo que era eu. O que fazer? Não sabia mais de arma e nem tinha forças para matá-lo a pauladas, como tentei fazer com a mulher e a criança.

“Sempre batendo nessa tecla da mulher e da criança, não? Só para sua informação, quando eu entrei aqui, só havia a mulher. Passaram-se 9 meses e a criança surgiu. Faça as contas.”

Olhei com nojo para o sujeito que se dizia eu.

“Eu sou você, não tenha dúvidas. Um você de um outro lugar, mas em essência você. E você matou o nosso filho e mulher. Ruim, não?”

Imaginei o quão nojento seria ter aquelas três tetas na boca ou o quão terrível seria ninar aquele pequeno capeta.

“A casa ajuda nessas horas. Aqui é uma prisão, mas uma prisão de sua própria vontade. Não é?”

A pergunta não foi para mim. O sujeito, igual a mim, com uma bala na testa se aproximou e disse:

“É sim. Por sinal, eu também sou você. E dar um tiro na cabeça, não adianta de nada.”

“Se eu ainda tivesse minha arma. Já teria dado um fim nos três.” – respondi.

“Impossível, eu a peguei e dei um jeito. Não reparou que você e o velho também tem buracos de bala? As coisas são assim mesmo, estamos presos.” – ele respondeu apontando para meu peito, estourado e com um grande buraco de bala, que, por sinal, não doía nada. O velho fez sua cabeça girar – algo bem de filme trash – e me mostrou um buraco em sua nunca, olhando para o cara do buraco na testa com um enorme desprezo.

“ E ai qual vai ser agora?” – os dois me perguntaram ao mesmo tempo.

Não tive tempo de responder, a campainha da casa foi tocada, eles me mandaram abrir a porta ao mesmo tempo em que fazia a minha escolha.

Me senti compelido a obedecer. Na caminhada até a porta nenhum bebê mutante e nem um tipo de larva tentou me matar. Achei um sinal bacana. Quando cheguei na porta, fechei os olhos, toquei a maçaneta, desejei a atendi. Era você.

“E o que você escolheu?”

“Isso não importa. Você e eu estamos aqui. E eu sou você e você sou eu, se você ainda não reparou”.

“Eu quero sair daqui.”

“Desencana, o velho e o cara do buraco na cabeça estão arrumando o jogo na próxima sala. Para o truco, precisamos de quatro. Bem vindo…”

Na casa dos demônios (parte 1)

Posted in Conto with tags , , , , , on 12/02/2010 by caioguilherme

Na casa dos demônios (parte 1)

Quando chutei a porta do casarão mal podia imaginar o que me esperava: uma mulher imensa – daquelas bem gordas mesmo – estava escorada na parede oposta a porta e, sentada, apresentava, no colo, um bebê mamando vorazmente. Logo percebi que havia algo errado naquela cena, os sons do bebê não podiam ser considerados, em hipótese alguma, humanos. Uma estranha baba verde escorria da boca dele e assim que ele percebeu minha presença parou de mamar, virou seu corpo para trás e – com uma agilidade impressionante – pulou em minha direção, atravessando os 5 metros que havia entre nós dois.

Escapei daquela primeira investida por alguns poucos segundos. O pulo foi tão impressionante que aquele bebê sebento só foi aterrissar no pátio de fora da casa. Não consegui fechar a porta antes que ele entrasse de volta, o safado era rápido que nem um rato e correu para um canto distante da sala, onde ficou parado me encarando. Pude, então, sentir o estranho cheiro de azedo e estragado que emanava da mãe – gorda e imóvel na parede – e de seu rebento demoníaco, que só se diferenciava de uma criança comum por causa dos seus dentes escuros e afiados e de seus olhos dum vazio perolado e assassino. Minha observação foi interrompida pelo ratinho humano quando ele decidiu investir contra mim novamente. Não hesitei e nem pensei em me esquivar, atirei no bebê babão no meio do seu pulo, fazendo com que a bala atravessasse seu crânio e interrompesse seu salto, provocando uma espécie de cambalhota. Ele caiu – sem vida ou existência – gerando o famoso baque surdo e ficou lá parado, sujando o chão.

            Me aproximei da mãe escorada na parede. Durante todo meu diálogo amistoso com o filho, ela não esboçou qualquer reação. Quando cheguei mais perto e reparei em seu corpo todo o meu ser se embaralhou em náuseas. O diabólico infante fora interrompido quando se alimentava num estranho terceiro seio, que brotava entre os dois ocupantes originais de seu peito. Este seio chegava parecer uma meia pendurada numa lareira natalina, só que neste caso era de carne, tinha mamilo e escorria um leite gosmento. Nenhuma outra anomalia anatômica conseguiu chamar minha atenção como esta chamou. Toda a capa de gordura impedia qualquer observação mais atenta. Em um primeiro momento até pensei em checar coisas importantes, como os sinais vitais, e cheguei a ensaiar uma maior aproximação, mas um frio percorrendo minha espinha me deu o sábio conselho de mirar na testa da bela senhora e acabar com aquela situação. Atirei sem me importar com dor, com alma e nem nada transcendental. Só queria livrar o Mundo daqueles dois, parecia, até mesmo, um dever moral e cívico de todo ser humano decente.

            Depois de abater a mãe eu dei alguns passos para trás e pensei em me virar e dar uma olhada quase científica no bebê de cérebro espatifado. Não tive tempo, quando meu corpo começou a descrever os 180 graus, sentiu um enorme impacto, lançando-me para o chão. Era o maldito bebê de cabeça aberta, tentando me morder. Consegui segurar sua cara e atrapalhar as oportunidades de mordida, o que não impediu que ele cravasse garrinhas em meu peito como um valentão faria com suas unhas no suéter dum colega mais humilde de força.

Rolamos no chão por alguns minutos antes que eu conseguisse – com o custo de algum sangue – me desvencilhar. Taquei o infame bebê do outro lado da sala e cravei mais balas nele do que o número de dedos de um elefante. Uma gosma verde amarelada saiu de seu corpo nanico e dissolveu uma parte do chão. Antes de recarregar meu revólver, e como garantia, peguei uma cadeira que estava jogada ali na sala e quebrei seus pés, transformando-os em tacos. Bati tanto no bebê demônio quanto na mãe, a ponto de transformá-los em pudim em pó, esperando, somente e tão somente, que alguém os ensacasse e colocasse numa prateleira de supermercado. Até fiquei um pouco feliz com isso, mas me lembrei de que eram os ossos do ofício e a aproximação desse interessante massacre com a palavra trabalho tirou toda a graça do ato.

Depois de concluir este pequeno “serviço” doméstico e comercial foi que percebi a estranha atmosfera em formação na casa, por alguns momentos o ar parecia estar se tomando de pura e insana insatisfação, com a casa desejando me ver morto e enterrado nos confins mais escondidos de seu porão escuro. Logo uma mancha escura surgiu no meio daquela primeira sala, ensaiando uma dança e se materializando em minha frente. Uma voz medrosa e cansada – a da minha consciência, confesso – passou a me sussurrar um sermão bastante nervoso, mostrando o quanto eu estava encrencado.

Os acontecimentos seguintes provaram que ela ainda não tinha a menor idéia do quanto.

Posted in Poesia with tags , on 22/01/2010 by caioguilherme

Dois corpos formando um círculo

enquanto o universo derrete

em luz.

O passado que assombra

traduz

a nova língua do Mundo.

 

É fogo e gelo seco

fazendo fumaça na escuridão

ninguém quer dormir

enquanto a lua embala a maré.

 

Sinto algo mais

estamos todos sujos

menos vivos

o grupo sufoca o indivíduo,

a tela apaga a visão.

 

É preciso menos ego

dificil acertar a tal da dignidade.