Arquivo para Lua

Por toda a noite e a noite toda. (ou Bem lá no topo)

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 15/11/2009 by caioguilherme

Por toda a noite e a noite toda.

(ou Bem lá no topo)

Por: Caio Guilherme

 

I

 

Era noite e os prédios bem altos, tocavam as estrelas e os aviões que passavam pelos céus. Jaime, no topo de um deles, tentava tomar fôlego e recobrar um pouco da consciência, depois de ter subido as escadas até lá em cima. Estava sem ar, mas não se sentia cansado, sua situação era exatamente oposta, estava sem ar por não conseguir se cansar. O corpo explodia em energia, transbordava em sangue vermelho e quente. Tudo parecia denso, a atmosfera era tensa e intensa, com a lua lhe convidando para um passeio amoroso.

Jaime não era sensível, muito menos poeta. Advogado promissor e simpático, vivia a vida como a tradição mandava, entre ternos e gravatas, leis e artigos e incisos, tribunais, escritórios e clientes escroques. Ganhava um bom dinheiro, namorava uma boa moça e, num milagre de autoconsciência hegeliana, estava no Mundo fazendo o que fora feito para fazer, viver sem dialética. Até aquela noite sua vida era bem assim, normal.

Saiu de casa com seu cachorro, olhou para a Lua, ela olhou para ele e pronto, chegou onde o encontramos agora: entre dois altíssimos prédios, sem ar, cheio de energia e com uma louca vontade de namorar os céus.

Olhou para cima, foi até a beirada do prédio, olhou para baixo. O chão se aproximava e se afastava a cada lufada de ar. o chão vinha e voltava feio, salpicado de concreto e sangue. 25 andares era o tamanho do prédio em que estava. 25 andares era também o tamanho do prédio vizinho. Vizinho não, gêmeo. Prédios gêmeos de 25 andares de altura, com Jaime no topo de um deles, sendo, desse jeito, a única diferença entre os dois,  tal qual uma cicatriz que separa dois irmãos totalmente iguais.

 Tomou alguma distância da beirada do prédio. Se não se cansava correndo por escadas, ia se cansar pulando, simples assim. Tomou distância, olhou a lua, correu e pulou.

 

II

 

Chegou ao outro lado. Chegou ao outro prédio. Sorriu e olhou a Lua. Tomou distância e pulou de novo, por que não o faria? Sentia-se bem, o chão de concreto e sangue continuou bem longe dos céus, das estrelas e da Lua, a nova namorada de Jaime. Cheio de energia e sangue fervente, Jaime pulou de novo e de novo, cortando o ar denso como uma faca quente cortaria manteiga. Pular era bom, algo bem bacana. Poderia ficar assim a vida toda, pulando e pulando e pulando e namorando a Lua.

Pulou de novo, chegou lá no primeiro prédio de novo, só para pular de novo. E assim foi por toda a noite e a noite toda. Namorava a Lua entre pulos e tomadas de fôlego. Ter energia era bastante legal.

O sol chegou, a Lua se foi. A escuridão deu lugar a luz e Jaime voltou para casa, estava cansado e precisava dormir.

Duas Luas

Posted in Conto with tags , , , , , on 24/10/2009 by caioguilherme

Duas Luas

 

Ele poderia ter se inclinado, tentado beijá-la. Poderia ligar agora – agorinha mesmo – e balbuciar qualquer coisa que achasse que pudesse fazê-la começar a gostar dele, do jeito que ele gostaria. Sabia que de nada ia adiantar. E sentia frio. A certeza de não ter o corpo dela esquentando o seu fazia com que sentisse vontade de rasgar o próprio peito e chorar como uma criancinha perdida. Do quê adiantaria? Iria tomar mais uma xícara de café na esperança de a aceleração em seu cérebro e a dor alucinante em seu estômago afastassem qualquer reminiscência de desejo e de vontade dela. Não poderia estar preso, totalmente preso, na vontade de tocá-la e sentir seu cheiro. Era um homem livre, não podia se vender e se tornar um escravo, mesmo que fosse dela. Todos os beijos, todo o carinho – ou a ilusão deles –  não valeria o sacrifício de sua própria alma.

Conforme a noite foi surgindo, primeiro lá no distante Oriente, as nações da Terra foram parando em meio a reportagens na Tv, pronunciamentos políticos e tentativas de explicações de autoridades astronômicas e astrológicas. O caos estava lançado e muitas pessoas nem entendiam o porquê. A gravidade não havia sido alterada, não foi comprovada a aproximação de algum cometa ou a queda dum satélite artificial gigante. Pura e simplesmente, uma segunda lua tinha surgido de um dia para o outro. Fora isso, nada demais.

Os mais arrependidos rasparam as cabeças e começaram a entoar mantras, rezas e lamentos nas ruas das principais cidades do Mundo. Boa parte das populações se entregou a uma loucura coletiva e passou a destruir tudo o que encontrava na frente. Outra, ficou em casa vendo Tv, esperando a posição das autoridades ante tal terrível cataclisma. Os chefes de Estado reuniram-se desesperados em um grande salão na sede das Nações Unidas para tirar conclusões e fazer planos que todos desrespeitariam. A NASA e as demais agências espaciais se recusaram a confirmar o número de naves, satélites e sondas que tinham sido destruídos e perdidos em tentativas apressadas e equivocadas de investigar o novo fenômeno. Não era nada demais, mas fosse o que fosse, nada seria como era antes.

As duas luas dançavam alheias as rezas dos mais religiosos, as reuniões dos líderes da Terra e aos confrontos entre turbas, polícia e exércitos. As duas luas dançavam alheias ao que fosse que eu estivesse sentido naquele momento, o amor perdido, o amor tão querido, o amor tão fracassado. Elas, simplesmente, estavam dançando nos céus, como nossos lábios uma vez juntos dançaram, lindas e estonteantes, alheias a tudo, como deveria tudo ser.

Continuava se sentindo o escravo de uma ilusão, mas a ilusão daquelas duas luas, tornava tudo muito mais real.