Arquivo para Mulheres

Pedro Divino.

Posted in Conto with tags , , , , on 09/01/2011 by caioguilherme

Ela ofereceu um beijo de leve e partiu. Era o vento morrendo na esquina e levando algumas manchetes de jornal consigo. Pedro não conseguiu acreditar naquilo que estava acabando e soltou umas baforadas de mal estar, curtindo todas as vantagens que uma boa dose de auto piedade tinha para oferecer.

Situação clichê, entrou em um bar, pediu algo alcoólico, amargo e barato. O cheiro já era o suficiente para o fígado se retorcer de gordura e dor, mas bebeu assim mesmo e viu estrelas. A força da bebida logo pintou como uma bela desculpa para os olhos vermelhos e molhados. Pediu outra e outra dose, sentindo todos os problemas do Mundo se resolver, sabia que mais algumas iria descobrir desde a cura do câncer até os problemas de seu fictício coração.

E resolveu! Entre uma e outra uma boa dose de ânimo artificial entrou pela porta e ele se viu piscando para um solteirona que estava ao lado. Ela sorriu, Pedro sorriu e juntos foram para o banheiro dar uns amassos e – depois, quem sabe? – se conhecerem melhor. No geral a sensação foi melhor do que quando ganhou 20 reais na loteria, um espanto só.

Sem escutar o nome dela, Pedro a levou para casa dando um showzinho privado para o taxista que quase atropelou meia dúzia de pedestres estarrecidos. No meio da bagunça sentiu tocar seu celular, pela vibração sabia que era ela – aquela do começo da história – que lhe ligava, mas decidiu não atender, iria curtir uma vibe diferente naquela noite. Pedro negou seus laços divinos pela primeira vez.

Enquanto os soldados marchavam em direção a anônima solteirona o telefone do apartamento de Pedro tocou e tocou. Sabia que era ela pelo toque do telefone, mas estava atrapalhado em outros toques e não estava nem ai para atender. se ela quisesse que não tivesse ido, se ele quisesse que ele não tivesse bebido, pensou. Pedro negou seus laços divinos pela segunda vez.

Depois de tudo acabado, acordo desfeito, contrato rompido ele arrastou seu corpo acabado do quarto, para que a solteirona pudesse vestir seu corpo usado e descartado. Pedro requentou um café e não sabia o que fazer para acabar com a ressaca do corpo e da mente, tomar um engov ou dar um tiro na cabeça? Os grandes dilemas da humanidade pareciam nascer sempre das descobertas etílicas. Perdidos nesses devaneios, Pedro ouviu alguém bater na porta da cozinha e sabia que era ela. Se ela o quisesse tanto não deveria tê-lo largado, deixado que ele bebesse e se perdesse. Não, não iria atender e ainda daria um tapa na bunda da solteirona só para fazer uma desfeita moral. Assim o fez e foi ai que Pedro negou seus laços divinos pela terceira vez.

Pedro viveu longos dias sem ressaca e sem mulheres e todas as noites lia a bíblia se lamentando do amor que lhe abandonou.

 

8/01/2011 – Por Caio Fernandes

 

 

 

 

 

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Get miles away

Posted in Conto with tags , , , , , , on 15/06/2010 by caioguilherme

Escrevi este texto no começo de 2008, gosto muito dele, mas a releitura que eu fiz hoje até me deixa um pouco envergonhado, pois é um texto meio imaturo… Mesmo assim,  tenho carinho e, apesar dos pesares, admito que o acho bastante bacana.

Get miles away.

Por: Caio Guilherme

Nossos carros estavam parados frente a frente naquele campo isolado. Demoramos algumas horas, dirigindo lado a lado, buscando um canto tranqüilo no qual pudéssemos nos encontrar e fazer o que devíamos fazer. Não queríamos que adolescentes, e seus hormônios a flor da pele, nos incomodassem com seus carros balançantes. O lugar era perfeito, tranqüilo, silencioso e, ainda por cima, nos apresentava um céu estrelado como raramente vemos nas cidades. Logo, algum casal excitado o descobriria e aquele refúgio ficaria perdido para sempre. Aquela noite, ao menos aquela noite, era nossa. As poucas árvores, a grama alta e cheirosa, as esparsas flores amarelas e as estrelas brilhantes, aquele cenário cinematográfico, era de nossa propriedade. Desliguei o meu farol, sendo imitado por ela. Sai do carro e caminhei em sua direção, com o chapéu surrado na mão e um sorriso meio bobo, correspondido por um olhar sedutor, molhado e feliz.
Toquei levemente suas mãos, como sempre fazia ao dar oi. Naquele dia em especial, ela correspondeu o toque, entrelaçando os dedos com os meus. Estranhei, era bom demais. Essas coisas geralmente não são assim, boas e fáceis. Na hora resolvi ignorar a voz em meu subconsciente e curtir o momento, pensar demais confunde e dá medo, com medo nada dá certo ou parece bom o bastante. Fiquei calado olhando-a até que ela apertou seu corpo contra o meu. A encostei na lataria do carro e começamos a nos beijar loucamente. Éramos como dois adolescentes de que tanto pensava mal, de hormônio a flor da pele, desejando, mais do que tudo, balançar o carro durante a noite toda. Éramos o casalzinho atrás de um canto escuro e discreto para economizar motel e eu pretendia aproveitar todas as vantagens daquilo.
Sua mão percorria meu corpo, procurando por algo. Eu cheguei a achar que ela estava em busca de meu coração. Tateando os músculos cansados e a pele cheia de gordura em busca do que fazia com que a amasse e a apartasse de maneira quase selvagem. Eu fazia o mesmo. O problema é que ela não procurava o mesmo que eu.
Em um último espasmo, ouvi o clique de minha arma. Ela deu alguns passos para trás, com a pistola apontada para mim. A olhei sem entender e tentei avançar. Um disparo passou renteao meu rosto , avisando que era melhor ficar parado.
“Vire-se”. – disse ela.
Eu não respondi e olhei de forma seca e apagada em busca de uma explicação.
Ela repetiu:
“Vire-se”.
“Se vai me matar. Faça frente a frente.” – falei cansado.
Ela baixou o rosto, mas não descansou a arma. Começava a chorar. Eu tentei avançar mais um pouco, mas ela recuou em resposta, levantando os olhos vermelhos para mim. Não consegui encará-los, baixei minha cabeça e me virei. Não encontrava forças para reagir.
Esperei ela pensar no que ia fazer. Mas não percebi a resposta. Quando ia me virar uma porrada acertou-me no cocuruto. Ela me acertara com a coronha da arma e eu apaguei instantaneamente.
Abri os olhos, não sei quanto tempo, depois. A boca estava seca e amarga. A nuca doía e parecia estar esmigalhada. Minha visão estava turva, ela acertara em cheio. Ainda de bruços arrastei um dos braços para o local do ferimento, havia sangrado bastante e de certo teria de tomar uns pontos. Nada com que não estivesse acostumado. O sangue já se coagulara, enroscando os fios do meu cabelo. Tudo indicava que dormi um pouquinho demais.
O meu carro estava lá, ainda. O dela desfez-se em marcas de pneu. Fiquei de joelhos e olhei os céus, que ódio estava sentindo. Levantei e cambaleei até meu carro, estava todo trancando. Procurei minhas chaves e não as achei. Senti que ia vomitar, mas prendi o ácido estomacal. Tirei uma garrafinha com uísque e tomei um gole. No pára-brisa do carro havia um pedaço de papel preso em uma pedra, grande o bastante para resistir a ação do vento. A bebida já estava tornando minha visão um pouco mais clara, mais objetiva. Li o papel e o abandonei no ar.
Ela havia levado as jóias embora e jogara minha chave pelo campo, “não muito longe do carro, para você não ter problemas…” dizia o bilhete. Não haveria problemas, era só quebrar a janela e fazer uma ligação direta, ela sabia. Bebi mais um gole e olhei o relógio. Ela deveria estar bem longe e eu gostava do meu chaveiro. Decidi esperar para procurar as tais chaves.
Me sentei apoiado numa das rodas do carro. Detetives não deveriam dormir com clientes, essa deveria ser a regra número um do manual da academia. E era. Pena que eu nunca obedecia às regras. Ela levara as jóias, me batera e sumira com minhas chaves. Que dia. Abri a carteira, havia dinheiro a mais. Ela pagou meus honorários. Não me senti realmente melhor. Minha boca só ficou mais amarga, minha cabeça só doeu mais.
Tomei outro gole do uísque, mas o cuspi, estava cansado daquilo. Sentei e olhei o céu.
Só me restava apreciar as estrelas, esperar o sol surgir e me lembrar daquele beijo, pensando em como seria bom ser um adolescente num carro balançante, num campo deserto e triste, aproveitando o calor de um outro corpo, perdido na escuridão da madrugada.
Tem coisas que são só para os jovens. Lembrei que tinha fósforo e cigarros, ascendi um, traguei e soltei a fumaça, esta parecia uma mulher dançando sob a luz das estrelas, parecia com ela.

FIM.

O que poderíamos estar fazendo.

Posted in Poesia with tags , , , on 20/01/2010 by caioguilherme

Estar sentados

beijando em frente ao lago

caminhando, lado a lado,

dedos todos entrelaçados

Poderíamos estar beijando

num escuro de cinema

em uma esquina qualquer

proque o que importaria

era estar onde você estiver

Num parque ao meio dia,

juntos fazendo rimas

passando umas horas divertidas

curtindo, noite e dia

como há muito não acontecia

Agora, onde estamos?

Longe é um estranho lugar,

mas, no fim das contas, onde poderíamos estar?

Juntos?

Talvez…

Uma visita do passado.

Posted in Crônica with tags , , on 15/01/2010 by caioguilherme

 

Por: Caio Guilherme

A formação acadêmica me foi útil em uma ou outra coisa. Um delas foi aprender e passar a perceber que o tempo é fluído de muitas e variadas formas. Existe a relatividade de Einstein, onde o tempo varia de acordo com a velocidade. Existe, também, um tal de tempo psicológico, aquele que passa rápido na diversão e tão devagar  nas horas de tédio. Além disso, há o tempo dos acontecimentos cotidianos, o tempo das tendências, o tempo das estruturas e suas longas durações. Todas essas formas de tempo possuem em comum o fato de serem absurdamente fluídas. O passado, o presente e o futuro acabam por se confundir de uma forma sempre inédita e especial. Conseguir percebê-las é algo interessante, só possível de acontecer quando o sujeito se desliga dos excessos da rotina.

Ontem, testemunhei mais um tipo de tempo: o do passado que persegue a gente. Não um passado realmente importante, mas um somente resvalado, ocupante de uns segundos dentro de uma infinidade de horas. Um tiro de raspão que sem mais nem menos sangra depois de séculos cicatrizados. Estranho e interessante, no nível dum lição cósmica e ligada ao karma, este passado vem para relembrá-lo, através do pouco significante, o quanto podemos nos equivocar e o quanto esses pequenos equívocos podem ter alguma grande responsabilidade no estado atual das coisas.

Depois de jogar bola ontem, eu andava de ônibus e, claro, adormeci durante a parte que passava na Paulista. Na altura do metrô Ana Rosa, um primeiro vislumbre do passado chegou a mim. Isabel, era seu nome. Moreninha, rosto grande demais, cabelo excessivamente armado, boa bunda, belos peitos, barriga normal, pernas que deveriam ser bacanas e uns lábios doces, rosados e bonitos. Nunca havia escutado a voz dela e ontem pude perceber que era uma bela voz. Não conversamos, mas, ao meu lado, ela conversava com uma amiga e acabei pescando um pouco da conversa. Algo chato sobre escola e as aulas que elas ministravam. Ela não se lembrou de mim e senti um certo peso em não ter feito um esforço por conhecê-la. Coisas da internet com seus msn´s e orkut´s, um papo morno, água com açúcar e fotos pouco animadoras. Hoje, eu diria que era melhor com ela do que sem ela. O passado fez uma primeira visita para me lembrar o peso da das relações insignificantes e o quanto de oportunidades perdermos ao ignorá-las e desprezá-las.

O segundo ataque do passado foi hoje. Estranho e bombástico. Um dia cinza em que as forças da natureza mostraram-se surpreendentemente pouco resolvidas e medrosas. Mau humor, sai para FNAC, levei minha irmã menor comigo. Enquanto a adolescente circulava pelas prateleiras da loja, tive uma visão dum passado fantasmagórico e que jogou, ainda mais, arrependimento em meus olhos. Gabriela B. estava lá. Sim, sim, quase uma barreira de 6 anos entre nós. Cursinho Etapa, 2004: uma moça cheiinha, gente boa, com muitas espinhas e um decote interessante, me entregou um cartão de aniversário. Um dos poucos que já ganhei. Um cartão de aniversário. Ela gostava de mim. Hoje, estava mais magra, mais bonita e a vontade com a vida. Estranho, muito estranho. Me esgueirei pelos corredores num misto de esperanças concorrentes: não ser reconhecido e ser reconhecido. Infelizmente, ela estava acompanhada e pareceu nem se dar conta da minha existência. Meu orgulho se feriu bastante. O passado veio e me lembrou: “Ela te deu um cartão, gostava de você e teve coragem de dizer.” Eu não fiz nada, não fiquei com ela, mas ainda lembro de seu nome e sobrenome. Ela? Talvez tenha me reconhecido, talvez não. Não fazia a menor diferença.

Esses dois acontecimentos deixam uma lição bastante importante. Não menosprezar. O passado veio perseguir e mostrar algumas coisas que poderiam ou não ser minhas. Ele veio mostrar alternativas aos caminhos que segui, já que parte das nossas vidas é delimitada pelo tipo de pessoas com quem nos relacionamos. Uma eu nem conhecia, deveria ter dado a possibilidade para o conhecimento. A outra, eu conheci e menosprezei, deveria ter dado possibilidade para os beijos. A lição que fica: mais vale uma menina na mão, do que um milhão de oportunidades no campo das ilusões.

Eis que o passado se mostrou fluído, trouxe dramas do presente para o futuro, do futuro para o passado e do passado para o presente, confundindo tempos, idéias e sentimentos. A conclusão que chego? Não teria pensando em nada disso se não tivesse escolhido esses caminhos que escolhi a vida não dá lições nas vitórias, mas estas são necessárias também. 

10 Poemas em Prosa (ou para ninguém reclamar que aqui não tem inovação.)

Posted in Poema em Prosa with tags , , , , , , , , , , , on 10/12/2009 by caioguilherme

10 Poemas em Prosa (ou para ninguém reclamar que aqui não tem inovação.)

Por: Caio Guilherme

I

Ontem um abraço suado. O ônibus nunca passa vazio. O celular castigando orelhas e ovinhos de codorna suando num boteco qualquer. Se eu fosse amigo do rei, compraria-me uma Pasárgada e não venderia bolovo.

II

Daria uma rosa para aquele dia. Do lado da minha casa queima uma fonte de luz colorida. Deixo essa cidade dizendo um nome, maldizendo um beijo e clamando por seu seio. Você me fecha a porta e me agarro num abraço perdido. Tudo cai de lado e digo “até amanhã”.

III

Agora cala e some. Ratinhos no escuro, tão bonitinhos, procurando um queijo. Num buraco da vida encontram um beijo. Lucilda gosta de goiabada e todos gostam de mim. Do que adianta as luzes apagadas se nada acende o meu bem querer. Fecha-se a porta e gatos emergem, mastigam e somem com os ratinhos lá do começo.

IV

 Tem-se uma nota esbranquiçada. Palavras de amor abandonadas na face da terra. Pela cusparada tomada dá-se a outra face do mundo. Perdão não se dá, pois é duro ter que pensar.

O duro, é trabalhar em silêncio. A face dessa Terra toda e tosca fede a ranho. o choro está ardendo.

V

Agora tem sabor de menta. Uns lábios de cigarro emprestado. As bitucas queimam a pele. Não mais beijar barangas. Orgulho ferido dói menos que pisão no pé. Sonho em desejo insatisfeito.

VI

Seu olhos brilham em fogos de artifício. Minha cidade era o caos. Sem você ela virou loucura. Saudades do chocolate que você mordeu. Saudades da sua mordida. Um cheiro e beijos nus na chuva. Te reencontrarei.

VII

Um cotovelo nunca é bonito. Ninguém se apaixona só pelos cotovelos. Quando se encontra um para beijar, belo, lindo e cheiroso, é puro milagre. Eis que você achou o amor verdadeiro.

VIII

Sua pança se encaixava na minha. Seu bumbum liso encaixava na minha mão, combinação perfeita. Bom de apertar. Alegria de tentação. Um bom dia era te encoxar enquanto nos beijávamos.

IX

Não existe verdade. Nem verdadeira paixão. Um gole de tequila, é um gole de tequila. E um beijo apaixonado é o melhor beijo do Mundo até o próximo beijo apaixonado. É que nem quando bebê anda, sorri e o cachorro trás uma bolinha atirada na boca. Tudo tem seu fim. Só resta a bituca. A bituca e fumaça.

O vento, no final das contas, leva tudo. Eu, você, a verdade e a ilusão.

X

Um girassol, o sol e nós dois a noite no terminal. Duro é embarcar para descer tão logo, já que sua mão é quente e o seu ombro gostoso. Melhor que isso, só se meus lábios tocassem os seus e você dissesse meu nome, sussurrasse em meus ouvidos. Ai, meu Deus, que me perco nesses olhos e não acho mais o caminho de casa.

Quando fizer um gol no futebol, vou correr em direção as câmeras e gritar seu nome. Se desse jeito não te ganhar, vai me restar virar um músico famoso e cantar uma música feita inspirada em você. Poesia é movimento, pena que eu canto tão mal…

Conhecendo Mussolini

Posted in Conto with tags , , , , , on 04/12/2009 by caioguilherme

Conhecendo Mussolini.

Por Caio Guilherme

10/08/2009.

Olhou o céu e o achou absurdamente cinza, até mesmo para um outono. Um mau presságio seria, pensou, se eu acreditasse nessa baboseira de sorte. Não gostava nenhum pouco dessa época do ano. Talvez, devesse fazer como os pássaros e migrar em busca de primaveras e verões eternos, evitando os infernos de frio e desesperança dos outonos e dos invernos, mas não fazia a tal migração por temer os efeitos que essa constante fuga poderiam ter no seu ciclo de vida e, também, não estava interessado em comprar novas roupas. Ir para o Brasil ou para Cuba envolveria comprar roupas coloridas e festivas, camisas com flores estampadas, bermudas enormes e chinelos de dedo, possibilidades que não lhe agradavam. Gostava de suas roupas sóbrias, a calça e o paletó pretos, o sapato lustroso e a camisa branca, perfeitamente passada e engomada. Se arriscava nesse tempo cinza por amor ao seu bom estilo e a manutenção do ciclo de vida, achava importante haver uma parte do ano em que necessariamente todos deveriam baixar a bola. Apesar de odiá-la, considerava-a essencial, não para os pássaros, mas sim para os homens.

Respirou fundo e tomou coragem. Não podia ficar parado na frente da porta o dia todo. Desceu as escadas, caminhou por um caminho de concreto cortando um lago de grama amarelada e saiu pelo pequeno portão de ferro, que significava a fronteira entre seus domínios e as ruas, os domínios Dele. Não que sua casa fosse realmente parte de seus domínios, nem ele mesmo era domínio dele, mas ambos só seriam domínio Dele quando Ele descesse de seu trono e percebe sua existência e de suas coisas, o que em meio a tantas pessoas tão anônimas quanto ele seria praticamente impossível. Enquanto isso, ele e sua casa eram pseudodomínios dele mesmo e era só continuar a jogar no seguro, que tudo estaria bem. Entrou nos domínios Dele e caminhou com suas roupas sóbrias e pretas até uma loja extremamente sóbria, com tijolos dum vermelho discreto, metais na cor verde e com móveis em tom acastanhados, assim como as paredes internas. As tonalidades tornavam aquela loja, um misto de banca de jornal com cafeteira, extremamente familiar, não só para ele como para todos os outros. A dona da loja acabara de colocar em uma mesa reservada, a sua mesa na verdade, um grande canecão de café com leite e uma edição do jornal. Ele caminhou até a sua mesa e piscou para a dona da loja, ela estava linda e sóbria num longo vestido preto, simples e sóbrio, sóbrio e adequado, como todos as pessoas ali se vestiam normalmente. Ela ficou vermelha e sorriu com medo de alguém perceber. Óbvio que todos viam tudo e ninguém percebia nada, guardando os comentários para serem feitos na segurança do lar e na janela das fofoqueiras, nada como um romance para dar combustível a conversas, mantendo-os longe de assuntos como política, futebol e religião, evitando, assim, qualquer coisa que não agradasse a Ele. Claro que dentro de romance tudo que remetesse a Ele ou as mulheres Dele, que de certa forma eram todas as mulheres, era evitado. Uma mulher assim como as casas, as roupas e as outras pessoas eram Dele a partir do momento em que Ele percebia a existência, o que para o azar da dona da loja de café e jornal Ele já havia feito em relação a ela. E, como não haveria de deixar de ser, Ele já sabia, inclusive, de que ele e ela haviam se olhado romanticamente  no exato momento em que eles se olharam romanticamente, não pelos comentários que eram feitos pelas outras pessoas, todas muito sóbrias em seus modos de agir, mas pelos comentários que não eram feitos, mostrando como o que não é dito muitas vezes é mais importante do que aquilo que as fofoqueiras fazem voar por ai, buscando climas melhores.

Bebeu seu café com leite sem saber que Ele já sabia de tudo. Leu o jornal oficial e seguiu todas as regras de conduta. Só desrespeitou uma e acabou piscando novamente para a dona de loja, que novamente ficou vermelha. Dois sentimentos que acabam por acabar com qualquer chance de felicidade de um homem são o amor e o ódio, pois forçam a execução de ações como piscadas amorosas ou comentários cruéis, o que sempre acaba chamando a atenção Dele para as pessoas envolvidas e, a partir disso, elas acabam se tornando ou amantes Dele ou parte dos domínios conscientes Dele, sendo que nenhuma das duas é uma posição que deva ser invejada, diria até que está mais para ser temida mesmo.

Abriu a porta da loja de jornais e café, mas antes de sair olhou para trás, uma última olhada para a dona, uma última olhada antes de ir passar horas e horas preso no escritório, fazendo um nada burocrático que só não era pior que o cinzento seu do outono. Pensou em uma vantagem, ligada a desvantagem do rompimento do ciclo natural, de viver em constante migração, a possibilidade de duradouras primaveras com a dona da loja de jornais e café, o que significaria intensas noites de primavera e reprodução, bem longe dos ameaçadores olhos Dele e de todos os outros. Mal imaginava que ao sair por aquela porta e sentir o clima seco e cinza do outono iria se deparar com um carro grande, velho e preto na porta da loja. Uma pessoa abriu a janela do carro, os dois se encararam, ele suou frio, mas fez que não tinha percebido nada e saiu andando. Caminhou cerca de 20 metros e notou que o carro não o seguia, ele estava para dobrar a esquina e decidiu que correr era a melhor estratégia. Tentou fazê-lo, mas outro carro preto estava estacionado naquela rua e dois homens estavam parados na calçada, como que se esperassem que ele fosse correr e ali estivessem para impedi-lo de gastar suas últimas lufadas de ar com um gesto inútil..

“Acho melhor você entrar, Amaral. Ele quer vê-lo.” – disse um deles, um baixinho, careca, insignificante e sobriamente vestido de preto, como todas as pessoas sóbrias deveriam fazer.

Pensou em falar alguma coisa, mas engasgou e ficou parado no mesmo lugar da calçada, contorcendo-se em uma longa tosse. Um dos homens, o que não tinha dito e nem diria nada e que não era nem um pouco baixinho, lhe acudiu dando-lhe leves tapinhas nas costas. Estes tapas, por sua vez, lhe fizeram sacudir mais que os espasmos em sua garganta. Tentando disfarçar sua gratidão Amaral entrou no carro, com o corpo endurecido e tremendo mais que gato depois de um bacia de água gelada. Era um carro bonito cujas janelas escuras faziam o dia parecer ainda mais cinza e triste do que realmente era. Dentro daquele carro é como se existisse um outono dentro do outono, um pouco pelas cinzas dos cigarros. Nem tentou conversar e descobrir o por quê Dele querer vê-lo, já sabia que coisa boa dali não sairia,  mas um dos homens, o baixinho e quase falante, disse:

“Você mexeu com uma mulher Dele hoje, aquela lá da banca de jornal que vende cafés. Algum último pedido, Amaral?”

Amaral não respondeu e nem tentou se defender. Pediu uma foto dela de recordação e foi prontamente atendido, os homens sabiam que era exatamente aquilo que ele queria. Na foto, ela estava sorridente e envergonhada em resposta a piscada que ele tinha dado ao entrar na loja de jornais e cafés. Ela era realmente uma mulher muito bonita, criada e crescida nos moldes da Branca de Neve, o sonho de consumo de todo homem, alto ou anão. Seus grandes dentes brancos escapavam, em um sorriso, com alguma dificuldade de seus lábios vermelhos e carnudos, gostosamente beijáveis, e trazia, consigo, um espetacular brilho aos olhos dela, deixando-os em um cor indefinida, entre o verde, o mel e o castanho. Uma jóia rara de se ver. Olhando a foto, Amaral percebeu que ela uma mulher bela e de contrastes agradáveis, fazendo o morrer por ela valer a pena.

O carro parou em frente a um grandioso prédio com uma grandiosa escadaria e dois grandiosos leões na entrada. Era realmente um prédio grandioso, com 4 grandiosos porteiros, que precisavam fazer um esforço absurdamente grandioso para abrir as enormes e grandiosas portas. Ele desceu do carro e entrou sozinho no prédio, suando frio, pois ao entrar notara que os porteiros faziam um triste sinal com a cabeça como se dissessem: “esse ai já era”. Não iria tentar fugir, sabia que a vida tinha dessas coisas inevitáveis para as quais só havia o estufar os peitos e olhar para frente como solução.

O saguão do prédio era muito diferente de tudo que já havia visto na vida. Era um amplo salão, com mais de 15 metros de pé direito, com piso e paredes brancas e brilhantes, sem nenhum móvel além de uma mesa marrom a cerca de 20 metros da porta de entrada. Caminhou até ela e foi atendido por uma secretaria, vestida de preto. Ela não deixava de ser bonita e interessante, apesar de ter o cabelo esterilizado por um coque sem graça. Ela usava óculos, o que lhe dava um ar inteligente e despertava os instintos mais sacanas de qualquer homem que a visse. Estranho, como algo tão pouco prático, e sinal de uma deficiência, física poderia ser tão excitante, especialmente na hora da morte de um homem, sendo este fato mais um entre os inúmeros fatos e questões cujas respostas Amaral nunca teria acesso, não só pela sua morte iminente, mas mais por não possuir plena consciência das perguntas certas a serem feitas para a vida, o que, em ultima instância, inviabilizavam o nascimento das respostas certas. A sorte de Amaral foi da mesa impedir a visão das pernas que escapavam pela mini saia e, assim, a dona do comércio de cafeína e informação acabou sendo poupada de uma feroz concorrência.

 Ela conversou com ele de forma desinteressada, como se muitos fossem Vê-lo em situação similar. Talvez ela devesse se tornar tão insensível para poder suportar, pensou, ver desgraça assim todo dia deve ser terrível. Ela pegou seu telefone e discou um ramal. Falou pouco com a pessoa do outro lado da linha e acenou com a cabeça, para Amaral, dizendo:

“Você deve ter feito algo feio. Ele te quer imediatamente.”

Amaral baixou a cabeça e seguiu na direção de uma pequena porta, indicada pelo dedo bonito e triste da secretária. Não bateu na porta e já foi entrando, se era para morrer, iria morrer sem prestar grandes sinais de respeito a Ele.

A sala Dele era bem maior que o saguão em que a secretária ficava, mas seguia o mesmo padrão, pé direito alto, paredes e piso brancos e brilhantes, com somente um móvel, localizado no meio da sala. De longe, Amaral pôde perceber que aquele móvel era uma espécie de trono bem alto, onde um sujeitinho careca, vestindo um uniforme militar da cor verde, ficava parado esperando, o dia todo, todos os dias, como se nada mais tivesse para fazer.

Não esperou que Ele desse nenhuma ordem e foi em direção a ao trono, mas escorregou e caiu de bunda no chão, pois este estava encerado demais. Amaral deveria ter imaginado que um brilho exagerado daqueles deveria ter alguma causa exagerada, no caso, o excesso de cera. Foi ai que percebeu o quanto o chão cheirava a cera e lustra móveis barato, sendo isto uma surpresa, pois Ele deveria ter acesso a produtos de limpeza melhores do que a média dos habitantes da terra Dele. Levantou e tentou andar, escorregou de novo. A bunda doía bastante. Gritou um palavrão para Ele, que pareceu ignorar. Amaral pensava em manter um pouco de sua dignidade, mas não estava indo bem nessa tarefa, a primeira queda de bunda naquele chão já havia acabado com seu espírito altivo. Se levantou e tentou sair pela porta pela qual entrara, não conseguiu, pois ela estava trancada. Podia ou ficar ali parado, ou tentar arrombar a porta ou caminhar até Ele.

Na verdade,  Amaral não queria caminhar até Ele, mas não conseguiu não fazê-lo. Era como se Ele fosse o único destino a ser seguido e era um destino a ser seguido de quatro, para não escorregar na cera. Engatinhou em direção ao trono, de forma lenta e triste, combinando muito bem com os cinzentos dias de outono.

Chegou em frente ao trono, estava frente a frente com Mussolini. Estava conhecendo Mussolini, algo que poucos faziam.  Ia tentar se levantar quando Ele pegou uma arma e estourou os seus miolos, manchando o chão todo de vermelho, um vermelho escuro e sem vida, como o corpo de seu antigo dono, Amaral, e um céu de outono.

Mussolini nem olhou para o chão, após dar o tiro nem se lembrou mais quem era Amaral, quem era a dona da loja de jornais e cafés e porque ele matara os dois. Sua única ação ao perceber a grande mancha vermelha, os miolos estourados e o corpo sem cabeça, foi ligar para a secretária dizendo:

“Traga um pano e bastante cera, este chão está todo sujo…”

Meu Bem

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on 21/11/2009 by caioguilherme

Meu Bem

por Caio guilherme

 

As coisas bonitas vem e vão. Algumas das coisas feias parecem que ficam para sempre. Duro bater em algumas portas e encontrá-las todas fechadas. Duro dar murros em ponta de facas, tentando sair de situações limites em que não há mais soluções.

Queria te dar uma rosa, um beijo, uma latinha de doce de leite. Te dizer “bom dia”, te ver sorrir e essas coisas todas. Queria que não fôssemos erros e desconhecidos, eternos desconhecidos, destinados ao perdido da memória. As coisas boas esvaziaram-se em desencontros e parece que só encontramos aquilo que tinha de ruim.

Portas fechadas. Janelas emperradas. Fantasmas. Não gosto nenhum pouco de fantasmas. Queria que fosse importante e tivesse significado, queria que fosse bom e houvesse espaço para algo melhor. Portas perdidas, memórias fechadas, casos encerrados.

Queria ter um final mais feliz. Uma nova chance, novos momentos. Um olhar. Verde, mel, caudaloso, bonito. Seu olhar. Meu sorriso. Luz. Ah, como era show de bola!

Perfume. Seu nariz no meu pescoço. Palavras feias, as duas, nariz e pescoço. Mas como era bom sentir você sentindo meu perfume. Tem lugares e lugares, coisas feitas para determinados lugares. Nos dias bons, meu pescoço era o melhor lugar para o seu nariz. Meus lábios nos seus, mordendo, chupando, beijando. A poesia nasce daquilo que choca e tão pouco parece poético. Nasce também da sua risada. Nascia, quer dizer. O bonde passou. O trem partiu. A fila andou. Mas algo ficou. Saudosa e salgada, sua pele me faz uma tremenda falta.

Outra coisa que sinto saudades, era quando eu falava bonito e você se apaixonava. Agora, falo feio e você me tira de idiota. As coisas mudaram para bem pior. Meus braços e olhos doem, sinto saudades de te abraçar e falar contigo. Não pelo que já passou, mas pelo que você era, ou sei lá o quê…

Cada coisa doida que acontece na noite, cada onda de prazer que invade o corpo, sorvendo tudo como nunca antes sorvi. Pena que nada me preenche tanto quanto me preenchia o seu olhar.

 

Ao menos, ainda tenho jeito com as palavras. Que venha a fama, então, pois você me parece bem longe e bastante resolvida.

 

Que pena, meu bem, que pena…para mim.