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Conhecendo Mussolini

Posted in Conto with tags , , , , , on 04/12/2009 by caioguilherme

Conhecendo Mussolini.

Por Caio Guilherme

10/08/2009.

Olhou o céu e o achou absurdamente cinza, até mesmo para um outono. Um mau presságio seria, pensou, se eu acreditasse nessa baboseira de sorte. Não gostava nenhum pouco dessa época do ano. Talvez, devesse fazer como os pássaros e migrar em busca de primaveras e verões eternos, evitando os infernos de frio e desesperança dos outonos e dos invernos, mas não fazia a tal migração por temer os efeitos que essa constante fuga poderiam ter no seu ciclo de vida e, também, não estava interessado em comprar novas roupas. Ir para o Brasil ou para Cuba envolveria comprar roupas coloridas e festivas, camisas com flores estampadas, bermudas enormes e chinelos de dedo, possibilidades que não lhe agradavam. Gostava de suas roupas sóbrias, a calça e o paletó pretos, o sapato lustroso e a camisa branca, perfeitamente passada e engomada. Se arriscava nesse tempo cinza por amor ao seu bom estilo e a manutenção do ciclo de vida, achava importante haver uma parte do ano em que necessariamente todos deveriam baixar a bola. Apesar de odiá-la, considerava-a essencial, não para os pássaros, mas sim para os homens.

Respirou fundo e tomou coragem. Não podia ficar parado na frente da porta o dia todo. Desceu as escadas, caminhou por um caminho de concreto cortando um lago de grama amarelada e saiu pelo pequeno portão de ferro, que significava a fronteira entre seus domínios e as ruas, os domínios Dele. Não que sua casa fosse realmente parte de seus domínios, nem ele mesmo era domínio dele, mas ambos só seriam domínio Dele quando Ele descesse de seu trono e percebe sua existência e de suas coisas, o que em meio a tantas pessoas tão anônimas quanto ele seria praticamente impossível. Enquanto isso, ele e sua casa eram pseudodomínios dele mesmo e era só continuar a jogar no seguro, que tudo estaria bem. Entrou nos domínios Dele e caminhou com suas roupas sóbrias e pretas até uma loja extremamente sóbria, com tijolos dum vermelho discreto, metais na cor verde e com móveis em tom acastanhados, assim como as paredes internas. As tonalidades tornavam aquela loja, um misto de banca de jornal com cafeteira, extremamente familiar, não só para ele como para todos os outros. A dona da loja acabara de colocar em uma mesa reservada, a sua mesa na verdade, um grande canecão de café com leite e uma edição do jornal. Ele caminhou até a sua mesa e piscou para a dona da loja, ela estava linda e sóbria num longo vestido preto, simples e sóbrio, sóbrio e adequado, como todos as pessoas ali se vestiam normalmente. Ela ficou vermelha e sorriu com medo de alguém perceber. Óbvio que todos viam tudo e ninguém percebia nada, guardando os comentários para serem feitos na segurança do lar e na janela das fofoqueiras, nada como um romance para dar combustível a conversas, mantendo-os longe de assuntos como política, futebol e religião, evitando, assim, qualquer coisa que não agradasse a Ele. Claro que dentro de romance tudo que remetesse a Ele ou as mulheres Dele, que de certa forma eram todas as mulheres, era evitado. Uma mulher assim como as casas, as roupas e as outras pessoas eram Dele a partir do momento em que Ele percebia a existência, o que para o azar da dona da loja de café e jornal Ele já havia feito em relação a ela. E, como não haveria de deixar de ser, Ele já sabia, inclusive, de que ele e ela haviam se olhado romanticamente  no exato momento em que eles se olharam romanticamente, não pelos comentários que eram feitos pelas outras pessoas, todas muito sóbrias em seus modos de agir, mas pelos comentários que não eram feitos, mostrando como o que não é dito muitas vezes é mais importante do que aquilo que as fofoqueiras fazem voar por ai, buscando climas melhores.

Bebeu seu café com leite sem saber que Ele já sabia de tudo. Leu o jornal oficial e seguiu todas as regras de conduta. Só desrespeitou uma e acabou piscando novamente para a dona de loja, que novamente ficou vermelha. Dois sentimentos que acabam por acabar com qualquer chance de felicidade de um homem são o amor e o ódio, pois forçam a execução de ações como piscadas amorosas ou comentários cruéis, o que sempre acaba chamando a atenção Dele para as pessoas envolvidas e, a partir disso, elas acabam se tornando ou amantes Dele ou parte dos domínios conscientes Dele, sendo que nenhuma das duas é uma posição que deva ser invejada, diria até que está mais para ser temida mesmo.

Abriu a porta da loja de jornais e café, mas antes de sair olhou para trás, uma última olhada para a dona, uma última olhada antes de ir passar horas e horas preso no escritório, fazendo um nada burocrático que só não era pior que o cinzento seu do outono. Pensou em uma vantagem, ligada a desvantagem do rompimento do ciclo natural, de viver em constante migração, a possibilidade de duradouras primaveras com a dona da loja de jornais e café, o que significaria intensas noites de primavera e reprodução, bem longe dos ameaçadores olhos Dele e de todos os outros. Mal imaginava que ao sair por aquela porta e sentir o clima seco e cinza do outono iria se deparar com um carro grande, velho e preto na porta da loja. Uma pessoa abriu a janela do carro, os dois se encararam, ele suou frio, mas fez que não tinha percebido nada e saiu andando. Caminhou cerca de 20 metros e notou que o carro não o seguia, ele estava para dobrar a esquina e decidiu que correr era a melhor estratégia. Tentou fazê-lo, mas outro carro preto estava estacionado naquela rua e dois homens estavam parados na calçada, como que se esperassem que ele fosse correr e ali estivessem para impedi-lo de gastar suas últimas lufadas de ar com um gesto inútil..

“Acho melhor você entrar, Amaral. Ele quer vê-lo.” – disse um deles, um baixinho, careca, insignificante e sobriamente vestido de preto, como todas as pessoas sóbrias deveriam fazer.

Pensou em falar alguma coisa, mas engasgou e ficou parado no mesmo lugar da calçada, contorcendo-se em uma longa tosse. Um dos homens, o que não tinha dito e nem diria nada e que não era nem um pouco baixinho, lhe acudiu dando-lhe leves tapinhas nas costas. Estes tapas, por sua vez, lhe fizeram sacudir mais que os espasmos em sua garganta. Tentando disfarçar sua gratidão Amaral entrou no carro, com o corpo endurecido e tremendo mais que gato depois de um bacia de água gelada. Era um carro bonito cujas janelas escuras faziam o dia parecer ainda mais cinza e triste do que realmente era. Dentro daquele carro é como se existisse um outono dentro do outono, um pouco pelas cinzas dos cigarros. Nem tentou conversar e descobrir o por quê Dele querer vê-lo, já sabia que coisa boa dali não sairia,  mas um dos homens, o baixinho e quase falante, disse:

“Você mexeu com uma mulher Dele hoje, aquela lá da banca de jornal que vende cafés. Algum último pedido, Amaral?”

Amaral não respondeu e nem tentou se defender. Pediu uma foto dela de recordação e foi prontamente atendido, os homens sabiam que era exatamente aquilo que ele queria. Na foto, ela estava sorridente e envergonhada em resposta a piscada que ele tinha dado ao entrar na loja de jornais e cafés. Ela era realmente uma mulher muito bonita, criada e crescida nos moldes da Branca de Neve, o sonho de consumo de todo homem, alto ou anão. Seus grandes dentes brancos escapavam, em um sorriso, com alguma dificuldade de seus lábios vermelhos e carnudos, gostosamente beijáveis, e trazia, consigo, um espetacular brilho aos olhos dela, deixando-os em um cor indefinida, entre o verde, o mel e o castanho. Uma jóia rara de se ver. Olhando a foto, Amaral percebeu que ela uma mulher bela e de contrastes agradáveis, fazendo o morrer por ela valer a pena.

O carro parou em frente a um grandioso prédio com uma grandiosa escadaria e dois grandiosos leões na entrada. Era realmente um prédio grandioso, com 4 grandiosos porteiros, que precisavam fazer um esforço absurdamente grandioso para abrir as enormes e grandiosas portas. Ele desceu do carro e entrou sozinho no prédio, suando frio, pois ao entrar notara que os porteiros faziam um triste sinal com a cabeça como se dissessem: “esse ai já era”. Não iria tentar fugir, sabia que a vida tinha dessas coisas inevitáveis para as quais só havia o estufar os peitos e olhar para frente como solução.

O saguão do prédio era muito diferente de tudo que já havia visto na vida. Era um amplo salão, com mais de 15 metros de pé direito, com piso e paredes brancas e brilhantes, sem nenhum móvel além de uma mesa marrom a cerca de 20 metros da porta de entrada. Caminhou até ela e foi atendido por uma secretaria, vestida de preto. Ela não deixava de ser bonita e interessante, apesar de ter o cabelo esterilizado por um coque sem graça. Ela usava óculos, o que lhe dava um ar inteligente e despertava os instintos mais sacanas de qualquer homem que a visse. Estranho, como algo tão pouco prático, e sinal de uma deficiência, física poderia ser tão excitante, especialmente na hora da morte de um homem, sendo este fato mais um entre os inúmeros fatos e questões cujas respostas Amaral nunca teria acesso, não só pela sua morte iminente, mas mais por não possuir plena consciência das perguntas certas a serem feitas para a vida, o que, em ultima instância, inviabilizavam o nascimento das respostas certas. A sorte de Amaral foi da mesa impedir a visão das pernas que escapavam pela mini saia e, assim, a dona do comércio de cafeína e informação acabou sendo poupada de uma feroz concorrência.

 Ela conversou com ele de forma desinteressada, como se muitos fossem Vê-lo em situação similar. Talvez ela devesse se tornar tão insensível para poder suportar, pensou, ver desgraça assim todo dia deve ser terrível. Ela pegou seu telefone e discou um ramal. Falou pouco com a pessoa do outro lado da linha e acenou com a cabeça, para Amaral, dizendo:

“Você deve ter feito algo feio. Ele te quer imediatamente.”

Amaral baixou a cabeça e seguiu na direção de uma pequena porta, indicada pelo dedo bonito e triste da secretária. Não bateu na porta e já foi entrando, se era para morrer, iria morrer sem prestar grandes sinais de respeito a Ele.

A sala Dele era bem maior que o saguão em que a secretária ficava, mas seguia o mesmo padrão, pé direito alto, paredes e piso brancos e brilhantes, com somente um móvel, localizado no meio da sala. De longe, Amaral pôde perceber que aquele móvel era uma espécie de trono bem alto, onde um sujeitinho careca, vestindo um uniforme militar da cor verde, ficava parado esperando, o dia todo, todos os dias, como se nada mais tivesse para fazer.

Não esperou que Ele desse nenhuma ordem e foi em direção a ao trono, mas escorregou e caiu de bunda no chão, pois este estava encerado demais. Amaral deveria ter imaginado que um brilho exagerado daqueles deveria ter alguma causa exagerada, no caso, o excesso de cera. Foi ai que percebeu o quanto o chão cheirava a cera e lustra móveis barato, sendo isto uma surpresa, pois Ele deveria ter acesso a produtos de limpeza melhores do que a média dos habitantes da terra Dele. Levantou e tentou andar, escorregou de novo. A bunda doía bastante. Gritou um palavrão para Ele, que pareceu ignorar. Amaral pensava em manter um pouco de sua dignidade, mas não estava indo bem nessa tarefa, a primeira queda de bunda naquele chão já havia acabado com seu espírito altivo. Se levantou e tentou sair pela porta pela qual entrara, não conseguiu, pois ela estava trancada. Podia ou ficar ali parado, ou tentar arrombar a porta ou caminhar até Ele.

Na verdade,  Amaral não queria caminhar até Ele, mas não conseguiu não fazê-lo. Era como se Ele fosse o único destino a ser seguido e era um destino a ser seguido de quatro, para não escorregar na cera. Engatinhou em direção ao trono, de forma lenta e triste, combinando muito bem com os cinzentos dias de outono.

Chegou em frente ao trono, estava frente a frente com Mussolini. Estava conhecendo Mussolini, algo que poucos faziam.  Ia tentar se levantar quando Ele pegou uma arma e estourou os seus miolos, manchando o chão todo de vermelho, um vermelho escuro e sem vida, como o corpo de seu antigo dono, Amaral, e um céu de outono.

Mussolini nem olhou para o chão, após dar o tiro nem se lembrou mais quem era Amaral, quem era a dona da loja de jornais e cafés e porque ele matara os dois. Sua única ação ao perceber a grande mancha vermelha, os miolos estourados e o corpo sem cabeça, foi ligar para a secretária dizendo:

“Traga um pano e bastante cera, este chão está todo sujo…”