Arquivo para Opiniões

Resenha: Nosso Homem em Havana

Posted in Resenha with tags , , , , , , on 01/08/2010 by caioguilherme

Graham Greene é um dos nomes favoritos na minha humilde biblioteca e eu o “descobri” graças a revolução feita por editoras como a L&pm e seu esforço por viabilizar e popularizar os livros de bolso.

Ponto que eu mais gosto da sua obra, ao menos o bom punhado de livros dele que li, é o fato de ser extremamente variada, apresentando enredos e personagens que ao mesmo tempo em que são distintos guardam alguma familiaridade entre si. O Poder e a Glória é muito diferente de o Terceiro Homem, que é bastante diferente – apesar do título –  de o Décimo Homem, que por sua vez o é de Nosso homem em Havana. O ponto em comum, além da escrita própria de Graham Greene, é a relação do homem, a culpa e o catolicismo. Que em outras palavras, podemos resumir como o  choque do homem frente a culpa católica.

Este dilema permeia todos os seus livros, mas sob formas e tons de humor extremamente diferentes. Na obra é possível encontrar romances de traição, dramas e humor de espionagem internacional, dramas de burocratas e muito mais, todos refletindo de maneira rica este choque fundador do Ocidente. A questão que sobressai desses livros é: Como sobreviver, e ser feliz, em frente aos desígnios do Deus cristão? Não sou religioso- nem acredito em Deus – mas essa pergunta deve interessar muitos outros além dos que crêem.

O livro que serviu de entrada para esse universo, se não estou enganado, foi o Nosso Homem em Havana, um livro pequeno e permeado por um humor irônico, onde acompanhamos a vida do quase patético Mr. Wormold e suas dificuldades em administrar os exóticos desejos de sua filha, ultra-religiosa, Milly com sua pouco animadora vida financeira como vendedor de aspiradores de pó. A providência, quase como resultado das orações de sua filha, bate a porta de Mr. Wormold sob a forma de um agente do serviço secreto britânico que dará a chance de Wormold ganhar muito mais do que vendendo produtos de nomes duvidosos, numa Havana indiferente e pouco acostumada com sua presença de décadas.

Através de sua nova atividade, ele descobrirá por quais meios o amor e a amizade são feitos e desfeitos, o quão curtas são as pernas da mentira e o quanto é amarga a culpa em frente a um Deus no qual ele não acredita, mas ao qual tem de se sacrificar por amor a filha.

Nosso Homem em Havana é um livro cheio de intenções, que se apresenta como um simples e despretensioso trilher de espionagem, que vale uma leitura atenta, tanto pela infinidade de temas subentendidos e claramente discutidos, quanto pelo capricho na tensão e na ação, ingredientes básicos para esse tipo de livro.

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Resenha: O Jovem Stálin

Posted in Resenha with tags , , , , , , on 25/07/2010 by caioguilherme

Simon Sebag Montefiore apresenta um competente panorama dos anos de poder de Stálin no livro Stálin: a corte do czar vermelho, onde acompanhou e analisou os anos de maturidade do biografado, partindo do começo do fim do czar bolchevique, quando do suicídio de sua esposa Nádia, passando pelo seu furor paranóico nos anos de terror e refletindo sobre sua senilidade após a exaustiva Segunda Guerra Mundial.

Se com este livro os anos de poder se tornaram acessíveis ao leitor, o mesmo não podia ser dito da juventude e dos anos de formação de Stálin, sempre bastante obscuros. Esta lacuna é, então, preenchida pelo próprio Montefiore no livro O jovem Stálin de 2007, em que é apresentada uma formidável descrição e análise da vida do biografado antes de se tornar o afamado estadista soviético.

Assim como no volume anterior, Montefiore procura retratar Stálin fugindo dos mitos e lendas consolidados pelos dois extremos em competição: o pró-stalinismo e o anti-stalinismo. O resultado desse esforço é uma análise muito mais rica que a imagem de infalível líder soviético, propagada pelo pró-stalinismo, e que a imagem de tirano obscuro, arrivista e sanguinário, muito propagada pelos seus detratores. Seus atos de violência e crueldade não são ignorados por Montefiore, mas são colocados dentro de um contexto muito mais interessante do que a chave da simples maldade humana, ou seja, o historiador dá conta de recriar o caldo cultural e social que formou o comportamento que tanto chocou a humanidade.

Este caldo cultural é reconstruído através da consulta as mais diversas fontes, como entrevistas e memórias censuradas pelo regime soviético, relatórios da polícia secreta, cartas dos revolucionários e uma gama gigantesca dos mais diversos documentos até então “perdidos” em arquivos espalhados pelo leste europeu.

O contexto que Montefiore apresenta é o de um intenso conflito no Cáucaso,  permeado por uma cultura da violência exagerada, de gênese de um grupo político em meio a repressão czarista, num ambiente de traições constantes e enormes necessidades de financiamento. E é neste contexto, que Stálin vai sendo apresentado e analisado, como poeta, estudante no seminário, rebelde, gangster, exilado, teórico político, líder revolucionário e homem forte de Lênin.

Stálin é, enfim, reencaixado na História da Revolução Russa, sendo que sua relação com Lênin e Trotsky é esmiuçada, assim como algumas curiosidades sobre sua formação. Neste quesito destacam-se os mistérios em relação com seu pai, sua atuação na gênese do Partido Bolchevique, sua relação com as mulheres, com o exílio, com a polícia czarista e a poesia.

O Jovem Stálin de Simon Sebag Montefiore é uma boa pedida àqueles interessados em História e/ou biografias, pois traz a tona detalhes importantes de um personagem político de grande relevância, em uma análise historicamente correta, bem escrita e que, de quebra, explora um contexto histórico riquíssimo e surpreendente.

Resenha do livro O Jovem Stálin de Simon Sebag Montefiore.

Comentários após o fim da primeira rodada da Copa do Mundo.

Posted in Comentários with tags , , , , , , , , , , , , , , , , on 16/06/2010 by caioguilherme

Poucos minutos atrás terminou o jogo entre Espanha e Suíça. Aproveito o momento para fazer algumas críticas e considerações sobre a Copa do Mundo, a FIFA, a seleção brasileira, aos jornalistas e ao futebol em si.

O jogo da Fúria contra os Suíços terminou em derrota para os espanhóis, uns dos favoritos na corrida para levar o título e a taça. o placar de 1 a 0 para os suíços não traduz o jogo, amplamente dominado pelos espanhóis. Ai está a beleza e a tragédia do futebol: nem sempre o time que joga ou se esforça mais vence. Os suíços resumiram sua filosofia de jogo em marcar muito e dar sorte em algum contra ataque, percepção de jogo que tem dado a tônica para este mundial. Em um balanço geral dos times, especialmente dos com uma escola de futebol mais desenvolvida, é possível perceber que as equipes têm atuado com somente um atacante na área, o tal do centro avante, que é apoiado por dois meias abertos, que ora atuam como pontas e/ou segundo atacantes, ora tornam-se implacáveis marcadores, cobrindo principalmente a saída dos laterais. Tal jeito de jogar, sendo existentes variações de seleção para seleção, permite um grande domínio da posse de bola para a seleção mais forte, com mais técnica ou com maior obrigação de vencer. A posse de bola é importante, mas não é tudo e este jogo entre Espanha e Suíça provou isso.

Ao abdicar de um outro atacante na área as seleções deixam de lado um importante instrumento para fazer gols, que é a confusão na frente do gol e a estrela de um jogador nascido para meter bola na rede. Jogando com um só sujeito na frente boa parte das bolas alçadas para a área acaba caindo nas mãos dos defensores, já que só um atacante, assim como as andorinhas, não faz verão. As seleções que possuem maior obrigação de ganhar o jogo (embora eu ache que todos deveriam jogar para ganhar o campeonato, não para não perder) dominam as iniciativas, exibem um bom toque de bola, criam um bom número de jogadas, mas não encontram quem possa concluí-las, já que o atacante de área sofre com a marcação de zagueiros cada vez mais rápidos, fortes e habilidosos e os meias, por melhores que sejam, não possuem o mesmo pulo do gato que um bom atacante.

O que aconteceu com a Espanha hoje é uma boa prova disso. De tanto atacar sem objetividade e poder de gol acabou abrindo espaços para os suíços que tiveram mais estrela e fizeram o deles, dedicando-se durante o resto do jogo a marcar. Goleadas como a da Alemanha contra a Austrália só serão possíveis quando o time mais fraco tentar fazer o mesmo futebol de iniciativa que o time mais forte, nesse momento a ausência de uma técnica refinada e de um bom toque de bola se fazem sentir. Hoje, a seleção que não possui essas características tem como a melhor opção não forçar a posse de bola e deixar a adversária mais forte ser anulada por um amplo sistema de marcação atrás da linha da bola. Ai, e só ai, talvez tenha uma chance de gol no contra ataque e na bola parada.

Os espanhóis bem que tentaram, mas não conseguiram reverter o resultado e terão que suar a camisa nos próximos dois jogos, especialmente contra o Chile – que opera sobre moldes futebolísticos diferentes da regra geral. Talvez se o técnico tivesse colocado um outro atacante de área antes ou se o atacante de área fosse mais jogador que o Torres e o Villa  o resultado teria sido diferente.

O jogo do Brasil não me surpreendeu. A lógica dominante foi a dos outros jogos da copa, mas com o agravante do Brasil tremer em tomar a iniciativa ante a fraca Coréia do Norte, achando que a qualquer momento ia definir a partida num passe de mágica. É… talvez a partida realmente tenha sido definida num ou outro milagre do futebol, onde o esforçado, mas limitado, Elano deu uma assistência e fez um gol. Ao ler as escalações das outras grandes seleções tive a confirmação de que o Brasil em termos de nome e grupo é inferior as demais postulantes ao título. Possui alguns nomes bons, mas vai ter que rezar, e muito, pela continuidade da consistência defensiva e da estrela e movimentação do Robinho. O principal meia, Kaká, e o centro avante titular, o Luís Fabiano, serão, talvez, duas das grandes decepções da copa, por não estarem em boa forma e pela questão da filosofia do futebol não privilegiar o jeito de jogar dos dois. A “sorte” brasileira é o peso da camisa, os medianos adversários da primeira fase e a autoconfiança e força física de alguns jogadores, talvez ai esteja o diferencial da equipe amarela.

A Holanda foi uma decepção para mim, ganhou o primeiro jogo por um lance de azar do Poulsen, jogador da Dinamarca, e se limitou a ficar tocando a bola sem o mínimo de objetividade. A França confirmou as expectativas e mostrou que é uma bela seleção no álbum de figurinhas e nas estatísticas do Winning Eleven, tem excelentes jogadores, mas de forma alguma constitui-se em um time, é um catadão de astros. A Inglaterra atuou relativamente mal contra os EUA e pode ser classificada como uma França que, ao menos, tenta ser um time. A Alemanha foi a maior surpresa dessa primeira rodada, pois apesar de jogar contra a seleção australiana (que termina essa rodada como a mais fraca das 32), que se mostrou confusa sobre qual filosofia de jogo exercer, parece estar bastante a fim de levar o título, usando, até mesmo, de habilidade e objetividade ao gol. Coletiva e individualmente mostrou ser muito forte, exerceu a lógica de bola dominante, mas não abdicou da efetividade no ataque e de dois jogadores atuando na área, o que é um ponto bastante importante. A contusão do Balack, se não gerar nem um vazio moral, talvez tenha sido um lucro para eles, já que o meio de campo precisa ser mais veloz nesse indeciso futebol moderno.

A Itália fez um jogo interessante contra o Paraguai e deixou boa parte dos seus veteranos no banco, assinalando com uma possibilidade e um ensaio de renovação no médio prazo. Nunca se sabe, não? Para a azurra faltou o que faltou para quase todos os times, um grande meia, cuja a existência é improvável e quase mitológica, e um segundo atacante de qualidade atuando na área. O Paraguai e o Chile mostraram que o futebol sul-americano não se resume ao confronto entre Brasil e Argentina, permeado por figuração do Uruguai, a mais vulnerável do subcontinente.

A Argentina me agrada. O Maradona percebeu que sua seleção é defensivamente fraca e sabe que o futebol para ser legal não pode ser jogado com 11 caras no campo de defesa. O que fazer, então? Montar o time de forma a privilegiar aquilo que há de bom. Se a tônica das outras equipes é o equilíbrio entre os setores, a da Argentina é a organização do time de forma que o ataque possa brilhar e jogar com relativa tranqüilidade, sabendo que a defesa não colocará tudo a perder. Esse o motivo da convocação dos 6 atacantes, se a arma mais forte da seleção é o ataque, que este fique bem municiado. É importante perceber que Tevez, Messi, Agüero, Milito e Higuain estão em fase absurdamente boa. Os torcedores podem ter certeza de que se cada um no Mundo do futebol fizer uma lista com os 10 melhores atacantes da atualidade, 4 desses 5 figurarão em todas as listas. O Palermo está no grupo por superstição do Maradona e por sua estrela, ele é um sujeito que o treinador põe na área e a galera taca a bola, uma hora ou outra, ele resolve.

Outro motivo da Argentina me agrada é o próprio Maradona. O tema ai é o da redenção. O cara passou anos bastante ruins e possui, agora, a possibilidade de deixar um legado menos manchado pela cocaína, agressão a jornalistas e gols de mão. A vitória dele na copa seria a vitória de um técnico melhor humorado, que fez o simples e sabe tirar um sarro das coisas. Que chupem todos quando Maradona estiver correndo nu pelo obelisco comemorando o campeonato mundial!

A cobertura brasileira da copa, por sua vez, realça as dificuldades e problemas do jornalismo brasileiro. Este se vendo, no dia a dia, como crítico e porta voz da sociedade, representando, instruindo e cobrando  em prol do bem público.

O que se vê são sujeitos com o rabo preso e medo de desagradar a audiência ao criticar, o abuso do ufanismo policarpiano, quase sempre sem sentido, e a plena dificuldade de criar pautas envolvendo a África e a seleção brasileira. A impressão que dá é que as equipes foram para a África fazer esse trabalho de contextualização da vida e do cotidiano sul africano cedo demais, esgotando este assunto muito antes dos jogos começarem. Ai, a seleção brasileira se blindou e diminui ainda mais o assunto para os jornalistas tratarem, resultando em mão de obra ociosa e tempo demais na grade, que não pode ser preenchido com as outras seleções, pois a audiência não está nem ai para elas.

Este, possivelmente, é o motivo de reportagens esdrúxulas e desrespeitosas, como a da Globo em relação a Coréia do Norte, onde depois de fazer uma ufanista reportagem sobre o samba que os jogadores brasileiros preferem (e dá-lhe estereótipo) e falarem em respeito para aqueles que conquistaram coisas, venceram obstáculos e chegaram onde chegaram, o tom é mudado para o da gozação e humilhação, como se norte coreano, por ser oriental e viver sob o regime comunista, não fosse gente. Esqueceram o tal padrão Globo de televisão em algum banheiro qualquer num desses aeroportos do Mundo.

Os jornalistas de outros veículos também sofrem do mesmo problema de falta de assunto e desrespeitos aos pontos que sempre são repetidos no esforço de auto-elogio e justificação do jornalismo brasileiro. Numa das reportagens da Folha de São Paulo, o Dunga é chamado de Populista, pois trata mal a imprensa, mas tenta tratar bem os torcedores africanos. Jornalista não precisa tomar cuidado com conceitos? Eita faculdade boa…

Menção honrosa fica para a transmissão da Band. A dupla de transmissão principal, Luciano do Vale e Neto, é tão intragável quanto o Galvão Bueno e o Arnaldo César Coelho, mas a secundária, com o narrador que preciso descobrir o nome e o Edmundo, tem feito um bom trabalho. Ao invés de ficar torcendo, como o Galvão, disputar guerrinhas de ego, como o Arnaldo com o mesmo Galvão, e ficar dando esporro a torto e a direito, como o Neto, a dupla secundária da Band tem atuado com bastante seriedade e tem tratado do jogo. O Edmundo não é nenhum poeta, mas pensa bem antes de falar, analisa a partida e dá sua opinião honesta, sem exageros patrióticos e demagogias. A dupla secundária da Globo, encabeçada pelo Cleber Machado, segue o padrão da principal e, então, não merece grandes comentários.

Comentários que em geral são bastante negativos em relação a FIFA. Até esta Copa do Mundo eu achava que a FIFA era uma entidade bacana, mas depois dos últimos 4 anos de faculdade adquiri visão para perceber que ela é uma puta duma cretina. Talvez a relação da FIFA com os países sede da copa seja a melhor demonstração moderna do como funciona o Imperialismo.

Maiores explicações num próximo texto.

Considerações sobre o Final de Lost II

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

Depois dessas considerações sobre o seriado em si e a tradição literária de onde ele vem e dialoga resta pensar um pouco sobre essa temporada e o final de Lost, exibido dia 25 de maio no AXN. O objetivo, como ficou bem perceptível no texto anterior, não é mastigar e “dar” as respostas que dizem que Lost não deu.

Basicamente, a Ilha é um pedaço de terra relativamente pequeno e cercado pelo mar em todos os lados. Se fosse cercado só em 3 lados e fosse ligada por um faixa estreita com um pedaço de terra a ilha seria uma península, tipo Portugal e Itália…brincadeiras a parte, ao pensar na Ilha e em suas propriedades estranhas a gente tem que fazer o paralelo com o próprio planeta Terra. De onde veio o primeiro habitante? Se ele existe, alguém o criou. Se alguém o criou, quem foi? Se foi algo que chamam de Deus e ele existe, necessariamente alguém o criou. E quem foi que criou Deus? Um Deus acima de Deus? E quem criou esse Deus acima do Deus que criou o homem e o pôs na Terra? Isso é o que teólogos e físicos chamam de regressão infinita. Quando os telespectadores começam a se perguntar, quem criou e quem era a moça que cuidou do Jacob e do irmão, acabam caindo nessa mesma armadilha. Quem foi que colocou aquela mulher lá? E quem foi que permitiu/criou o sujeito que foi lá na Ilha e colocou a mulher que deu lugar ao Jacob? Como ela mesmo disse no episódio Across the Sea, uma resposta para esse tipo de pergunta, gerará mais duas.

Entre os historiadores algo que é bastante comum é evitar esse tipo de pergunta e especulação e se concentrar no que é perceptível ou dado, como, por exemplo: Os portugueses sabiam ou não da existência do Brasil antes de 1500? Se sabiam, quem foi que descobriu? Será que foi mesmo Cabral? Cabral sabia que existia algo lá? Quem contou para ele? Tais questões não podem ser respondidas pelas evidências existentes nas fontes históricas conhecidas, mas a partir da constatação de que em 1500 eles oficializam uma posição e passaram a ocupar o “Brasil” é possível questionar sobre os interesses, as ações, os desenvolvimentos e as relações deles com a terra descoberta. O importante no Mundo não é pura e simplesmente perguntar, o pulo do gato está em saber fazer a pergunta.

Feita essa pequena digressão sobre as perguntas é possível pensar melhor sobre a Ilha. O lance não é ficar pensando em criou o quê e quando, se não existem elementos que permitem refletir sobre isso. O seriado dá o seguinte: a Ilha existe, não faz parte do espaço-tempo normal e possui uma estranha energia em seu núcleo, que é defendida por uma pessoa possuidora de algo especial, contra qualquer ser que tente ameaçá-la. Logo vem a mente o Triângulo das Bermudas e suas estranhas manifestações magnéticas. Em um lado mais bizarro pode-se até dizer que foi um meteoro que caiu lá e emana uma energia especial, ou que Moisés enterrou a pedra dos 10 mandamentos lá, ou que a lança que matou Jesus está enterrada por ali, ou que Aliens pousaram sua nave lá e deixaram uma criatura feita da mistura de seu DNA com o DNA de um macaco, cuidando do lugar. O barato do seriado, como perceberam os mais espertos, é o múltiplo viés de interpretação que ele permite para várias coisas. Os acadêmicos que estudam literatura nos últimos anos perceberam que um texto rico, de qualidade, por exemplo, não possui só a leitura que seu autor imaginou, ele dá espaço para diferentes leituras de diferentes leitores, já que cada um desses possui bagagens diferentes entre si e diferentes do autor. É óbvio, que o que está escrito está escrito e traça os parâmetros básicos da interpretação, mas dentro desses limites existe uma infinidade de coisas, como existe entre o número 0 e 1.

A Ilha possuidora dessa energia estranha navega como que aleatoriamente pelo planeta Terra. Uma hora ou outra alguém desde um desavisado mercador fenício até um piloto de avião fazendo uma volta ao Mundo acaba dando de encontro com ela e caindo por lá. Eis ai a explicação de uma primeira ocupação da Ilha. Num momento pós Jacob, já foi deixado bem claro que ele usa de suas atribuições especiais para atrair pessoas até lá para tentar mostrar a possibilidade de bondade humana para o monstro de fumaça e, com alguma sorte, encontrar uma pessoa que lhe substitua. Ele não é infalível ou onisciente, mas é detentor da possibilidade de fazer as regras dentro da Ilha, já que é o dono do jogo, e possui um bom conhecimento proveniente de anos e anos de observação e de uma vida sem Tv.

Os outros e a Iniciativa Dharma lá viveram por vontade desse tal de Jacob. Uns foram trazidos por ele, outros descobriram como chegar lá, com um empurrão dele. Os outros tentam, por sua vez, levar uma vida bacana, calma e tranqüila, pautando-se pelas escolhas certas e não pelo que o monstro de fumaça diz, o seriado demonstrou várias vezes que eles na maior parte do tempo não conseguiram. Os malucos da Dharma buscavam pelo conhecimento, pela manipulação de energias de enormes potencialidades e aplicações. Sua ação termina quando, influenciados pelo monstro de fumaça, os outros resolvem exterminá-los de vez.

O irmão de Jacob vira o monstro de fumaça ao ser jogado, morto ou inconsciente, dentro da gruta onde a energia que move a Ilha se faz mais perceptível. Em Across the Sea, a mãe do Jacob explica que aquela Luz é a mesma coisa que está dentro de todas as pessoas. Filosoficamente isso se liga com a idéia de que dentro de todos os seres humanos existem em igual quantidade potencial para o bem e para o mal, bondade e maldade, que cresce ou diminui na relação com o Mundo e a partir das nossas escolhas. Quando Jacob joga o irmão dele dentro da Luz, o potencial para o mal é liberto, torna-se consciente e capaz de interagir, apesar de estar preso as regras impostas pelo guardião da Ilha. A partir desse momento, a Ilha deixa de ser só um lugar que se move aleatoriamente no planeta, para ser a prisão para a maldade que antes existia presa no centro do ser humano com a luz. O responsável por libertá-la dessa condição primeira, torna-se o responsável por impedir que essa criatura com poderes e cheia de maldade e descrença em relação ao ser humano se liberte e possa existir sem as regras que lhe são impostas na Ilha. Como ser inteligente e consciente que é, a nuvem de fumaça/irmão do Jacob traça planos para eliminá-lo e o Jacob sabe que ela é muito mais esperta do que ele, tomando como missão paralela achar seu substituto.

Os outros e a Iniciativa Dharma lutam entre si e os outros atacam aqueles que vieram no avião e etc, por influencia negativa do monstro, pela influencia e regras do Jacob e porque o conflito faz parte da natureza humana.

Toda essa “mitologia” dá série, explicada na sexta temporada dá conta das visões que alguns personagens tem, da aparição de pessoas que morreram (fumaça preta), da cura do Locke, da Rose, dos poderes especiais do Desmond e de um monte de situações estranhas, como a escotilha e os ursos polares.

Continua em um próximo texto.

Abraços

Caio

Algumas considerações sobre o fim de Lost…

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

 

Depois de 6 anos e não sei quantas centenas de episódios o seriado Lost encontrou o seu fim. Em geral o público e a crítica não gostou do modo como tudo foi encerrado e argumentos como “manipularam a gente para assistir, nos enganaram e desperdiçamos 6 anos de nossas vidas…” têm sido bastante recorrentes, como se o JJ Abrams, Lloyd Braun e Damon Lindelof tivessem assinado um papel dizendo que o seriado seria uma panacéia para todas as dúvidas e males da humanidade e depois tivessem criado um grande esquema de manipulação e obrigado todos a assistirem o seriado, que em seu fim não cumpriu o prometido e deixou todo Mundo na mão, esperando a cura do câncer ou algo assim.

Fico apreensivo quando a massa dos telespectadores recorre a esse tipo de argumento, pois isso demonstra como eles, em sua maioria, recusam sua autonomia no que vão assistir, tendem a imputar a terceiros a responsabilidade pelo bom ou mau uso de seu tempo e acabam esperando algo demais de uma obra que em primeiro lugar tinha como objetivo entreter, não sendo feita para educar ou oferecer soluções para os problemas da humanidade. Quanto a  crítica, esta ao embarcar no bonde geral dos telespectadores demonstra o como ela tem dificuldade de compreender as estratégicas básicas dos folhetins do século XIX, coisa que influenciou bastante o modo como o seriado era conduzido (como a solução de um conflito de um episódio só no seguinte e etc…), e também de medir quais eram os objetivos e parâmetros pelos quais os autores de algo se guiaram.

Pelos motivos acima, eu não concordo muito com a maior parte das críticas feitas e pretendo, na medida do possível, rebatê-las fazendo algumas considerações sobre o seriado Lost e as raízes, tradições e pretensões com que este dialoga.

Em primeiro lugar é importante perceber que Lost é uma peça de ficção, com forte diálogo com a tradição literária e que nunca pretendeu ater-se ao campo da razão, do crível e do possível. Além disso é um produto da Industria Cultural, que tem como objetivo principal ganhar dinheiro com entretenimento, e devido a sua grande qualidade ultrapassou as fronteiras e limites dessa sua condição inicial, tornado-se – sem exagero – uma obra de arte, uma narrativa épica como a Ilíada e a Odisséia. O que quero dizer com isso?

Simples, quero dizer que Lost é uma narrativa de algo que não aconteceu no Mundo real e histórico, que bebe em diferentes tradições ficcionais e narrativas e que não pretende ser um retrato social, político, científico ou econômico de uma época, ou seja, não é uma obra com os objetivos de um livro do Realismo, por exemplo. Durante seu desenvolvimento, o seriado dedica-se a discutir aspectos Universais da condição humana e faz isso frente a acontecimentos fora do comum, com elementos de sobrenatural e divino, sem se preocupar com a verossimilhança com a realidade e com um tempo específico, sendo, então, algo como um mito.

Essa percepção é essencial para poder embarcar na viagem que os autores propuseram, mesmo sem ter plena noção do que estavam fazendo e tendo de corresponder em alguma medida às necessidades comerciais do empreendimento, e assim poder apreciá-la, entendê-a e critica-la.

Oferecer mistérios e não solucionar conflitos em um episódio e só resolvê-los nos seguintes é uma característica muito comum aos folhetins do século XIX, onde era preciso criar algo que fizesse o leitor comprar o jornal do dia ou da semana posterior. Lost em meio a sua narrativa épica, onde fé e razão, relações humanas, livre arbítrio, noções de tempo, ciência e espiritualidade são discutidas, oferece uma porção de mistérios, que servem para atrair espectadores. Nesses 6 anos os mistérios foram surgindo por forma de camadas, onde a “resolução” de uma coisa, gerava ainda mais dúvidas e essas novas dúvidas traziam novos problemas, que possuíam novas respostas, que, por sua vez, traziam novas questões.

No século XIX, Edgar Alan Poe traçou as linhas que serviriam de guia para os Contos e Romances Policiais. Nestes, um detetive é apresentado aos vestígios (evidências) de um acontecimento e através destes o reconstituí, oferecendo respostas do tipo como, onde, quem e o porquê. Livros como os do Sherlock Holmes e seriados da franquia CSI fazem parte dessa tradição. O espectador ou leitor acompanha o detetive e observa as mesmas evidências que ele, tendo a ilusão da chance de resolver o enigma, e no final recebe uma explicação de quais e como essas evidências permitiram responder as perguntas básicas que expus acima. Geralmente um seriado como CSI irá fazer isso através de um diálogo entre o detetive e uma outra pessoa, onde um flashback irá recordar tudo o que foi visto e o detetive vai explicar como ele ligou uma coisa com outra, sem deixar espaços para dúvidas. Essa explicação tende sempre a fugir um pouco da visão do espectador, que até conseguirá descobrir quem matou e coisas desse tipo, mas nunca terá um insight como o do detetive. É só pensar em no House e no como ele sempre tem uma noção, uma intuição e um conhecimento absurdamente superior ao dos seus assistentes.

Lost não compartilha dessa mesma tradição do Conto/Romance Policial do século XIX e de Alan Poe. Os mistérios são apresentados sem vestígios ou evidências e suas soluções são apresentadas dentro da própria narrativa, dentro dos detalhes e daquelas coisas que parecem pouco importantes. No Romance Policial o jogo é fazer uma reconstituição enquanto que na tradição da qual Lost faz parte o essencial é prestar atenção e interpretar, olhar o detalhe, perceber, interpretar, discutir com amigos e entender. O Jack e o Locke, por exemplo, não estão na ilha para descobrir quem é o monstro, o que foi a Iniciativa Dharma e quem é o Jacob, estão lá vivendo conflitos de sobrevivência, de fuga ou permanência na ilha e essas são suas questões. O Jack só quer ir embora e para o personagem dane-se a Iniciativa Dharma, a dúvida e apreensão sobre ela atinge o personagem, mas não se torna seu mote, ele não está lá como um detetive, para responder essa questão, ele está lá querendo ir embora e nessa jornada acaba lidando com coisas que permitem ao leitor interpretar e entender o que esta era, sem o personagem precisar dizer: “Isso aqui era por causa de X, que se relacionava com Z e pronto, é isso e é elementar, meu caro Watson”.

Talvez a coisa mais sensacional do seriado seja exatamente isto, não oferecer respostas prontas e dá-las de bandeja ao telespectador. Seu caráter de narrativa épica torna Lost uma peça de ficção sobre o homem e suas questões Universais, fazendo encarar seus dilemas elementares ao lidar com as situações mais inusitadas, no caso viagens no tempo, uma ilha misteriosa e um conflito entre dois irmãos que a muito não são humanos. Pensando em outros épicos, a gente vê que os temas também sãos os Universais, amor, ciúme, saudades, etc, onde personagens como um Ulisses tem de lidar com um Poseidon vingativo e cruel, que não quer que ele volte para casa, ou um Heitor tem de defender seu irmão e cidade, lutando com um sujeito como o Aquiles, cujas chamas dos deuses tornaram indestrutível.  O bacana é que apesar do quão absurdo algumas coisas se tornaram em Lost, essa discussão sobre o básico do homem não se perdeu em momento algum.

É claro que essas considerações não dão conta de coisas esdrúxulas, como a criação de triângulos e quartetos amorosos, muito para satisfazer a audiência, ou alguns erros de produção e roteiro, como no caso do Walt, mas servem para perceber que as exigências feitas ao seriado de forma alguma são condizentes com as próprias pretensões deste. Críticas falando em mistérios não resolvidos e em manipulação ou desperdício da vida de quem assistiu, não cabem, pois Lost cumpriu seu objetivo primeiro, que era oferecer um passatempo/entretenimento para as pessoas que isso buscavam na frente da Tv. Sim, a emissora, atores, produtores e etc ganharam rios de dinheiro, mas os programas da Tv comercial exigem isso, atrair audiência para vender mais e mais caro suas cotas de marketing, o que, a principio, não lesa ninguém, até porque todos temos autonomia de buscar aquilo que nos diverte e como passar nosso tempo, sem que essa escolha diga respeito ou seja culpa de alguém. Talvez seja hora, do telespectador refletir sobre o que faz da sua vida e de seu tempo livre, ao invés de culpar profissionais que tentam ganhar a sua. E também buscar estímulos para a sua própria inteligência e reflexão sobre a vida sem se limitar a tudo aquilo que é óbvio ou enlatado.

Pensando o seriado pelos parâmetros pelos quais os autores tentaram levá-lo, só resta dar os parabéns e deixar para comentar o último episódio especificamente numa próxima ocasião.

 

Abraços,

 

Caio

Uma crônica sobre talento.

Posted in Crônica with tags , , , , , , , , on 15/04/2010 by caioguilherme

No Campeonato Paulista de 2009 o volante Hernanes, do São Paulo, fez um belo gol de sem pulo. Mesmo superado alguns meses depois pelo gol incrível de Diego Souza, do Palmeiras, o sem pulo de Hernanes não foi esquecido por mim. E foi por um motivo que talvez vá um pouco além dele: os comentários que gerou.

Praticamente abandonada na parte cultural dos jornais a Crônica ainda ganha alguma relevância na seção esportiva. Alguns autores resumem-se aos comentários rotineiros e essencialmente jornalísticos, isso um pouco pelo mau exemplo dos escritores do caderno cultural, como o Ferreira Gullar e o Veríssimo, que têm se limitado ao caráter colunístico, não atingindo o fazer literário, pelo qual se consagraram. Tostão não. O velho jogador de futebol escreve, algumas vezes, textos tão memoráveis em sua coluna/crônica quanto são belos alguns lances e gols, como o sem pulo de Hernanes é um exemplo. É como que se impedido pelo tempo de jogar bola magistralmente, Tostão extravasasse o algo mais que possui para o papel, na escrita e na poesia do futebol.

Sem saber ao certo como estava fazendo aquilo, o velho jogador de futebol escrever com suas enrugadas mãos uma belíssima crônica sobre o gol do jovem Hernanes. Tão bela quanto o gol e uma tarde ensolarada de outono, a crônica comentou o lance fazendo com que o leitor notasse o quão mágico era o talento do jogador e o quão interessante era o fato de que ele realizava o lance sem nem entender ou conseguir construir racionalizações sobre os místicos e técnicos recursos físicos e espirituais que lhe permitiam fazer aquele gol.

Achei engraçado quando percebi algo sobre o Tostão. Ele, muito possivelmente, não sabe ao certo o como e o porquê de aquele seu texto ter tanta qualidade e vencer a barreira do jornal e do efêmero que os outros colunistas têm se mantido tão fiéis e tão felizes por tanto tempo.

O Talento é algo assim mesmo, de mágico e irracional, de momento e de inspiração. A Técnica está no oposto, ligada com o racional, com o previsível e com a transpiração,  tão alardeada pelos escritores atuais, numa tentativa de valorizar sua profissão perante a sociedade – necessidade que talvez não exista, talvez exista.

Entre Técnica e Talento, entra a transpiração e a inspiração eu me coloco a favor do Talento, pois este gera aquilo que é belo e imprevisível, algo de único, como sem pulo de Hernanes e Diego Souza, a crônica de Tostão e uma tarde ensolarada num outono qualquer.

Poeira nos olhos.

Posted in Poema em Prosa with tags , , , , , , , on 04/01/2010 by caioguilherme

 

 Por: Caio Guilherme

Escrito em: 04/01/2010.

A poeira espalha-se por todos os cantos na espera de um sinal. Não, não um sinal. Uma resposta. Isso, uma resposta. Seria excelente. Coce os olhos. A resposta não virá nunca. Nunca, nunca diga nunca e escute o que eu digo, nunca escute ninguém. A poeira só se faz acumular caso a força da inércia não seja vencida. Força para vencer a falta de movimento. Inércia 1. Força para vencer o excesso de movimento, é a inércia 2. Caramba, nesse Mundo só tem coisa bastante errada, nisso 2010 vai ser igualizinho a 2009. Começou igual. Chuva, chuva, chuva. Não em Sta Catarina, dessa vez no Rio. Ainda bem, as loiras estarão a salvo. Que a usina seja tomada pelo barro e os prótons, nêutrons e que toda a radiação do Mundo varra todos daqui, rápida e eficazmente. Ou não. Há beleza. Sim, sim, há beleza no Mundo apesar da poeira. É só vencer a inércia e procurar. Talvez. Não se sabe. O que acho é que tem gente feia demais em todos os cantos e beijamos bocas que só a falta pode explicar. Quem se arranja, se arranja porque baixa o nível. Bastante. Tanto recusamos o mediano que a solidão nos faz abraçar o medíocre e isso no pior sentido da palavra, bem longe da significação tocquevilliana.

Eu falo por mim e por você porque no fundo no fundo, você sabe que estou certo. Não precisa fazer sentido, é só soar e parecer bom. Pomposamente, superficialmente. Vencer a inércia, tanto a 1 como a 2. Os músculos doem e ninguém quer trabalhar. Eu sei que eu não. Não dá para sentir vergonha duma coisa dessas, é que nem a poeira que acumula-se pelos cantos. Tão quieta e bela, bem melhor que a ausência de resposta ou significado.

Vai saber o que vem depois da barreira da inércia. O caminho é uma fronteira e a inércia é tentação. A poeira nos olhos, queima.