Arquivo para Política

Na cidade fria

Posted in Conto with tags , , , , , , , , , on 14/01/2011 by caioguilherme

A chuva cinza congelava seus ossos e ele fazia um esforço enorme para não tremer em público. Seu nariz estava vermelho, mas o frio intenso impedia que ele escorresse, era como se o catarro estivesse congelado. Na verdade, fazia alguns dias que só respirava pela boca, o que era bastante desagradável. Sorte que não tinha nem oportunidade de pensar em dormir, assim não incomodava ninguém com roncos ou algo parecido.

Tentou mexer os dedos, mas estes estavam congelados dentro das luvas de material vagabundo. o mesmo e caro e superfaturado material que deu origem ao chapéu, às meias, à camisa, às calças, ao mijão, às cuecas e ao casaco grosso e inútil que usava. Todos estavam vagabundamente vestidos com o mesmo material. Alguém deveria lucrar muito com a desgraça e a miséria alheia. Todos ali, sob chuva e frio, morrendo pouco a pouco porque alguém quera ganhar uns trocados a mais, dentro dos muito trocados que já ganhava.

Ganhar, palavra que eles ouviam bastante, mas pouco conseguiam compreender. Em meio a sopa rala e ao pão mofado só conseguiam perceber, instintivamente, o signifcado do verbo perder. Ele e seus homens perdiam dias, perdiam horas e perdiam a vida, tudo em troca de nada, do ganho de um outro que já tinha tanto.

 

Um apito sombrio gritou e as portas do inferno se abriram. Ele e os seus marchavam sem realmente querer. Do frio da rua para o calor das caldeiras, das soldas e dos metais. Algo derretia internamente, cozendo-o por dentro, pouco a pouco. A roupa vagabunda esquentava como um forno lá dentro, para esfriar como uma geladeira lá fora. Sangue, suor, mas lágrimas jamais. Trabalhou e naquele dia não comeu.

Como um zumbi foi arrastado por uma horda sem vontade e entrou no ônibus. Entalados todos indo para o mesmo lugar. Do inferno para a ausência. Era como se levitasse entre os milhares de corpos que tanto se esbarravam todos os dias. Entre o frio dos dias, o calor do trabalho e a indiferença da rotina. Desceu do ônibus e engoliu um pouco de álcool.

A visão se tornou mais clara e esclarecida. José foi até sua casa e dotado de uma vontade única pegou sua velha espingarda. Limpou-a, carregou-a. Saiu nas ruas e seus vizinhos, seus colegas de trabalho e seus amigos do bar estavam lá, todos eles também com suas velhas espingardas, limpas e carregadas. No frio uma só vontade única e indivísivel. Marcharam em dezenas, em centenas e em milhares. Todos em direção ao centro, atropelando casas, fábricas, hospitais e prédios do governo.

Os dias de José nunca mais foram os mesmos.

 

13/01/2011

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Resenha: O Jovem Stálin

Posted in Resenha with tags , , , , , , on 25/07/2010 by caioguilherme

Simon Sebag Montefiore apresenta um competente panorama dos anos de poder de Stálin no livro Stálin: a corte do czar vermelho, onde acompanhou e analisou os anos de maturidade do biografado, partindo do começo do fim do czar bolchevique, quando do suicídio de sua esposa Nádia, passando pelo seu furor paranóico nos anos de terror e refletindo sobre sua senilidade após a exaustiva Segunda Guerra Mundial.

Se com este livro os anos de poder se tornaram acessíveis ao leitor, o mesmo não podia ser dito da juventude e dos anos de formação de Stálin, sempre bastante obscuros. Esta lacuna é, então, preenchida pelo próprio Montefiore no livro O jovem Stálin de 2007, em que é apresentada uma formidável descrição e análise da vida do biografado antes de se tornar o afamado estadista soviético.

Assim como no volume anterior, Montefiore procura retratar Stálin fugindo dos mitos e lendas consolidados pelos dois extremos em competição: o pró-stalinismo e o anti-stalinismo. O resultado desse esforço é uma análise muito mais rica que a imagem de infalível líder soviético, propagada pelo pró-stalinismo, e que a imagem de tirano obscuro, arrivista e sanguinário, muito propagada pelos seus detratores. Seus atos de violência e crueldade não são ignorados por Montefiore, mas são colocados dentro de um contexto muito mais interessante do que a chave da simples maldade humana, ou seja, o historiador dá conta de recriar o caldo cultural e social que formou o comportamento que tanto chocou a humanidade.

Este caldo cultural é reconstruído através da consulta as mais diversas fontes, como entrevistas e memórias censuradas pelo regime soviético, relatórios da polícia secreta, cartas dos revolucionários e uma gama gigantesca dos mais diversos documentos até então “perdidos” em arquivos espalhados pelo leste europeu.

O contexto que Montefiore apresenta é o de um intenso conflito no Cáucaso,  permeado por uma cultura da violência exagerada, de gênese de um grupo político em meio a repressão czarista, num ambiente de traições constantes e enormes necessidades de financiamento. E é neste contexto, que Stálin vai sendo apresentado e analisado, como poeta, estudante no seminário, rebelde, gangster, exilado, teórico político, líder revolucionário e homem forte de Lênin.

Stálin é, enfim, reencaixado na História da Revolução Russa, sendo que sua relação com Lênin e Trotsky é esmiuçada, assim como algumas curiosidades sobre sua formação. Neste quesito destacam-se os mistérios em relação com seu pai, sua atuação na gênese do Partido Bolchevique, sua relação com as mulheres, com o exílio, com a polícia czarista e a poesia.

O Jovem Stálin de Simon Sebag Montefiore é uma boa pedida àqueles interessados em História e/ou biografias, pois traz a tona detalhes importantes de um personagem político de grande relevância, em uma análise historicamente correta, bem escrita e que, de quebra, explora um contexto histórico riquíssimo e surpreendente.

Resenha do livro O Jovem Stálin de Simon Sebag Montefiore.

Questões

Posted in Comentário do Autor with tags , , , , , , , on 28/07/2009 by caioguilherme

Um prefeito que só anda de helicóptero e um secretário de transportes que só anda de carro não podem falar sobre transporte público. Tem coisas que só podem ser entendidas na prática. No mais, o desenvolvimento econômico através da expansão da indústria automobilística já faliu há tempos.

 

Os fumantes do curso de História da Usp demonstram, na lista de emails da mesma, brilhantemente os resultados ridículos do individualismo exacerbado, pois fazem um comentário imbecil após o outro. O pior é que muitos, naquele local, falam de socialismo e verdadeiro espírito igualitário e comum, mas os esquecem sobre a primeira sombra de ferimento aos seus “direitos de fumantes”. Talvez haja algo mais do que o apelidado, por alguns deles, de “psdbismo-drauziovarelista”  na questão envolvendo cigarro e saúde.

 

O Herrera acertou ao dizer que o futebol brasileiro virou esporte de maricas. Tudo, agora, é resolvido nos jornais e até xingamentos usuais geram suspensões sem sentido. Quem entra na arena, que é o que o estádio significa em última instância, tem de estar preparado a tomar umas borduadas e ouvir uns xingamentos, estes quando não são de cunho preconceituoso não fazem lá grandes males a infância, a moral e aos bons costumes. O afã de regrar e julgar tudo está matando a espontaneidade do futebol, um dos últimos redutos restantes para essa bela arte, a arte de ser leve.

 

A obsessão brasileira por abrigar grandes eventos esportivos é um sinal de imensa ganância e de verdadeira vontade de desviar dinheiro. Por quanto mais tempo teremos de tolerar o sonho carioca, e as vezes paulista, pelas olimpíadas? A copa já num é o bastante?

 

O ENEM e os vestibulares vêm mudando suas feições para formas cada vez mais bizarras. Como a unicampização da Fuvest torna o vestibular da Usp mais acessível se ela se aproxima do vestibular mais elitista do Estado? Em nome de uma improvável melhora futura do ensino soterram-se as gerações que sofreram com essa educação tanto particular quanto o público (guardada as devidas proporções), chinfrim que temos nesse país. 

 

Quem defender o politicamente incorreto na redação do ENEM perderá pontos, não importando a qualidade da argumentação. Para quê a discussão de idéias, então? Os lados já estão previamente definidos…

 

Um tópico se contradiz ao outro, mas a questão é questionar. A vida é, ou deveria ser, assim.