Arquivo para Raposa

Velha Escola

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 07/08/2009 by caioguilherme

Velha escola

07/08/2009.

Por: Caio Guilherme

 

Pensaram que iam interná-lo, mas ele fugiu. Nunca que iriam trancafiá-lo numa cama de hospital, com sopinha, programas vespertinos, remédios calmantes e uma cadeira de rodas fofinha. Não tinha escapado da prisão antes por mera falta de vontade, encarava aquilo como uma aposentadoria forçada. Forçada, mas uma aposentadoria. Exercícios, comida, cama, calor, sol, amigos e entretenimento. Um hotel com grades. Agora, depois de 40 anos engordando na cadeia, tentarem prendê-lo num hospital de velhos por causa de uma gripe mais forte, era absurdo. Nem esperou ser transferido, fugiu da enfermaria da prisão assim que deu. Podia ter quase 80 anos, mas era muito mais esperto que todos os meninos da cadeia, aqueles guardinhas sacanas que nem sabiam nada do que ele tinha feito para lá estar. Peça de museu, era disso que era chamado. Quando quis, mostrou que quem estava ultrapassado eram eles, todos eles e seus malditos computadores e câmeras e alarmes eletrônicos e o diabo de quatro. Nada superava a velha escola.

O sol lhe queimava a cabeça meio careca. Crostas de suor, sangue e caspa se transformavam em feridas doloridas enquanto ele andava debaixo do sol. As mãos tremiam um pouco, estavam enrugadas e machucadas, subir o muro foi mais difícil que ele imaginava. Os guardas nem deveriam ter acreditado, que na idade dele ele conseguisse aquilo. Até por isso devem ter parado e assistido tudo embasbacados. Agora, depois de subir o muro e correr, era andar e achar um pedaço do seu tesouro, enterrado por ali naquele campo verde e imenso, debaixo da maior e mais isolada das árvores. Se soubesse que ia ser tão cansativo, teria enterrado, há 40 anos, seus pertences num lugar mais perto. Ou guardado num banco, que ai ele unia o útil ao agradável, segurança para suas coisas e a alegria de fazer mais um assalto rápido, sentir a adrenalina, o coração bater forte e os músculos se enrijecerem.  Se tivesse guardado as coisas num banco para depois roubá-las experimentaria o poder que tinha. Devia ter pensado nisso antes.

O campo continuava bonito como ele lembrava, a diferença é que agora era a cores e não em preto e branco. Podia até sentir o cheiro do esterco de animais semi-selvagens misturado com o perfume das flores. Não que as raposas ali fossem domésticas ou cagonas demais, mas quando se fica tanto tempo num ambiente estéril e esterilizado qualquer contato com a natureza sobrecarrega os sentidos, mesmo que esses sentidos já tenham passado dos 70 anos e sejam fracos como pum de bebê.

Queria chegar na sua velha árvore logo, mas parava a cada 2 minutos para tossir e cuspir o seu sangue. A cada 30 minutos parava para dar um mijo ardido e dolorido. Ser e estar velho não era nada fácil. Mas estando livre, ele ia fazer o diabo. Roubos ainda mais espetaculares e ousados. Planejou tudo durante esses 40 anos. Ia fazer que nem aquele cantor estranho e que comia criancinha, ia dar espetáculos sensacionais para transformar sua volta em algo histórico. Só não podia morrer de tanto tomar injeção que nem ele. Por isso mesmo que fugiu para não ir para o hospital. Lembrou do pai, encharcado em seu próprio mijo, numa cama de hospital. Apodrecendo em descaso e morfina diluída. Pulmões entupidos. Difícil respirar. Primeiro o pai. Agora, ele. Não, não morreria como o pai, velho e encostado no hospital. Morreria velho e em ação, de tiro, de roubo, de pé e limpo.

Suava e tossia, suava e tossia. A grama verde ia adquirindo uns respingos vermelhos, nada com que ele já não estivesse acostumado. Achou sua árvore, demorou mais do que pretendia. Estava todo suado. Estranho, ninguém foi atrás dele. Talvez fosse mais veloz do que pensava. Meteu a mão dentro de um buraco próximo a árvore. Sua velha e enferrujada pá ainda estava lá. Depois de 40 anos, o lugar continuava tranqüilo. Que ótimo, pensou. Com esforço machucou a terra com a pá e começou a abrir um buraco. Tossia e cavava, tossia e cavava, tossia e cavava. Tirou de lá um baú. Sujo de terra, pulou rápido num riacho próximo. Limpou-se. Tossiu e se limpou. Tossiu e se limpou. Nu, tremendo e molhado, abriu o baú. O ar faltava e ele batia os dentes. Retirou umas roupas do baú, suas roupas de menino, suas roupas de bandido. Serviram satisfatoriamente bem. Muito diferentes da camisolinha que deram para ele usar na enfermaria da prisão. Agora, estava sóbrio e distinto, um homem de verdade.

Calças pretas, camisa que um dia já foi branca e um paletó preto. Pôs as meias e calçou o sapato com dificuldade, os pés estavam meio gordos e inchados, mas com força conseguiu pôr. Tossiu. Mexeu no baú e achou um revólver. Seu antigo revólver. O beijou e lhe fez um carinho, estava completo e jovem de novo. Atirou para o alto. Uma raposa caiu da árvore. Era velha, como ele era, e respirava com dificuldade, como ele respirava. Ela deu alguns suspiros e chorou baixinho. Ele tirou uma foto do baú e sentou-se ao lado da raposa, que, incrivelmente, não protestou ao ensaio de carinho que ele fez em sua barriga, ela estava velha e cansada demais. Ficou ali, olhando a foto dela, do seu amor, e fazendo companhia  a velha raposa, sentado sob a árvore, com as costas cansadas apoiadas no tronco dela.

Olhos verdes, olhos cor de mel. Ela era linda e mesmo a foto sendo em preto e branco, podia ver todas as cores e cheiros daquela mulher. Daria tudo para sentir aquele pescoço, mordê-lo e beijá-lo. Sua pele era macia, pensou em como ela deve ter sofrido com ele preso. Por um momento ele se arrependeu e desejou ser honesto. A raposa tentou levantar e andar, caindo morta logo em seguida.

Ele olhou a foto, respirou fundo, tossiu um pouco, beijou a foto, fechou os olhos e morreu também, largando foto e arma no chão, juntas.

 

Com o velho morto, dezenas de policiais saíram de todos os cantos com os seus olhos marejados. Esperaram o velho dizer adeus, deram um último sopro de vida para a velha raposa e mesmo que fuga dele significasse uma mancha em seus currículos, não ligaram, deixar o velho pular o muro daquele jeito e se despedir, valeu a pena.

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