Arquivo para Raymond Chandler

Get miles away

Posted in Conto with tags , , , , , , on 15/06/2010 by caioguilherme

Escrevi este texto no começo de 2008, gosto muito dele, mas a releitura que eu fiz hoje até me deixa um pouco envergonhado, pois é um texto meio imaturo… Mesmo assim,  tenho carinho e, apesar dos pesares, admito que o acho bastante bacana.

Get miles away.

Por: Caio Guilherme

Nossos carros estavam parados frente a frente naquele campo isolado. Demoramos algumas horas, dirigindo lado a lado, buscando um canto tranqüilo no qual pudéssemos nos encontrar e fazer o que devíamos fazer. Não queríamos que adolescentes, e seus hormônios a flor da pele, nos incomodassem com seus carros balançantes. O lugar era perfeito, tranqüilo, silencioso e, ainda por cima, nos apresentava um céu estrelado como raramente vemos nas cidades. Logo, algum casal excitado o descobriria e aquele refúgio ficaria perdido para sempre. Aquela noite, ao menos aquela noite, era nossa. As poucas árvores, a grama alta e cheirosa, as esparsas flores amarelas e as estrelas brilhantes, aquele cenário cinematográfico, era de nossa propriedade. Desliguei o meu farol, sendo imitado por ela. Sai do carro e caminhei em sua direção, com o chapéu surrado na mão e um sorriso meio bobo, correspondido por um olhar sedutor, molhado e feliz.
Toquei levemente suas mãos, como sempre fazia ao dar oi. Naquele dia em especial, ela correspondeu o toque, entrelaçando os dedos com os meus. Estranhei, era bom demais. Essas coisas geralmente não são assim, boas e fáceis. Na hora resolvi ignorar a voz em meu subconsciente e curtir o momento, pensar demais confunde e dá medo, com medo nada dá certo ou parece bom o bastante. Fiquei calado olhando-a até que ela apertou seu corpo contra o meu. A encostei na lataria do carro e começamos a nos beijar loucamente. Éramos como dois adolescentes de que tanto pensava mal, de hormônio a flor da pele, desejando, mais do que tudo, balançar o carro durante a noite toda. Éramos o casalzinho atrás de um canto escuro e discreto para economizar motel e eu pretendia aproveitar todas as vantagens daquilo.
Sua mão percorria meu corpo, procurando por algo. Eu cheguei a achar que ela estava em busca de meu coração. Tateando os músculos cansados e a pele cheia de gordura em busca do que fazia com que a amasse e a apartasse de maneira quase selvagem. Eu fazia o mesmo. O problema é que ela não procurava o mesmo que eu.
Em um último espasmo, ouvi o clique de minha arma. Ela deu alguns passos para trás, com a pistola apontada para mim. A olhei sem entender e tentei avançar. Um disparo passou renteao meu rosto , avisando que era melhor ficar parado.
“Vire-se”. – disse ela.
Eu não respondi e olhei de forma seca e apagada em busca de uma explicação.
Ela repetiu:
“Vire-se”.
“Se vai me matar. Faça frente a frente.” – falei cansado.
Ela baixou o rosto, mas não descansou a arma. Começava a chorar. Eu tentei avançar mais um pouco, mas ela recuou em resposta, levantando os olhos vermelhos para mim. Não consegui encará-los, baixei minha cabeça e me virei. Não encontrava forças para reagir.
Esperei ela pensar no que ia fazer. Mas não percebi a resposta. Quando ia me virar uma porrada acertou-me no cocuruto. Ela me acertara com a coronha da arma e eu apaguei instantaneamente.
Abri os olhos, não sei quanto tempo, depois. A boca estava seca e amarga. A nuca doía e parecia estar esmigalhada. Minha visão estava turva, ela acertara em cheio. Ainda de bruços arrastei um dos braços para o local do ferimento, havia sangrado bastante e de certo teria de tomar uns pontos. Nada com que não estivesse acostumado. O sangue já se coagulara, enroscando os fios do meu cabelo. Tudo indicava que dormi um pouquinho demais.
O meu carro estava lá, ainda. O dela desfez-se em marcas de pneu. Fiquei de joelhos e olhei os céus, que ódio estava sentindo. Levantei e cambaleei até meu carro, estava todo trancando. Procurei minhas chaves e não as achei. Senti que ia vomitar, mas prendi o ácido estomacal. Tirei uma garrafinha com uísque e tomei um gole. No pára-brisa do carro havia um pedaço de papel preso em uma pedra, grande o bastante para resistir a ação do vento. A bebida já estava tornando minha visão um pouco mais clara, mais objetiva. Li o papel e o abandonei no ar.
Ela havia levado as jóias embora e jogara minha chave pelo campo, “não muito longe do carro, para você não ter problemas…” dizia o bilhete. Não haveria problemas, era só quebrar a janela e fazer uma ligação direta, ela sabia. Bebi mais um gole e olhei o relógio. Ela deveria estar bem longe e eu gostava do meu chaveiro. Decidi esperar para procurar as tais chaves.
Me sentei apoiado numa das rodas do carro. Detetives não deveriam dormir com clientes, essa deveria ser a regra número um do manual da academia. E era. Pena que eu nunca obedecia às regras. Ela levara as jóias, me batera e sumira com minhas chaves. Que dia. Abri a carteira, havia dinheiro a mais. Ela pagou meus honorários. Não me senti realmente melhor. Minha boca só ficou mais amarga, minha cabeça só doeu mais.
Tomei outro gole do uísque, mas o cuspi, estava cansado daquilo. Sentei e olhei o céu.
Só me restava apreciar as estrelas, esperar o sol surgir e me lembrar daquele beijo, pensando em como seria bom ser um adolescente num carro balançante, num campo deserto e triste, aproveitando o calor de um outro corpo, perdido na escuridão da madrugada.
Tem coisas que são só para os jovens. Lembrei que tinha fósforo e cigarros, ascendi um, traguei e soltei a fumaça, esta parecia uma mulher dançando sob a luz das estrelas, parecia com ela.

FIM.

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Chuva no deserto

Posted in Comentário do Autor, Conto with tags , , , , , , , , , , , , , on 01/08/2009 by caioguilherme

Comentários desligados do texto.

Nomes importantes para serem guardados e trabalhos para sem lidos: Stendhal e o Vermelho e o Negro, Graham Greene e O Poder e a Glória , Ferreira Gullar e o poema Cantada, Raymond Chandler e o Longo Adeus, Júlio Verne e o Viagem ao Centro da Terra, F. Scott Fitzgerald e O Grande Gatsby, Kafka e A Metamorfose,  Tchekhov e A Dama do Cachorrinho, David Goodis e o Atire no Pianista, Dashiell Hammett e o conto O homem que matou Dan Odams e Dostoievski e Noites Brancas.

Todos esses textos são essenciais para entender o que eu procuro quando escrevo…

 

Chuva no deserto.

Caio Guilherme

28/07/2009.

 

Chove. Ou ameaça chover. Não sei mais ao certo, pois meus sentidos estão confusos, difusos e apagados. Em meio a névoa dos meus olhos sinto um horizonte quase que completamente cinza, só com uma fina linha alaranjada contrastando com a semi-escuridão. Com certeza são as nuvens prontas para castigar qualquer um ou qualquer coisa que já tenha feito algo na vida. Um paredão de água para lavar todos os nossos pecados. Não escuto muito bem. Ao longe parecem pegadas. De perto, parece um banjo. Parando para ouvir a música eu acabo não percebendo som algum. Parando para sentir a música eu acabo com os olhos marejados. A névoa se torna mais espessa.

Uma corda se aperta em meu pescoço, me vejo arrastado em meio ao deserto, nada nem ninguém me puxa, só a corda. Chove. Ou ameaça chover. São coisas raras, tempo seco, garganta fechada e chuva no deserto. Alucino. A música acaba, até parece que posso respirar. Puxo o ar, ele é feito de areia. Cacos. Meu coração dói tanto hoje. Queria um abraço. Me dão cobranças e eu vomito tudo. Coisa rara, uma chuva dessa no deserto e eu aqui, passando mal. Perder o espetáculo, que droga. A chuva me refresca, lava meus cabelos e dá um fim em tanta poeira. Desmaio. Perco a chuva no deserto.

Acordo suado. Pelado. Aposto que se eu não estivesse morrendo ela não iria tirar minhas roupas. Mulheres, sempre assim. Abro os olhos e torço para que não seja minha mãe ou avó do meu lado. Não é nenhum das duas, ainda bem. Não a conheço, não é parente. Se eu tivesse um carro talvez ela me deixasse tirar as roupas dela. Tusso. Que dor. Ela coloca a mão na minha cabeça, diz que estou com febre… a Jesus, ela nem faz idéia. Meu bem, meu bem, eu tô fervendo. Ela se afasta e busca água. Eu olho, dessa vez não desmaio, não perco o espetáculo. Belo bumbum, empinadinho. Ela percebe, eu desmaio.

Chove no deserto, mas eu não trocaria essa visão por nada. Ela continua do meu lado, dia após dias, limpando meu suor o dia todo e me fazendo suar a noite toda. Esses tempos bons são aqueles que nos forçam a reconhecer que tempos piores virão. É impossível que, depois disso tudo, eles não venham.

Meus sentidos não estão mais tão confusos, melhor aproveitar. Chove. Ou ameaça chover no deserto, eu já não sei dizer a diferença…