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Literatura e memória: W.G Sebald

Posted in Comentários, Resenha, W.G Sebald with tags , , , , , , , , , on 13/01/2012 by caioguilherme

Apresentação do escritor W.G Sebald nascido em 1944 em uma pequena vila alemã e falecido no ano de 2001 por causa de um triste acidente de carro. A resenha traz uma breve síntese dos elementos mais importantes para refletir sobre a proposta narrativa de Sebald.

Escritores de romance policial da primeira metade do século XX, como Dashiell Hammett, propunham uma literatura baseada em experiências de vida. Um sujeito escreve a partir daquilo que ele próprio viveu. Suas aventuras e seus sentimentos são o ponto de origem das aventuras e dos sentimentos de seus personagens. A vida do escritor é o ponto de partida direto da narrativa.

Tal perspectiva literária, em um primeiro momento, parece ter bastante sentido. Mas e quando a humanidade se depara com acontecimentos trágicos, testemunhados, mas não vivenciados por todos? E quando esses acontecimentos deixam de ser discutidos e começam a se apagar? Como a Literatura se comporta? Como um escritor faz para escrever sobre algo que não viveu?

É bastante claro que tais desafios exigem outra perspectiva literária. A narrativa de ação precisa dar lugar à descrição, à reflexão, à digressão e, também, à própria memória. Um dos mais valorosos exemplos dessa guinada no século XX foi W. G Sebald, autor que apresenta a apropriação e a rememoração como formas de narrar experiências e dar conta de uma realidade que ele não viveu diretamente.

Nascido em 1944, na Bavária, W.G Sebald não viveu o auge do nazismo e de sua ação, mas pôde sentir desde muito jovem ecos abafados desta experiência histórica e, com o tempo, se deu conta de seus significados.

Na Alemanha do pós guerra foi vivenciada uma espécie de “conspiração do silêncio”, em que as atrocidades coletivas do período nazista não eram nem comentadas, nem sugeridas, o que deixou imensas lacunas na memória das gerações seguintes e na de W.G Sebald também.

 Uma das sombras que ele encontrou foi George, seu próprio pai, membro da Wermatch e prisioneiro de Guerra até 1947. Este homem nunca foi capaz de se materializar como figura paterna ou de narrar suas experiências de guerra, configurando-se, então, como um sujeito sem identidade e sem passado, um verdadeiro mistério. Já aos 17 anos, W.G, começa a compreender que existia toda uma realidade obscura a ser descoberta. Ele teve de assistir um documentário sobre o campo de concentração de Belsen, mas depois da exibição não haveria um debate sobre as imagens que acabara ver, um jogo de futebol estava marcado para o período da tarde. A distração trazia mais lacunas.

A não sugestão das sombras se transformou na compreensão de imagens somente nos anos 60, quando W. G Sebald saiu da Alemanha e foi estudar em Manchester, na Inglaterra. Lá o silêncio dá lugar para percepção de eventos históricos trágicos, massivos e bastante próximos no tempo. O jovem alemão tomou conhecimento do Holocausto.

É como tentativa de dar conta dessa memória histórica lentamente revelada que W. G Sebald começa a escrever narrativas como “Vertigem”, “Os Emigrantes”, “Os Anéis de Saturno” e “Austerlitz”. Em todas essas manifestações o tema da memória e a da experiência se apresentam como aspectos da realidade.

Nos livros, narradores anônimos, que talvez sejam W.G Sebald e que talvez não, conversam e contam ao leitor suas viagens por vários lugares da Inglaterra e da Europa, onde travam conhecimento com pessoas, donas de nomes, lares, profissões e vidas, deslocadas e diferenciadas, cujas narrativas servem como ponto de partida para a reflexão.

Descrições, digressões próximas das acadêmicas e narrativas servem para apresentar o ser humano ante a grandeza dos acontecimentos. Os personagens de Sebald, um pouco fictícios e muito reais, são pessoas e lugares desalojados pelos grandes eventos históricos, suas trajetórias e aspectos de presente são definidos por um passado de fuga, abandono e ausência de pertencimento.

Ao reconstruir essas vidas e esses lugares, W. G Sebald busca levar o seu leitor ao contato, quase que indireto, com os efeitos da Segunda Guerra Mundial na vida de vários indivíduos. O drama coletivo é apresentado através de pequenas tragédias pessoais. O leitor se vê afogado pela riqueza de imagens e sentidos. É com grande dificuldade que irá conseguir equacionar tudo isso, mas, quando o consegue, percebe mudanças na sua forma de pensar o Mundo.

O uso das famosas fotografias em preto e branco serve para reforçar ainda mais essa enxurrada de significado e nas palavras do próprio autor, em entrevista para Maya Jaggi do The Guardian, “podem dizer muito mais do que uma monografia o faria”.

Ler W. G Sebald é se dar conta de que a realidade acontece mesmo quando não a vivenciamos, que a história humana marcha, às vezes silenciosamente, e modifica vidas, talvez as nossas próprias. Entregar mais do que isso, estragaria a experiência da leitura deste importante escritor.

Obras de fôlego longo, os textos de W. G Sebald, escritos em alemão e traduzidos para o inglês sob sua batuta, possuem versões brasileiras de grande qualidade, publicadas pela Companhia das Letras. O trabalho bem feito da editora brasileira evidencia o respeito que o falecido autor possuía no meio cultural.

Ao leitor desta resenha, cabe assim que possível, conseguir um dos títulos citados, desligar a TV e começar a ler e pensar e refletir, para se dar conta do quão importante o passado pode ser.

Men of a certain age

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , on 20/08/2010 by caioguilherme

Eu não gostava de Everybody loves Raymond e não ia com a cara do Ray Romano até assistir Men of a certain age. Este seriado talvez tenha sido, depois de The office, a grata surpresa dessas minhas perigrinações internéticas no Mundo das séries e downloads. Depois de assistí-lo, até que comecei a simpatizar com o narigudo Romano, apesar de ainda não curtir seu seriado anterior. Resumidamente, a série acompanha a vida e as relações de 3 amigos, Jow, Owen e Terry, que estão chegando aos seus 50 anos. Os três possuem perfis bastante diferentes, mas tem em comum a dificuldade de lidar com suas idades e as responsabilidades que tentam cercá-los.

O interessante do seriado é que ele não foi transformado num dramalhão metrossexual, choroso e perdedor. Apesar dos problemas e das dificuldades da vida dos personagens o clima é bastante para cima e ressalta uma maneira bacana de enxergar os percalsos, pois funciona naquela boa e velha – e esquecida chave – “Sejes homem, às vezes você tem que fazer aquilo que tem que fazer, gostando ou não”. É impossível não dar umas boas gargalhadas nas situações apresentadas nessa primeira temporada, que teve 10 episódios na medida certa.

Fica registrada aqui, então, a sugestão de acompanhar alguns episódios deste seriado, bastante redondo e correto, leve de assistir e divertido pra cacete…

Algumas considerações sobre o fim de Lost…

Posted in Comentário do Autor, Resenha with tags , , , , , , , , , , on 25/05/2010 by caioguilherme

 

Depois de 6 anos e não sei quantas centenas de episódios o seriado Lost encontrou o seu fim. Em geral o público e a crítica não gostou do modo como tudo foi encerrado e argumentos como “manipularam a gente para assistir, nos enganaram e desperdiçamos 6 anos de nossas vidas…” têm sido bastante recorrentes, como se o JJ Abrams, Lloyd Braun e Damon Lindelof tivessem assinado um papel dizendo que o seriado seria uma panacéia para todas as dúvidas e males da humanidade e depois tivessem criado um grande esquema de manipulação e obrigado todos a assistirem o seriado, que em seu fim não cumpriu o prometido e deixou todo Mundo na mão, esperando a cura do câncer ou algo assim.

Fico apreensivo quando a massa dos telespectadores recorre a esse tipo de argumento, pois isso demonstra como eles, em sua maioria, recusam sua autonomia no que vão assistir, tendem a imputar a terceiros a responsabilidade pelo bom ou mau uso de seu tempo e acabam esperando algo demais de uma obra que em primeiro lugar tinha como objetivo entreter, não sendo feita para educar ou oferecer soluções para os problemas da humanidade. Quanto a  crítica, esta ao embarcar no bonde geral dos telespectadores demonstra o como ela tem dificuldade de compreender as estratégicas básicas dos folhetins do século XIX, coisa que influenciou bastante o modo como o seriado era conduzido (como a solução de um conflito de um episódio só no seguinte e etc…), e também de medir quais eram os objetivos e parâmetros pelos quais os autores de algo se guiaram.

Pelos motivos acima, eu não concordo muito com a maior parte das críticas feitas e pretendo, na medida do possível, rebatê-las fazendo algumas considerações sobre o seriado Lost e as raízes, tradições e pretensões com que este dialoga.

Em primeiro lugar é importante perceber que Lost é uma peça de ficção, com forte diálogo com a tradição literária e que nunca pretendeu ater-se ao campo da razão, do crível e do possível. Além disso é um produto da Industria Cultural, que tem como objetivo principal ganhar dinheiro com entretenimento, e devido a sua grande qualidade ultrapassou as fronteiras e limites dessa sua condição inicial, tornado-se – sem exagero – uma obra de arte, uma narrativa épica como a Ilíada e a Odisséia. O que quero dizer com isso?

Simples, quero dizer que Lost é uma narrativa de algo que não aconteceu no Mundo real e histórico, que bebe em diferentes tradições ficcionais e narrativas e que não pretende ser um retrato social, político, científico ou econômico de uma época, ou seja, não é uma obra com os objetivos de um livro do Realismo, por exemplo. Durante seu desenvolvimento, o seriado dedica-se a discutir aspectos Universais da condição humana e faz isso frente a acontecimentos fora do comum, com elementos de sobrenatural e divino, sem se preocupar com a verossimilhança com a realidade e com um tempo específico, sendo, então, algo como um mito.

Essa percepção é essencial para poder embarcar na viagem que os autores propuseram, mesmo sem ter plena noção do que estavam fazendo e tendo de corresponder em alguma medida às necessidades comerciais do empreendimento, e assim poder apreciá-la, entendê-a e critica-la.

Oferecer mistérios e não solucionar conflitos em um episódio e só resolvê-los nos seguintes é uma característica muito comum aos folhetins do século XIX, onde era preciso criar algo que fizesse o leitor comprar o jornal do dia ou da semana posterior. Lost em meio a sua narrativa épica, onde fé e razão, relações humanas, livre arbítrio, noções de tempo, ciência e espiritualidade são discutidas, oferece uma porção de mistérios, que servem para atrair espectadores. Nesses 6 anos os mistérios foram surgindo por forma de camadas, onde a “resolução” de uma coisa, gerava ainda mais dúvidas e essas novas dúvidas traziam novos problemas, que possuíam novas respostas, que, por sua vez, traziam novas questões.

No século XIX, Edgar Alan Poe traçou as linhas que serviriam de guia para os Contos e Romances Policiais. Nestes, um detetive é apresentado aos vestígios (evidências) de um acontecimento e através destes o reconstituí, oferecendo respostas do tipo como, onde, quem e o porquê. Livros como os do Sherlock Holmes e seriados da franquia CSI fazem parte dessa tradição. O espectador ou leitor acompanha o detetive e observa as mesmas evidências que ele, tendo a ilusão da chance de resolver o enigma, e no final recebe uma explicação de quais e como essas evidências permitiram responder as perguntas básicas que expus acima. Geralmente um seriado como CSI irá fazer isso através de um diálogo entre o detetive e uma outra pessoa, onde um flashback irá recordar tudo o que foi visto e o detetive vai explicar como ele ligou uma coisa com outra, sem deixar espaços para dúvidas. Essa explicação tende sempre a fugir um pouco da visão do espectador, que até conseguirá descobrir quem matou e coisas desse tipo, mas nunca terá um insight como o do detetive. É só pensar em no House e no como ele sempre tem uma noção, uma intuição e um conhecimento absurdamente superior ao dos seus assistentes.

Lost não compartilha dessa mesma tradição do Conto/Romance Policial do século XIX e de Alan Poe. Os mistérios são apresentados sem vestígios ou evidências e suas soluções são apresentadas dentro da própria narrativa, dentro dos detalhes e daquelas coisas que parecem pouco importantes. No Romance Policial o jogo é fazer uma reconstituição enquanto que na tradição da qual Lost faz parte o essencial é prestar atenção e interpretar, olhar o detalhe, perceber, interpretar, discutir com amigos e entender. O Jack e o Locke, por exemplo, não estão na ilha para descobrir quem é o monstro, o que foi a Iniciativa Dharma e quem é o Jacob, estão lá vivendo conflitos de sobrevivência, de fuga ou permanência na ilha e essas são suas questões. O Jack só quer ir embora e para o personagem dane-se a Iniciativa Dharma, a dúvida e apreensão sobre ela atinge o personagem, mas não se torna seu mote, ele não está lá como um detetive, para responder essa questão, ele está lá querendo ir embora e nessa jornada acaba lidando com coisas que permitem ao leitor interpretar e entender o que esta era, sem o personagem precisar dizer: “Isso aqui era por causa de X, que se relacionava com Z e pronto, é isso e é elementar, meu caro Watson”.

Talvez a coisa mais sensacional do seriado seja exatamente isto, não oferecer respostas prontas e dá-las de bandeja ao telespectador. Seu caráter de narrativa épica torna Lost uma peça de ficção sobre o homem e suas questões Universais, fazendo encarar seus dilemas elementares ao lidar com as situações mais inusitadas, no caso viagens no tempo, uma ilha misteriosa e um conflito entre dois irmãos que a muito não são humanos. Pensando em outros épicos, a gente vê que os temas também sãos os Universais, amor, ciúme, saudades, etc, onde personagens como um Ulisses tem de lidar com um Poseidon vingativo e cruel, que não quer que ele volte para casa, ou um Heitor tem de defender seu irmão e cidade, lutando com um sujeito como o Aquiles, cujas chamas dos deuses tornaram indestrutível.  O bacana é que apesar do quão absurdo algumas coisas se tornaram em Lost, essa discussão sobre o básico do homem não se perdeu em momento algum.

É claro que essas considerações não dão conta de coisas esdrúxulas, como a criação de triângulos e quartetos amorosos, muito para satisfazer a audiência, ou alguns erros de produção e roteiro, como no caso do Walt, mas servem para perceber que as exigências feitas ao seriado de forma alguma são condizentes com as próprias pretensões deste. Críticas falando em mistérios não resolvidos e em manipulação ou desperdício da vida de quem assistiu, não cabem, pois Lost cumpriu seu objetivo primeiro, que era oferecer um passatempo/entretenimento para as pessoas que isso buscavam na frente da Tv. Sim, a emissora, atores, produtores e etc ganharam rios de dinheiro, mas os programas da Tv comercial exigem isso, atrair audiência para vender mais e mais caro suas cotas de marketing, o que, a principio, não lesa ninguém, até porque todos temos autonomia de buscar aquilo que nos diverte e como passar nosso tempo, sem que essa escolha diga respeito ou seja culpa de alguém. Talvez seja hora, do telespectador refletir sobre o que faz da sua vida e de seu tempo livre, ao invés de culpar profissionais que tentam ganhar a sua. E também buscar estímulos para a sua própria inteligência e reflexão sobre a vida sem se limitar a tudo aquilo que é óbvio ou enlatado.

Pensando o seriado pelos parâmetros pelos quais os autores tentaram levá-lo, só resta dar os parabéns e deixar para comentar o último episódio especificamente numa próxima ocasião.

 

Abraços,

 

Caio