Arquivo para Solidão

Um encontro entre luz e movimento

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 08/01/2012 by caioguilherme

Naquela época eu acordava junto do sol. A transição da escuridão para a luz servia como um despertador cósmico e eu nunca me sentia com sono ou com vontade de ficar mais tempo na cama. Simplesmente acordava, me arrumava e partia. O café preto era uma água benta e eu o tomava apreciando o céu laranja – fruto da santa poluição de cada dia.

O silêncio do despertar só era abalado ao sair de casa. Carros, maritacas, pessoas, pombas e meus pensamentos adquiriam vida e ecoavam por toda a extensão do meu ser. O caminho de casa para o trabalho era percorrido a pé todos os dias. Sempre o mesmo trajeto percorrido do mesmo jeito e no mesmo tempo. Fosse inverno ou primavera, outono ou verão, o caminho era sempre aquele e não havia do que reclamar. Nada mudava, tudo mudava.

Nunca me esqueci de um inverno em que sai de casa e o céu não estava laranja. Uma névoa branca e espessa dominava a existência de forma impiedosa e cobria todo o caminho. Durante semanas meus pulmões não funcionaram direito, tentando superar e expelir aquela névoa matinal. O frio naquele dia me derrubou até os ossos e, apesar de ter acordado bem disposto, senti dores terríveis pelo dia todo. Meu ouvido esquerdo parecia tomado por um estranho vácuo e o ar frio penetrava por ele, me deixando confuso e tonto. A voz embargou e meus pensamentos cessaram apesar de todos os esforços por acelerá-los. Só com muita dificuldade cheguei em casa naquele dia. Comi um lanche de carne com bacon e uma coca-cola quente e passei todo o fim de semana acamado e febril. Não consigo precisar qualquer dado sensorial daqueles dias. Mas fico feliz ao perceber que nunca mais fiquei doente depois daquela ocasião. Era como se toda a fraqueza purgasse ao mesmo tempo e sumisse ao fracassar na sua tentativa de guerra total.

Meus melhores momentos foram na primavera. Ao sair de casa encontrei um grande número de cães passeando com seus donos, aproveitando os poucos minutos antes do trabalho e da corrida contra a vida. Pássaros verdes, bravos e raros dominavam todos os postes do bairro e espantavam as principais pragas urbanas. As maritacas eclodiam de seus ovos, espantando as pombas em seu espetáculo de cor e berros nervosos.

Nestes dias eu não precisava vestir cachecóis e meus ossos não doíam. Às vezes a luz se tornava tão intensa que eu não conseguia pensar e minha cabeça começava a doer. Minhas mãos inchadas confundiam as texturas e eu simplesmente deixava de existir, perdido em sensações. A realidade não reconhecia ordens, sentidos e informações, nada era processado naqueles momentos. Sem ar eu sentava nas guias e todos os passantes me ignoravam com seus olhos vazios, tortos e incomodados. Só cães e suas pulgas se preocupavam com minha existência em meio a enxaqueca.

Apesar dos pesares, a primavera era a minha melhor época e suas belezas eram muito mais constantes do que o excesso dos sentidos. A beleza se espalhava por todos os lugares e não se resumia aos pássaros ou às flores. Em uma tarde qualquer, cruzei com uma grande árvore com seu tronco aberto, parecendo um ventre. Em seu canteiro milhares de cupins voadores amontoavam-se, uns em cima dos outros. Do interior do tronco uma dezena de insetos voadores e devoradores alçavam vôo, gerando um brilho magnífico quando o sol do entardecer refletia em suas asas.

Era uma verdadeira sinfonia, um encontro entre luz e movimento.

Até hoje eu me lembro de que enquanto eu observava aquele velho tronco todo o resto da realidade se apagava, tornava-se preto e branco. Pela primeira e última vez eu consegui escutar o silêncio fora de casa, na rua.

Por: Caio Fernandes

Pedro Divino.

Posted in Conto with tags , , , , on 09/01/2011 by caioguilherme

Ela ofereceu um beijo de leve e partiu. Era o vento morrendo na esquina e levando algumas manchetes de jornal consigo. Pedro não conseguiu acreditar naquilo que estava acabando e soltou umas baforadas de mal estar, curtindo todas as vantagens que uma boa dose de auto piedade tinha para oferecer.

Situação clichê, entrou em um bar, pediu algo alcoólico, amargo e barato. O cheiro já era o suficiente para o fígado se retorcer de gordura e dor, mas bebeu assim mesmo e viu estrelas. A força da bebida logo pintou como uma bela desculpa para os olhos vermelhos e molhados. Pediu outra e outra dose, sentindo todos os problemas do Mundo se resolver, sabia que mais algumas iria descobrir desde a cura do câncer até os problemas de seu fictício coração.

E resolveu! Entre uma e outra uma boa dose de ânimo artificial entrou pela porta e ele se viu piscando para um solteirona que estava ao lado. Ela sorriu, Pedro sorriu e juntos foram para o banheiro dar uns amassos e – depois, quem sabe? – se conhecerem melhor. No geral a sensação foi melhor do que quando ganhou 20 reais na loteria, um espanto só.

Sem escutar o nome dela, Pedro a levou para casa dando um showzinho privado para o taxista que quase atropelou meia dúzia de pedestres estarrecidos. No meio da bagunça sentiu tocar seu celular, pela vibração sabia que era ela – aquela do começo da história – que lhe ligava, mas decidiu não atender, iria curtir uma vibe diferente naquela noite. Pedro negou seus laços divinos pela primeira vez.

Enquanto os soldados marchavam em direção a anônima solteirona o telefone do apartamento de Pedro tocou e tocou. Sabia que era ela pelo toque do telefone, mas estava atrapalhado em outros toques e não estava nem ai para atender. se ela quisesse que não tivesse ido, se ele quisesse que ele não tivesse bebido, pensou. Pedro negou seus laços divinos pela segunda vez.

Depois de tudo acabado, acordo desfeito, contrato rompido ele arrastou seu corpo acabado do quarto, para que a solteirona pudesse vestir seu corpo usado e descartado. Pedro requentou um café e não sabia o que fazer para acabar com a ressaca do corpo e da mente, tomar um engov ou dar um tiro na cabeça? Os grandes dilemas da humanidade pareciam nascer sempre das descobertas etílicas. Perdidos nesses devaneios, Pedro ouviu alguém bater na porta da cozinha e sabia que era ela. Se ela o quisesse tanto não deveria tê-lo largado, deixado que ele bebesse e se perdesse. Não, não iria atender e ainda daria um tapa na bunda da solteirona só para fazer uma desfeita moral. Assim o fez e foi ai que Pedro negou seus laços divinos pela terceira vez.

Pedro viveu longos dias sem ressaca e sem mulheres e todas as noites lia a bíblia se lamentando do amor que lhe abandonou.

 

8/01/2011 – Por Caio Fernandes

 

 

 

 

 

Get miles away

Posted in Conto with tags , , , , , , on 15/06/2010 by caioguilherme

Escrevi este texto no começo de 2008, gosto muito dele, mas a releitura que eu fiz hoje até me deixa um pouco envergonhado, pois é um texto meio imaturo… Mesmo assim,  tenho carinho e, apesar dos pesares, admito que o acho bastante bacana.

Get miles away.

Por: Caio Guilherme

Nossos carros estavam parados frente a frente naquele campo isolado. Demoramos algumas horas, dirigindo lado a lado, buscando um canto tranqüilo no qual pudéssemos nos encontrar e fazer o que devíamos fazer. Não queríamos que adolescentes, e seus hormônios a flor da pele, nos incomodassem com seus carros balançantes. O lugar era perfeito, tranqüilo, silencioso e, ainda por cima, nos apresentava um céu estrelado como raramente vemos nas cidades. Logo, algum casal excitado o descobriria e aquele refúgio ficaria perdido para sempre. Aquela noite, ao menos aquela noite, era nossa. As poucas árvores, a grama alta e cheirosa, as esparsas flores amarelas e as estrelas brilhantes, aquele cenário cinematográfico, era de nossa propriedade. Desliguei o meu farol, sendo imitado por ela. Sai do carro e caminhei em sua direção, com o chapéu surrado na mão e um sorriso meio bobo, correspondido por um olhar sedutor, molhado e feliz.
Toquei levemente suas mãos, como sempre fazia ao dar oi. Naquele dia em especial, ela correspondeu o toque, entrelaçando os dedos com os meus. Estranhei, era bom demais. Essas coisas geralmente não são assim, boas e fáceis. Na hora resolvi ignorar a voz em meu subconsciente e curtir o momento, pensar demais confunde e dá medo, com medo nada dá certo ou parece bom o bastante. Fiquei calado olhando-a até que ela apertou seu corpo contra o meu. A encostei na lataria do carro e começamos a nos beijar loucamente. Éramos como dois adolescentes de que tanto pensava mal, de hormônio a flor da pele, desejando, mais do que tudo, balançar o carro durante a noite toda. Éramos o casalzinho atrás de um canto escuro e discreto para economizar motel e eu pretendia aproveitar todas as vantagens daquilo.
Sua mão percorria meu corpo, procurando por algo. Eu cheguei a achar que ela estava em busca de meu coração. Tateando os músculos cansados e a pele cheia de gordura em busca do que fazia com que a amasse e a apartasse de maneira quase selvagem. Eu fazia o mesmo. O problema é que ela não procurava o mesmo que eu.
Em um último espasmo, ouvi o clique de minha arma. Ela deu alguns passos para trás, com a pistola apontada para mim. A olhei sem entender e tentei avançar. Um disparo passou renteao meu rosto , avisando que era melhor ficar parado.
“Vire-se”. – disse ela.
Eu não respondi e olhei de forma seca e apagada em busca de uma explicação.
Ela repetiu:
“Vire-se”.
“Se vai me matar. Faça frente a frente.” – falei cansado.
Ela baixou o rosto, mas não descansou a arma. Começava a chorar. Eu tentei avançar mais um pouco, mas ela recuou em resposta, levantando os olhos vermelhos para mim. Não consegui encará-los, baixei minha cabeça e me virei. Não encontrava forças para reagir.
Esperei ela pensar no que ia fazer. Mas não percebi a resposta. Quando ia me virar uma porrada acertou-me no cocuruto. Ela me acertara com a coronha da arma e eu apaguei instantaneamente.
Abri os olhos, não sei quanto tempo, depois. A boca estava seca e amarga. A nuca doía e parecia estar esmigalhada. Minha visão estava turva, ela acertara em cheio. Ainda de bruços arrastei um dos braços para o local do ferimento, havia sangrado bastante e de certo teria de tomar uns pontos. Nada com que não estivesse acostumado. O sangue já se coagulara, enroscando os fios do meu cabelo. Tudo indicava que dormi um pouquinho demais.
O meu carro estava lá, ainda. O dela desfez-se em marcas de pneu. Fiquei de joelhos e olhei os céus, que ódio estava sentindo. Levantei e cambaleei até meu carro, estava todo trancando. Procurei minhas chaves e não as achei. Senti que ia vomitar, mas prendi o ácido estomacal. Tirei uma garrafinha com uísque e tomei um gole. No pára-brisa do carro havia um pedaço de papel preso em uma pedra, grande o bastante para resistir a ação do vento. A bebida já estava tornando minha visão um pouco mais clara, mais objetiva. Li o papel e o abandonei no ar.
Ela havia levado as jóias embora e jogara minha chave pelo campo, “não muito longe do carro, para você não ter problemas…” dizia o bilhete. Não haveria problemas, era só quebrar a janela e fazer uma ligação direta, ela sabia. Bebi mais um gole e olhei o relógio. Ela deveria estar bem longe e eu gostava do meu chaveiro. Decidi esperar para procurar as tais chaves.
Me sentei apoiado numa das rodas do carro. Detetives não deveriam dormir com clientes, essa deveria ser a regra número um do manual da academia. E era. Pena que eu nunca obedecia às regras. Ela levara as jóias, me batera e sumira com minhas chaves. Que dia. Abri a carteira, havia dinheiro a mais. Ela pagou meus honorários. Não me senti realmente melhor. Minha boca só ficou mais amarga, minha cabeça só doeu mais.
Tomei outro gole do uísque, mas o cuspi, estava cansado daquilo. Sentei e olhei o céu.
Só me restava apreciar as estrelas, esperar o sol surgir e me lembrar daquele beijo, pensando em como seria bom ser um adolescente num carro balançante, num campo deserto e triste, aproveitando o calor de um outro corpo, perdido na escuridão da madrugada.
Tem coisas que são só para os jovens. Lembrei que tinha fósforo e cigarros, ascendi um, traguei e soltei a fumaça, esta parecia uma mulher dançando sob a luz das estrelas, parecia com ela.

FIM.

Algumas Citações

Posted in Comentários with tags , , , , , , on 26/11/2009 by caioguilherme

Puxando de memória uma biografia do Napoleão, que eu li no 3º colegial, a situação que mais se gravou em minha memória foi dos momentos anteriores a sua queda, quando ele estava a parte de tudo e todos, num estado de coisas onde soluções e possibilidades não mais existiam. Ele estava sem chances e estava sozinho. Triste, não? A gente pode chamar de fim da linha, esgotamento, punição kármica aos abusos cometidos e de derrota. De todos, derrota é  o nome mais triste, pois implica em si a idéia de luta, de tentativa, de vontade.

Livro que muito trata disso, do lutar ao máximo e perder, é o Velho e o Mar do Hemingway, onde o Santiago até que se esforça e se reencontra como pescador, mas perde, mesmo que dignamente, para as forças da natureza. Perder, perder, perder é algo terrível. Pior ainda é quando não há espaço para sentir raiva e culpar alguém, isso deixa uma sensação de cansaço que beira as portas da melancolia, da verdadeira morte do espírito.

Imagem que traduz tudo isso que estou dizendo é uma do Fernando Pessoa, em que ele faz uma comparação com um fósforo frio, que se queima todo, mas não consegue mudar o ambiente e a dinâmica da vida e do Mundo, acaba riscado, apagado e jogado no chão, sobrevivente de si mesmo. Espírito e carne, fósforo e espírito, velho e pescador, vida e natureza, duelos, sem fim.

Para uma amiga, que não foi exatamente muito bacana numa situação pessoal, expliquei um dos princípios norteadores de toda a ação da minha vida: “não fazer nada errado e quando fizer, não deixar que alguém descubra, nem deixar que a consciência te devore.”

A consciência da culpa é muito fácil de ser ignorada. A consciência do esgotamento de opções, da inacessibilidade de um tempo passado e melhor, é terrível e constante. O saudosismo não é só português… No fim, todos, uma hora ou outra, vão descobrir algo que Steinbeck já bem disse em ratos e homens:

 

A guy needs somebody – to be near him. A guy goes nuts if he ain’t got nobody. Don’t make no difference who the guy is, long’s he’s with you. I tell ya, I tell ya a guy gets too lonely an’ he gets sick.”

 

Pois não importa a derrota, quando você tem alguém verdadeiramente ao seu lado.

 

Meu Bem

Posted in Uncategorized with tags , , , , , on 21/11/2009 by caioguilherme

Meu Bem

por Caio guilherme

 

As coisas bonitas vem e vão. Algumas das coisas feias parecem que ficam para sempre. Duro bater em algumas portas e encontrá-las todas fechadas. Duro dar murros em ponta de facas, tentando sair de situações limites em que não há mais soluções.

Queria te dar uma rosa, um beijo, uma latinha de doce de leite. Te dizer “bom dia”, te ver sorrir e essas coisas todas. Queria que não fôssemos erros e desconhecidos, eternos desconhecidos, destinados ao perdido da memória. As coisas boas esvaziaram-se em desencontros e parece que só encontramos aquilo que tinha de ruim.

Portas fechadas. Janelas emperradas. Fantasmas. Não gosto nenhum pouco de fantasmas. Queria que fosse importante e tivesse significado, queria que fosse bom e houvesse espaço para algo melhor. Portas perdidas, memórias fechadas, casos encerrados.

Queria ter um final mais feliz. Uma nova chance, novos momentos. Um olhar. Verde, mel, caudaloso, bonito. Seu olhar. Meu sorriso. Luz. Ah, como era show de bola!

Perfume. Seu nariz no meu pescoço. Palavras feias, as duas, nariz e pescoço. Mas como era bom sentir você sentindo meu perfume. Tem lugares e lugares, coisas feitas para determinados lugares. Nos dias bons, meu pescoço era o melhor lugar para o seu nariz. Meus lábios nos seus, mordendo, chupando, beijando. A poesia nasce daquilo que choca e tão pouco parece poético. Nasce também da sua risada. Nascia, quer dizer. O bonde passou. O trem partiu. A fila andou. Mas algo ficou. Saudosa e salgada, sua pele me faz uma tremenda falta.

Outra coisa que sinto saudades, era quando eu falava bonito e você se apaixonava. Agora, falo feio e você me tira de idiota. As coisas mudaram para bem pior. Meus braços e olhos doem, sinto saudades de te abraçar e falar contigo. Não pelo que já passou, mas pelo que você era, ou sei lá o quê…

Cada coisa doida que acontece na noite, cada onda de prazer que invade o corpo, sorvendo tudo como nunca antes sorvi. Pena que nada me preenche tanto quanto me preenchia o seu olhar.

 

Ao menos, ainda tenho jeito com as palavras. Que venha a fama, então, pois você me parece bem longe e bastante resolvida.

 

Que pena, meu bem, que pena…para mim.

Ele e o Leão

Posted in Conto with tags , , , , on 08/11/2009 by caioguilherme

Ele e o Leão

 

Seus próprios olhos encaravam-no pelo espelho do banheiro. Estavam vermelhos e cansados, pedindo um bom monte de água fria. Abriu a torneira em sua frente e atendeu a súplica de seu olhar, tentando apagar o fogo que tornava tudo tão vermelho. O gelado e molhado da água surtiu efeito e até parecia que era uma pessoa normal, um homem digno e bom, com olhos apagados e barba por fazer.

“Ela é que nem o Brasil, sabia? Cheia de desigualdades!”

Agitou a mão próximo ao ombro para tentar afastar seu desagradável companheiro.

“Na verdade, ela é dura e cheia… cheia de falhas e dura de crescer!!”

Jogou mais um punhado de água na cara, torcendo para que aquela voz alucinante resolvesse parar de falar com ele.

“Todo dia é a mesma coisa. Você acorda e tenta me calar. Meu, ou eu sou sua consciência ou você está louco. É preciso se decidir, entende? Se você estiver comigo, talvez eu seja uma muleta que te ajude a refletir, superar traumas e problemas… Se você estiver contra mim, eu talvez seja a concretização espiritual do fato de a realidade e o imaginário terem se dissipado dentro de você e tu tenhas ficado realmente pirado, num lance esquizofrênico, saca?”

Coçou a cabeça bastante confuso. Ainda nu caminhou  para a cozinha, abriu um armário e pegou um palito de dentes. Começou a mordê-lo e piscou para o pequeno leão que flutuava ao seu lado.

“Dependendo do caminho que você escolher, eu posso te fazer coisas diferentes. Num caminho, posso te sugerir tomar um banho, vestir umas roupas, tomar um café e escovar os dentes… que são coisas bastante prazerosas, realmente bacanas para qualquer homem normal. No outro, serei obrigado a te fazer sair peladão mesmo, matar uma vizinha e pular do topo do prédio. Coisa que não é lá muito agradável. E ai? Qual vai ser? Um bom banho e cafeína ou um trágico assassinato?”

Não pestanejou e foi tomar seu banho. O leão não o acompanhou. Ficou de cócoras enquanto a água do chuveiro lhe massageava as costas e produzia vapor de água quente, limpando as narinas e pulmões. Sentia-se um verdadeiro caçador, seus músculos superavam o cansaço do dia anterior e o enferrujamento do sono e se restabeleceram, estava pronto para a caçada. Saiu do banho e encontrou o leão deitado em cima de sua toalha, ele a puxou fazendo-o cair no chão. O leão rosnou, mas não disse nada. Ele sorriu, se vestiu e foi tomar seu café da manhã.

Olhou no espelho antes de escovar seus dentes; Os escovou enquanto o leão permanecia parado em seu ombro. Escovou os dentes e continuou olhando no espelho, decidira não fazer a barba. O leão sorriu e rosnou em desaprovação.

“Seu rosto é um grande latifúndio… cheio de espaço e totalmente improdutivo.”

Ele ignorou o flutuante, pois a piadinha tinha sido fraca demais…

 

 

Um homem decente

Posted in Crônica with tags , , on 01/10/2009 by caioguilherme

Um homem decente.

 

Tem dias em que tudo o que um homem decente quer é tomar um trago e dar um tiro na cabeça. Tiro daqueles de desligar o corpo todo, rápido e sem percepção, de deixar um buraco na cara, sumir com qualquer traço da face e deixar uma bela marca na cabeça. Tem dias em que todo o homem decente quer é se apagar desse Mundo todo, das contas, do trabalho, da família, dos amores perdidos, dos amigos, da ressaca e de toda e qualquer coisa que lembre e relembre que ele está vivo. Tudo o que um homem decente quer, no meio de uma semana cheia, é não ter que brincar com as crianças e levar uma flor para a mulher. Tudo o que ele quer é sentar no sofá, abrir uma cerveja e pintar a parede de vermelho.

Tem dias, que no final das contas, tudo o que eu quero é ser um homem decente. 

Lá e cá e de volta outra vez…

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 21/08/2009 by caioguilherme

Lá e cá e de volta outra vez…

 

Ele coçou a barba mal feita e rala enquanto observava as duas rampas se cruzarem por entre as colunas daquele prédio grande e encardido, parecido com uma rodoviária qualquer. Era noite, fazia tempo que ele não aparecia ali. Ainda mais de noite. Muito tempo, muito tempo mesmo, que não fazia aquilo. Olhou para as pessoas que passavam, não reconheceu ninguém, apesar de algumas lhe serem familiares.

Lembrou dos últimos tempos, do último ano e meio, dos amigos que fez, das coisas que construiu, ganhou, perdeu, dos olhos onde mergulhou e das bocas que beijou, da boca dela.

Tudo aquilo pareceu só um sonho, um sonho sem significado e valor, só uma ilusão e um intervalo entre a vida que talvez não devesse ter abandonado. Agora,  estava lá, coçando sua barba pensando no que fazer. Entendeu as histórias de David Goodis, quando o protagonista acabava voltando para a vida que tentou deixar para trás, após perceber que aquilo que parecia melhor não era tão melhor assim, só mais mentiroso.

Piscou tentando enxergar mais além, mas não conseguia ver nada, simplesmente pulou e entrou naquilo que parecia ser os remendos de sua velha vida, um grande vazio…

Velha Escola

Posted in Conto with tags , , , , , , , on 07/08/2009 by caioguilherme

Velha escola

07/08/2009.

Por: Caio Guilherme

 

Pensaram que iam interná-lo, mas ele fugiu. Nunca que iriam trancafiá-lo numa cama de hospital, com sopinha, programas vespertinos, remédios calmantes e uma cadeira de rodas fofinha. Não tinha escapado da prisão antes por mera falta de vontade, encarava aquilo como uma aposentadoria forçada. Forçada, mas uma aposentadoria. Exercícios, comida, cama, calor, sol, amigos e entretenimento. Um hotel com grades. Agora, depois de 40 anos engordando na cadeia, tentarem prendê-lo num hospital de velhos por causa de uma gripe mais forte, era absurdo. Nem esperou ser transferido, fugiu da enfermaria da prisão assim que deu. Podia ter quase 80 anos, mas era muito mais esperto que todos os meninos da cadeia, aqueles guardinhas sacanas que nem sabiam nada do que ele tinha feito para lá estar. Peça de museu, era disso que era chamado. Quando quis, mostrou que quem estava ultrapassado eram eles, todos eles e seus malditos computadores e câmeras e alarmes eletrônicos e o diabo de quatro. Nada superava a velha escola.

O sol lhe queimava a cabeça meio careca. Crostas de suor, sangue e caspa se transformavam em feridas doloridas enquanto ele andava debaixo do sol. As mãos tremiam um pouco, estavam enrugadas e machucadas, subir o muro foi mais difícil que ele imaginava. Os guardas nem deveriam ter acreditado, que na idade dele ele conseguisse aquilo. Até por isso devem ter parado e assistido tudo embasbacados. Agora, depois de subir o muro e correr, era andar e achar um pedaço do seu tesouro, enterrado por ali naquele campo verde e imenso, debaixo da maior e mais isolada das árvores. Se soubesse que ia ser tão cansativo, teria enterrado, há 40 anos, seus pertences num lugar mais perto. Ou guardado num banco, que ai ele unia o útil ao agradável, segurança para suas coisas e a alegria de fazer mais um assalto rápido, sentir a adrenalina, o coração bater forte e os músculos se enrijecerem.  Se tivesse guardado as coisas num banco para depois roubá-las experimentaria o poder que tinha. Devia ter pensado nisso antes.

O campo continuava bonito como ele lembrava, a diferença é que agora era a cores e não em preto e branco. Podia até sentir o cheiro do esterco de animais semi-selvagens misturado com o perfume das flores. Não que as raposas ali fossem domésticas ou cagonas demais, mas quando se fica tanto tempo num ambiente estéril e esterilizado qualquer contato com a natureza sobrecarrega os sentidos, mesmo que esses sentidos já tenham passado dos 70 anos e sejam fracos como pum de bebê.

Queria chegar na sua velha árvore logo, mas parava a cada 2 minutos para tossir e cuspir o seu sangue. A cada 30 minutos parava para dar um mijo ardido e dolorido. Ser e estar velho não era nada fácil. Mas estando livre, ele ia fazer o diabo. Roubos ainda mais espetaculares e ousados. Planejou tudo durante esses 40 anos. Ia fazer que nem aquele cantor estranho e que comia criancinha, ia dar espetáculos sensacionais para transformar sua volta em algo histórico. Só não podia morrer de tanto tomar injeção que nem ele. Por isso mesmo que fugiu para não ir para o hospital. Lembrou do pai, encharcado em seu próprio mijo, numa cama de hospital. Apodrecendo em descaso e morfina diluída. Pulmões entupidos. Difícil respirar. Primeiro o pai. Agora, ele. Não, não morreria como o pai, velho e encostado no hospital. Morreria velho e em ação, de tiro, de roubo, de pé e limpo.

Suava e tossia, suava e tossia. A grama verde ia adquirindo uns respingos vermelhos, nada com que ele já não estivesse acostumado. Achou sua árvore, demorou mais do que pretendia. Estava todo suado. Estranho, ninguém foi atrás dele. Talvez fosse mais veloz do que pensava. Meteu a mão dentro de um buraco próximo a árvore. Sua velha e enferrujada pá ainda estava lá. Depois de 40 anos, o lugar continuava tranqüilo. Que ótimo, pensou. Com esforço machucou a terra com a pá e começou a abrir um buraco. Tossia e cavava, tossia e cavava, tossia e cavava. Tirou de lá um baú. Sujo de terra, pulou rápido num riacho próximo. Limpou-se. Tossiu e se limpou. Tossiu e se limpou. Nu, tremendo e molhado, abriu o baú. O ar faltava e ele batia os dentes. Retirou umas roupas do baú, suas roupas de menino, suas roupas de bandido. Serviram satisfatoriamente bem. Muito diferentes da camisolinha que deram para ele usar na enfermaria da prisão. Agora, estava sóbrio e distinto, um homem de verdade.

Calças pretas, camisa que um dia já foi branca e um paletó preto. Pôs as meias e calçou o sapato com dificuldade, os pés estavam meio gordos e inchados, mas com força conseguiu pôr. Tossiu. Mexeu no baú e achou um revólver. Seu antigo revólver. O beijou e lhe fez um carinho, estava completo e jovem de novo. Atirou para o alto. Uma raposa caiu da árvore. Era velha, como ele era, e respirava com dificuldade, como ele respirava. Ela deu alguns suspiros e chorou baixinho. Ele tirou uma foto do baú e sentou-se ao lado da raposa, que, incrivelmente, não protestou ao ensaio de carinho que ele fez em sua barriga, ela estava velha e cansada demais. Ficou ali, olhando a foto dela, do seu amor, e fazendo companhia  a velha raposa, sentado sob a árvore, com as costas cansadas apoiadas no tronco dela.

Olhos verdes, olhos cor de mel. Ela era linda e mesmo a foto sendo em preto e branco, podia ver todas as cores e cheiros daquela mulher. Daria tudo para sentir aquele pescoço, mordê-lo e beijá-lo. Sua pele era macia, pensou em como ela deve ter sofrido com ele preso. Por um momento ele se arrependeu e desejou ser honesto. A raposa tentou levantar e andar, caindo morta logo em seguida.

Ele olhou a foto, respirou fundo, tossiu um pouco, beijou a foto, fechou os olhos e morreu também, largando foto e arma no chão, juntas.

 

Com o velho morto, dezenas de policiais saíram de todos os cantos com os seus olhos marejados. Esperaram o velho dizer adeus, deram um último sopro de vida para a velha raposa e mesmo que fuga dele significasse uma mancha em seus currículos, não ligaram, deixar o velho pular o muro daquele jeito e se despedir, valeu a pena.

Algo triste.

Posted in Conto with tags , , , on 15/07/2009 by caioguilherme

Inspirado em notícias recentes.

 

Algo triste.

14/07/2009.

 O colo da minha mãe é bom. E pensar que ela está brava porque fiquei chorando de sono. Hoje é sábado, eu quero é ficar deitada com ela e nada mais, mas eles insistiram em ficar naquela festa chata. Papai está todo vermelho, de beber aquele negócio estranho, o tal de quentão. Minha irmã, barriguda, ainda está lá, ele não subiu com a gente para ficar de olho nela. Droga, eu queria que ele subisse também.

Meu quarto é bonito e eu já tive um monte de presentes, agora nem ganho mais nada. Estão economizando para o novo bebê, o bebê da minha irmã, aquela chata. Eles vão ver só. Choro mais um pouco, minha mãe me faz escovar os dentes, mudar de roupa e deitar. Achei que ela fosse ficar, mas não, ela só me deu um beijo e apagou a luz. Aposto que vai descer de novo, para falar com aquela tonta, sobre aquele bebê bobo.

Bebê, bebê, bebê e eu? Quem se lembra de mim? Meu pai tomou um monte de quentão e nem me comprou um chocolate, tudo por causa do bebê. Minha mãe falou com uma amiga que ele bebe por estar triste. Eu também estou triste, será que posso beber? Hum… acho que não, uma vez ele me deu um gole e minha mãe ficou muito brava. Era ruim, amargo e queimou minha língua. Dói só de pensar. Depois, ele me deu um monte de doces, para compensar. Foi bom. Vou sentir saudades. Minha mãe desceu. Hora de ir embora.

Ainda bem que ela não olhou minha mochila, ainda bem mesmo. Tem umas roupas, lá fora anda frio e eu sou uma menina esperta, apesar de nova. Vou levar um casaco, uns brinquedos também, não dá para ficar sem meus amigos, o Toby e o Loby, são ursinhos tão bonitos. Estou pronta.

Caminho até a janela da sala, uso minha tesoura para cortar a tela da janela. Vou fugir de casa, eles nunca vão me pegar. Abri o buraco, agora é só jogar minha mochila… ai, ela tá pesada. Pronto, joguei. Agora o Toby e o Loby, espero que eles não se machuquem. O 5º andar é alto, mas não acho que vá doer. Eles caem, mas ficam bem.

Agora, é a minha vez…