Arquivo para Trabalho

O motorista de trólebus

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , on 17/01/2012 by caioguilherme

Quem comandava o único ônibus da linha era o Seu Gaspar, um sujeito magro, cabelos compridos, mas ralos e pintados de preto. Ninguém sabia sua idade direito, todos o achavam boa gente – ele não negava caronas – e sabiam que ele era extremamente míope, de confundir a mulher com a amante.

O cobrador variava conforme a história, às vezes era o Pascoal Alecrim, noutras o Amador e, um outro tanto, algum desconhecido mesmo. Nunca conheci uma pessoa que gostasse de cobrador, fosse do ônibus, fosse do governo ou da quitanda da vila.  Volta e meia algum cobrador desconhecido era escorraçado ao negar carona a quem de direito e logo a empresa botava um dos que duravam, mesmo sabendo que eles pegavam umas moedas para si no trajeto.

O Seu Gaspar, ele sim era um herói. Chuva ou sol, estava lá ele arrumando aquelas correias que o trólebus precisa para andar. Engraçado como faziam os troços de energia tão fácil de soltar e difícil de colocar de volta. Ele tinha todo esse trabalho, além de guiar o ônibus quase sem enxergar, e nem pegava dinheiro. No máximo, tomava umas cachaças no almoço, nas custas do cobrador que, por sua vez, fazia o gasto nas contas da empresa mesmo. Dá o dinheiro, mas desce pela frente. Quem iria desconfiar?

Um dia o Seu Gaspar dirigia distraído, cantando a música da pamonha, quando um grito alto, mais alto que o Jaraguá, tomou o trólebus todo e assustou os 6 passageiros, coisa de horrores mesmo. A brecada foi tão forte, que a dona Juriminha, uma anã gigante, quase que pulou para o banco da frente. Pudera, naquele tamanho todo, sentada no banco alto, não tinha como.

A verdade do que aconteceu, era que uma moça grávida ou tava tendo o bebê lá dentro, ou tava sofrendo de uma terrível dor de barriga. Como eu não estava lá, não se te dizer. Só sei que foi um desespero, com umas melecas esparramando por todo o chão.

O Alecrim ou o Amador, no nervoso ninguém lembrou quem, nem hesitou, abriu a porta e fugiu correndo. Restou para o seu Gaspar fazer o parto. Ele, claro, não fez. Acelerou o trólebus o mais rápido que pôde e bateu num poste, sorte que em frente ao hospital. Dizem até que ele nem sabia o que fazia, só viu uma cruz vermelha e mirou nela. Deu o tiro certo, com os olhos fechados. Ainda bem.

Seja como for, não demitiram ele não, nem o cobrador. Os dois ganharam belas medalhas. E aí, o problema começou. Dotados de consideração e respeito da prefeitura – e não de dinheiro – os dois viraram umas pragas. Do nada, exigiam todo mundo quieto, rádio desligado e sem caronas. O trólebus que era um céu, um inferno virou, diriam os poetas.

Meu primo Pedro, um sujeito bom mesmo, tentou pegar  carona um dia. O seu Gaspar, nem teve medo, lhe acertou uma botinada que arrancou ele do ônibus. O cobrador safado, acho que o Amador, desatou a rir.

O Pedro ficou lá, xingando e correndo atrás da condução. E os dois donos do trólebus, sócios da prefeitura, só tirando sarro. Até que o meu primo xingou a amante do seu Gaspar. Aí, a coisa virou tempestade. O motorista pulou do ônibus que nem gato e o Amador também.

A confusão foi se armando, se armando, até que o Pedro, vendo que 2 são mais que 1, mesmo que velhos, resolveu fugir. Seu Gaspar, o motorista, e o Pascoal, é…talvez fosse ele, riram bastante até se engasgar. Tranqüilos, resolveram voltar para o trólebus. Imagina a surpresa?

Enquanto os dois trouxas riam, um passageiro mais esperto levou o trólebus fora. Quem tava dentro, desceu uns dois pontos depois, mas jura que não sabe quem tava pilotando. Seu Gaspar e o cobrador, fosse lá quem fosse, foram demitidos e ninguém nunca mais viu nem os dois, nem o ônibus.

Até hoje me pergunto, onde foi parar o trólebus? Como levaram ele, se ele não anda fora daqueles trilhos pendurados?

Mistérios da meia noite…

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Na cidade fria

Posted in Conto with tags , , , , , , , , , on 14/01/2011 by caioguilherme

A chuva cinza congelava seus ossos e ele fazia um esforço enorme para não tremer em público. Seu nariz estava vermelho, mas o frio intenso impedia que ele escorresse, era como se o catarro estivesse congelado. Na verdade, fazia alguns dias que só respirava pela boca, o que era bastante desagradável. Sorte que não tinha nem oportunidade de pensar em dormir, assim não incomodava ninguém com roncos ou algo parecido.

Tentou mexer os dedos, mas estes estavam congelados dentro das luvas de material vagabundo. o mesmo e caro e superfaturado material que deu origem ao chapéu, às meias, à camisa, às calças, ao mijão, às cuecas e ao casaco grosso e inútil que usava. Todos estavam vagabundamente vestidos com o mesmo material. Alguém deveria lucrar muito com a desgraça e a miséria alheia. Todos ali, sob chuva e frio, morrendo pouco a pouco porque alguém quera ganhar uns trocados a mais, dentro dos muito trocados que já ganhava.

Ganhar, palavra que eles ouviam bastante, mas pouco conseguiam compreender. Em meio a sopa rala e ao pão mofado só conseguiam perceber, instintivamente, o signifcado do verbo perder. Ele e seus homens perdiam dias, perdiam horas e perdiam a vida, tudo em troca de nada, do ganho de um outro que já tinha tanto.

 

Um apito sombrio gritou e as portas do inferno se abriram. Ele e os seus marchavam sem realmente querer. Do frio da rua para o calor das caldeiras, das soldas e dos metais. Algo derretia internamente, cozendo-o por dentro, pouco a pouco. A roupa vagabunda esquentava como um forno lá dentro, para esfriar como uma geladeira lá fora. Sangue, suor, mas lágrimas jamais. Trabalhou e naquele dia não comeu.

Como um zumbi foi arrastado por uma horda sem vontade e entrou no ônibus. Entalados todos indo para o mesmo lugar. Do inferno para a ausência. Era como se levitasse entre os milhares de corpos que tanto se esbarravam todos os dias. Entre o frio dos dias, o calor do trabalho e a indiferença da rotina. Desceu do ônibus e engoliu um pouco de álcool.

A visão se tornou mais clara e esclarecida. José foi até sua casa e dotado de uma vontade única pegou sua velha espingarda. Limpou-a, carregou-a. Saiu nas ruas e seus vizinhos, seus colegas de trabalho e seus amigos do bar estavam lá, todos eles também com suas velhas espingardas, limpas e carregadas. No frio uma só vontade única e indivísivel. Marcharam em dezenas, em centenas e em milhares. Todos em direção ao centro, atropelando casas, fábricas, hospitais e prédios do governo.

Os dias de José nunca mais foram os mesmos.

 

13/01/2011

Ubiratam

Posted in Conto, Crônica, Uncategorized with tags , , , , , on 03/05/2010 by caioguilherme

Hoje eu acordei cedo. Um pouco antes do telefone tocar. Não, não é meu telefone que toca. O telefone é de Ubiratam e está tocando às 08h20min. Eu acordei um pouco antes disso, mas devo concordar com Ubiratam, é cedo demais. A pessoa do outro lado da linha, consultora de Rh, não se importa se Ubiratam está ou não dormindo, se ele quiser um emprego terá de acordar e atender sem nenhum embargo na garganta. E é isso que ele faz.

Submisso ele escuta dizeres em tom imperativo. Esteja lá às 10 horas para o cliente te entrevistar. Tome um banho, imprima um currículo e use roupas sociais, vá bem vestido. Nosso herói não possui roupas em sua melhor forma. As velhas camisas, herdadas do pai e do irmão mais velho, estão encardidas, amassadas e puídas, mas Ubiratam toma uma para si e a veste. A calça mal cabe e possui vincos que dariam inveja a Cordilheira dos Andes. Não há tempo de tomar café da manhã ou qualquer outra coisa, ele está redondamente atrasado e terá de torcer para que o ônibus e o trânsito de sua cidade colabore.

Despreocupado vejo Ubiratam correr atrás do ônibus. Não sou eu e nem a mocinha do Rh, que esqueceu de ligar para ele no dia anterior, quem necessita desse emprego. Quem precisa vender 8 horas do seu dia por R$ 400 é ele. Ao subir no ônibus sua camisa manifesta grandiosas e oceânicas manchas de suor. Este secará no contato abusivo e forçado com os outros corpos na lata de sardinha. O resultado, uma camisa mal seca e amarrotada.

10 horas e 15 minutos, Ubiratam chega no escritório do cliente. Um lugar limpo, higiênico e esterilizado. Um bom lugar para trabalhar, uma firma de advogados. Atrasado ele recebe uma bronca da recepcionista. 5 minutos antes a própria mocinha do Rh ligara para reclamar do atraso dele e o ameaçara dizendo que isso não se fazia, que aquilo poderia prejudicar a empresa e ela mesma. Que, ao contrário do tempo dele, o tempo do cliente valia ouro e brilhava com oportunidades. Caso houvesse outra chance, e ela deixou bem claro seu pessimismo quanto a possibilidade do mundo de trabalho se interessar por Ubiratam, ele não deveria mais se atrasar tanto. Entrou pelo corredor que a recepcionista lhe indicou, de forma indiferente, depois da bronca. Nele um punhado de sujeitos, irmãos de Ubiratam, feitos  na mesma forma de Ubiratam, vários Ubiratans em versões não tão variadas, esperavam desde às 9 horas e 30 minutos. O atraso, pelo qual fora tão censurado, de nada valia e em nada atrapalhava a rotina importante do cliente, da famosa e grandiosa firma de advocacia, estéril e cujos segundos valem ouro.

Uma porta é aberta. Todos são chamados para entrar. Dinâmica de grupo. Um adesivo é colocado nas costas de Ubiratam e ele tem de fazer perguntas, cujas respostas podem ser somente sim ou não, para tentar descobrir quem ele é. Quando o adesivo em suas costas, colocado por uma senhora do Rh, lhe disser quem ele é, ele devera sê-lo em frente a todos os outros. Devera imitar a “si mesmo” para, dessa forma, ser avaliado. Um não pode sabotar o outro, são todos concorrentes, mas todos devem trabalhar em equipe para que somente um, o tão sortudo um, consiga a vaga. Desse monte de Ubiratans em competição e colaboração pela vaga, só o mais perfeito deles conseguirá ganhar os R$ 400 mensais e, com sorte, substituir parte de suas camisas amassadas, encardidas e puídas.

Nosso Ubiratam questiona para um dos seus irmãos:

“Eu sou um homem?”

“Não, não é.”

“Uma mulher?”

“Não.”

“Eu não sou gente, então?”

“Não.”

“Como? Não, eu não sou gente ou sim, você não é gente? ”

“Não.”

“Explica melhor. Eu sou ou não sou?”

“Você não é.”

“Sou um objeto?”

“Não, não é.”

“Um animal?”

“Sim, você é um animal.”

“E o que eu como?”

“Não.”

“Como eu não como?”

A senhora do Rh intervém no brilhante interrogatório de Ubiratam:

“Não se esqueça que as resposta só podem ser sim e não. Ao invés de perguntar o que você come, chute o que você come, entendeu?”

Ubiratam demorou alguns segundos para responder que sim. Esse monte de afirmações, negações, sugestões, Ubiratans e ordens, estavam lhe enlouquecendo.

“Eu como batata?”

“Não sei.”

“Eu como carne?”

“Não, acho que não.”

“Frutas?”

“Sim.”

“Qual?”

“Ele não pode te responder isso. Esqueceu?” – Interveio novamente a senhora do Rh. Ubiratam balançou afirmativamente a cabeça e pediu desculpas encabuladas. O oceano de suor, extinto no ônibus, voltava a brotar de seus poros e já causava algumas desagradáveis manchas debaixo dos braços.

Cansado daquela brincadeira estúpida, Ubiratam chutou:

“Eu como bananas?”

“Sim, você come bananas.”

“Eu sou um macaco?”

“Sim, você acertou.”

A senhora do Rh entusiasmadamente aplaudiu nosso Ubiratam. Entre todos os outros, ele foi o primeiro a se descobrir. Ela chamou a atenção de todos e ordenou que Ubiratam desse seqüência no teste.

Envergonhado, o primeiro dentre todos eles, imitou a si mesmo, imitou aquilo que a senhora do RH disse que ele era: um macaco.

Pulos e gritos, coçadas de cabeça. Empenhado, ele se lembrou de todos os desenhos com macacos e os imitou muito bem. Todos, inclusive a senhora do Rh, riram. Ele não gostou daquilo. Passado este teste, foi encaminhado para uma outra sala. Nela perguntas sobre seu mal feito ensino fundamental, suas árduas tarefas anteriores e irrealizáveis sonhos foram feitas. Nessa última pergunta, Ubiratam não conseguiu apresentar respostas claras. Objetivos de vida. Seqüência estranha de palavras. Não sabia que precisava ter sonhos e esperanças para digitar documentos na firma de advogados. Devem ser documentos realmente fantásticos para poderem ser só respondidos por alguém com objetivos e possibilidades. Ubiratam ganhou um sonho nesse dia: ser alguém com sonhos e grandes esperanças. O dia mais feliz de sua vida seria aquele em que poderia sonhar.

A entrevista terminou e Ubiratam foi para casa. Pensou em comprar uma coxinha num bar perto do escritório, mas não tinha dinheiro. A comida naquele bairro era muito cara. Foi para casa e atendeu eu telefone logo que chegou. A mocinha do Rh, aquela da primeira ligação, lhe disse que, como ela previra, Ubiratam não passou. Não soube bem imitar um macaco, um simples macaco. Ubiratam se envergonhou e chorou ao desligar o telefone. Era humilhação demais para viver. Ligou a Tv e passou as próximas horas vendo desenhos e filmes com macacos, iria aprender. Nem jantou naquele dia.

Nunca mais segui um dia de Ubiratam em minha vida. Nem sei qual dos vários e não tão variáveis e anônimos Ubiratans conseguiu a vaga. Só sei, caro Ubiratam, – e esse finzinho digo para você e só para você –  que imitar macacos é realmente muito difícil, não se sinta mal. Aposto que, assim como você, muitos daqueles seus concorrentes não conseguiram imitar aquilo que a Senhora do Rh disse que eram. A vida é assim mesmo, cheia de confusão e perguntas estranhas. Os ônibus lotados vão e voltam cheios de trabalhadores, alguns trabalhando e outros lutando por seu lugar ao sol, gritando como macacos em mil e uma entrevistas de empregos, inventando sonhos e esperanças para passar nas entrevistas. Não tenhas dúvidas, meu amigo Ubiratam, uma hora ou outra, sua vez nesses lotados ônibus irá chegar e você terá seu lugar sob o ardente sol do meio dia.

A triste História de Domingos (ou Três Domingos)

Posted in Conto with tags , , , on 22/07/2009 by caioguilherme

Por Caio Guilherme.

 

 Domingos apertou o botão vermelho. A esteira andou. Colocou a tampa na embalagem. Apertou o botão azul. A embalagem foi hermeticamente fechada. Apertou o botão vermelho novamente. A esteira repetiu o movimento. Colocou uma nova tampa em uma nova embalagem. Finalizou apertando o botão azul. A embalagem foi selada. Apertou, de novo o botão vermelho. A esteira seguiu o seu caminho. A tampa foi colocada numa nova embalagem. Apertou o botão azul para terminar o processo. A esteira refez a mesma coisa. O apito soou. Domingos foi almoçar.

No refeitório Domingos sentou-se na cadeira com seu número, a de 33. Ao seu lado estavam o 11 e o 55, na sua frente o 22, o 44 e o 66. Não sabia o nome deles. Todos apertaram um botão amarelo. Uma vasilha brotou mecanicamente da mesa. Domingos retirou de sua lancheira um copo de alumínio e um saquinho com flocos que colocou na tigela. Todos os outros fizeram o mesmo e apertaram, em seguida, um botão verde. Uma água estranha caiu na tigela formando um mingau esverdeado. Um apito soou. Todos comeram o mingau. Domingos apertou o botão cinza e caiu água em seu copo, os outros não fizeram o mesmo. Ele tomou o conteúdo sem vontade. Um apito soou de novo, todos formaram filas para voltar ao local de trabalho. Domingos se atrasou, derrubou o copo e teve que correr para não perder o lugar.

Domingos apertou o botão vermelho. A esteira andou. Colocou a tampa na embalagem. Apertou o botão azul. A embalagem foi hermeticamente fechada. Apertou o botão vermelho novamente. A esteira repetiu o movimento. Colocou uma nova tampa em uma nova embalagem. Transpirou e tentou limpar o suor da testa. Se distraiu. Apertou o botão vermelho novamente. Uma embalagem escapou sem estar hermeticamente fechada, ele não percebeu e continuou sua rotina. Um apito soou ao fim do dia. Domingos foi embora para casa, como todos os outros funcionários. Nos estoques da fábrica havia uma embalagem tapada de forma errada.

Domingos abriu a porta de sua casa, a de número 33. A mulher e o filho viam TV. Beijou a mulher na testa. Deu um tapa nas costas do filho. Sentou-se no sofá. Ela lhe entregou uma cerveja. Ele começou a beber enquanto o filho trazia três bancadas, que usavam como mesas, para a frente do sofá. Ao mesmo tempo a mulher tirava do forno microondas três bandejas enfaixadas num plástico. Esse era o jantar. Jantaram vendo Tv, entre o comercial da novela e o início do jornal. Um apito soou, era a chamada do primeiro intervalo do jornal. Neste momento, os três pararam de comer, colocaram as bancadas de lado e assistiram a Tv.

O filho de Domingos foi dormir no final do jornal. Domingos beijou a esposa na testa, ele e ela se deitaram no final da segunda novela, um de costas para o outro. 30 minutos se passaram sem que ele conseguisse dormir. Virou-se para a esposa e a abraçou por trás. Ela não se mexeu, apesar de um volume crescer em suas costas. Domingos a apertou, cheirou seu pescoço, depois mordeu sua orelha. Ela lhe acertou com uma cotovelada, dizendo: “Não soou nenhum apito.”

Domingos foi, nervoso, para o sofá. A mulher não entendeu nada e ao ver uma luz verde piscando no rádio relógio voltou a dormir imediatamente.

 

Um novo dia começou. Domingos foi para a fábrica com seus olhos inchados e vendo tudo tremido e dobrado. Não conseguia se lembrar de alguma vez em que não tivesse dormido uma noite inteira, estranhou. Antes de começar a trabalhar jogou água gelada no rosto, venceu a vista dobrada, mas acabou por sair do vestiário atrasado. As esteiras já estavam a pleno vapor quando ele começou a trabalhar.

Domingos apertou o botão vermelho. A esteira andou. Colocou a tampa na embalagem. Apertou o botão azul. A embalagem foi hermeticamente fechada. Apertou o botão vermelho novamente. A esteira repetiu o movimento. Colocou uma nova tampa em uma nova embalagem. O tédio fez com que voltasse a ver tudo dobrado. Sentia sono. Errou os botões um punhado de vezes. O apito soou e ele foi almoçar.

Não comeu, mas cumpriu todo o ritual. Ninguém teceu nenhum comentário. Na verdade, nunca ninguém tecia nada, mas Domingos começava a se sentir realmente mal e estranho. Estava distraído, querendo e reparando demais nas coisas. O apito soou, não chegou atrasado nas esteiras. Mas, mesmo assim, não conseguiu trabalhar direito. O apito soou ao fim do dia, ele foi para a casa. No estoque da empresa havia 700 embalagens com as tampas colocadas erradas.

Domingos não abriu a porta de casa. A mulher e o filho pararam de ver Tv sem saber o que fazer. Eles ficaram estáticos, olhando para a porta e esperando. Domingos olhou ao seu redor, viu todos entrando, pôde ouvir o estralar dos beijos que todos davam na testas de suas esposas e o estouro das latinhas de cerveja. Sentiu-se mal. Entrou em casa. Não beijou e não bebeu, foi para o banheiro lavar o rosto. A mulher e o filho suavam e tinham dificuldades para respirar. Naquela noite, ninguém viu novela, ninguém jantou e todos dormiram sem os beijos na testa.

 

Domingos acordou e cutucou a mulher. Ela não entendeu nada, já era hora de ele estar na fábrica. Ele tanto insistiu que transaram. O filho não foi para a escola e todos os três comeram panquecas. Um apito soou, mulher e filhos levantaram-se em posição de atenção e foram para frente da Tv. Domingos quebrou a caixa de som, por onde vinham os apitos e desligou a Tv. Empurrou o filho e a mulher para o quintal. Jogou bola com o menino enquanto a patroa assistia. Anoiteceu. Nos estoques da fábrica faltavam 700 embalagens.

Mais um dia que Domingos não acordou e não foi trabalhar. Transou com a esposa e jogou bola com o filho. Antes do fim do dia, os dirigentes da fábrica já haviam comunicado o comportamento para as autoridades. A casa de número 33 foi cercada. Muitos apitos soaram e toda a vizinhança acordou desesperada, pela primeira vez eles não sabiam o que fazer.

Um apito soou. Domingos abriu os olhos. Tentou se mexer, mas não conseguiu. Os braços estavam presos numa camisa de força. Estava no sanatório para recondicionamento. Lá no seu bairro, na sua fábrica, na sua mesa do refeitório, na sua casa e na sua cama, ninguém mais se lembrava dele ou sentia sua falta. O número 33 fora ocupado por outro.

Repartição

Posted in Conto with tags , , , on 12/07/2009 by caioguilherme

Todos os meus colegas da repartição estão bebendo e sorrindo. Depois de uma semana mexendo com burocracia, documentação estatal, público bravo e indignado com nossa ineficiência, eles estão aqui, bebendo e sorrindo como se não tivessem tido e não tivessem proporcionado dias de cão, todos os dias dessa semana.

Olha lá o Gerson, por exemplo, o sacana foi agredido por um senhor cuja aposentadoria foi bloqueada por falta de um documento que nem existe mais. O Gerson é um cara que gosta de colocar obstáculos nessas coisas e fazer a pessoa ter de viajar até os confins de suas terras natais atrás de certidões quaisquer, as que ele muito bem poderia ignorar. Ele diz que a dificuldade faz com que as pessoas valorizem a previdência, como se trabalhar até os 65, 70 anos, não fosse uma baita duma dificuldade. O senhor que o agrediu, quebrou um guarda chuva em sua cabeça e foi detido, Gerson fez corpo de delito e o diabo a quatro, mas pela idade o senhor agressor acabou não sendo preso e foi viajar para o interior, atrás do documento que Gerson pediu. Eu acho que ele merecia um guarda chuva no rabo, isso sim. A Juliana não. Ela está ali, toda animada conversando com ele, tocando-lhe o braço e sorrindo. Gerson que pagará as bebidas e ela não está nem ai de ficar com um tremendo filho da puta.

A Priscila está na cabeceira, toda sorridente, completamente bêbada. Vive sozinha, com seus 7 gatos, num apartamento pequeno e cheio de papéis velhos. Não que eu já tenha ido ao apartamento dela, mas sempre escuto o relato de um estagiário, ou estagiária, que acaba sendo arrastado inocentemente para lá, coisas de dar medo mesmo. Se o Gerson peca por dificultar demais as coisas, ela peca por facilitá-las, seja em troca de um troquinho ou de um toque mesmo. Se você precisa de um documento desnecessário que o Gerson aponta, ela pode conseguí-lo para você por uma justa paga, é claro. Se o estagiário, ou estagiária, precisa de umas férias, de um descanso, ela pode conseguir. Meu Deus, como é bondosa. Ela desentope, de si, umas palavras entorpecidas pela cachaça, todos aplaudem, todos possuem o rabo preso com ela. Se fosse cobrar todas as dívidas, nem precisaria dos 7 gatos para dormir em sua cama.

     Ao contrário da Pri, o Otávio não era um cara solitário. Tinha uma família bem bonita: mulher fiel, três filhos saudáveis e uma sogra. Uma verdadeira jararaca, dizia ele. Tudo porque ela chiava e ameaçava chamar a polícia toda vez que ele quebrava a cara da esposa depois de uma noite de bebedeira. E todas as noites, para Otávio, eram noites boas para beber. O estranho era que ele chegava todos os dias limpo, perfumado e disposto ao trabalho. Comparado ao resto, Otávio era uma máquina de tão eficiente, parecia até funcionário de uma empresa privada: não enrolava, não dificultava, não roubava e explicava tudo direitinho. Dane-se que ele esmurrava a patroa e as crianças, no trabalho não havia do que reclamar, Otávio fazia a vida na repartição bem mais fácil.

Um estagiário anônimo vem falar comigo, está entupido de bebida, pinga forte e barata, esse deve ser o orgulho da mamãe. Ele vomita umas palavras sobre Juliana e os peitos da Priscila. Estar bêbado é algo realmente bom, torno o Mundo algo muito mais bonito do que realmente é. Eu chego a  ter inveja desse garoto. Ele me faz umas perguntas constrangedoras, eu as ignoro. Ele pergunta porque eu não bebo, eu respondo com a verdade, ele me olha com pena e sai do meu lado, me deixa em paz.

Saio de mansinho e sem rachar a conta. Eles nem perceberão as inocentes cocas que estão na conta, nem me cobrarão nada depois, estão bêbados demais para se lembrar. O ônibus sempre está bastante vazio na hora de ir embora, hoje em dia esse é a grande razão para eu ficar nessas reuniões. Pegar o ônibus vazio, eis a mola mestra da minha vida. Entro em casa, jogo minhas coisas no sofá, abro a geladeira em busca de um petisco. Ela está tão silenciosa, nessas horas uns gatos talvez quebrassem o galho mesmo. Seria bom ter uma festinha quando chego, que inveja da Priscila. Tomo meu banho, visto o meu pijama e vou para a sala. Na mesa encontro os papéis do divórcio, ela que não espere facilidades da minha parte, onde eu puder colocar um obstáculo, colocarei. Se vai ser difícil para mim, para ela será extremamente cansativo, aprendi bastante com o Gerson. Sento no sofá, penso no que o estagiário perguntou, sobre a bebida. Minha resposta foi a verdade, bêbado eu coloquei tudo a perder, agora que não tenho nada, não bebo mais porque beber perdeu o sentido.

 

 

É… Otávio, as crianças eram melhores que gatos. Não beber, era melhor do que beber demais. Não trabalhar, era melhor que bater na patroa. Ter de agüentar a sogra, era um preço bem pequeno para não ter de ir dormir sozinho.