Arquivo para Triângulo das Bermudas

Armação Ilimitada

Posted in Conto with tags , , , , , on 15/02/2011 by caioguilherme

A mosca varejeira completou umas duas voltas no ar espalhando seu ruído irritante como o do pulmão de alguém com bronquite. Pensou em asma, bombinhas, biribinhas, explosivos, bombas e, mais poderosamente ainda, em bombas atômicas e no efeito que poderiam ter nas irritantes moscas varejeiras. Talvez elas fossem única e exclusivamente exterminadas, talvez fossem multiplicadas e ampliadas tornando-se a pior praga atômica mundial desde o Godzilla e outros programas japoneses. Tanto fazia, o fato era que aquela mosca varejeira tinha concluído um PHD de irritar.

Pensou nos mil e um problemas que a nova mascote iria causar. Barulho, sujeira e, pior ainda, pequenos vermes comedores de carne. Coisa para filme de ficção de tipo B, moscas varejeiras atômicas e criadoras de vermes mutantes e comedores de homens. Frente a frente com essas terríveis conseqüências optou por não produzir nenhum tipo de holocausto nuclear em seu quarto, garantindo a não multiplicação e ampliação das moscas varejeiras e seus respectivos vermes. Mas, muito esperto, correu para o armarinho da cozinha, pegou um inseticida e gastou uns 15 minutos correndo atrás da mosca enchendo o universo de veneno. “Guerra química:  a mais sábia alternativa aos embates nucleares”, disse para si e, com tossidas sofridas, abandonou o quarto, indo se refugiar na sala, enquanto os gases venenosos e libertadores não salvavam o dia.

Lia o jornal, esperando a paz mundial se expandisse até o seu quarto, quando alguém abriu a porta da sala e entrou dizendo – como se esperasse aplausos:

– Querida, cheguei! – como não haveria de deixar de ser, era o Leão, com seu inconfundível terno.

– Às vezes me arrependo de ter te dado a chave daqui, sabia? – respondeu ele, amarrotando o jornal de forma leve.

– Ora, chefe, ó Xerife! Eu salvei a sua vida, não foi? E depois de você ter me deixado desabrigado… – respondeu o Leão pulando alegremente no sofá e se ajeitando preguiçosamente.

– Verdade e por isso te agradeço. Mas não se esqueça de que você salvou a minha vida, enquanto eu estava ocupado… SALVANDO A SUA! – ele respondeu, pensando no quão destruído estava ficando o sofá.

– Ora e por isso ficamos amigos eternos! E eternos companheiros de apartamento! No mais, não vamos nos preocupar em quem salvou quem, não é? Estamos os dois salvos, isso é o importante – disse o Leão sorridente enquanto pensava se acenderia um charuto ou não. Por fins de moradia, achou melhor não.

– Verdade, claro, com certeza. Agora, me diz uma coisa… Se você lutasse contra uma varejeira mutante e atômica, você conseguiria vencê-la? – ele perguntou ao Leão enquanto calculava o preço de uma pequena bombinha atômica qualquer.

– Com certeza, com certeza. Mas varejeiras atômicas são impossibilidades econômicas, sabia? As bombas andam caras demais, nem vale a pena tentar produzi-las. – respondeu o Leão, bastante precavido.

– Uma pena… – Ele murmurou voltando para o jornal.

O Leão fechou os olhos e pensou em dormir um pouco, mas um telefone tocou desesperado e ele foi obrigado a atender. Era parte do acordo de salvamentos de vidas e compartilhamento de apartamento.

– Aham, claro, sim, sim, sem dúvida. Aham, aham, sei, sei, sim, como não? Claro, claro, sem brincadeiras, ué. Por um acaso o senhor ouviu alguém aqui rindo? Certo, certo, eu compreendo. O senhor conta com a nossa total compaixão. Como não? Claro que compaixão ajuda… até esses dias eu estava desa… Certo, certo, você não quer ouvir sobre minha vida? Então, me diz o motivo de ligar… Ora, seu… Não, não, claro que não quero destratá-lo senhor. Iremos assim que possível. Ah, não posso negar que o pagamento soou muito agradável, mas já lhe considerava um amigo de infância, um irmão até e bem antes disso. Iremos fazer o nosso máximo e o senhor não irá se arrepender, garantia da Oscar Leon e Rodrigo Antílope, investigação, aventuras, produção, editoração e emoção ltda. Ora, como assim? Eu acho um belo nome… Veja bem, em tempos de globalização, crise, expansão e transformação econômica os profissionais tem de se dedicar a múltiplas áreas, pautando o trabalho pela flexibilidade, pela felicidade e pela eficiência, claro, claro, achamos a eficiência algo muito bacana e iremos eficientizar tudo o que o senhor precisar, pois estamos aqui para isso. Sinto até que nasci para nesse dia poder falar com o senhor… Não, não,  tudo isso sem ficar puxando o saco, aqui pautamos tudo pela dignidade. Um táxi? Ora o senhor é muito gentil, obrigado, obrigado e claro, estaremos prontos nesse horário, como vossa senhoria achar mais adequado!

Enquanto desligava o telefone o Leão soltou um estrondoso bocejo e respirou fundo quase como conseqüência. Ele, o Leão, andava bastante cansado. Dormir na sala estava lhe fazendo mal. Ia deitar cedo, se acomodava no sofá e fechava os olhos, mas os instintos eram muito fortes e ele terminava suas noites deitado no chão, em cima de um tapete que, coincidentemente, era feito de pele de uma tigresa falecida. Chegou a procurar ajuda médica, mas não encontrou psiquiatras e psicólogos dispostos a lidar com um Leão tarado e com tendências necrófilas. A solução estudada, e baseada na sua honesta autocrítica, era dar um fim no brega e lascivo tapete e voltar a ser um Leão sadio. O problema era convencer o problemático dono da tapeçaria de que ela era uma ameaça para a moral e os bons costumes do antigo Rei das florestas e savanas e atual inquilino do modesto apartamento.

Dentro de seus loucos devaneios sobre seu sono e sua própria devassidão o Leão foi interrompido pelo seu companheiro de moradia:

– E então, quem era?

– Ah, claro, claro. Temos um caso.

– Ora, vejam só! Que bom.

– Sim, sim, também acho. Poderíamos comprar um tapete novo, né?

– E?

– O quê?

– Você não se esqueceu de nada?

– Ah, claro, claro. O tapete atual…bem, poderíamos doá-lo…

– Boa idéia, boa idéia! Pena que não é dele que estou falando. Será que você poderia me informar que caso é esse? Quanto iremos receber? Quando iremos falar com ele?

– Ah, claro, claro. Que cabeça a minha, não? Bem, deixe-me ver: não se te dizer quanto iremos ganhar, não sei o que iremos fazer e, por fim, nossa carona chegará exatamente… daqui uns…ah, agora!

Mal o Leão terminou de falar e a portaria do prédio ligou para avisar do táxi que os aguardava. O Leão apanhou seu companheiro de apartamento pelo braço e nem lhe deu tempo de protestar, tinham um trabalho a fazer!

 

 

 

 

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Triângulo das Bermudas

Posted in Conto with tags , , , , , on 29/01/2011 by caioguilherme

A cabeça parecia descolada do corpo enquanto a mão esquerda parecia colada até demais. O braço esquerdo – e toda a sua extensão – formigava e parecia ter dormido debaixo de um navio baleeiro cheio de óleo de cachalotes.  Formigamento era a palavra de ordem no seu corpo, pois assim que juntou forças para abrir os olhos, a cabeça se rejuntou ao pescoço e passou a formigar na mesma sintonia do braço esquerdo. Logo, todo o corpo estava formigando. Possivelmente, ele pensou, fora atropelado por uma manada de elefantes que se esqueceram de avisá-lo do fato e de deixar o número de suas respectivas placas.
Até os olhos, ao se abrirem lentamente, formigaram. Podendo enxergar percebeu que o surpreendente calor e abafamento eram os rotineiros calor e abafamento de seu próprio quarto multiplicados por 100 e transformados numa grande surpresa por uma ressaca causada por algo que não conseguia se lembrar de ter tomado. Ficou preocupado com os velhos ditados sobre bebedeira, mas a ausência de um tipo muito específico e pouco desejado de dor trouxe-lhe alguma tranqüilidade. “Nem sempre a falta é inimiga da perfeição”, pensou todo orgulhoso da sua capacidade de dizer e pensar coisas bonitas. A egotrip combinada com a continuidade da virgindade anal lhe animou um pouco e quase sem esforço conseguiu se arrastar vexatoriamente para o chuveiro. Esticou uma mão trêmula e desligou a resistência, tinha certeza de que a água fria era o único remédio para os seus males.
Como óleo fervente uma água teoricamente fria começou a ser despejada em seu corpo, deveria ser tarde e o sol deveria estar caprichando na tarefa de esquentar água naturalmente. Os sentidos tinham perdido qualquer significado dentro de toda aquela fumaceira e ele logo terminou seu pseudo banho. Enxugou-se numa toalha encardida, voou para o quarto e se vestiu com roupas leves.
– Assim é bem melhor, não é mesmo?
Assustado ele se virou e percebeu que durante todo aquele tempo tinha visitas. E, o pior, além de vê-lo de ressaca, depois tomando banho e se vestindo, a visita não era um ser humano. Um enorme leão de pé em duas pastas fumava um charuto enquanto ajeitava seu paletó e sua gravata e sorria para seu anfitrião.
– A vida é assim mesmo. Enquanto uns tão de bermudão e camiseta de algodão, outros ficam presos em ternos de lã. E como agravante, ao menos no meu caso, são peludos pra cacete.
Dentro das circunstâncias não encontrou palavras para responder e coçou a cabeça, um pouco confuso. Será que os amigos haviam lhe inscrito em alguma pegadinha do Silvio Santos? Se fosse o caso, o Liminha estava muito bem fantasiado. Pensou em gritar e se fazer de assustado, nem por medo e nem por pavor, mas por respeito mesmo, que um trabalho de produção daqueles não podia ser menosprezado e tratado como algo normal do dia a dia, com indiferença e preguiça. Absorto nessa reflexão sobre respeito e amor ao próximo nem conseguiu se perceber apontando para uma placa ao lado do espelho e dizendo:
– Nessa casa não se fuma.
O leão, tão surpreso quanto ele mesmo estava com o que havia dito, apagou o charuto com a língua e com certo despeito disse:
– Se está escrito, não precisa ler. Já fui alfabetizado.
Definitivamente não era pegadinha do Silvio Santos. E nem o Tiririca em algum novo quadro do Show do Tom. Nesse momento percebeu que a vida era daquele jeito mesmo, cheia de revelações bombásticas que uma pessoa não pode ir dormir sem saber. Tinha um leão fumante, inadequadamente vestido e meio rude no seu quarto. De novo, se pegou dizendo algo sem a devida ponderação:
– Nessa casa não se usa ternos. – Disse isso com certa raiva e apontou para uma placa ao lado daquela que estava ao lado do espelho. E Depois completou – Sinceramente, eu não leria as placas se o senhor se desse ao trabalho de respeitá-las.
O leão ficou visivelmente nervoso, mas contou até dez e foi ao banheiro. Voltou vestido de maneira mais casual e guardou o terno, a gravata e o charuto numa mochila. Desta retirou um chapéu panamá, uma garrafa de uísque, um copo e alguns cubinhos de gelo. O rei das selvas preparou seu drink e bebeu bastante satisfeito.
Ele, o dono da casa, perante a incrível cena que presenciava disse- dessa vez com bastante certeza daquilo que estava dizendo:
– Nessa casa não se bebe álcool. – E apontou para outra placa do lado daquela placa do lado da placa que estava do lado do inofensivo e, sem nenhuma proibição, espelho.
O leão, decidido a não mais ouvir proibições retrucou:
– Hipócrita, na frente de todo Mundo você fuma, usa terno e bebe todas. Agora, em sua casa, quer dar de santinho para cima de mim?
Vermelho ele pegou o leão pelo braço e saiu do quarto. A dupla parou na sala e ele abriu a porta, indicando a saída. Nessa posição disse:
– Oras, são assim que as coisas são.
O leão ficou visivelmente triste e disse:
– Mas eu sou um amigo que veio te visitar. Você vai mesmo me expulsar?
Ele não se demonstrou abalado, pegou a mochila do leão e a jogou para a fora. O leão lentamente se dirigiu para a saída, parando na soleira da porta, encarando-o com uma tristeza de dar dó e pedindo, com o silêncio que só traduz mensagens pelo olhar, desculpas por ter taxado o dono da casa de hipócrita.
Seu quase ex anfitrião continuou sem se abalar e disse, enquanto fechava a porta de casa:
– Saia por ai e espalhe a notícia: há um novo xerife na cidade.

FIM.
29/01/2011