Arquivo para Trólebus

O motorista de trólebus

Posted in Conto, Crônica with tags , , , , , , , on 17/01/2012 by caioguilherme

Quem comandava o único ônibus da linha era o Seu Gaspar, um sujeito magro, cabelos compridos, mas ralos e pintados de preto. Ninguém sabia sua idade direito, todos o achavam boa gente – ele não negava caronas – e sabiam que ele era extremamente míope, de confundir a mulher com a amante.

O cobrador variava conforme a história, às vezes era o Pascoal Alecrim, noutras o Amador e, um outro tanto, algum desconhecido mesmo. Nunca conheci uma pessoa que gostasse de cobrador, fosse do ônibus, fosse do governo ou da quitanda da vila.  Volta e meia algum cobrador desconhecido era escorraçado ao negar carona a quem de direito e logo a empresa botava um dos que duravam, mesmo sabendo que eles pegavam umas moedas para si no trajeto.

O Seu Gaspar, ele sim era um herói. Chuva ou sol, estava lá ele arrumando aquelas correias que o trólebus precisa para andar. Engraçado como faziam os troços de energia tão fácil de soltar e difícil de colocar de volta. Ele tinha todo esse trabalho, além de guiar o ônibus quase sem enxergar, e nem pegava dinheiro. No máximo, tomava umas cachaças no almoço, nas custas do cobrador que, por sua vez, fazia o gasto nas contas da empresa mesmo. Dá o dinheiro, mas desce pela frente. Quem iria desconfiar?

Um dia o Seu Gaspar dirigia distraído, cantando a música da pamonha, quando um grito alto, mais alto que o Jaraguá, tomou o trólebus todo e assustou os 6 passageiros, coisa de horrores mesmo. A brecada foi tão forte, que a dona Juriminha, uma anã gigante, quase que pulou para o banco da frente. Pudera, naquele tamanho todo, sentada no banco alto, não tinha como.

A verdade do que aconteceu, era que uma moça grávida ou tava tendo o bebê lá dentro, ou tava sofrendo de uma terrível dor de barriga. Como eu não estava lá, não se te dizer. Só sei que foi um desespero, com umas melecas esparramando por todo o chão.

O Alecrim ou o Amador, no nervoso ninguém lembrou quem, nem hesitou, abriu a porta e fugiu correndo. Restou para o seu Gaspar fazer o parto. Ele, claro, não fez. Acelerou o trólebus o mais rápido que pôde e bateu num poste, sorte que em frente ao hospital. Dizem até que ele nem sabia o que fazia, só viu uma cruz vermelha e mirou nela. Deu o tiro certo, com os olhos fechados. Ainda bem.

Seja como for, não demitiram ele não, nem o cobrador. Os dois ganharam belas medalhas. E aí, o problema começou. Dotados de consideração e respeito da prefeitura – e não de dinheiro – os dois viraram umas pragas. Do nada, exigiam todo mundo quieto, rádio desligado e sem caronas. O trólebus que era um céu, um inferno virou, diriam os poetas.

Meu primo Pedro, um sujeito bom mesmo, tentou pegar  carona um dia. O seu Gaspar, nem teve medo, lhe acertou uma botinada que arrancou ele do ônibus. O cobrador safado, acho que o Amador, desatou a rir.

O Pedro ficou lá, xingando e correndo atrás da condução. E os dois donos do trólebus, sócios da prefeitura, só tirando sarro. Até que o meu primo xingou a amante do seu Gaspar. Aí, a coisa virou tempestade. O motorista pulou do ônibus que nem gato e o Amador também.

A confusão foi se armando, se armando, até que o Pedro, vendo que 2 são mais que 1, mesmo que velhos, resolveu fugir. Seu Gaspar, o motorista, e o Pascoal, é…talvez fosse ele, riram bastante até se engasgar. Tranqüilos, resolveram voltar para o trólebus. Imagina a surpresa?

Enquanto os dois trouxas riam, um passageiro mais esperto levou o trólebus fora. Quem tava dentro, desceu uns dois pontos depois, mas jura que não sabe quem tava pilotando. Seu Gaspar e o cobrador, fosse lá quem fosse, foram demitidos e ninguém nunca mais viu nem os dois, nem o ônibus.

Até hoje me pergunto, onde foi parar o trólebus? Como levaram ele, se ele não anda fora daqueles trilhos pendurados?

Mistérios da meia noite…

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